Por JOÃO DOS SANTOS FILHO

Professor pela Universidade Estadual de Maringá, no Estado do Paraná, Brasil e professor no Centro de Ensino Superior de Maringá (Cesumar) na cidade de Maringá-Pr.

 

 

O que queremos e como lutaremos para a regulamentação profissional do Turismólogo em 2006?

 

Caros turismólogos e pensadores do turismo brasileiro não queremos fazer uso de jargões ou frases de efeito do período de saudosa militância estudantil, mas sim, dirigir-me a vocês como um dos intelectuais orgânico que estudam o fenômeno do turismo no Brasil. Demonstrando que a preocupação para com o turismo brasileiro deve levar em conta o desenvolvimento de políticas públicas vinculadas aos interesses das classes populares, pois 80% compõem a estratificação social da pirâmide populacional brasileira.

Esse é o pressuposto balizador e central do nosso discurso: A obrigação do Estado na elaboração de Políticas Públicas em Turismo, porque num país em que 20% da população detêm as riquezas da nação e o restante vive na linha da pobreza e miséria, só podemos pensar num Estado que seja capaz de intervir em favor da elaboração de programas para o desenvolvimento de atividades turísticas como políticas públicas.

Nesse sentido, evidencia-se o entendimento do Estado como formulador de políticas públicas é a premissa fundamental do nosso pensamento, como acadêmico e militante na luta em favor da regulamentação do profissional. O que desmistifica a idéia equivocada daqueles que pensam e verbalizam que a academia deve estar afastada da militância política como se esses campos fossem excludentes.

Existe na verdade uma premissa na ideologia neoliberal que tenta separar o pensamento produzido nos centros universitários da realidade objetiva, essa tendência produz um estrago no pensamento racional alimentando o patrulhamento ideológico contra pessoas e grupos. A idéia de que a ciência e ideologia são separadas é de uma ingenuidade atroz, mas é cultuada pelo neoliberalismo e aí podemos recorrer ao filósofo Georg Lukács que esclarece em sua obra intitulada El asalto a la razon:

Una de las tesis fundamentales de este livro es la de que no hay ninguna ideologia “inocente”. No la hay em ningún sentido, pero sobre todo em relación com nuestro problema, y muy em especial en lo que se refiere cabalmente al sentido filosófico: la actitud favorable o contraria a la razón decide, al mismo tempo, em cuanto a la esencia de uma filosofia como tal filosofia, em cuanto a la misión que está llamada a cumplir en el desarrollo social.[1]

Os estudos no campo das ciências humanas, referente à ideologia demonstram que toda palavra é ideológica, ela é produto de uma realidade histórica determinada que é expressão de uma forma de poder. Nesse caso, a ideologia esta presente em toda e qualquer expressão humana, por isso a discussão se algo é ideológico ou não é indevida e irracional.

Com isso, podemos afirmar que não há pensamentos inocentes, neutros ou que estejam desvinculados de uma referência política ou ainda que não possuam força material, todos expressam uma vontade de ver e ser do mundo, isto é, uma ideologia.

Assim a regulamentação da profissão de turismólogo, projeto lei n.24 de 2003 que foi vetada pelo presidente Lula em 16 de dezembro de 2005, não pode ser analisada a partir do veto do mesmo, como se ele fosse o grande vilão da história. Culpar o presidente pelo veto à regulamentação profissional é não entender que é a luta de classes que movimenta a realidade histórica.

O pensamento neoliberal busca embotar o pensamento crítico e racional como forma de encobrir a compreensão do concreto, buscando identificar o culpado único desse processo. Com isso, de forma disfarçada tenta negar a existência da luta de classes como o motor da história.

Em primeiro lugar, poderíamos perguntar, quem são os “inimigos” dos turismólogos? Obviamente numa resposta imediata, buscaria um ou alguns culpados. Aí nós estaríamos repetindo a mesma fórmula do pensamento burguês irracionalista, buscando individualizar a compreensão da realidade negando sua historicidade.

Há necessidade de entender os turismólogos dentro de todas as dimensões que compõem o processo histórico e decifrá-lo dentro do jogo político e econômico que governa a realidade. Para isso, necessitamos contar com entidades combatidas no campo da militância organizativa da categoria e que se dediquem ao estudo do fenômeno turístico. Pode-se perceber que esses encaminhamentos estão longe de existir, o que aparece são aplausos em demasia à criação ao dia dos turismólogos – 27 de setembro e ao projeto lei 11.260/2005 que institui 2006 como ano do turismo, bem como, a criação do Empreendetur que só serviram como referência simbólica, pois não mudou em nada a situação dos turismólogos, da empregabilidade no mercado.

 Existe uma quantidade razoável de empregos no ramo do turismo (na qual o Estado trabalha constantemente junto à mídia as oportunidades de se conseguir empregos) em comparação a outras profissões, entretanto, se aprofundarmos essa análise daremos conta que a lógica do mercado perceptível e sensível percebe que a oferta é maior que a demanda e que a qualificação dessa mão de obra que sai das faculdades deixam a desejar, portanto, o mercado determina faixas salariais com baixíssima remuneração.  

Na verdade não faltaram ações para desviar a atenção sobre a regulamentação enfraquecendo e confundindo a luta em torno da organização da categoria, bem como, condenando como inimigos todos aqueles que se mostravam incisivos em favor da regulamentação..

Entendemos que o veto à regulamentação profissional se deve a uma questão de luta política e não por culpa exclusiva do presidente da república. Mas ainda, de nos que não soubemos organizar politicamente (por uma incompetência assaz humilhante, não fizemos aliados e não tornamos as alianças políticas em luta e defesa do coletivo). Demos apoio a programas de perfil tecnicista e prático insustentáveis e inconsistente teoricamente, enganando nossos estudantes e iludindo-os a se tornarem proprietários de seus próprios negócios. Em uma política econômica recessiva em que os juros altos contaminam qualquer atividade econômica, embarcamos no espírito empreendedorista das magias  pela ilusão do capital.

Estamos falando do Empreendetur programa que busca despertar o tino empreendedorista em nossos alunos e que é sustentado em palestras de auto-ajuda, fazendo a mídia do fetiche da empregabilidade em uma economia recessiva que impõe aos indivíduos a aventura de montar seu próprio negocio em razão da inexistência de empregos. Essa máscara do neoliberalismo para ocultar a crise da economia globalizada que trabalha na aparência das causas como solução para os problemas estruturais.

 Nossa ação em 2006 será a de combater as iniciativas desviantes que surjam para enfraquecer a regulamentação da profissão de turismólogo, para isso há necessidade de tomarmos atitudes mais coletivas que podem facilmente ser efetivadas, tais como:

  1. O estudante em sua instituição, quando for estruturar a semana de turismo ou qualquer outro evento similar deve contemplar sempre o debate sobre a regulamentação da profissão. Entendendo que a mesma é resultado de uma luta política e sindical que há interesses econômicos que se opõem aos nossos interesses de classe;

  2. Tornar o dia 27 de setembro em uma data em que os estudantes discutam a regulamentação profissional;

  3. Nos debates em que a Embratur estiver presente, questionar a opinião dos mesmos no que se refere a nossa regulamentação.

Essas ações podem parecer pequenas, mas se em todos os eventos de turismo realizados pelas instituições de ensino superior conseguirmos um espaço para o debate de nossa regulamentação, o assunto começa a ser entendido em sua dimensão histórica. A luta pela regulamentação do turismólogo passa por questões epistemológicas e acadêmicas nas quais os pensadores desse fenômeno devem ser consultados.

O importante dessa luta é entender sua dimensão de cidadania, por isso devemos reler os textos que escrevemos há dois anos atrás: 27 de setembro dia do turismólogo: festejar ou organizar “a lógica da consciência de classe”. O embuste da certificação na luta contra a regulamentação profissional: as falas que retardam a organização política dos turismólogos.

 

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[1] LUKÁCS, Georg. El asalto a la razon: La trayectoria del irracionalismo desde Schelling hasta Hitler. México: Grijalbo, 1972. p. 4 e 5.  

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