Por RAYMUNDO DE LIMA

Psicanalista, professor do DFE da Universidade Estadual de Maringá (PR); Doutor em Educação (FEUSP)

 

 

A amizade em tempos sombrios (I)

(Atenção: companheiros, camaradas, colegas e amigos!)

 

 

“Queria ser o amigo de muitos homens, 

mas não o irmão [de fé] de nenhum homem” 

(H. Arendt, Tempos sombrios, p. 35)

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“Sem amizade a vida não é nada, pelo menos se quisermos, 

de um jeito ou de outro, viver como seres humanos” 

 (Cícero, p. 133)

 

Obra de Ismael NeryA amizade está em declínio e a solidão está em ascensão. Qualquer um pode constatar isso no mundo contemporâneo. Os laços humanos tornam-se cada vez mais frágeis e efêmeros porque vivemos numa época em que tudo se “liquefaz”, usando a imagem de Z. Bauman. Hoje, antes mesmo que uma amizade se solidifique, ela está condenada a se evaporar frustrando a intenção sincera dos pretensos amigos. O amor também facilmente se evapora. Aliás, a própria vida escorre, rapidamente, sem que possamos aproveitá-la intensamente como parecia acontecer com os antigos.   

Vivemos a época das grandes manifestações de massa, das grandes multidões que acorrem aos estádios para assistir ao futebol, ao culto religioso, à banda de rock, ao partido político ou ao carisma de um falso ídolo, mas nunca nos sentimos tão só e sem vínculos autênticos de amizade.

Nos dias de hoje já não importa ter amizades autênticas, mas relacionamentos úteis. O outro é avaliado para ser nosso amigo instrumental, em função de interesses mesquinhos. Importa menos um encontro consumatório[1], para conversar-por-conversar, do que estar conectado na rede, para trocar e-mails,  participar de um chat, ser incluído num grupo do orkut, ou simplesmente jogar, jogar e jogar em rede com os “amigos virtuais”.  A conexão da Internet ou do celular promete um especial mais-gozar do que estar “ao vivo” com o outro. Ficar face-a-face está ficando cada vez menos necessário.

Cresce o número de gente que se sente intoxicada  de gente, daí cada um inventa uma fuga: um relacionamento de faz-de-conta, contatos apenas virtuais, arrumar um bichinho de estimação, viver em algum lugar solitário. J. D. Salinger, o autor de “O apanhador no campo de centeio”, numa rara e resistente entrevista em 2004, preferiu viver solitário nas montanhas. Sua halitose, seu jeito de ser e o sucesso do livro contribuíram para reforçar sua tendência anti social.  

A atitude avessa às pessoas não é adotada apenas por escritores e cientistas; costuma fazer parte de pessoas que vivem o cotidiano acadêmico, não obstante o imperativo de eles terem que conviver com alunos e colegas. “Seria bom trabalhar numa universidade que não tivesse alunos”, diz um pesquisador que odeia ensinar. Outro me confidenciou que não acreditava mais na amizade; outro, diz que somente se interessa conversar com os de “seu nível”. Há aqueles que substituem os amigos pelos “irmãos em Marx”, ou “irmãozinhos da psicanálise segundo Lacan”. Um erudito tentou me convencer de que com a fragmentação irreversível de nossa época resta cada um ficar na sua, em casa, e “conversar” com Platão, Aristóteles, Agostinho, Tomas de Aquino, apenas com gente que abre o caminho da sabedoria e da ascese. Segundo esse erudito “é mais proveitoso conversar com meus amigos, pensadores, do que com especialistas de nossa época”.  

Hoje é fácil descartar  amizades potenciais. A falta de disponibilidade para a amizade verdadeira é tamanha que torna-se visível a resistência para continuar uma conversa que mal teve um início. Não raro, as poucas amizades que ousam ultrapassar a barreira do estereótipo precisam vencer as contingências que concorrem para descartá-las, ou podem simplesmente serem toleradas por interesses profissionais, institucionais,  políticos, acadêmicos, comunitários, ou mesmo familiares. Entretanto, segundo Alberoni (1993), essas indicações, acima, nada têm a ver com o conceito de amizade.

Militantes não são amigos   

Uma das primeiras frustrações que tive na militância política de esquerda foi reconhecer que entre os militantes não existe verdadeira amizade, mas sim lealdade e interesse na “causa” revolucionária[2]. Na verdade, alguém disse que – especialmente em período de crise política, ou de CPIs – a política não só separa amigos de inimigos, separa também amigos de amigos e, pior, tende a juntar inimigos conforme interesses de momento. (Dissidentes do PT, hoje, parecem “amigos” da direita, contra o governo Lula).

Onde as relações são instrumentais não existe verdadeira amizade. As amizades se sustentam apenas onde as relações são consumatórias. A política é o melhor exemplo de relações instrumentais, porque, nela, sempre existe um terceiro elemento que condiciona as relações humanas, que são: a causa, o interesse do partido que cada um serve, ser um “não-sujeito”, etc. Na amizade – e no amor, também – sobressai o impulso natural e o sentido consumatório da relação de querer estar com outro, e basta! Embora a amizade e o amor  tenham os seus próprios e camuflados interesses egoístas, a finalidade de ambos é a sustentação do vínculo entre as pessoas que se quer bem.

Entretanto, a  pseudo amizade dos militantes de uma causa política, religiosa, ou cultural, tem uma finalidade meramente instrumental, porque o outro só existe como “objeto” de uso para conseguir êxito numa causa abstrata ou concreta. (Epicuro, na antiguidade grega,  teria sido pioneiro ao observar que a amizade nada tem a ver com o vínculo político ou religioso. Mas pode ser condição para a construção da subjetividade desalienada e uma personalidade preparada para enfrentar as  falsas opiniões e as tiranias do mundo).  

Existe uma equivalência no tratamento entre “camaradas”, “companheiros” da esquerda política  e os “irmãos” do cristianismo.  Na militância política da esquerda dogmática a amizade é vista como um valor da burguesia tal como o amor e a própria democracia. O tratamento de “camarada” (da língua russa) ou de “companheiro” (do espanhol americano) nada tem do sentido clássico de amigo. O camarada ou companheiro é alguém incluso na militância, na luta política, ou seja, a relação jamais é direta, antes passa pela “autorização” do grande Outro (o partido, a causa, o catecismo marxista, etc). Nesse sentido, ambos se aproximam do sentido de “irmão”, que é de inspiração religiosa (“irmãos em Cristo”, “O amor de Cristo nos uniu”), isto é, mediado por Deus-Pai, por Cristo, que, também renega o valor da amizade[3].  

O cristianismo é acusado como uma religião que trabalhou ideologicamente para substituir a amizade, cuja matriz é grega e laica, pela irmandade, mediada pelo poder e amor divinos.  A ética cristã que aproxima os crentes é o amor que  passa por Deus-Pai, ou ao “próximo”, portanto, não ao  “amigo”.

Fontes e definição da amizade

Os gregos antigos são fonte de inspiração sobre a amizade. Para Epicuro (341-270 a.C) “embora não altere o sofrimento nem possa evitar a morte, [a amizade ou philia] ajuda a suportá-la (...). Ainda, a philia é o instrumento indispensável ao artesanato ético interior, pois a presença do amigo auxilia a procura e a manutenção da sabedoria...” (Pessanha, 1992).

Epicuro foi o sábio que mais teve amigos, na antiguidade, tamanho foi o número deles que vieram saudá-lo no seu funeral. Embora fosse um homem de saúde frágil, Epicuro, morreu feliz, brindando aos seus amigos com uma taça de vinho.

Sócrates (469-399 a.C.) também não se cansava de dizer que o maior bem que tinha na vida eram os amigos. Entretanto, sua ferina ironia, teria angariado para si muitos inimigos, dentre eles os sofistas. Uma de suas preocupações, como filósofo, era ensinar aos discípulos como fazer e como manter amizade, dado que existem pessoas que facilmente iniciam uma, mas não sabem como mantê-la[4].  Platão, seu principal discípulo, herdou do mestre sua dedicação para com esse assunto, fazendo vários diálogos elogiando a amizade.

Mas coube a Aristóteles elevar a amizade à categoria de virtude, que como tal é uma coisa absolutamente necessária para a vida – mais exatamente, para viver a vida com sentido de felicidade (gr.: eudaimonia). “Ainda que possuísse todos os bens materiais, um homem sem amigos não pode se feliz”, diz.

Homem do nosso tempo, o sociólogo italiano Alberoni  (op.cit.), observa com propriedade que amizade só é possível entre “iguais”, ou entre aqueles que vivem a mesma condição humana. Portanto, é praticamente impossível existir amizade entre patrão e empregado, entre professor e aluno, entre médico e paciente, entre psicanalista e analisando, entre líder e liderados, entre sargento e soldado, entre uma autoridade e os seus subalternos, etc, porque sendo relações dessimétricas é natural que exista entre tais pessoas, respeito, veneração, temor reverencial, adulação, puxa saquismo, mas não amizade genuína. Para que alguma dessas relações vire uma amizade verdadeira há que ser superada tal dessimetria, além delas passarem por  provas impostas pelas circunstâncias da própria vida.  

Malebranche[5] lembrou que as atitudes de adulação nada têm a ver com a amizade. O aluno que adula o professor, longe de promover a relação, reforça o narcisismo que todo professor não revela, mas se alimenta dele para exercer bem o seu ofício. A experiência mostra que o aluno adulador tem outros interesses facilmente adivinhados. Os discípulos que seguem a orientação de um “grande mestre” vão além da adulação quando almejam levar suas idéias para o ato, mas não fundam uma verdadeira amizade. Parece que o enamoramento[6] e a amizade são de naturezas diferentes, embora existam muitos pontos de semelhança entre ambos, tais  como: confiança, desejo de estar junto, agradar o outro, trocar pontos de vista, etc.

É mais sábio e gratificante para todo o ser humano ser levado por esse “impulso natural” que é a amizade do que ser movido por interesses supostamente elevados, onde o outro é reduzido a um mero objeto-instrumento de uma causa. Foi publicada uma pesquisa em 2005 sobre a relação entre amizade e saúde; além de ela dar sentido existencial as pessoas ela proporciona saúde física e bem estar as pessoas envolvidas nesse vínculo afetivo.  

Finalizo com uma observação de meu amigo e escritor José Carlos Leal[7]: “Desconfie de uma pessoa que chama a todos de amigos. Porque, se ele chama a todos de amigos, provavelmente não se sente amigo de todos”.

 

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Referências bibliográficas:

ALBERONI, F. A Amizade. São Paulo: Rocco, 1993.

_________. Enamoramento e amor. Rio: Rocco, 1986.

BALDINI, M. A amizade e os filósofos. Bauru: Edusc, 2000.

BALTASAR GRACIÁN. A arte da sabedoria mundana. São Paulo. Best Seller, 1992.

BAUMAN, Z. O amor líquido: Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004. 

CARDOSO, S. “Paixão da igualdade, paixão da liberdade: a amizade em Montaigne”. In: Os sentidos da paixão. São Paulo: C. Letras, 1988.

CAVALCANTI, B. O. “O juramento de lealdade e fidelidade: a militância no PCB”. (Texto apresentado no Grupo de Trabalho “Partidos e Movimentos de Esquerda”, na 8ª. Reunião Anual da ANPOCS. Águas de São Pedro, SP, out. 1984. 

CICERO. Saber envelhecer. A amizade. Porto Alegre: L&PM, 1997.

DESCARTES, R. Discurso do método. As paixões da alma.Meditações. Objeções e respostas. São Paulo: Nova Cultural. [Os pensadores]. 1991.

GIKOVATE, F. Amizade é mais que amor. rev. Claudia, set/ 96, p. 229.

MONTAIGNE. [Os pensadores]. São Paulo: Abril. 1980.

PESSANHA, J. A. M. As delícias do jardim. In: Ética. São Paulo: Cia. Letras, 1992.

SÓCRATES. por Xenofonte. [Os pensadores]. São Paulo: Nova Cultural, 1991.

VOLTAIRE. Dicionário Filosófico. [Os pensadores]. São Paulo: Abril, 1978.

WHEELE, E. et al. A essência da amizade. São Paulo: McClaret, 1998.

 

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[1] Cícero diz que a amizade verdadeira é desinteressada: ela não fica, severa, a controlar se está dando mais do que recebeu. Por isso chamo de ‘consumatória’ a verdadeira amizade, porque, os amigos convivem de modo desinteressado e sem cálculo sobre a própria relação. Evidentemente que existe um interesse entre os amigos: a ascese de ambos. Amigos não sofrem inveja um do outro, mas sim, admiração. Quando Montaigne fala de sua amizade de E. La Boétie, demonstra admiração. Conceitua a amizade como um encontro existencial de almas que se entendem, muitas vezes não lhes percebendo sequer a linha de demarcação entre cada personalidade. (Montaigne. Ensaios: cap. XXVIII).

[2] Cavalcanti (1984) observa que, na militância do clandestino PCB, havia uma vida “fora” do círculo partidário “sujeita a uma dinâmica mais rica e diversificada, contrastando com a ‘ficção’ elaborada por suas interpretações”. Há uma maior probabilidade de surgimento de amizades verdadeiras “fora” da militância política do que “dentro”, visto ser este um ambiente marcado pela dessimetria entre “militantes” e dirigentes”. 

[3] Descartes distingue afeição e devoção da amizade. Temos afeição a um bichinho, uma casa, um carro, ou seja, apreciamos algo neles, porém menos do que nós mesmos. A devoção é ter um sentimento especial para com alguém que ocupa uma posição superior a nós. Temos afeição a nossos pais, a um governante, a um rei, a Jesus Cristo, a ídolo do momento, a um revolucionário, e até a um país ou a uma causa. Contudo, o “irmão” fica num lugar entre a afeição e a devoção. 

[4] Ver Sócrates, capítulo VI,  escrito por Xenofonte.

[5] Apud Baldini, 2000: p. 119-122.

[6] Ver Alberoni “Enamoramento e amor”.

[7] José Carlos Leal é autor de mais de 40 livros que tratam dos temas de filosofia clássica, ficção, espírita, auto-ajuda. No momento estou lendo dele “As dores do mundo – Um estudo sobre a origem do sofrimento” (Ed. Assoc.Ed.Espírita F. V. Lorenz).

 

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