Por EVA PAULINO BUENO

Depois de quatro anos trabalhando em universidades no Japão, Eva Paulino Bueno leciona Espanhol e Português na St. Mary’s University em San Antonio, Texas. Ela é autora de Mazzaropi, o artista do povo (EDUEM 2000), Resisting Boundaries (Garland, 1995), Imagination Beyond Nation (University of Pittsburgh Press, 1999), Naming the Father (Lexington Books, 2001), e I Wouldn’t Want Anybody to Know: Native English Teaching in Japan (JPGS, 2003)

 

 

Tecendo a manhã

 

Martin Luther King JrNeste dia 16 de janeiro, como todos os anos, aqui nos Estados Unidos se comemora o aniversário do Dr. Martin Luther King Jr. Esta é uma ocasião para lembrar a sua vida, o que ele conseguiu durante seus anos de luta, assim como também a vida e o exemplo de muitas outras pessoas que participaram e participam na luta pela igualdade de direitos humanos para todos, independentemente da cor da sua pele. Um dos primeiros exemplos que vêm à memória é Rosa Parks, que morreu no dia 24 de outubro de 2005, aos 92 anos de idade. Ela, que foi chamada a mãe da luta pelos direitos humanos, viveu uma vida muito simples, mas que espelhou sempre sua coragem e determinação.

Rosa ParksNaquele dia, primeiro de dezembro de 1955, em Montgomery, Alabama, quando a jovem costureira Rosa Parks se recusou a ceder o banco do ônibus a um homem branco, ela sabia muito bem o que estava fazendo. Ademais, como ela disse mais tarde, ela sabia que ela  “had the strength of [her] ancestors with [her]” – “tinha a força dos [seus] antepassados com [ela]”. Como todos sabemos, naquela época os meios de transporte coletivo eram segregados nos Estados Unidos, isto é, tinham lugares na frente para os brancos, e uma parte reservada no fundo para os negros. Rosa Parks, que então tinha 42 anos, e  participava das reuniões da NAACP como conselheira dos grupos juvenis, estava voltando do trabalho, e havia se sentado na primeira fila da secção “negra” do ônibus.[1] De acordo com a lei “Jim Crow” em vigor na época, os negros sentados até a quarta fila da sua secção tinham que ceder o lugar a um branco que estivesse de pé.[2] Um homem branco queria que Rosa lhe desse seu lugar, e ela se recusou a levantar-se.

Ela estava cansada. Muitos escreveram que ela estava cansada depois de um longo dia de trabalho. Mas não: como ela disse mais tarde, ela estava cansada da discriminação, e de ser forçada a ceder aos brancos. Como punição por sua negativa, o motorista James Blake chamou a polícia, e ela foi presa por violar as leis de segregação. Um dos jornais do dia seguinte estampou a seguinte manchete: “Negress Draws Fine In Segregation Case Involving Bus Ride” (“Mulher negra recebe multa em caso de segregação envolvendo viagem de ônibus”). Mas na verdade, houve muito mais que uma multa, e muito mais que uma simples viagem de ônibus. Ela não foi a primeira pessoa a ser presa por recusar a dar o lugar a um branco, mas a liderança dos grupos negros queriam que ela fosse a última.

E assim foi. A ação de Rosa Parks, e a sua determinação de não ser amedrontada pelos então vigentes estatutos legais, deram início à luta pelos direitos humanos nos Estados Unidos. Esta luta começou com o boicote de todos os negros contra todos os ônibus na cidade de Montgomery. Para liderar este boicote, foi escolhido o jovem ministro Martin Luther King, Jr., que se dirige às paradas de ônibus para ver se nenhum africano americano está tomando o ônibus, e naquela noite, em reunião na igreja, faz um discurso que galvaniza os presentes e os incentiva a seguir com a luta. Um ponto fundamental na luta proposta por Dr. King era a não-violência. Em nome da não-violência ele levou sua vida, sempre pregando que mudanças podem ser conseguidas sem que as pessoas recorram às armas. Infelizmente, como todos sabemos, Dr. King foi assassinado em Memphis, Tennessee, em 4 de abril de 1968.

Rosa Parks, assim como muitas outras pessoas envolvidas com os direitos humanos, continuaram a luta. Ela mais tarde teve que mudar-se de Alabama, para escapar à perseguição das pessoas. Durante toda sua vida, ela seguiu participando em inúmeras atividades, sempre levando a mensagem da não violência e da necessidade de cada um fazer a sua parte. Quando ela morreu, aos 92 anos, o país inteiro prestou homenagens. Em outubro, quando o corpo de Rosa Parks foi velado na Rotunda do Capitólio em Washington, ela foi a primeira mulher a receber esta honra.

Mas ela não foi a primeira mulher negra a lutar, a seu modo, pela igualdade e a liberdade dos negros americanos. Uma das outras mulheres cujo exemplo e luta não é muito conhecido fora dos Estados Unidos é Harriet Tubman. Aqui, ela é uma das figuras estudadas nas escolas, e foi através dos estudos de uma de minhas filhas que eu conheci a história desta mulher de garra.

Harriet TubmanHarriet Tubman nasceu escrava, em Maryland, em 1819 ou 1820. Quando tinha 12 anos, um homem branco – um capataz – lhe deu uma pancada tão forte na cabeça que ela sofreu a vida inteira de uma doença, narcolepsia, que a fazia cair em sono profundo de um minuto para outro. Aos 25 anos ela se casou com um americano negro livre, o que não a libertava da escravidão. Por isto, em 1849 ela fugiu dos donos, e foi para o norte, onde seria livre. Mas, e aqui está a parte mais importante da história, ela voltou à sua terra natal para salvar outros. Primeiro, ela salvou a seus pais e irmãos, os quais ela levou a St. Catharines, no Canadá. Depois, continuou seu trabalho, participando no que se conhece como “The Underground Railroad” (“A linha subterrânea”). Esta “linha” consistia de várias casas e lugares onde os fugitivos podiam se esconder durante o dia, na jornada ao norte, rumo à liberdade. Muitas destas casas pertenciam a brancos, simpatizantes da causa da libertação dos escravos. Entre eles, estavam os que participavam da religião dos “Quakers,” assim como de outras religiões. Durante 10 anos, Harriet fez 19 viagens de volta ao sul escravagista, e se calcula que levou 300 pessoas ao norte. Por esta luta, ela foi chamada a “Moisés de seu povo”. Mas sua missão não terminou aí: quando começou a guerra civil, ela trabalhou para o lado da União como cozinheira, enfermeira, e mesmo como espiã (provavelmente utilizando as habilidades que desenvolvera durante os anos da “linha subterrânea”. Quando Harriet Tubman morreu, em 1913, sua casa em Auburn – que ela tinha comprado da família do ex-senador e ex-governador do estado de Nova Iorque, William W. Seward – tinha se expandido em um estabelecimento de caridade em que velhos e indigentes eram cuidados.[3]

Mas a idéia da liberdade para os escravos não ficou reduzida em um compartimento estanque. Como a casa de Harriet Tubman fica a somente algumas milhas de Seneca Falls – o lugar em que o movimento para o direito ao voto feminino ganhou força – a inspiração desta mulher excepcional certamente fazia parte das mesmas energias que moviam as “sufragettes” – mulheres que lutaram pelo direito ao voto feminino. Quando as mulheres ganharam  o direito de votar, em 1920, depois de uma luta de 72 anos, este direito mínimo se expandiu, e hoje mulheres têm não só o direito de votar, mas também de se candidatarem, serem eleitas e participarem plenamente da vida política da nação. Em 2005, comemoramos 85 anos em que este direito é parte da vida de todas as mulheres, é difícil acreditar que houve um tempo em que nascer mulher determinava que a pessoa não podia votar.

Assim como o movimento, no século XX, para garantir que africanos americanos tivessem os mesmos direitos que os outros americanos se expandiu em outros movimentos de caráter democrático, o exemplo de Harriett Tubman foi uma fagulha que se expandiu em outros fogos. E nem sequer suas limitações físicas a impediram: ela era uma mulher frágil, com um sério problema de saúde (causado pelo golpe na cabeça), mas não se acabrunhou, e lutou até as últimas conseqüências por aquilo que achava certo. Ela, assim como Rosa Parks, não pensava em benefícios pessoais. Ela lutou por algo em que acreditava, e soube aceitar a ajuda dos que estavam a seu favor, não se importando com a sua cor. É preciso não esquecer: entre os abolicionistas americanos, muitos eram brancos.

Aqui chegamos a Martin Luther King, Jr,  o homenageado do dia 16 de janeiro. Como Rosa Parks, ele também se sabia descendente de uma linha de pessoas que haviam lutado contra a opressão dos negros. Assim como Harriet Tubman e Rosa Parks, ele também sabia que a luta contra a discriminação e o racismo não é uma luta somente das pessoas de uma cor. Assim como muitos abolicionistas eram brancos, muitos dos que lutaram – e morreram – durante o tempo em que os Estados Unidos passaram pelo movimento pelos direitos civis, eram brancos.

O ponto, nestas lutas pela igualdade de todos, é conseguir manter a calma enquanto se debatem os pontos importantes, e levar a discussão dos assuntos de maneira inclusiva: todos estamos envolvidos, de uma maneira ou outra. A liberdade e a igualdade afetam a todos, assim como a escravização, a humilhação, a diminuição de uma parte da população afetam a todos.

Fred Korematsu e Rosa ParksInfelizmente, muitos lutam durante toda a vida, e não chegam a usufruir dos resultados.[4] Cada país tem exemplos de tais pessoas, e no Brasil, para citar um caso recente, basta lembrar o nome de Chico Mendes, que pagou com a própria vida, em 22 de dezembro de 1988, por sua tentativa de proteger o Amazonas. Chico MendesMuitos atos grandes e pequenos de heroísmo e sacrifício anônimos se repetem no dia a dia, mas a mensagem é a mesma: brigar não é a solução, simplesmente porque a violência só atrai mais violência. A solução só pode ser encontrada com a soma de forças. Todo movimento, toda idéia, necessita um ícone, uma fagulha, mas é a união de todos que faz o movimento, seja aqui, seja aí, seja acolá. O espírito humano, a sede de justiça e os sonhos de igualdade que comemoramos no aniversário de Martin Luther King Jr, existem em todos os lugares. Homens e mulheres de boa vontade, de qualquer cor, de qualquer lugar, que qualquer habilidade física e mental, são necessários para fazer deste um mundo melhor. Ou, como escreveu  o poeta João Cabral de Melo Neto,

"Um galo sozinho não tece a manhã:

ele precisará sempre de outros galos.

 

De um que apanhe esse grito que ele

e o lance a outro: de um outro galo

que apanhe o grito que um galo antes

e o lance a outro; e de outros galos

que com muitos outros galos se cruzam

os fios de sol de seus gritos de galo

para que a manhã, desde uma tela tênue,

se vá tecendo, entre todos os galos.

 

E se encorpando em tela, entre todos,

se erguendo tenda, onde entrem todos, no toldo

(a manhã) que plana livre de armação.

 

A manhã, toldo de um tecido tão aéreo

que, tecido, se eleva por si: luz balão".

 

________________

[1] NAACP – National Association for the Advancement of Colored People – Associação Nacional para o Avanço de Pessoas de Cor, fundada em 1909 por Ida Wells-Barnett, W.E.B. DuBois, Henry Moscowitz, Mary White Ovington, Oswald Garrison Villiard, William English. Existem vários livros sobre a história da Associação, mas um bom recurso se encontra também em  http://www.naacp.org/about/about_index.html

[2] Assim que terminou a guerra civil, a maioria dos estados do sul dos Estados Unidos adotaram legislação que discriminava contra os africanos americanos, especialmente com relação ao espaço público compreendido por restaurantes, ônibus, cinemas, hotéis, teatros. Em alguns estados, o casamento entre brancos e negros também era proibido. Esta legislação tomou o nome de “Jim Crow,” devido a um personagem de teatro popular do século XIX, um negro (que no palco era um ator branco com  maquiagem para parecer negro). Em 1896 um negro, Homer Plessey, foi preso por andar em um trem reservado somente para brancos. Plessey levou seu caso até a corte suprema, a qual determinou que negros e brancos deviam estar separados, mas seriam tratados igualmente. Esta foi a base legal da segregação.

[3] Ver um excelente resumo da vida de Harriet Tubman em http://www.nyhistory.com/harriettubman/life.htm

[4] Outro exemplo pode ser visto na vida de Fred Korematsu, um americano de origem japonesa que se recusou a aceitar o internamento forçado de japoneses e seus descendentes durante a segunda guerra mundial. Ele terminou sendo apreendido, preso, e, quando entrou com processo para que o internamento fosse considerado ilegal e inconstitucional, ele perdeu o processo na justiça, em uma repetição do que aconteceu com Homer Plessy em 1896. Depois da guerra, ele foi libertado, justamente com os demais japoneses americanos. Sua  Durante toda sua vida ele foi rejeitado pelos próprios membros da comunidade japonesa americana, e considerado um “traidor,” ou um “fazedor de encrencas”. Somente em 1981 seu caso foi revisto, e o internamento forçado de cidadãos americanos sem um julgamento foi considerado ilegal. Em 2004, Korematsu entrou com um documento junto à Corte Suprema, assinalando que a prolongada detenção de prisioneiros em Guantânamo repete os erros do internamento feito durante a segunda guerra mundial. Ver mais detalhes sobre sua vida em The New York Times Magazine, 25 de dezembro de 2005, página 38. Ver também http://usinfo.state.gov/usa/infousa/facts/democrac/65.htm.

Nestes dias, nos Estados Unidos, quando o presidente Bush se diz justificado em aprovar a invasão da privacidade dos seus cidadãos que, acordo com ele, têm laços com  organizações terroristas, pode-se ver que, infelizmente, a história se repete.

 

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