Por HENRIQUE RATTNER

Professor da FEA (USP), IPT e membro da Associação Brasileira para o Desenvolvimento de Lideranças (ABDL)

 

Israel e os palestinos – uma luz no fim do túnel?[1]

 

Três acontecimentos da última semana em Israel abrem possibilidades de formação de um novo núcleo de poder de centro-esquerda, isolando a ultra-direita e os religiosos ortodoxos que defendem a reconquista da Grande Israel, em suas fronteiras bíblicas. O primeiro, a visita da Secretária de Estado norte americana, Condoleezza Rice que prolongou as reuniões com os representantes da Autoridade Palestina e do governo de Israel até a madrugada a fim de arrancar algumas concessões mútuas que irão facilitar a vida dos habitantes da faixa de Gaza, recentemente desocupada pelos colonos e as tropas de Israel; o segundo foi a eleição de uma nova liderança do partido trabalhista que imediatamente proclamou a “paz” como objetivo prioritário; e, terceiro, o rompimento de Ariel Sharon com seu partido Likud do qual foi co-fundador há mais de trinta anos,

Como explicar as transformações, em apenas cinco décadas, de uma sociedade formada por “pioneiros” idealistas, motivados por uma visão mística e redentora do povo judeu, na Terra Prometida, que abandonaria o estereótipo da diáspora, de pequenos comerciantes ou artesãos, transformados em produtores agrícolas que iriam também construir um novo Estado judeu após quase dois mil anos de exílio e perseguições?

No lugar da sociedade socialista e libertária surgiu um Estado militarizado, dotado de equipamentos bélicos dos mais avançados. Entretanto, apesar de viver em clima de conflito constante com seus vizinhos árabes, que por várias vezes juraram apagar Israel do mapa, este é o único país democrático do Oriente Médio em cujo parlamento tem assento também deputados árabes, representantes dos palestinos.

A economia coletivista dos Kibutzim cedeu lugar à famigerada economia de mercado capitalista com todos seus efeitos inovadores e desarticuladores.  Os Kibutzim – uma nova forma de organização de trabalho e de vida social  que recusaram à propriedade privada dos meios de produção e a exploração do trabalho assalariado, preconizaram uma nova forma de gestão coletiva através de assembléias gerais que decidiram, em comum, assuntos pertinentes a todos. Os fundadores e os primeiros participantes da vida em Kibutz eram filhos da classe média, da Europa Oriental e Central, com boa formação escolar e ideológica, adquirida nos movimentos juvenis do tipo escoteiro, visando preparar os jovens para trabalhos na lavoura, na construção de habitações, estradas e portos.

Politicamente identificados com a “esquerda” socialista e simpatizantes do comunismo soviético, criaram a Central Única dos Trabalhadores (Histadrut) e partidos políticos que faziam parte da Internacional Socialista. Alguns até abandonaram o Kibutz e regressaram à União Soviética para lá construir a “verdadeira” sociedade socialista. Ironia da História, acabaram sendo deportados para a Sibéria ou, na melhor das hipóteses, para Birobidjan, uma república criada por decreto de Stalin, para servir de “lar” aos súditos de nacionalidade judaica. Posteriormente, muitos foram liquidados pela máquina de terror stalinista.

Desde o início da imigração e colonização por sucessivas ondas de imigrantes europeus, os Kibutzim e outras formas de assentamentos cooperativos enfrentaram a resistência dos árabes que lá viviam, há séculos, geralmente explorados pelos “effendis”, os proprietários ausentes das terras que acabaram sendo vendidas às instituições judaicas de colonização.

Com o fim da primeira guerra mundial e a derrota da Turquia pelo exército inglês e as tropas formadas por beduínos e sublevadas pelo coronel Lawrence da Arábia, a Grã-Bretanha assumiu o mandato de governar a Palestina, confirmado posteriormente pela Liga das Nações. Um dos primeiros atos da administração colonial inglesa foi o desmembramento da parte oriental da Terra Santa, transformada em reino da Jordânia cujos reis sempre mantiveram atitudes e políticas mais moderadas para com o Estado judeu.

A ascensão do nacionalismo árabe, historicamente atrasado, foi precedida pela queda de regimes monárquicos corruptos, tal como o do rei Faroukh no Egito, derrubado por um grupo de jovens oficiais liderados pelo general Nagib. Poucos anos depois, Nagib foi deposto pelos coronéis liderados por Gamal Abdel Nasser, protagonista do pan-arabismo e criador da República Árabe Unida, englobando o Egito, a Síria e a Jordânia. O objetivo central da União era cercar com suas tropas o Estado de Israel e eliminá-lo definitivamente.

Voltando ao contexto atual, a saída dos israelenses da Faixa de Gaza pode ser considerado como um primeiro passo na longa caminhada em direção à paz.

Os palestinos tinham resistido à colonização judaica com ataques armados contra assentamentos em 1921, 1929 e 1936; o que levou a Grã Bretanha a divulgar um decreto baseado em parecer de uma comissão parlamentar, impondo fortes restrições à imigração judaica. Com a divisão da Palestina em dois estados, judeu e palestino, por decisão da Assembléia Geral das Nações Unidas, em 1947, os países árabes recusaram a partilha e lançaram suas tropas – egípcios, jordanianos, sírios, iraquianos e palestinos - contra o jovem Estado.

A derrota contra o exército de Israel teve como conseqüência o êxodo – forçado ou voluntário – de centenas de milhares de palestinos, estabelecidos em precárias condições nos campos de refugiados no Líbano e na Jordânia, onde se encontram até hoje.

Ao contrário do que aconteceu em Israel que absorveu quase um milhão de judeus expulsos dos países árabes, não houve tentativas de absorver produtivamente os refugiados palestinos pelos regimes autoritários de seus vizinhos.

Em 1956, ansiosos de recuperar o Canal de Suez nacionalizado por Nasser, a França e  a Grã-Bretanha lançaram uma ofensiva  naval e aérea contra o Egito, induzindo também  Israel a juntar-se na aventura que levou suas tropas até as margens do Canal de Suez e às portas do Cairo. Foi a intervenção conjunta das duas superpotências, EUA e URSS, que ordenaram a retirada das tropas israelenses e a cessão das hostilidades, o que foi festejado como vitória pelos egípcios.

Dez anos mais tarde, em junho 1967, irrompeu a “guerra dos seis dias” em que as forças israelenses, antecipando-se ao ataque planejado por Nasser, infligiram pesada derrota aos árabes e ocuparam em seguida a península do Sinai (Egito), as colinas de Golan (Síria) e a Cisjordânia, incluindo a parte oriental de Jerusalém.

Na euforia de pós-guerra, perdeu-se uma oportunidade única de se chegar à paz mediante a devolução dos territórios conquistados, em troca do reconhecimento do Estado de Israel. Embriagados com o sucesso militar e confiando na inquestionável superioridade tecnológica e militar, todos os governos israelenses, desde a esquerda dos trabalhistas até a direita do Likud optaram por uma política agressiva de ocupação dos territórios conquistados, mediante assentamentos e colônias, desde Sharm el Sheik no Mar Vermelho, passando pela Cisjordânia e Jerusalém Oriental, até as colinas do Golan, consideradas estratégicas para a defesa do norte do país.

A soberba e confiança excessiva em sua superioridade militar levaram a um descuido quase fatal em 1973, quando o Egito lançou um ataque surpresa que rompeu as linhas de defesa israelenses, no dia religioso mais sagrado para os judeus, o Yom Kippur. Com pesadas perdas – mais de 2 mil soldados mortos – as tropas israelenses conseguiram reverter a situação, empurrando as tropas árabes para seus pontos de partida.  Cinco anos mais tarde, em 1979, com a intermediação do presidente norte-americano James Carter, foi assinado o acordo de paz com o Egito, seguido de uma visita histórica de seu presidente Anuar Sadat a Israel. Logo depois, Sadat foi assassinado por oficiais membros da Irmandade Muçulmana.

Os anos oitenta vieram confirmar o desenvolvimento tecnológico e econômico de Israel, continuando a absorver mais imigrantes, entre os quais um milhão de russos. A população cresceu para mais de cinco milhões dos quais mais de um milhão  de árabes palestinos, cuja diáspora está sendo estimada em quatro milhões. As mudanças, contudo, não foram apenas quantitativas. Mudou profundamente o perfil étnico, religioso, cultural e econômico da população que passou a ser predominantemente urbana, a maioria de origem oriental (judeus sefardim e orientais), com uma mentalidade capitalista e pequeno- burguesa, oposta ao coletivismo dos “pioneiros”. A nova maioria – religiosa e ortodoxa – pretende seguir as leis do Talmud, como orientação básica para a vida civil e coletiva, à semelhança dos islâmicos que adotam o Corão e suas prescrições como guia.

Com a dissolução da maioria dos Kibutzim, a sociedade israelense, antes igualitária e tolerante, adquiriu rapidamente as características e, também, os vícios das outras sociedades: o tráfico de drogas, a prostituição, a corrupção e a criminalidade, tão bem caracterizadas pelo cineasta Amos Gitai em seus filmes.

Ademais, iniciou-se um refluxo de jovens judeus – emigrantes para os Estados Unidos e os países da Europa Ocidental, inclusive Áustria e Alemanha.

Os movimentos de revolta dos palestinos, com a primeira Intifada nos anos oitenta e as operações bélicas do Hisbola – partido religioso armado pela Síria e o Irã, aumentaram a pressão sobre Israel onde, paradoxalmente fortaleceu-se o partido da direita – o Likud, frontalmente oposto a qualquer concessão aos palestinos. Os ataques armados, instigados e financiados pelas plutocracias do petróleo, foram dirigidos contra assentamentos, soldados e a população civil, tornando-se uma ameaça constante na vida da população israelense.

A Liga Árabe, associação dos países árabes cujo objetivo principal era fomentar o conflito com Israel e votar repetidamente contra a paz com o Estado judeu, viu sua influência enfraquecer após a assinatura do acordo de paz com o Egito e a Jordânia. Mas, em 1990, após uma desastrosa e provocativa visita de deputados israelenses liderados por Ariel Sharon ao Monte do Templo – terceiro lugar mais sagrado dos árabes no mundo, eclodiu outra Intifada que se manteve acesa até a morte de Yasser Arafat em 2004.

O impasse só foi rompido após grande empenho da diplomacia norte-americana, pressionando Israel a evacuar a Faixa de Gaza, com seus oito mil colonos. Abriu-se assim a possibilidade de futuras negociações seguindo o “Mapa da Estrada” – um plano de paz elaborado após o fracasso das reuniões de Oslo, Madrid e Camp David, com a participação da Rússia, União Européia, EUA e as Nações Unidas.

Não há como ignorar o profundo envolvimento dos EUA  no Oriente Médio, a região com as maiores reservas de petróleo do mundo, mas sem perspectivas de retirar suas tropas do Afeganistão e do Iraque, em busca de estabilização política e militar desta região  estratégica.

Acuado pela mídia mundial e pela oposição no Congresso norte-americano, por práticas de tortura contra presos iraquianos e o uso de fósforo branco (arma química!) contra civis, a perda de mais de 2 mil soldados até agora no conflito e estimativas de vítimas civis iraquianas que oscilam entre 25 mil e 75 mil, o governo Bush está apostando pesadamente na pacificação entre israelenses e palestinos.

O momento político atual parece propício: Hamas e Jihad Islâmica concordaram em suspender seus ataques contra Israel, que até recentemente tem retaliado a qualquer atentado.

O novo presidente da Autoridade Palestina – Mahmoud Abbas procura fortalecer sua ascendência sobre os grupos armados, induzindo-os a participar das próximas eleições marcadas para fevereiro de 2006.

O rompimento de Sharon com o Likud e a convocação de eleições para a Knesset – o parlamento de Israel - e a expressiva votação obtida por Amir Peretz, novo líder do partido trabalhista que declarou imediatamente sua intenção de procurar a paz com os palestinos, acenam para uma nova chance do tortuoso e muitas vezes decepcionante processo de paz na Terra Santa, pelo caminho da diplomacia e de negociações de um acordo político.

 

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[1] Texto elaborado com base numa palestra proferida pelo autor, no dia 19/11/05, em São Paulo.

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