Por CELUY ROBERTA HUNDZINSKI DAMÁSIO

Doutoranda em Literatura na Sorbonne e em Filosofia na
Université de Marne-la-Vallée

 

 

Violência urbana na França

 

No dia 27 de outubro de 2005, dois jovens franceses foram mortos eletrocutados em Clichy-sous-bois, na região parisiense, quando tentavam refugiar-se em um transformador elétrico para escapar da polícia que os perseguia por causa das primeiras manifestações de violência urbana que prosseguiram por mais de duas semanas, estendendo-se por todo o país e atingindo, até mesmo, outros países europeus.

Desde tal acontecimento a violência intensificou-se nas zonas urbanas. Segundo analistas, a política de imigração francesa é a causa principal desses protestos. A França possui a população muçulmana mais numerosa entre os países do oeste da Europa, porém sua política multicultural não favorece a participação social eqüitativa da população imigrada.

Para a mídia francesa, essa foi a maior onda de violências conhecida no país desde « maio de 68 ». Políticos de todo o continente consideraram os fatos alarmantes para os países próximos à França e o presidente da Comissão da Igualdade Radical, Trevor Philipps, afirmou a necessidade de desenvolver esforços para permitir a integração dos imigrados. Além disso, todos começaram a pensar na questão do desequilíbrio do sistema da sociedade multicultural, estimando que é inaceitável exprimir, violentamente, seu descontentamento com o governo. Para que isso possa ser evitado é extremamente necessário escutar a voz dos que querem protestar, colocando em questão sua política, pois é tentando resolver os problemas de injustiça, diferenças sociais e a discriminação que poderá ser criada uma sociedade multicultural.

Todos os atos de “vandalismo” foram praticados por adolescentes, em sua maioria filhos de estrangeiros, que não estão contentes com o sistema social e político atual. Da destruição de bens materiais (carros, lojas, escolas, casas, etc.) eles voltaram-se contra pessoas (estrupos, roubos, ataques, etc.), sem ignorarmos que muitos desses atos foram cometidos em seus próprios bairros, atingindo suas escolas e áreas de lazer e, muitas vezes, contra seus próprios familiares e conhecidos.

Há alguns anos, comenta-se que a violência progride cada vez mais no país. Seria-nos interessante relevar, rapidamente, alguns pontos sobre o quadro dos adolescentes envolvidos, bem como discorrermos um pouco sobre a violência no ser humano.

Dos que foram identificados, 562 eram maiores e 577 menores, franceses entre 16-17 anos, filhos de pais operários ou desempregados, mães sobrecarregadas; eles têm resultados médios na escola, muitos freqüentam formações profissionalizantes e mais de 60% deles nunca teve passagem pela polícia. Por esses motivos, sofrerão uma pena de somente 3 a 6 meses de prisão, alguns podendo desfrutar da liberdade condicional. Os que são maiores ou conhecidos por delinqüência, pagarão penas maiores, de acordo com o que cometeram. Alguns são conhecidos pelo plano civil e beneficiam de ajuda à infância.

Inerente a todo ser humano, a violência é uma pulsão de vida primordial que permite a auto-conservação do indivíduo, podendo chegar a pulsão de destruição ou morte. É no quadro da primeira relação como indivíduo, ou seja, a relação entre pais e filhos, que essa violência pode ser cultivada ou, contrariamente, rejeitada, reaparecendo mais tarde, sobretudo na adolescência, em diversas condutas destrutivas. Daí a importância da educação. Graças a aprendizagem da frustração, que permite o desejo e graças ao acesso à linguagem, que permite a mediação dos desejos e o investimento na ação, no imaginário, no pensamento, na cultura, e à conquista de uma identidade própria que as pulsões de violência, que existem em nós, podem ser canalizadas positivamente.

São as relações interpessoais íntimas com adultos que podem servir de modelos, e é a identificação com o Outro que nos permite ascender ao que chamamos de humanidade, a ausência dessas relações interpessoais e dessa identificação com o Outro conduz a atrofia moral de certos adolescentes e explica que eles possam infligir, indiferentemente, sofrimentos a outros.

Na maioria dos casos, os pais, desvalorizados ou incapazes de suportar o conflito com seus filhos - que seria um fator para que eles pudessem se afirmar, encontrar-se e adquirir o sentido da lei, não conseguem permitir que os filhos se exprimam no seio da família fazendo com que eles se voltem para o espaço público. Eles, na adolescência, privados das duas formas possíveis e complementares de existência de todo ser humano, o “ser” e o “ter”, não vêem outra forma de responder à essa exclusão e privação do futuro.

Essa violência é distinta entre os e as adolescentes. As mulheres tendem, normalmente, a castigar seu próprio corpo através de condutas desvalorizantes como a anorexia, bulimia, depressão, tentativas de suicídio e prostituição; enquanto que os homens, em bando, voltam-se, em sua maioria, para a sociedade e representam, na França, 90% dos 100.000 menores delinqüentes.

O presidente, Jacques Chirac, depois de um longo silêncio, declarou que esperava as coisas se acalmarem para que as devidas medidas fossem pronunciadas. O primeiro ministro Dominique de Villepin, anunciou a preparação de uma lei sobre a igualdade de oportunidades, com três prioridades: a educação, a moradia e a luta contra as discriminações.

A lei retomará inúmeras medidas, especialmente nos domínios do emprego e da educação, anteriormente anunciadas para tentar responder à crise dos subúrbios. Se ele sublinhou que seria preciso recorrer à lei com economias e que várias medidas anunciadas na Assembléia Nacional não precisariam de suporte legislativo, um certo número de disposições deve, segundo ele, ser inclusas num texto de lei para ser apresentado ao conselho dos ministros.

Esse deveria ser o caso, em particular, da criação de uma agência de coesão social e de igualdade de oportunidades, bem como um serviço voluntário civil; a possibilidade de ingresso em curso profissionalizante desde os 14 anos, e não mais aos 16. Além disso, todos os jovens das áreas chamadas “sensíveis” teriam direito, nos três meses seguintes, a um tratamento intenso pela ANPE (Agence National Pour l’Emploi – Agência Nacional para o Emprego). 100.000 bolsas de estudo serão colocadas à disposição em 2006 (e não somente 30.000 como atualmente), e serão abertos dez internatos educativos.

Resta-nos saber se todas essas medidas serão tomadas, e se serão tomadas em prol dos adolescentes que as estão reivindicando. Se a discriminação e o racismo irão diminuir com isso, e se o futuro poderá ser tido como promissor para todos, sem distinções. Criar leis não resolve, mas aquieta. Penso que os adolescentes foram longe demais e esperamos, todos, que isso não volte a acontecer, não somente pelos problemas que acarretaram, mas, sobretudo, pelas causas que devem ser reparadas urgentemente. Que eles possam voltar a ter esperança e acreditar neles mesmos.

 

Clique e cadastre-se para receber os informes mensais da Revista Espaço Acadêmico  

Fonte:   www.liberation.fr

www.lemonde.fr        www.diplomacie.gouv.fr

www.lefigaro.fr

 

clique e acesse todos os artigos publicados...

http://www.espacoacademico.com.br - Copyright © 2001-2005 - Todos os direitos reservados