Por CELUY ROBERTA HUNDZINSKI DAMÁSIO

Doutoranda em Literatura na Sorbonne e em Filosofia na
Université de Marne-la-Vallée

 

 

Caminhando com a Sorbonne

 

A mais renomada universidade da França, e muitíssimo conhecida em todo o mundo, percorreu uma longa estrada desde a sua criação como uma simples sociedade. O teólogo Robert de Sorbon viveu de 1201 a 1274, foi capelão de São Luís e fundou em 1257, para o clero e os alunos de teologia, um centro de estudos teológicos que permitia aos estudantes pobres ter acesso ao ensino. Nasceu, assim, o Colégio de Sorbonne que juntamente com o Colégio de Calvi resultou o que apelidaram de “Pequena Sorbonne”, também conhecida por “Comunidade de Pobres Mestres Estudantes de Teologia”.

É interessante ressaltar que, apesar de ter participado do movimento que fez brotar as Universidades na Idade Média, a Sorbonne não era nem uma faculdade, nem um colégio, no sentido atual da palavra, tampouco uma congregação religiosa, mas permanecia como uma casa de estudos e hotel onde viviam os estudantes ou mestres em teologia com dificuldades financeiras. O regulamento feito por Sorbon, para o que ele chamava de “sociedade”, determinava que os interessados, que não tinham nenhuma parte na administração, bem como os associados não residiriam, necessariamente, no local. Salvo os estrangeiros de passagem, os contribuintes e os estudantes sem recursos, só poderiam ser recebidos os alunos que, após terem passado por um questionário e um exame, eram eleitos por votos secretos.

No setor administrativo, contava com oficiais eleitos, diretor, orador, procurador, bibliotecário, conselheiros permanentes e assembléias. As assembléias gerais aconteciam quatro vezes ao ano. Todos os membros da comunidade eram considerados iguais; o carimbo da Sorbonne, representado por uma roda com dentes iguais engrenados uns aos outros e ligados a um mesmo eixo, era o emblema desse espírito de igualdade. O orador era escolhido entre os jovens associados e poderia ser leigo.

De acordo com a vontade do fundador, a teologia escolástica foi efetivamente restaurada. Do século XIII ao XV, foram fundados cinqüenta colégios seguindo seu modelo. Como os estrangeiros estavam sempre em número maior que os nativos, no século XV passou a ser restrita aos franceses. Contava com uma rica biblioteca que foi digna de um prédio especial, construído em 1481. Esse acervo foi, posteriormente, transferido para a Biblioteca Nacional Francesa.

Em 1470, por iniciativa de Jean de la Pierre e de Guillaume Fichet, o recinto abrigou as três primeiras editoras do país. Os sorbonistas gozavam de grande respeito e era comum serem tratados por “Senhores da Sorbonne”. Devido a essa reputação, durante os séculos XVI e XVII, foram encarregados de assistir os condenados, visitar os prisioneiros e catequizar os pobres nas paróquias. Era tida como uma Sociedade influente e pretendeu que os locatários de suas propriedades, na vizinhança, fossem homens dados aos estudos.

Com o tempo, foi aparecendo uma estima particular pela instrução geral, sendo fortemente influenciados pelo Renascimento. Deram lugar à filosofia grega, entre outras disciplinas; e a prova para ser concluir o terceiro ano de teologia passou a ter nome próprio: Sorbônica. Porém, somente em 1554 conseguiram a deliberação geral, para isso, desde 1516, foi-lhes exigido que passassem ao estatuto de Faculdade.

No século XVII, houve grandes mudanças. O, então, diretor Richelieu a reconstruiu e ficou sendo considerado como seu segundo fundador. Além de ter tido o máximo de cuidado com cada detalhe, mandou construir, ao redor da “Sala dos Atos” (onde eram defendidas as teses), uma galeria de grades, chamadas “escutas”, através das quais era possível ouvir sem ser visto. Assim, as mulheres puderam passar a assistir às teses. Uma rua foi traçada, ligando-a ao Hotel d’Harcourt. A Universidade tornou-se imensamente célebre, contava com altas personalidades e tinha grande influência. Era oposta às doutrinas da Reforma, sendo profundamente jansenista[1] e galicana[2]. No século XVIII, seus membros tentaram reunir as Igrejas Russa e Católica, e no final do antigo regime, não passavam de 160, pois visavam formar uma elite de verdadeiros sorbonistas. Porém, essa sociedade foi suprimida em 18 de outubro de 1792.

Durante a revolução uma parte de seus alojamentos foi destinada à Escola Normal, a um estabelecimento de calcografia, a um depositário, a um museu, a uma sala de reuniões e a um seminário nacional. De 1801 a 1821 essa parte, chamada Museu das Artes, alojou mais de 100 famílias de artistas que contavam com reuniões de famílias, concertos e danças. A partir de 1821, passou a ser, inteiramente, um estabelecimento de ensino, e as faculdades de teologia, ciências e letras instalaram-se como administração acadêmica. O seu verdadeiro Renascimento data de 1828. Em 8 de fevereiro de 1852, foi entregue à cidade de Paris. Seus mais novos prédios foram inaugurados em 1889. O que restou intacto, da mais antiga construção, foi a Capela, que conta com um observatório.

Hoje, a Sorbonne é composta por treze unidades interdisciplinares, das quais quatro encontram-se no mesmo antigo prédio (Paris IV), além da Universidade René Descartes (Paris V) e da Chancelaria, incluindo o Reitorado de Paris. A Universidade Paris-Sorbonne (Paris IV) herdou a antiga Faculdade de Letras e Ciências Humanas de Paris. Muitos estrangeiros continuam buscando, em seus bancos, o saber. Franceses não poderiam deixar de admirá-la e enfrentar a concorrência. História, nome, tradição, tudo isso foi formando essa tão conceituada Universidade que, tendo passado por inúmeras denominações e ideologias, continua fascinando e despertando o interesse dos intelectuais do mundo inteiro.

Fonte:

www.cosmovision.com

www.paris4.sorbonne.fr

 

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[1] Jansenismo: doutrina baseada no pensamento de Cornélio Jansênio (1585-1638). Defendia a idéia de que o pecado original tirou do homem a liberdade de querer, tornou-o incapaz para o bem e inclinado necessariamente ao mal. É contrária à idéia de que o homem que vive no seio da Igreja tem a salvação ao seu alcance.

[2] Galicanismo: ramo sismático francês da Igreja Católica criado em 1883. Tinha como doutrina o respeito ao Papa, estabelecendo, entretanto, alguns limites ao seu poder. Atribuíam maior poder aos bispos reunidos em concílios. Isso dava à França uma enorme autonomia, porém, controlada pelas autoridades políticas (rei ou imperador).

 

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