Por JOSÉ APÓSTOLO NETTO

Historiador e doutorando em História (UNESP - Campus de Assis, SP)

 

Biblioteca “Carolina Maria de Jesus” da Cidade Tiradentes: a consciência étnico-racial que vem dos livros e documentos

 

Carolina Maria de Jesus. Quarto de Despejo - Diário de uma favelada. São Paulo: Ática, 2001. A despeito da precariedade material que cerca o cotidiano das populações pobres e negras brasileiras; bem como do preconceito das nossas elites, essas mesmas populações têm dado respostas criativas e transformadoras para crônicos problemas sociais do nosso país.

Em mais de uma ocasião, tratei desse fenômeno nos meus artigos, chamando a atenção para a idéia  de que a construção de uma sociedade mais pacífica e tolerante passa necessariamente pela implementação de um projeto político educacional pautado, sobretudo no princípio da diversidade étnico-racial e da pluralidade cultural. Projeto este que teria como parceiros, desde sua feitura até a execução, os governos municipal, estadual, federal e a sociedade civil organizada.

Em outras palavras, procurei apontar nesses escritos que a intolerância é um problema social exeqüível de ser solucionado caso seja encarado também como problema pedagógico. É dever da sociedade e dos seus governantes criar condições para formar pessoas e cidadãos tolerantes.

Ilustração do livro (p. 11)É, pois, agarrado nessa convicção, que volto a falar dessas ações populares que contribuem sobremaneira para a formação cultural e mental do povo da periferia. A iniciativa, dessa vez, vem da Cidade Tiradentes, bairro localizado no extremo da Zona Leste de São Paulo. Trata-se da montagem e administração de uma biblioteca afro-brasileira e africana, denominada Carolina Maria de Jesus.

Em funcionamento desde junho do presente ano, a biblioteca conta com um acervo de quase 200 títulos. O objetivo é catalogar e informatizar um material bibliográfico, literário e documental de aproximadamente 1.000 exemplares, no qual figurem obras literárias  de valor estético e de formação (contos, romances, livros de poesias, crônicas, literatura infantil e juvenil, livros didáticos e paradidáticos e song-books) e a crítica literária de autores afro-brasileiros e africanos;  bem como obras e documentos em geral que abordam o tema.

O nome da biblioteca é, segundo os proponentes, uma homenagem à escritora Carolina Maria de Jesus. Ela representa para a comunidade negra brasileira a força humana e literária direcionada integralmente para o despertar de uma consciência étnico-racial das populações periféricas do Brasil. E isto por duas razões: primeiro, porque denunciou nos seus escritos as profundas contradições da estrutura racista e exclusivista da sociedade brasileira da sua época, e, segundo, porque indicou, na forma de alegorias poéticas, os caminhos para superá-las.

Ilustração do livro (p.21)Ela é, ao mesmo tempo, o relato vivo e ficcional do talento artístico-literário da comunidade negra, considerado menor  por um campo cultural e literário brasileiro organizado sob o signo do cânone artístico europeu e norte-americano.

Nascida em Sacramento, Minas Gerais, em 1914, era neta de escravos. Catadeira de papel por condição, gostava mesmo era de escrever. E isso desde cedo. Foi a reunião dos escritos avulsos da escritora da época da mocidade que originou o seu primeiro romance-diário “Quarto de Despejo”.

Todavia, Carolina só foi apresentada ao público em 1960, graças aos esforços do jornalista Audálio Dantas, que teve que enfrentar o desinteresse do mercado editorial da época pela literatura de extrato étnico-popular.

Ocorre, porém, que devido a fatores imensuráveis pelas técnicas mercadológicas, a primeira edição do “Quarto de Despejo” alcançou a casa dos dez mil exemplares, logo esgotados em uma semana. Sem dizer que foi traduzido para cerca de trinta idiomas, com sucessivas reedições. Foi ainda adaptado para o teatro, para o rádio e para a televisão com grande sucesso de audiência.

Carolina Maria de Jesus publicou também: “Diário de Bitita”, “Casa de Alvenaria”, “Crônicas” e “Pedaços da Fome”.  “Diário de Bitita”, devido ao processo de silenciamento imposto pelo Regime Militar aos setores progressistas da sociedade, assim como ao preconceito intelectual da época, foi publicado primeiro na França (1982), e, anos depois, no Brasil (1986).

Por isso a homenagem à Carolina Maria de Jesus, ao inscrever o seu nome na pedra de fundação da biblioteca afro-brasileira. Ademais, ela cingiu tão liricamente o seu múltiplo (mulher, proletária, escritora e afrodescendente) no cotidiano dos favelados, que acabou por fazer da sua escritura e da leitura os instrumentos autenticamente populares de resistência e de luta contra todas as modalidades de intolerância e opressão social; eternizando assim o seu nome na história cultural brasileira.

A biblioteca funciona nas dependências do “Grupo Ecológico e Cultural Tio Pac” (G.E.C), situado à Rua dos Têxteis, 2.910, Cidade Tiradentes. É mantida e administrada pelo Grupo e conta com dois funcionários para a conservação e organização do acervo, bem como para o serviço de atendimento (empréstimos e devolução de livros do acervo) aos consulentes. Os funcionários foram recrutados junto à comunidade local; a seleção e o treinamento dos mesmos foram e são feitos por profissionais da área de biblioteconomia.

De um ponto de vista geral, a iniciativa chega em boa hora dado a necessidade advinda na esteira das políticas de ações afirmativas no Brasil, em especial a Lei 10.693/03 - que diz da obrigatoriedade da inclusão temática da história da África e da cultura afro-brasileira no currículo da rede ensino brasileiro – de se manter locais públicos de conservação e circulação de obras literárias sobre o assunto.

Especificamente, o projeto nasce da própria necessidade do G.E.C e dos moradores da Cidade Tiradentes de inserir a comunidade no contexto bibliográfico e literário mais amplo e profundo da problemática da formação, preservação e atualização da cultura afro-brasileira em todos os níveis: música dança, religiosidade, comportamento, história, genealogia, tendência, mobilidade, vultos, personalidades etc.

Eles entendem, ao seu modo, que a questão da visibilidade do povo afro-brasileiro, história e cultura, a fim da construção e reconstrução da identidade passa tanto pela produção bibliográfica e literária como pelo trabalho de organização, manutenção e divulgação de um acervo das obras constituintes dessa mesma produção. Ainda mais: que a integração dos momentos do processo de transmissão do saber cultural e livresco – criação, produção, acervo e leitura – é capaz de garantir a fertilização de um solo cultural e mental afrocêntrico orgânico e inclusivo, indispensável na construção de uma sociedade baseada na tolerância e na paz.

 

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