Por EVA PAULINO BUENO

Depois de quatro anos trabalhando em universidades no Japão, Eva Paulino Bueno leciona Espanhol e Português na St. Mary’s University em San Antonio, Texas. Ela é autora de Mazzaropi, o artista do povo (EDUEM 2000), Resisting Boundaries (Garland, 1995), Imagination Beyond Nation (University of Pittsburgh Press, 1999), Naming the Father (Lexington Books, 2001), e I Wouldn’t Want Anybody to Know: Native English Teaching in Japan (JPGS, 2003)

 

Estado de transparência

 

http://en.wikipedia.org/wiki/Image:New_Orleans_Survivor_Flyover.jpgEu não estive nos Estados Unidos nas semanas e meses depois do ataque de onze de setembro de 2001, embora estivesse a ponto de embarcar para o Japão, quando os ataques começaram e o aeroporto em que eu estava , em Detroit—assim como todos os demais do país — foram fechados e evacuados. Eu tive que continuar nos Estados Unidos por outros sete dias, até conseguir um lugar em um avião para Osaka. Naqueles sete dias, que passaram como se fossem um pesadelo, tudo o que se ouvia eram as notícias incessantes da perda de vida em Nova Iorque, Washington e Pittsburgh, e do choque do país, que tinha sido atacado pela primeira vez no seu território continental, por terroristas estrangeiros. Mas quando cheguei de volta ao Japão a realidade do dia a dia de outra vida, outro país, tomou conta. Aqui nos Estados Unidos, de acordo com amigos e parentes, a narrativa dos ataques continuou por mais algum tempo, e logo foi substituída pelo discurso da vingança e a preparação para o ataque ao Afeganistão. O circo da mídia sempre seguindo junto.

Agora, com o desastre em New Orleans na Louisiana, Biloxi e outras cidades em Mississipi, e destruição generalizada na região do Golfo do México, a situação é ao mesmo tempo similar e diferente de 2001. É similar porque o país está revivendo o que parece um trauma nacional: fomos atacados. E diferente porque a narrativa do desenvolvimento da tragédia continua se desenrolando, sem precisar que a mídia fique inventando detalhes, e os comentaristas da televisão analisando ângulos. Os detalhes existem, e, o que é pior, nós tememos que na verdade só ficamos sabendo a história por cima. Talvez nunca possamos saber exatamente tudo o que aconteceu na cidade de New Orleans, ou em Biloxi, ou em outras cidadezinhas destroçadas por Katrina.

Sabemos, e por cima, que o estádio Superdome não resistiu ao furacão, e que o telhado foi quase todo arrancado. Sabemos que os banheiros todos pararam de funcionar, que a eletricidade acabou, que a água acabou, que a comida acabou. Sabemos também que houve uma detalhada triagem dos que entraram na Superdome, e que muitos tiveram que esperar muitas horas para serem admitidos, só pra terem que encarar a destruição do seu único abrigo quando o furacão chegou. Sabemos, porque vimos na televisão, que cidadezinhas inteiras em Mississipi foram reduzidas a montes de madeira, e as imagens nos mostraram alguns residentes vagando por montes de escombros, como se fossem zumbis, atordoados com o que aconteceu.

A primeira página do jornal New York Times do dia 2 de setembro traz uma foto que arrepia: um corpo humano passa boiando, de boca para baixo, enquanto numa ponte uma mulher dá água a um cachorro, sem olhar o corpo. Ela pode não tê-lo visto. Ou então viu que não poderia mais ajudá-lo, e preferiu dar água ao cachorrinho, que pelo menos ainda estava vivo. Isto me fez lembrar uma passagem do texto do Sr. Jun Iwata publicado na Espaço Acadêmico no mês passado, quando ele comenta do descaso dos japoneses ao verem corpos de soldados flutuando nas águas do braço de mar perto da sua casa. A devastação em Nova Orleans pode ser comparada com a devastação de uma guerra, só que, neste caso, é a natureza mesma quem está em guerra com os seres humanos. Fomos atacados, sim, mas talvez este ataque seja um simples aviso da natureza que ela foi atacada antes.

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Nesta crise, o presidente Bush aparece na televisão, primeiro sobrevoando a região afetada. Fotos e mais fotos dele olhando pela janela do avião. Mas ele não aterrissa para ver as pessoas de perto. Não imediatamente. Quando ele desce do avião, será em Mississipi. Aí ele abraça alguns, por uns preciosos minutos separado dos “homens fortes” que sempre o rodeiam quando ele caminha ao ar livre. Mais tarde, algumas pessoas iradas mostram uma foto dele tocando violão numa festa mesmo depois que o furacão havia devastado a região afetada. Num discurso chocho em Washington, ele usa palavras fáceis pra dizer que esta crise vai tornar o país melhor.

Ele não perguntou aos moribundos no aeroporto de New Orleans, evacuados dos hospitais, se eles achavam que, de fato, esta crise vai tornar o país melhor. Também não perguntou à velhinha, uma freira, que estava deitada no chão do aeroporto, com os tubinhos de oxigênio no nariz, respirando com dificuldade, o que ela achava. Ela, por sua vez, rodeada de morte por todos os lados, olhou diretamente para a câmara e disse que esperava que Deus a viesse buscar, para que ela pudesse descansar. Ela tinha sido levada do hospital a outros lugares, e finalmente estava no aeroporto, junto com tantos outros pacientes, alguns morrendo, todos esperando pelo avião que os levaria—talvez—a um hospital.

Mais tarde, quando Bush finalmente fala de improviso, durante uma das paradas para supervisionar o trabalho de salvamento, diz que a casa de um amigo seu tinha sido destruída, e que a casa tinha uma excelente varanda, e que ele ia sentir falta de sentar naquela varanda e conversar com o amigo. Esta fala de improviso caiu tão mal que, desta vez, até os comentaristas conservadores o criticaram. O amigo de Bush, com certeza tem outras casas, e certamente não estava na que o temporal havia destruído. Além do mais, certamente o amigo de Bush tinha a casa segurada, e vai recuperar cada centavo que ela valia. Em resumo: este amigo não perdeu absolutamente nada.

E os demais? Os que perderam tudo? Os que agora não têm um trabalho porque suas lojas, companhias, restaurantes e escolas estão destruídos? O que vai acontecer com eles?

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No dia 4 de setembro, na estação de rádio da National Public Radio, um grupo de veterinários que estava se dirigindo a New Orleans foi entrevistado. De acordo com eles, há muitos animais domésticos abandonados nas ruas agora quase completamente vazias da cidade.

Estes animais, cães e gatos especialmente, também são vítimas da devastação. Alguns se perderam dos donos, alguns pertencem a donos que morreram. Todos, certamente, estarão em estado de choque, com fome, e já doentes, porque estão bebendo a água suja das ruas. Outra coisa que os veterinários apontaram é que a inundação fez com que animais silvestres que vivem em sótãos e árvores entrassem em contacto com os animais domésticos. Uma epidemia de raiva é uma possibilidade. Por isto, o grupo de veterinários estava se dirigindo à cidade para ver que medidas poderiam ser tomadas para ajudar a salvar estes animais.

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Um amigo menos avisado me escreveu, na quarta feira, que não se importava que o sul estava sofrendo, porque, de acordo com ele, “aquela gente elegeu o Bush.” Eu lembrei ao amigo que os que estavam sofrendo não eram necessariamente os “eleitores de Bush,” mas os negros e os pobres (na maioria dos casos são a mesma coisa) de New Orleans.

Qualquer pessoa que tenha visitado New Orleans sabe que aquela é uma cidade pobre, e uma cidade de grande população negra. O sistema de ônibus da cidade vive superlotado, o que indica que uma grande parte da população não tem carros particulares. E os que têm, nem sempre tem suficiente dinheiro para encher o tanque e sair dirigindo em direção ao norte, para se salvar de um aviso de furacão.

Para que não nos esqueçamos: os Estados Unidos, especialmente a região da Flórida e do Golfo do México, têm uma série de furacões de vários graus de violência todos os anos. É da responsabilidade do governo se certificar que todos os residentes saiam da região que vai ser afetada. No caso de Katrina, o alerta foi dado, isto temos que conceder. Mas a assistência a todos os residentes não foi feita. Uma das pessoas entrevistadas no Superdome disse, em prantos, que ele não tinha carro, e que não pôde sair da cidade, porque é um assalariado e não podia abandonar o emprego. Agora, ali se encontrava ele, sem saber o que tinha acontecido com parte da sua família.

Evidentemente, nem todos poderiam sair, a não ser que recebessem ajuda. Os impostos que todos pagamos ao governo federal deveria servir para estes momentos de emergência.

                                                            *

A imprensa texaja tem informado que mais de 250.000 pessoas refugiadas do furacão Katrina entraram no Texas nestes últimos dias, e que mais estarão chegando. Mais de 100.000 pessoas estão morando em hotéis, e as demais estão em abrigos. O governador também disse que está fazendo acordos para trazer navios de cruzeiros ao porto texano de Galveston, para acolher os desabrigados. Agora já se iniciaram  contactos com outros estados para que eles também comecem a oferecer abrigo e assistência a estas pessoas. Utah, Oklahoma, Michigan, Iowa, New York, West Virginia and Pennsylvania já se prontificaram, e o aeroporto de Houston agora se transformou em um ponto de triagem, em que as pessoas recém chegadas de Louisianna recebem água, comida, um check-up médico, e são mandadas a outros lugares.

Isto me faz recordar a entrevista dada por uma das primeiras pessoas a chegar em Houston, vinda de New Orleans, uma mulher de uns cinqüenta anos. Ela estava evidentemente esgotada, depois de tantos dias no Superdome, sem comida, sem água, e vendo tantas pessoas morrendo, outras perdendo a cabeça. Para esta mulher, a cena no Superdome só poderia ser comparada “à escravidão.” Isto é, para ela, somente a comparação a uma época inimaginavelmente horrível faria sentido: todos colocados juntos, sem a menor privacidade, sem a menor proteção, abandonados ao léu. Há notícias de brigas de morte, suicídios, e estupros. O que se viu, na cobertura da televisão, foi que algumas pessoas, exaustas, famintas, estavam à beira da loucura. Quando finalmente o Superdome for vistoriado completamente, se saberá quantos mortos se encontram no local. Muitas histórias obviamente nunca serão contadas, muitas mortes jamais resolvidas.

Se alguém achar que isto é um exagero da parte das pessoas, basta lembrar que o calor em New Orleans chega aos 40 graus nesta época do ano, e que estas pessoas, sem eletricidade, sem comida, sem água, só sabiam que o telhado do estádio tinha sido destruído, e que a água dos diques estava subindo.[1] A resposta oficial do órgão encarregado destas situações—a FEMA—Federal Emergency Management Agency (Agência Federal para Controle de Emergências)—foi lenta e incompetente. A crítica ao governo federal começa a ganhar vulto. Mas hoje, dia 4 de setembro, este mesmo governo federal começa a se organizar para colocar a culpa da catástrofe no governo local e estadual.

Aqui nos Estados Unidos, as pessoas que trabalham com o governo e têm a função de sempre achar o melhor ângulo possível para os governantes, ou então para reescrever a história de uma maneira positiva aos que mandam, são chamados “spin doctors,” que poderia talvez ser traduzidos como “mestres da reviravolta,” ou “inventadores de versões .” É bem possível, nesta hora, imaginar todo um grupo destas pessoas reunidas, tentando encontrar o melhor ângulo. O que me amedronta é que, como a história recente indica, se eles não encontram uma maneira de colocar a culpa em outras pessoas, a melhor saída é começar outra guerra, pra distrair o público. (E este recurso não é utilizado somente aqui: basta lembrar a malfadada “guerra das Malvinas” inventada pelos ditadores argentinos para distrair o povo daquele país, enquanto eles continuavam matando os dissidentes.)

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"Mas se um dia eu tiver que chorar / ninguém chora por mim.” Já dizia a canção de antigamente. Acho que o cantor era o Nelson Gonçalves, mas poderia ser outro. A idéia da pessoa ter que chorar sozinha, e ninguém se importando, é muito triste. Nesta semana, nos primeiros dias da catástrofe causada por Katrina, talvez muitas pessoas diretamente afetadas acharam que estavam nesta situação, de chorarem sozinhas. Mas, felizmente, já muitas pessoas colocaram literalmente a “mão na massa,” para ajudarem os desabrigados, doentes, e perdidos. A Cruz Vermelha, com a auxílio dos meios de comunicação, e numerosas organizações de assistência, está divulgando a mensagem que precisa de ajuda em várias formas. Artistas têm feito shows beneficentes. Companhias têm feito doações. Pessoas comuns têm se oferecido como voluntários, doado dinheiro, roupas, alimentos.

Em San Antonio, os refugiados estão sendo colocados em uma antiga base militar e vários outros abrigos. A mesma falta generalizada de privacidade continua, com todos dormindo em camas de campanha, todos em um espaço comum. Mas pelo menos já todos têm acesso a médicos, hospitais, e às necessidades básicas.

O futuro é incerto: todos estão tecnicamente desempregados. Texas não tem capacidade de absorver um quarto de milhão de pessoas em sua força de trabalho, a não ser que o governo inicie algo semelhante ao que fez durante a depressão do fim dos anos 30 do século passado, e tenha trabalhos em obras públicas para oferecer pelo menos aos pais e mães de família. O meu receio, que também é o receio de muitas pessoas que conheço, é que esta multidão de refugiados veja as forças armadas como única alternativa. A pressão que obviamente vai ser posta nas cidades que receberam grandes números de refugiados vai ser muito grande. Só o tempo dirá como todos conseguirão reencontrar seus entes queridos, seus trabalhos, suas vidas.

                                                            *

É difícil, numa catástrofe de tais dimensões, imaginar-se um ponto positivo. Tantas vidas foram perdidas. Tantas propriedades destruídas. Tantas pessoas estão completamente arruinadas. Tantas estão traumatizadas para sempre. Mas, apesar de tudo, o que esta tragédia expôs, para o mundo inteiro, foi a verdade que nos Estados Unidos há muita gente pobre, vivendo à beira da miséria. Também expôs o fato que a maioria destes pobres é negra.

A pobreza pasteurizada e glamorizada dos filmes de Hollywood é uma mentira. A pobreza aqui dói do mesmo jeito que a pobreza de outros países. A pobreza existe, e as pessoas sofrem. Neste momento, pelo menos adquirimos um pouco mais de transparência da realidade nacional, da brutal diferença de classe entre brancos e negros. Algo também precisa ser dito a respeito da generosidade das pessoas daqui, que assim que começaram a chegar as notícias da calamidade, começaram a arrecadar fundos, enviar voluntários, e se movimentar para pressionar os órgãos governamentais a fazerem algo para salvar as pessoas afetadas pelo furacão.

Uma última notícia, que, apesar de tantas mortes terríveis, nos lembra que sempre devemos ter esperança: uma jovem grávida, que chegou a San Antonio com uma leva de refugiados, deu à luz uma menina. Mãe e filha estão saudáveis. Para este bebê, este foi um final feliz. Seus pais contam com a generosidade do povo de San Antonio para conseguir  as roupinhas do bebê, já que o enxoval que estava pronto foi perdido na inundação. Mas o importante é que o bebê está vivo, e os pais estão vivos. Amanhã é sempre outro dia, quando se tem saúde para lutar e ir adiante, e a certeza de que vale a pena continuar a luta do dia a dia.

Talvez, com o tempo, New Orleans seja reconstruída, e seus moradores retornem. Mas vai levar muito tempo.

 

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1] A Revista National Geographic News, no dia 2 de setembro de 2005, () traz um excelente artigo  sobre a história dos diques de New Orleans, e de como eles de fato não foram construídos para agüentar um furacão de categoria 4 ou cinco. Os diques já se romperam em outras ocasiões: em setembro de 1947 um furacão inundou parte da cidade a uma profundidade de um metro. Em 1965, o furacão Camille inundou novamente partes da cidade a uma profundidade de 3 metros. Em 1998 o furacão Goerges provocou a evacuação da Cidade de Crescent, mas não chegou a afetar New Orleans. Isto é: por causa da sua peculiar situação de ser uma cidade construída abaixo do nível do mar, New Orleans sempre esteve em perigo, e os diques são, realmente, a sua maior proteção. É difícil entender por que as verbas para sua manutenção têm sido progressivamente cortadas nos últimos anos.

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