Por HENRIQUE RATTNER

Professor da FEA (USP), IPT e membro da Associação Brasileira para o Desenvolvimento de Lideranças (ABDL)

 

Brasil e China

 

Presidente da China, Hu JintaoA comparação entre os dois países impõe-se como um exercício crítico dos caminhos e estratégias de desenvolvimento seguidos pelas duas sociedades nos últimos vinte e cinco anos.  A visita do presidente da China, Hu Jintao, à Brasília, DF, na segunda metade de novembro de 2004, enseja a oportunidade de uma avaliação comparativa da situação e das perspectivas dos dois países nesse limiar do século 21.

Durante sua visita o presidente chinês exigiu o reconhecimento de status da China como economia de mercado, o que facilitaria seu ingresso à Organização Mundial de Comércio – OMC.  Sem fazer promessas acenou com o fechamento de contratos comerciais e a viabilização de investimentos chineses no Brasil, particularmente em infra-estrutura.  Ouviu o pleito do Brasil para obter apoio da China, quando da reorganização das Nações Unidas, por um assento permanente no Conselho de Segurança, sem manifestar-se a respeito.

Há mais de duas décadas a economia chinesa cresce à taxa anual superior a 9%, medida pelo produto interno bruto – PIB para assombro e inveja de economistas e políticos ocidentais.  Junto com o crescimento econômico ocorreu um acelerado processo de urbanização que transferiu dezenas de milhões de camponeses para as cidades, a um ritmo superior a qualquer outro país na História recente.  Junto com a população expandiu-se o processo de desenvolvimento em direção ao interior por milhares de quilômetros ao longo dos grandes rios Yang-Tse e Huang-Ho acumulando ininterruptamente capital e investindo mais de 40% do PIB, além de absorver mais da metade dos foreign direct investment – FDI dos investimentos estrangeiros do Mercado Mundial.  Com uma ampla oferta de mão-de-obra relativamente qualificada e o acesso à tecnologia de ponta, a China conseguiu exportar e abarrotar os mercados externos com seus produtos, ao mesmo tempo acumulando um saldo superavitário em sua balança comercial de aproximadamente US$ 200 bilhões.

A qualidade de vida de toda a população melhorou nesse período, incluindo uma crescente e próspera classe média.  Seu coeficiente de GINI – parâmetro de distribuição desigual da renda – é igual ao dos Estados Unidos.  Apesar de previsões pessimistas que afirmam a insustentabilidade do presente crescimento do PIB e das exportações, os avanços na transformação e expansão do mercado interno reforçam a tendência ao crescimento da economia chinesa, atualmente já a terceira do mundo.

Sem dúvida, a China enfrenta enormes problemas sociais e sobretudo, ambientais cujo equacionamento e solução exigirão investimentos e esforços adicionais de planejamento da expansão econômica e social.  Nesse período de vinte e cinco anos a China conseguiu incorporar à sociedade entre duzentos e cinqüenta a trezentos milhões de pessoas como membros produtivos, mais do que todos os países “emergentes” ou em desenvolvimento em seu conjunto.  A liderança chinesa, o partido e o governo estão confiantes e decididos em levar a dinâmica do processo de desenvolvimento da costa para o interior onde se encontra a população mais pobre do país.

O Brasil arrasta-se por mais de vinte anos numa recessão econômica – as duas décadas perdidas – durante as quais ficou exposto a políticas macroeconômicas e cambiais irresponsáveis e ruinosas que deixaram o Tesouro Nacional exaurido e o país endividado.

Os sucessivos governos foram obrigados a recorrer ao Fundo Monetário Internacional – FMI a fim de evitar o desmoronamento financeiro e o calote aos seus credores nacionais e internacionais.  Como o saldo dessas políticas macroeconômicas tivemos um aumento do número de milionários e também dos excluídos, desempregados, sem-terra e sem-teto.  O nível das dívidas externa e interna alcançou patamares inéditos em nossa História, o que contribuiu para a elevação da taxa de risco para o país e da taxa de juros estrangulando qualquer possibilidade de um crescimento econômico sustentado.  É verdade, tivemos nos últimos dois anos – 2003 e 2004 – um saldo positivo na balança comercial com o exterior devido ao aumento das exportações, commodities e produtos semi-elaborados de baixo valor agregado cujos resultados serviram para cumprir com os compromissos contraídos com o FMI e os bancos nacionais e internacionais.  Pagamos anualmente somas astronômicas a título de juros e amortização do principal.  À vaidade dos governantes por terem honrado os compromissos com os credores devem ser contrapostos os custos ambientais e sociais dessa política que, obviamente, não foram contabilizados.

O avanço da economia brasileira para o interior foi comandado pelo agronegócio que deixou em seu rastro um imenso vazio demográfico, expulsando as populações nativas, caboclos e índios.  Ao mesmo tempo possibilitou a formação e novos latifúndios – vide o “rei” da soja, ocupando sucessivamente as terras do cerrado e do sul da Amazônia, constituindo uma verdadeira ameaça aos ecossistemas, à biodiversidade, ao clima e à população do país.  As tão apregoadas vantagens para o incremento das exportações brasileiras são ilusórias e precárias, devido ao pouco valor agregado e a volatilidade dos preços das commodities no mercado mundial.

Façamos um rápido balanço social e político a partir da reconquista da democracia com o fim do Regime Militar, em 1985. O aumento de graus de liberdade, sobretudo para a classe média, foi acompanhado por desemprego, queda da massa salarial e o empobrecimento de um número crescente de brasileiros.  Para os pobres, os sem-teto, os sem-terra, a liberdade significa poderem dormir debaixo de pontes e viadutos ou nas ruas, ainda assim expostos às agressões de capangas contratados por latifundiários ou por assassinos profissionais como recentemente ocorreu em São Paulo e no Rio de Janeiro.

O quadro político durante os governos pós-militares permaneceu praticamente inalterado, em que pese a vitória eleitoral do Partido dos Trabalhadores – PT nas eleições de 2002.  O Congresso continua dominado pelos representantes das “elites” (os famigerados trezentos picaretas, segundo o atual presidente) que defendem os interesses de uma coalisão difusa, mas sempre alerta, de proprietários de terras, grandes empresas industriais nacionais e transnacionais, da tecnoburocracia civil e militar e da mídia controlada por um oligopólio estreitamente associado aos grupos dominantes.  O PT, ou melhor, sua cúpula, acabou sendo cooptado pelo rolo compressor da “elite”, endossando seu discurso e suas políticas econômico-financeiras.  Assim ampliou-se o fosso entre os have and have not, ricos e pobres, moradores de mansões luxuosas e das favelas.

Como explicar a discrepância no ritmo e na intensidade do desenvolvimento de dois gigantes territoriais com imensos recursos naturais e humanos?

A China passou nos anos sessenta pelo movimento da Revolução Cultural, sob a liderança do presidente Mao Tse Tung, mobilizando e despertando politicamente dezenas de milhões de camponeses, trabalhadores e estudantes.  Ao mesmo tempo foram varridas do cenário social e político as “elites” tradicionais que arrastaram a China durante séculos pela mais abjeta miséria e por guerras intermináveis entre generais feudais.

No Brasil, as “elites” se perpetuam e continuam intocáveis mesmo após a abolição da escravidão e a proclamação da República ocorridas sem qualquer participação das massas populares.  Permanecemos assim, apesar da urbanização e industrialização no século 20, uma sociedade profundamente dividida, desigual e injusta.

Por outro lado, apesar das aparentes crueldades e das injustiças cometidas durante a Revolução Cultural, a China emergiu dela como uma sociedade mais coesa e solidária e seus membros mais conscientes de seu legado histórico e de sua identidade nacional e cultural.

Na fase de transição para uma sociedade industrial moderna, a presença do Estado com sua capacidade de planejar, orientar e regulamentar os investimentos produtivos teria sido o fator fundamental para o surgimento da potência hegemônica chinesa no cenário internacional, à semelhança do Japão no século 19. 

E a ação do poder público, apoiado em amplo consenso da população, cria oportunidades para planejar e fiscalizar a aplicação de recursos materiais, humanos e financeiros que garantem o êxito na condução do processo de desenvolvimento.

 

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