Por ANTONIO OZAÍ DA SILVA

Docente na Universidade Estadual de Maringá (UEM), membro do Núcleo de Estudos Sobre Ideologia e Lutas Sociais (NEILS – PUC/SP) e Doutor em Educação pela Universidade de São Paulo

 

Adeus PT!

 

O PT nasceu enquanto expressão dos movimentos sociais, contestador do sistema sócio-econômico enraizado historicamente na sociedade brasileira; crítico da política eleitoralista, clientelista e populista e do ranço autoritário que permeia o tecido social. Por outro lado, o PT exprimia a crítica à concepção de partido de quadros revolucionário, própria da esquerda ortodoxa marxista-leninista vinculada à tradição da III Internacional. Simultaneamente, o PT incorporou essa tradição, bem como os fatores de legitimação da democracia liberal. Nesse sentido, o PT representa a síntese possível entre as diferentes tradições presentes na esquerda brasileira, os novos elementos oriundos dos movimentos sociais da década de 1970/80, a contribuição de militantes cristãos da Teologia da Libertação e intelectuais independentes.

O PT não nasceu socialista, nem muito menos revolucionário. Porém, desde os primeiros momentos, assumiu a crítica ao socialismo autoritário vinculado às experiências do Leste europeu e da ex-URSS – dois exemplos históricos foram o seu apoio ao Solidarnosc polonês (o Solidariedade de Lech Walessa) e a condenação ao massacre da Praça da Paz, em 1989, na China. Não obstante, esta postura se mostrou ambígua, dado as relações petistas com os “partidos irmãos” e os vínculos com os países ditos socialistas. Mesmo assim, o PT abrigou em seu seio as utopias cristãs e comunistas por uma sociedade democrática, justa e igualitária.

O PT contestador deu lugar ao PT integrado à ordem; a utopia cedeu ao pragmatismo, rebatizado como realismo político; a defesa de uma política de classe independente foi substituída pela política de alianças com os partidos e forças políticas historicamente situadas no campo oposto ao petismo; a generosa promessa do PT enquanto uma nova forma de fazer política foi negada pela transformação dos meios e dos fins: ganhar o governo federal passou a ser a estratégia principal, e o meio escolhido expressou a negação dos princípios que deram origem ao PT; a conquista do governo, amparado num amplo leque de alianças políticas e no discurso positivista, revelou-se um projeto econômico e político conservador; a governabilidade passou a ser o novo objetivo e, em nome dela, os meios adotados revelaram-se uma armadilha. O PT terminou refém da estratégia de acúmulo de forças – uma reedição da tese etapista da revolução democrática e nacional defendida historicamente pelos partidos comunistas – definida no seu V Encontro Nacional, realizado em 1987. É certo que esta estratégia era interpretada de maneira diferenciada pelas forças constitutivas do espectro petista, mas foi a sua versão eleitoralista e melhorista que se impôs.

O PT das origens combateu a concepção vanguardista de partido inspirada no leninismo; o PT do presente transformou-se num partido de quadros à moda burguesa, isto é, um partido burocratizado, controlado por um grupo restrito de personalidades e constituindo uma poderosa máquina política, cujo funcionamento é azeitado pela contribuição financeira dos seus filiados, em especial dos que ocupam cargos públicos.

O PT do passado se fez paladino da ética na política; o PT do presente se vê enredado num dilúvio de denúncias que envolvem seus principais dirigentes, as quais sepultam sua pretensão moralista. Maquiavel ensinou que ética e política expressam dimensões diferentes da ação humana. Não que a política possa prescindir da ética! Tolos os políticos que descuidam dos valores morais e religiosos presentes na sociedade. Porém, não é menos tolice acreditar que o ideal moralista da honestidade e dos indivíduos incorruptíveis é patrimônio da esquerda. Ao abraçar o discurso da ética na política de maneira dicotômica e maniqueísta, direita versus esquerda, o bem versus o mal, os militantes sinceramente éticos se desarmaram e se surpreendem quando a lama avança sobre os seus próprios pés e ameaça tragá-los.

O PT das origens foi sepultado pela política da cúpula dirigente. A esquerda petista contribuiu com este processo. Incrustada na máquina partidária e ocupando posições importantes no aparato do Estado, têm interesses em comuns com a direção hegemônica. A esquerda petista vive o dilema de se desvencilhar da política econômica do Governo Lula, sustentado pelo PT, e, ao mesmo tempo de apoiar o governo; a esquerda petista se dilacera entre a postura de resguardar o partido e a certeza de que o odor fétido que exala no ambiente petista indica o arder das almas inferno dantesco.

Se almas há a serem salvas, estão são as dos milhares de militantes espalhados por este país, perplexos, frustrados e com o sentimento de que o chão cede aos pés. Afinal, o alicerce construído sob os fundamentos da ética na política balançam e ameaçam tragar a todos os que acreditaram nas “santas intenções” dos dirigentes. O apelo às bases é resgatado por líderes petistas defenestrados, como que imbuídos do espírito da “guerra santa” capaz de envolver a militância, atônica e catatônica, numa cruzada sagrada contra a direita. O governo Lula e seus aliados são “de esquerda”?

É certo que os partidos opositores ao governo Lula alimentam a crise e apostam no seu enfraquecimento. Seria razoável esperar outra postura? Isto indica que as denúncias não devem ser apuradas? Garante a inocência dos acusados? O argumento do “golpe de direita” não dá conta da realidade e nem responde às indagações que pairam sobre as cabeças petistas. É interessante como argumentos que pareciam sepultos pela queda do muro de Berlim e o fim da guerra fria são resgatados em nome de uma concepção política maniqueísta que divide o mundo entre os amigos e os inimigos. Assim, a crítica à esquerda é tomada, a exemplo do velho estilo stalinista de fazer política, como algo que joga água no moinho da direita. Nessa concepção, resta-nos à militância de esquerda – petista ou não – defender o governo Lula e o PT; restaria aos petistas, ainda que perplexos, defenderem o partido. O partido deve ser resguardado!

Convenhamos, cada dia que passa fica mais difícil sustentar tal política. A crise é do PT, da sua história, da sua prática política no governo. Nenhuma crise existe apenas pela vontade dos adversários, da oposição. O que fará a esquerda petista?! Tudo indica que permanecerá no interior do PT com o conhecido argumento da necessidade de disputar os seus rumos. Todavia, a crise atual não tem precedente. E, se o caldo entornar, será sustentável o argumento da permanência no partido? O tempo dirá.

O PT das origens está morto! Metaforicamente ele sobrevive nas mentes e corações de uma geração envelhecida pelo tempo mas que mantém viva a utopia que alimentou os sonhos e esperanças. Nem me refiro aos que ocupam cargos e posições na máquina partidária e no Estado, mas sim àqueles que fizeram da sua militância a razão do viver, e acreditarem sinceramente que realizavam a utopia em cada vitória eleitoral, em cada atitude da luta política cotidiana. São indivíduos que, na linguagem política dos bons e velhos tempos, carregam o piano; são os anônimos, os que, nas periferias das grandes cidades e nos grotões deste imenso país, abraçaram a militância política com desprendimento e apegados a uma concepção ética e solidária do fazer a política.

Se o PT tem uma alma, ela está naqueles que deram os melhores anos das suas vidas para que ele se transformasse numa realidade, num partido depositário das esperanças de um novo socialismo, de uma nova sociedade. Os que acreditaram que um novo Brasil era possível vêem agora um espetáculo de horrores. Estarão dispostos a permanecerem na defesa dos dirigentes do PT? Atuarão, mais uma vez, como soldados de uma guerra santa declarada e nominada por seus líderes? Serão capazes de tomar o partido em suas mãos?

A alma petista está em crise. Até quando os que assumem uma dimensão política e utópica vinculada ao socialismo e à transformação da sociedade se reconhecerão no partido? Nós, os que dedicamos anos da nossa vida a este projeto político, quiçá, os melhores anos, nos entristecemos e temos a alma dilacerada pelo que vimos. Fica-nos a sensação de que também somos responsáveis pelo que está aí. Mas não! Se alguns venderam a alma e se corromperam ao compartilharem os podres poderes, não podem falar em nosso nome. O projeto deles é outro! O PT deles nada tem a ver com aquele partido pelo qual lutamos e sonhamos. O PT realmente existente é negação do PT das origens. O PT de hoje persistirá como um espectro tragicômico do PT que um dia existiu e que representava a utopia. As instituições não são eternas. Adeus PT!

   

 

 

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