Por JOSÉ APÓSTOLO NETTO

Historiador e doutorando em História (UNESP - Campus de Assis, SP)

 

Paulo Prado e Monteiro Lobato: 

a crítica da interpretação - II

 

Monteiro LobatoO corpo, o trabalho, a língua: os espaços da varredura crítica

A operação crítica que Paulo Prado e Monteiro Lobato procedem assemelha-se a uma varredura crítica sobre os referentes que o símbolo romântico recobriu, no Brasil, ao longo do século 19. Pretendendo uma espécie de restituição da “verdadeira essência” desses referentes, eles empreenderão uma verdadeira varredura sobre o corpo, o trabalho e a língua do homem rural, no caso de Monteiro Lobato, e do homem brasileiro, no caso de Paulo Prado.

A repetição

Na vida, no trabalho e na língua, quer do jeca quer do povo brasileiro, tudo se repete, é sempre o mesmo, enfim, o império do igual que se apresenta diante dos nossos olhos. Não existe um cantinho da vida desses dois tipos que não foi recoberto pelo movimento interpretativo da repetição, que dá impressão de um eterno retorno existencial.

Esse sempre igual, o retorno do mesmo, em diferentes tempos e diferentes níveis da vida, apresenta-se, não apenas como um movimento de crítica da interpretação mistificadora, como também uma necessidade imperiosa da re-interpretação dessa realidade. “Rangel, é preciso matar o caboclo que evoluiu dos índios de Alencar e veiu até Coelho Neto – e que até o Ricardo romantizou tão lindo (...)”[1], propõe Lobato ao amigo. É preciso abolir a interpretação romântica e afrancesada da elite e instaurar a interpretação naturalista.

Por seu lado, Paulo Prado não é menos radical: “nesse marasmo todo será necessário fazer tábula rasa para depois cuidar de renovação total.”[2], conclui depois da crítica que faz aos discursos, teorias, doutrinas e práticas políticas que desvia a população da verdadeira imagem do Brasil.

É certo pensar que essa postura seja resultante da influência das idéias deterministas e racionalistas européias e norte americanas, da opção dos escritores brasileiros da época pelo realismo e pelo naturalismo como alternativa ao romantismo desgastado, ou, ainda, o descontentamento de determinados setores sociais com o regime republicano.

Leituras possíveis e procedentes, que podem até explicar por que Paulo Prado e Monteiro Lobato interpretaram desse criticamente a realidade brasileira. Mas que não podem dizer por que fizeram desse e não daquele, abordaram esse e não aquele objeto, utilizaram essa e não aquela estratégia narrativa. Enfim, não pode dizer por que eles não se limitaram a criticar a realidade, mas foram mais longe: operaram antes de tudo a crítica das interpretações deformadoras da realidade como ainda reinterpretaram a realidade de modo a apresentar novos objetos, outros conceitos e diferentes narrativas no campo da literatura e do ensaio.

Entendemos, outrossim, que uma análise relacional das diversas práticas discursivas e não discursivas, bem como a descrição do campo literário e intelectual da época possa apresentar-se mais esclarecedora dos feitos e das obras de Paulo Prado e Monteiro Lobato.

É procurando descrever o campo discursivo, no que diz respeito à dispersão dos seus objetos, dos seus conceitos, dos seus sujeitos de enunciação, e do lugar de onde fala esse sujeito; bem da análise das estruturas homólogas do social, da política e da literatura e do pensamento que acreditamos encontrar elementos explicativos da forma específica de pensamento e de escrita de Monteiro Lobato e Paulo Prado.

Mas retornemos análise da repetição em Velha Praga e Retrato do Brasil. Neste, tal operação é visível na própria estrutura maior do livro. Ele está dividido, excetuando o “Post-Scriptum”, que entra como uma espécie de justificativa teórica, basicamente em quatro partes: a luxúria, a cobiça, a tristeza e o romantismo.

Essas quatro partes organizam-se de modo a operar a varredura crítica do corpo, do trabalho e da linguagem do povo brasileiro na pretensão de mostrá-lo, de ponta a ponta, reduzido às condições mínimas de vida. Quer em sua materialidade orgânica, quer em sua atividade produtiva, quer em sua linguagem o brasileiro não passa de um traço, de uma linha, de um mínimo.

É, por isso, que no que diz respeito ao corpo, veremos o brasileiro, em meio à saga do descobrimento e da colonização, reduzido às necessidades fisiológicas de satisfação do apetite sexual. Nas palavras do autor, tudo conspirava para reforçar esse traço animal que a todos contaminava:

“Mas todos sofriam a sedução dos trópicos, vivendo uma vida animal e bebendo com delícia um ar como que até então irrespirado.”[3] (...) O Clima, o homem livre na solidão, o índio sensual encorajavam e multiplicavam as uniões de pura animalidade. (...)”[4]

Na atividade econômica, o fenômeno se repete. O brasileiro não passa de uma insuficiência produtiva vivendo sempre de um progresso nômade e passageiro. Como diz o autor:

“Apesar do desenvolvimento agrícola em certas capitanias, culminando com várias vicissitudes na exploração pernambucana e baiana da cana-de-açúcar – e concomitantemente com o estabelecimento dos currais de gado – o Brasil foi, entretanto, na lenda e na realidade, o país do ouro e das pedras preciosas.”[5]

No corpo, no trabalho é sempre o mesmo que comparece no brasileiro. É sempre a repetição quase neurótica do mínimo, do traço, da caricatura que se afirma. Na vida não é diferente. Em meio à sinfonia da natureza e da paisagem, diante da melodia ético-estética dos vizinhos do Norte, apenas uma nota vibra na vida do brasileiro: a nota da melancolia, da tristeza despotencializadora; fenômeno resultante dos dois primeiros: a luxúria e a cobiça.

Segundo o autor: “A história do Brasil é o desenvolvimento desordenado dessas obsessões subjugando o espírito e o corpo de suas vítimas”[6]

Na linguagem, ou melhor, na intimidade daquele que fala e escreve, o elemento simplificador – mais uma vez, o traço - é o romantismo. Que, além de dissociar a palavra da realidade das coisas, impregnou no espírito do brasileiro sentimentos negadores da vida. A dor, a tristeza, a melancolia, o pessimismo e a morte são os temas recorrentes da estética e ética romântica.

Todavia, é num extenso movimento circular, a reproduzir o mito do eterno retorno, que a repetição da linguagem romântica se apresenta entre nós. Assim denuncia o autor:

“Entre nós, o círculo vicioso se fechou numa mútua correspondência de influências: versos tristes, homens tristes; melancolia do povo, melancolia dos poetas. A nossa primeira geração romântica já fora triste, porque religiosa e moralizante, observou José Veríssimo; na segunda, a tendência se acentuou pelo cepticismo e desalento dos chefes da escola. Perseguia-os a idéia contínua da morte próxima e, como a uma mulher desejada, lhe faziam versos amorosos.”[7]

Como vimos defendendo, o processo de varredura crítica do corpo, do trabalho e da linguagem organiza as obras de Paulo Prado e Monteiro Lobato. Apenas uma diferença se apresenta aí. Enquanto o primeiro fala sempre do geral para o particular e deste de volta para aquele, o segundo partirá sempre do caso particular.

Um estuda o país, o outro o indivíduo, embora, notemos uma certa confusão de planos: o país ganha características do indivíduo e o indivíduo pretende-se extensivo ao país. “O Brasil é uma jecatatuasia de oito milhões de quilômetros quadrados”[8], dirá Monteiro Lobato quase um ano depois de Velha Praga e Urupês.

No Jeca, a varredura crítica começa pelo corpo. Mas não é a sua morfologia física que é descrita. O jeca não é sistema orgânico estruturado e estruturante, enfim, ser vivo reagente ao meio. É antes uma simplificação postural. Assim ele é descrito:

“Porque a verdade nua manda dizer que entre as raças de variado matiz, formadora da nacionalidade e metidas entre o estrangeiro recente e o aborígine de tabuinha no beiço, uma existe a vegetar de cócoras, incapaz de evolução, impenetrável ao progresso. Feia e sorna, nada a põe de pé”[9]

Essa descrição do não-corpo do Jeca é retomada repetidas vezes ao longo do texto, como que para mostrar que, a despeito do contexto em que apareça, o caboclo será o eterno retorno do mesmo, do sempre igual, do semelhante: “Nada o esperta. Nenhuma ferrotoada o põe de pé. Social, como individualmente, em todos os atos da vida, Jéca, antes de agir, acocora-se.”[10]

Na linguagem e no pensamento, o Jeca é também reduzido a uma quase fala e a uma quase idéia. Nada nele tem materialidade quer física quer sonora. Assim ele é descrito:

“Ei-lo que vem falar ao patrão. Entrou, saudou. Seu primeiro movimento após prender entre os lábios a palha de milho, sacar o rolete de fumo e disparar a cusparada d’esguicho, é sentar-se jeitosamente sobre os calcanhares. Só então destrava a língua e a inteligência.

-‘não vê que...’

De pé ou sentado as idéias se lhe entramam, a língua emperra e não de dizer coisa com coisa.”[11]

No trabalho, ele também não passa de um mínimo. Senão vejamos a fala do cronista:

“Jéca mercador, jeca lavrador, jeca filosofo... Quando comparece ás feiras, todo mundo logo adivinha o que ele traz: sempre coisas que a natureza derrama pelo mato e ao homem só custa o gesto de espichar a mão e colher – cocos de tucum ou jissára, guabirobas, bacuparis, maracujás, jataís, pinhões, orquídeas; ou artefatos de taquara-póca – peneiras, cestinhas, samburás, tipitis, pios de caçador; ou utensílios de madeira mole – gamelas, pilõesinhos, colheres de pau. Nada Mais. Seu grande cuidado é espremer todas as conseqüências da lei do menor esforço – e nisto vai longe.[12]

Reflexões finais

A nossa análise tentou mostrar como Paulo Prado e Monteiro Lobato, comparativamente, transitavam no duplo do saber moderno. Por um lado, eles entendiam que as palavras, as idéias, as teorias, as ideologias e os discursos não davam conta da realidade, não traziam uma verdade, que não passavam de interpretações que estavam longe alcançar uma objetividade.

Falava neles aí o hermeneuta, o crítico da interpretação que não vê no campo do saber senão uma coleção de técnicas de interpretações livres de hierarquias.

Por outro lado, vão se apegar também à idéia de profundidade do conhecimento e de densidade do objeto; idéia fundada pela epistemologia moderna ao fornecer condicionantes externos ao trabalho – produção -, à vida – biologia - e à linguagem - filologia. Aqui não é mais o hermeneuta que fala em Monteiro Lobato e Paulo Prado, mas o cientista que munido de um saber objetivo vai esquadrinhar o objeto a procura da existência ou não existência de evolução, de estruturas complexas, de memória.

Essa varredura crítica será feita, por isso, no corpo, no trabalho e na linguagem do caboclo, no caso de Monteiro Lobato, e do brasileiro, no caso de Paulo Prado. Como o caboclo e o brasileiro que eles estudam pertencem a um outro campo epistemológico, quiçá àquele saber clássico das representações no qual as correspondências e equivalências eram a chave para o entendimento do elo entre a civilização e o homem primitivo, como pensou ou idealizou Rousseau, então aqueles não vão encontrar nestes nada que denuncie uma história.

Se o corpo do Jeca e do brasileiro não estabelece uma relação ativa com meio que o cerca; se o seu ser não está submetido à fadiga do tempo de trabalho; se a sua linguagem não imprime no corpo das palavras as tradições, a memória; então a sua existência será, semelhante à natureza, reduzida pelo pensamento moderno à pura repetição do sempre igual.

É por isso que aos olhos de Monteiro Lobato e Paulo Prado o caboclo e o brasileiro aparecerão, em todos os níveis da vida, como um mínimo, um traço; dado a inexistência de uma relação vital com o entorno e com o tempo, não possuem, eles historicidade que, para o pensamento moderno, é o que tira o ser da inércia e o lança para a vida.

Posto isto, não fica difícil entender a estrutura circular dos textos Velha Praga, Urupês e Retrato do Brasil; não vendo senão a repetição na vida do Caboclo e do brasileiro nada mais adequado que traduzi-los literariamente em termos do mito do eterno retorno. Pelo menos foi assim que o pensamento moderno de Monteiro Lobato e Paulo Prado, e a sua literatura recriou, pensou o homem e a realidade brasileira.

Por outro lado, o pensamento deles também pensou, como vimos, a desconfiança em relação à linguagem; desconfiança esta que os levou, até certo momento, a pensar a realidade mais como produto de múltiplas interpretações que uma revelação.

Mas daí a transformar esse olhar múltiplo em discurso literário vai um abismo que só seria mais tarde transposto por escritores modernos como Mário de Andrade ou Guimarães Rosa.

Paulo Prado e Monteiro Lobato, por ora, afiguram como essas poucas figuras enigmáticas das nossas letras e da nossa cultura que se situam entre o imperativo do fechamento e a promessa de abertura do pensamento. O pensamento moderno ao qual se filiam colocou-os diante dessa dualidade criadora e instrutiva.

 

Bibliografia

BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 37 ed. São Paulo: Cultrix, 1994.

BOURDIEU, Pierre. As regras da arte: gênese e estrutura do campo literário. Trad. Maria Lucia Machado. São Paulo: Cia das Letras, 1996.

CAVALHEIRO, Edgar. Monteiro Lobato. Vida e Obra. 3 ed. v. 1 e 2. São Paulo: Brasiliense, 1962.

FERREIRA, Antonio Celso. A epopéia bandeirante: letrados, instituições, invenção histórica (1870-1940). São Paulo: Editora da Unesp, 2002.

FOUCAULT, Michel. As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas. Trad. Salma Tannus Muchail. 6 ed. São Paulo: Martins Fontes, 1992.

LEITE, Dante Moreira. O caráter nacional brasileiro. 4 ed. São Paulo: Pioneira,1983.

LOBATO, José Bento Monteiro. Urupês. 26 ed.. São Paulo: Brasiliense, 1982.

-------------. A Barca de Gleyre. 4 ed..v 1 e 2. São Paulo: Brasiliense, 1951. (Primeira Série da Coleção Obras Completas).

LUCA, Tânia Regina de. A Revista do Brasil: um diagnóstico para a (N) ação. São Paulo: FFLCH/USP, 1996.

PRADO, Paulo. Retrato do Brasil: ensaio sobre a tristeza do brasileiro. 2 ed. São Paulo: IBRASA/INL, 1981.

 

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[1] LOBATO, José Bento Monteiro. Op.cit. p.364

[2] PRADO, Paulo. Op.cit. p.152.

[3] Ibidem. p. 24

[4] Ibidem, p 31.

[5] Ibidem, p. 61.

[6] ibidem, p. 90.

[7] Ibidem.p. 127.

[8] LOBATO, José Bento Monteiro. A Barca de Gleyre. 4 ed. V 2 .São Paulo: Brasiliense, 1962. p. 40.

[9] Idem. Urupês. 26 ed. São Paulo: Brasiliense, 1982. 146-147.

[10] Ibidem. p. 147.

[11] Ibidem.

[12] Ibidem. p. 148.

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