Por RAYMUNDO DE LIMA

Psicanalista, professor do DFE da Universidade Estadual de Maringá (PR); doutorando em educação (FEUSP)

 

Sobre chatices e chatos (II)

(Da etimologia e uso da palavra; o ‘habitat’ e a servidão voluntária dos chatos)[1]

 

Chato é uma pessoa que fala quando você quer que ela ouça”

Ambroise Berge

 

“É chato chegar a um objetivo num instante
Eu quero viver essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”

Raul Seixas Metamorfose ambulante”.

 

Da etimologia ao uso da palavra e o ato

Os etimólogos dizem que o termo “chato” provém do nome vulgar dado a um inseto anopluro da família dos pediculídeos (phtirius púbis ou pediculus pubis), geralmente cosmopolita, que gosta de viver na região pubiana e, eventualmente nas sobrancelhas e axilas.

Como “a significação da palavra é seu uso na linguagem”[2], o uso do termo ‘chato,’ atribuído ao piolho, passou a também significar os humanos de comportamento igualmente irritante. Dizem que “a língua francesa é a única, além da portuguesa, que atribui ao inseto a faculdade de chatear”[3].

Quem não acha irritante suportar o toque do celular fora de hora e de lugar? Como não ficar chateado com diante de alguém que interrompe a conversa “ao vivo” para atender outra, ao telefone? Com o advento do celular o encontro presencial passou a ser secundário; é preciso saber esperar sem se chatear; nesse momento, temos que passar ao outro que somos compreensivos com a urgência do outro. Ser posto em segundo plano, em compasso de espera, é ou não uma coisa chata?

Embora existem avisos para desligar os celulares nos teatros, igrejas, auditórios, salas de aulas, sempre há os “esquecidos” transgredindo essa regrinha de convivência social. Recentemente, um desses chatos foi preso assim que desceu no aeroporto numa cidade do Paraná, por ter desobedecido à ordem de desligar o aparelho dentro do avião. Soube depois que era um brasileiro que vivia na Suíça, considerado o país mais civilizado do mundo. Adivinhem, o que os passageiros desse avião acharam do sujeito? 

O Tratado geral dos chatos de Guilherme de Figueiredo (1993) possivelmente foi o primeiro estudo não chato sobre o assunto[4]. Em vez de fazer uma tese, geralmente chata, esse autor preferiu escrever um livro leve, bem humorado, beirando a ironia. A chatice, neste livro, é definida como: falta de educação, inconveniência, impertinência, algo maçante, enfadonho, cacete, cricri, xarope, grosseiro, enchedor, repetitivo, que estraga nosso bom humor ou o nosso prazer. Figueiredo aponta vários tipos de chatos: o etílico, o dom-juanesco, o confidencial (que gosta de falar no nosso ouvido), o astrochato, o famoso “chato-de-galocha”, o mala, o “sem noção”, etc.

A revista Superinteressante de junho/ 2004 chamou a atenção para alguns tipos de chatos atuais: o cuspidor, o prestativo, o folgado, etc. Mas, é impossível fazer um levantamento completo visto que os chatos se multiplicam numa velocidade estonteante. Recentemente aparecem com força social o e-chato, o politicamente correto, o academicamente correto, o fundamentalista religioso ou laico...Um sujeito que sempre prega a “revolução” por uma única classe, o proletariado, eleito pela história como se fosse por Deus, é igualmente chato como qualquer pregador de religião convencional. Chateia não pela sua fé, mas porque ele quer nos convencer ser este um discurso  “científico”.

O não é uma abstração. O chato é mais um estilo de ser que faz parte de nossa realidade concreta. A chatice do chato é sempre uma expressão do cotidiano banal dos seres humanos. Só os humanos sabem chatear e se sentirem vítimas das chatices dos seus semelhantes. Quando o Estado deixa de cumprir com sua função precípua, ele causa efeito de mal estar e descrença nos seus cidadãos. Se fizermos uma pesquisa, certamente, o legislativo e o judiciário são os poderes que mais irritam o cidadão brasileiro. O legislativo nos causa irritação pelas notícias reveladoras de que os vereadores, deputados e senadores estão mais ocupados com seus próprios interesses, picuinhas, briguinhas; e o judiciário chateia quando se revela incapaz de fazer justiça. Ai daquele que precise de nossa justiça para se sentir justiçado...

E a burocracia? Dizem os entendidos que vida cotidiana do Estado tem um nome: a burocracia, que, como sabemos chateia igualmente a todos, porque nós todos dependemos dela. Herdeira do patrimonialismo português, a burocracia brasileira atrapalha tanto o cidadão comum numa repartição pública como aquele que deseja abrir uma empresa. Em lugares como o Rio de Janeiro, onde boa parte da população até recentemente vivia dos benefícios decorrentes da burocracia federal, ainda hoje representa um inferno kafkaniano para quem se vê obrigado a suportá-la.

Kosik (1976) recomenda estudar a burocracia do Estado e das instituições afins, se quisermos realmente entender “de dentro”, ou do seu “concreto”, as funções e o funcionamento dos aparelhos burocráticos, e o mal estar que causa nas pessoas em geral.

Os pesquisadores das Ciências Humanas prestariam um grande serviço visando melhorar a existência humana, se dedicassem mais ao estudo do cotidiano intra-institucional e intra-organizacional, não apenas para fazer um mapeamento das várias e diversas manifestações de chatices que nelas ocorrem, como também para compreender o que vem causando o aumento do número de chateados[5] no planeta. Há quem afirme que o aumento dos chatos é decorrente do aumento da intolerância entre as pessoas, à perda do sentido de civilidade em nossa época, à invenção de novas tecnologias sem a contrapartida de regras específicas para o uso de cada tecnologia. Ao contrário das tradicionais pesquisas abstracionistas, acredito que uma investigação minuciosa da vida cotidiana de nossa organização familiar e institucional, poderia trazer um entendimento sobre as fontes e os porquês do aumento do número de chatos e de chateados no mundo. 

Equívocos do uso da palavra “chato”

Existem alguns equívocos quanto ao uso da palavra chato(a). Associar tristeza com a chatice, por exemplo, quando alguém diz “fui a um velório muito chato” ou “fulano estava chateado”, ou ainda, “suicídio é uma coisa muito chata”. Outro equívoco é associar a chatice com a feiúra e a antipatia. Quando alguém diz “fulana é uma chata” querendo dizer que ela é visualmente feia ou antipática, provavelmente, o mau uso dessa palavra camufla um certo rancor dirigido à feiúra e à antipatia. A verdade é que ninguém é chato simplesmente porque é feio. Suspeito que muitos humoristas e cômicos fazem sucesso justamente com sua feiúra manejada para ser uma expressão socialmente agradável. Dizem que Sócrates era uma figura muito feia; alguns diziam que esse filósofo parecia um sileno (bode), já outros que o conheciam, no dia-a-dia, o achavam parecido com um pote de barro, que uma vez quebrado, revelava o mel puro que estava escondido dentro dele. Ou seja, é equivocada a associação entre feiúra e chatice.

Por outro lado, parece que imagem da pessoa chata se confunde com a imagem da pessoa antipática, arrogante, prepotente, metida-à-besta ou metida à sabe-tudo, ou daquela defensora da moral e dos bons costumes, etc. Quando Jabor diz que o chato é “um forte”, entendo que ele vê na sua atitude mais que um sujeito inconveniente. O chato segundo Jabor é um cara-de-pau, cheirando a sadismo e a cinismo: é o difamador de nossa vida pessoal, aquele que goza de invadir nossa privacidade, é o político corrupto, o sujeito que sempre pregou a moralidade que quando chega ao poder muda o discurso e a prática, etc. Portanto, esse sentido de “forte”, acima, nada tem a ver com um forte- lutador, a exemplo do nordestino comum: que sempre foi “um forte”, digno de ser respeitado por todos.

Atenção para os extremos

Para Aristóteles a virtude deve ser encontrada na “justa medida” entre os extremos, considerado pelo estagirita como viciosos. Segundo ele, a virtude deveria ser praticada no dia-a-dia, para ela ser aperfeiçoada. Entre a carência e o excesso, encontrar um ponto de equilíbrio, no fundo, é conquistar um lugar “não chato” de viver bem a vida. De saber viver com sabedoria. O problema é que o chato não sabe encontrar “seu” ponto de equilíbrio, ou não lhe interessa o caminho da sabedoria; seu habitat é um ou outro extremo. Os extremistas e os fanáticos tendem a serem chatos quando repetem seus atos fora do contexto político ou da cultura que estão inseridos.

Tanto o tagarelismo como o mutismo são atitudes que chateiam o próximo. Heidegger considera o tagarelismo como indício de inautenticidade do sujeito que deve sofrer com sua existência chata. Schopenhauer, por sua vez, considera que o tagarelismo e a dissimulação, fazem com que a mulher seja mais chata do que os soldados que só falam em batalhas, jogos e, obviamente, de mulher. Para além da misoginia desse filósofo, os indicativos apontam que as mulheres passam mais tempo falando ao telefone. Não quero dizer que elas são necessariamente chatas, mas tendem a muita falação vazia. Uma reunião entre homens tende a ser muito mais enxuta do que entre mulheres. (Olhe que estou dando um desconto para aquelas que estão com TPM, ou morrendo de inveja da boa forma da outra, do namorado da outra, e coisas do gênero). Por falar em telefone, creio que todos – mulheres e homens - perdem a paciência quando a conversa “ao vivo” é interrompida para que nosso interlocutor possa atender quem está do outro lado da linha. Ser preterido ou esquecido é ou não é muito chato!!

Como estamos dizendo, o uso da palavra chato’ está mais associado às pessoas tagarelas, que falam e nada dizem, que são inconvenientes, irritantes e repetitivas. É verdade que a maioria dos chatos sofre de incontinência verbal, por exemplo, quando deixa transparecer uma descortesia, quando lhe escapa uma grosseira. Dizemos que essa pessoa “pisou na bola”; que ela “perdeu a oportunidade de ficar calada”. Essas ocorrências demonstram que o (a) chato(a) é um fraco de caráter, cujos instintos ou pulsões dominam o seu modo de ser e viver. Novamente afirmo: a educação do chato não se completou. Pode-se aprender muito pelo ensino, ser formado, especializado, e , no entanto ser um ignorante na convivência social. Ignorante quanto ao uso da polidez – “essa virtude menor, porém, necessária” (A. Comte-Sponville), ou o “respeito para com o próximo”, como sinaliza Renato Janine Ribeiro (mencionado no antigo anterior).

O verdadeiro chato é alguém que não sabe se comportar com sintonia com o ambiente social. Só mal educados – e, por isso mesmo, chatos - não sabem assistir a uma peça de teatro e nem a um filme, em silêncio; também, há alunos que não sabem participar da uma aula sem atrapalhar o colega do seu lado. Existem sujeitos tão chatos que vão ao teatro apenas para conversar, tossir, estourar bola de chiclete, enfim, atrapalhar os atores em cena. 

Ultimamente, muitos professores vêm se queixando de não suportar uma nova geração de alunos acha tudo chato: as aulas, os professores, a escola. Basta estar na sala de aula para sua “pilha ficar fraca”, mas, nas baladas da noite ele facilmente encontra energia para gastar à vontade. São alunos sem compromisso com o aprender, e sem a mínima empatia para com o professor mal pago e desgastado física e mentalmente, e, muitas vezes, é despossuído de um mínimo código de convivência social. Alunos de classe média, que freqüentam escolas particulares, chateados, terminam chateando os professores, por exemplo, não fazendo a aula render, ou, pior, demonstrando arrogância com o professor. Sua atitude é de superioridade, como que dizendo ao mestre: “eu te pago, portanto, você tem obrigação de me aturar”; ou, “sou teu cliente, logo, sempre tenho razão” (Cf. rev. Veja, 11/ 5/ 2005, p. 62-66: “Como medo dos alunos”). É preferível ter um aluno cricri ou critico[6] contumaz de tudo, porque do seu jeito demonstra estar participando da aula do que conviver com um aluno indiferente, passivo, sem compromisso com nada, que, nos tempos da ditadura, era chamado de “alienado”.  

Embora o uso da palavra “chato” parece mais restrito às pessoas que usam palavras e ruídos para chatear os seus semelhantes, também está presente no extremo oposto, isto é, do mutismo ou laconismo; o lacônico é um chato porque geralmente deixa o outro sem saber o que falar quando está com ele. Um casamento, por exemplo, se torna chato quando acaba o amor e os assuntos entre o casal. O mesmo pode ocorrer com uma amizade, que deixa de ser interessante quando se extingue o prazer de trocar idéias e impressões sobre a vida.

Na verdade, os chatos habitam os extremos da convivência: Nesse habitat próprio dos chatos, o modo de expressão, vai do mutismo irritante ao tagarelimo, da visível grosseria à polidez excessiva, afetada, protocolada, formal, e cheia de etiquetas. Já examinados porque uma pessoa grosseira é uma chata. Já uma pessoa excessivamente polida torna-se chata porque “dissimula o coração” (Lucchesi-Belzane, 1993), escondendo sempre quem ela verdadeiramente é. Uma pessoa posicionada nesse lugar, das etiquetas protocoladas, sempre nos deixa pouco à vontade. Diante dela, perdemos a bússola do que falar, como falar, como olhar, ou seja, o diálogo corre o risco de fracassar.

A “servidão voluntária” e a chatice

Um tipo de chato atravessa todos os tempos e culturas: é o adulador, também conhecido como “puxa-saco”. Na língua culta da filosofia das virtudes é aquele que se presta à servidão voluntária (La Boetie). Usando palavras e atos, o adulador usa exagera na cortesia, nos elogios e na admiração ao outro, que terminam reforçando qualidades – verdadeiras ou falsas - de um outro qualquer. Muitas vezes, o adulador exalta tanto o outro, recebendo em troca a rejeição, o desprezo, ou o simples uso inescrupuloso de seu masoquismo e servilismo.

É muito chato, no cotidiano, ser espectador desse tipo de relação tão dessimétrica, indigna, e, teatral, que lembra alguns personagens clássicos da literatura. Os aduladores chateiam o cotidiano daqueles que dignamente trabalham nas empresas, nos serviços públicos, nos estabelecimentos escolares e universitários; parece que estão ali para testar nossa paciência e nosso grau de tolerância de ver até onde uma pessoa pode se rebaixar numa situação de servidão voluntária. Qual seria o limite do servilismo voluntário; seria a Síndrome de Estocolmo?[7].

Onde facilmente se observa o servilismo voluntário, infelizmente, é nos estabelecimentos superiores de ensino. Refiro-me a um tipo particular de relação entre orientando (a) e orientador (a). Uma coisa é o aluno se apoiar na competência do orientador, e outra bem diferente, é ele se tornar dependente e puxa-saco do orientador. Imaginamos que num empreendimento de pesquisa (monografia, dissertação ou tese) a relação entre orientador e orientando seja sempre sadia, equilibrada, e produtiva, cuja razão e o bom-senso possam controlar a emoção, para que a pesquisa chegue a um bom termo[8]. Mas, existe orientando que usa seu orientador como se fosse uma droga. Tornam-se “adictos” do Mestre (addictum: é uma palavra latina que significa “escravo”; designava o homem que, para pagar uma dívida, se convertia em escravo por não dispor de outros recursos para cumprir o compromisso contraído. Kalina e Kovadloff (1980), em vez de usar ‘toxicomania’, preferem usar ‘drogadiccção’ para o caso da pessoa que vira escravo ou dependente das drogas). Ou seja, existem orientandos, durante e após o processo de pesquisa, que se tornam aduladores compulsivos do orientador, se oferecendo para fazer serviços braçais, que nada tem a ver com o labor da pesquisa[9].

Oliveira (1985), observa ser normal o fato de alguns alunos serem voluntários servis com seus orientadores; alguns alunos imploram ao seu orientador fazer trabalhos especiais ou braçais. Eles sentem que “este tipo de trabalho é uma espécie de honraria e ficam sentidos quando não recebem esta incumbência”.

Como não se sentir constrangido ver alunos sendo levados por um professor-orientador, sem escrúpulos, a fazer todos os tipos de trabalhos – como: digitar trabalhos do professor, tirar a poeira dos seus livros, levantar dados uma pesquisa; ou, trabalhos supostamente mais elevados, como: substituir o professor nas suas ausências, cuidar do laboratório nos fins de semana, tomar conta de seus bichos nas férias, enfim, o aluno terá que suportar toda a carga de trabalho chato que o doutor “x” não quer fazer. Segundo Oliveira (op.cit.) há casos em que teses são retardadas com a intenção mesquinha do orientador de segurar o “escravo”, de modo que as bolsas, aumentos, gratificações, tudo fica dependente da subserviência aos desejos do doutor-orientador. Embora essa situação possa chatear o orientado consciente de jogar o jogo da “servidão voluntária” do doutor “x”, o aluno, fascinado pelo Mestre e, ao mesmo tempo, apaixonado pelo objeto de pesquisa, se deixa levar pela exploração sem limites do orientador inescrupuloso. Em alguns casos, o aluno ou ex-aluno, até era consciente dessa exploração, “mas estava disposto a pagar o preço, porque sabia que mais tarde isso ia compensar” a intimidade intelectual” (Oliveira, J.B. (Cf.: OLIVEIRA, J. B. 1985, pp. 87-121).

Mas, a atitude de “servidão voluntária” no ambiente universitário não fica restrita a relação dessimétrica entre alguns orientadores e orientados. Em relações aparentemente simétricas, entre professores e entre pesquisadores, pode acontecer que alguém de semblante carismático, ou que inspira “temor reverencial”, ou, ainda que parece encarnar o poder-e-saber, exerça seu domínio mágico sobre um colega mal posicionado ou pronto para adorar o Grande Mestre. Somente quem vive o cotidiano das relações humanas nos estabelecimentos de ensino ou de pesquisa é que podem dimensionar o quanto é chato – talvez mais do que chato – ver e não poder fazer nada para resgatar um ser humano que se encontra tão alienado de sua posição, não obstante sua inteligência e competência...

 [Continua no próximo número].


[1] Essas anotações me serviram para orientar uma entrevista concedida para a jornalista Bárbara Soalheiro, da revista Superinteressante, interessada em fazer uma matéria que saiu com o título “Por que existem chatos” (ver Superinteressante, de junho de 2004). Posteriormente também me serviu para outras entrevistas, destaco que concebi a Rede Bandeirantes sobre o mesmo assunto.

[2] Wittgenstein, IF, § 43.

[3] Figueiredo, 1993: 29.

[4] Há quem discorde dessa nossa opinião, como declara, Arnaldo Jabor, no seu livro de crônicas “Amor é prosa, sexo é poesia” (Ed. Objetiva, 2004: p. 41-5).

[5] As obras interessantes nessa linha de estudar a realidade concreta e cotidiana são: KOSIK, K. Dialética do concreto. Rio: Paz e Terra, 1976; HELLER, A. Sociologia de la vida cotidiana. Barcelona: Península, s.d.; tb. Cotidiano e história. Paz e Terra, 1992, LEFEBVRE, H. A vida cotidiana no mundo moderno. SP: Ática, 1991. AZANHA, J.M.P. Uma idéia educacional. SP: Edusp, 1992; TEDESCO, J. C. Paradigmas do cotidiano...Passo Fundo: U. Passo Fundo, 2003. Varias matérias de revistas e alguns artigos mais ou menos científicos revelam um considerável aumento de estressados, deprimidos, suicídios, entre outros transtornos próprios de nossa época. Há quem aponte um “mal estar”, ou “estar constantemente chateado” como marca específica de nosso tempo.

[6] J. Pasmoore (1979), no seu excelente artigo “Ensinando a ser crítico”, analisa alguns exemplos de alunos que entendem que serem críticos demonstra leitura e pensamento verdadeiramente crítico sobre um determinado assunto. Na verdade, a maioria que usa de tal estilo crítico-cricri, entende que criticar é um mero hábito de “questionar por questionar”, isto é, de questionar sem consistência. Alguns professores acham chato esse tipo de aluno ‘crítico-crici’, porque atrapalha a aula com criticas estereotipadas. Geralmente, são alunos que parecem plenamente satisfeitos com algumas idéias prontas, que parecem servir para explicar e resolver todos os problemas do mundo. Tais idéias, provavelmente, foram assimiladas de um mestre com muita convicção de ter encontrado “a verdade toda”, e, que, por isso mesmo, esta deve ser passada adiante, como único meio de perpetuá-la em nome de “Deus”, ou “de uma classe social redentora”, etc. Esse tipo de aluno fechado em suas próprias certezas, e resistente ao trabalho de ampliação de sua consciência, eventualmente, pode irritar um professor que leva muito a sério seu trabalho de ensinar. Sócrates recomendava, nesses momentos críticos, humor e ironia. Nada de se irritar com o aluno cricri, pelo contrário, ele deve ser acolhido e trabalhado, com muita paciência e diálogo. 

[7] E denominado Síndrome de Estocolmo uma situação em que a vítima, por exemplo, de um seqüestro se apaixona pelo seu seqüestrador. Noutros termos, é quando o causador do sofrimento passa a ser amado, compreendido, enfim, a vítima é convertida e passa para o lado do criminoso. É quando o “eu fraco” ou tomado de infantilismo, se sente inferior ante um dominador, levando-o a cair na identificação com o dono do poder. (Bosi, 1977: 102).

[8] Nesse sentido, aqui, gostaria de fazer uma singela homenagem ao meu orientador de Doutoramento, Prof. Dr. Nelson Piletti, pela sua competência no lugar de Mestre, e de Orientador de tese. Como ‘orientador’ o Prof. Piletti age como uma bússola do processo da pesquisa do orientando, sobretudo nos momentos em que este parece estar perdido; também dá suporte teórico-metodológico e administrativo, sempre deixando o orientando produzir seu texto com autonomia; sempre cuidadoso nas sinalizações dos defeitos da tese, dos prazos, das leituras necessárias; às vezes ele sabe que precisa de se posicionar, temporariamente, como quase um ‘psicoterapeuta’, visando sempre levar o seu orientado a superar os momentos de resistência não consciente ou outra qualquer que impede o rendimento da pesquisa.    

[9] Pessoalmente cheguei a ver alunos brigando entre si para carregar a bolsa cheia de livros da professora “x”; soube de um outro que, quando soube que o professor estava fazendo a mudança, apareceu no dia, bem cedo, para servir de carregador dos móveis do professor...

 

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Referências bibliográficas

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