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Por
ALEXANDER MARTINS VIANNA
Doutorando em História Social pelo
PPGHIS-UFRJ; Prof. de História Moderna e Contemporânea do
Departamento de História da FEUDUC |
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A Atualidade Teórica
de Norbert Elias para as Ciências Sociais
No prefácio de 1968 à sua obra “Processo
Civilizador”, Elias afirma:
“A imagem do homem como
‘personalidade fechada’ é substituída aqui pela ‘personalidade
aberta’, que possui um maior ou menor grau (mas nunca absoluto ou
total) de autonomia face a de outras pessoas e que, na realidade,
durante toda a vida é fundamentalmente orientada para outras
pessoas e dependente delas. A rede de interdependência entre os
seres humanos é o que os liga. Elas formam o nexo do que é aqui
chamado configuração, ou seja, uma estrutura de pessoas
mutuamente orientadas e dependentes. Uma vez que as pessoas
são mais ou menos dependentes entre si, inicialmente por ação da
natureza e mais tarde através da aprendizagem social, da educação,
socialização e necessidades recíprocas socialmente geradas, elas
existem, poderíamos nos arriscar a dizer, apenas como
pluralidades, apenas como configurações. Eis o motivo
porque... não é particularmente frutífero conceber os homens à
imagem do homem individual. Muito mais apropriado será conjecturar
a imagem de numerosas pessoas interdependentes formando
configurações (isto é, grupos ou sociedades de tipos
diferentes) entre si...O conceito de configuração
foi introduzido exatamente porque expressa mais clara e
inequivocadamente o que chamamos de ‘sociedade’ que os atuais
instrumentos conceituais da sociologia, não sendo nem uma
abstração de atributos de indivíduos que existem sem uma
sociedade, nem um ‘sistema’ ou ‘totalidade’ para além dos
indivíduos, mas a rede de interdependência por eles formada.
Certamente, é possível falar de um sistema social formado de
indivíduos, mas as conotações associadas ao conceito de sistema
social na sociologia moderna fazem com que pareça forçada essa
expressão. Além do mais, o conceito de sistema é prejudicado
pela idéia correlata de imutabilidade (...)”.(ELIAS, 1994[1]:
249) Grifo meu
O conceito de configuração
difundido nos trabalhos de Norbert Elias enfatiza as ligações entre
mudanças na organização estrutural da sociedade e mudanças na
estrutura de comportamento e na constituição psíquica, pretendendo
escapar do monismo metodológico que dicotomiza indivíduo
(encapsulado) e sociedade (ente externo), assim como a tendência
parsoniana de pensar a estrutura social como “estado” em equilíbrio
ou “sistema social”. Como contraponto à noção de “estado”, Elias
pensa “processo” ou “evolução”, mas não no sentido de uma
necessidade mecânica ou de uma finalidade teleológica, mas sim para
lembrar que a sociedade está sempre em mudança estrutural, o que
significa um equilíbrio sempre tenso entre suas partes. Fazem parte
da configuração os jogos de distinção social e os
graus de controle de impulsos, cuja dinâmica está relacionada ao
modo como se avançam as relações de interdependência com a divisão
do trabalho na sociedade.
A noção de configuração
possibilita que se pense a relação entre controle de instintos e
impulsos instintivos não a partir de metáforas espaciais como
“dentro” e “fora”, “casca” e “cerne”, pois, tal como a natureza, o
ser humano não tem núcleo ou casca. Tais metáforas não podem ser
aplicadas à estrutura da personalidade, pois todo complexo de
tensões – sentimentos e pensamentos, espontaneidade e comedimento –
consiste em atividades humanas. Deste modo, como
alternativa aos habituais conceitos-substância “sentimento” e
“razão”, Elias prefere o conceito de atividade que,
além de ajudar a superar o monismo sociológico, possibilita livrar
as investigações sociológicas de idéias preconcebidas que pensam a
realidade a partir do que ela deve ser e não a partir
do que é.(ELIAS, 1994[1]: 223-226)
Em “Processo Civilizador”, a
indagação central que motiva o plano da obra de Elias é estabelecer
a correlação entre processo de individuação e formação dos Estados
Nacionais, ou seja, entre mudança a longo prazo nas estruturas da
personalidade (reforço e diferenciação no controle das emoções
– é somente nesse sentido que deve ser entendido processo
civilizador como categoria analítica) e a mudança a longo
prazo na sociedade como um todo, pois ambas tenderiam a uma direção
particular: um nível mais alto de diferenciação e integração
social próprio à configuração estatal da sociedade, pois,
segundo Elias, a estrutura do comportamento civilizado
está estreitamente inter-relacionado com a organização das
sociedades ocidentais sob a forma de Estados. Portanto, ao
criar seu modelo analítico, Elias não pensava o processo de
civilização em termos metafísicos, como se as noções de “evolução”
ou “desenvolvimento” pressupusessem um progresso automático e
inespecífico. No prefácio de 1968, ele justamente lembrava que o
processo de formação de Estados sobre o qual se debruçara tinha uma
direção constante, mas específica, independentemente do modo como
fosse valorizado. Isso também fica evidenciado no prefácio de 1936:
“... não fui
orientado nesse estudo pela idéia de que nosso modo civilizado de
comportamento é o mais avançado de todos os humanamente
possíveis, nem pela opinião de que a ‘civilização’ é a pior
forma de vida e que está condenada ao desaparecimento. Tudo o que
se pode dizer é que, com a civilização gradual, surge certo
número de dificuldades especificamente civilizacionais.
Mas não podemos dizer que já compreendemos porque
concretamente nos atormentamos desta maneira. Sentimos que nos
metemos, através da civilização, em certos emaranhados
desconhecidos de povos menos civilizados. Mas sabemos
também que esses povos menos civilizados são, por seu lado,
atormentados por dificuldades e medos dos quais não mais sofremos,
ou pelo menos não sofremos no mesmo grau. Talvez tudo isso possa
ser visto com um pouco mais de clareza se for compreendido como
realmente operam esses processos civilizadores. De qualquer
modo, foi este um dos desejos com que comecei a trabalhar neste
livro (...). Fui obrigado no curso deste estudo a revisar meu
pensamento sobre grande número de assuntos, e não posso poupar o
leitor da necessidade de travar conhecimento com certo número de
aspectos e expressões pouco comuns. Acima de tudo, a
natureza dos processos históricos – do que se poderia chamar
de ‘mecânica evolucionária da história’ – tornou-se mais
clara para mim, assim como suas relações com os processos
psíquicos. Termos como sociogênese e psicogênese, vida afetiva
e controle de instintos, compulsões externas e internas, patamar
de embaraço, poder social, mecanismo de monopólio e vários outros
dão expressão a isso. Mas fiz a menor concessão possível à
necessidade de expressar com novas palavras coisas novas que se
tornaram visíveis”.(ELIAS, 1994[1]: 18-19) Grifo meu
Nesse sentido, se pensadas em termos de
atividade/processo, as estruturas de personalidade e
as estruturas sociais não serão consideradas como se fossem fixas,
mas sim como mutáveis, como aspectos interdependentes do mesmo
desenvolvimento de longo prazo. O problema de procedimento era
como demonstrar uma mudança estrutural específica ligada à
configuração estatal da sociedade com evidências empíricas
confiáveis para, finalmente, chegar a um esboço provisório de uma
teoria de civilização. Outro complicador era justamente o fato de
Elias tratar de coisas novas com palavras carregadas de um sentido
antigo, tais como, “processo”, “desenvolvimento” e “evolução”, o que
nos faz entender as ressalvas que fizera no prefácio de 1968:
“Quando
trabalhava neste livro, pareceu-me muito claro que estava lançando
os alicerces de uma teoria sociológica não-dogmática –
empiricamente baseada – de processos sociais em geral e de
desenvolvimento social em particular. Acreditava que era
inteiramente óbvio que a investigação e o modelo final
do processo a longo prazo de formação do Estado, a ser
encontrado no segundo volume, podiam servir igualmente bem como
modelos da dinâmica de longo prazo das sociedades em uma
dada direção, à qual se refere o modelo de desenvolvimento
social. Naquela ocasião, não acreditava que fosse necessário
dizer explicitamente que este estudo nem era de uma ‘evolução’ de
um progresso automático (no sentido do século XIX), nem de uma
‘mudança social’ inespecífica (no sentido do século XX). Naquele
tempo, isto me pareceu tão óbvio que deixei de mencionar
explicitamente essas implicações teóricas. A introdução à segunda
edição me dá a oportunidade de corrigir essa omissão”.(ELIAS,
1994[1]: 216-217) Grifo meu
As questões analíticas de Elias estão
voltadas para a mudança, para a percepção da realidade como algo
móvel, mas também para a percepção de que há uma ordem
subjacente às mudanças históricas que pode ser identificada e
teorizada adequadamente, sem que isso implique em cair numa
percepção metafísica do desenvolvimento social ou numa descrição
estática da realidade. Em 1936, isso implicava em encontrar um
meio-termo a partir de duas potenciais seduções teóricas:
“À primeira
vista, talvez pareça uma complicação dispensável estudar a gênese
de cada formação histórica. Mas uma vez que todos os fenômenos
históricos – tanto atitudes humanas quanto fenômenos sociais –
realmente se ‘desenvolveram’ em alguma época, de que modo os
sistemas de pensamento podem se revelar simples ou adequados para
explicar esses fenômenos se, por uma espécie de abstração
artificial, eles isolam os fenômenos de seu fluxo natural,
histórico, privam-nos de seu caráter de movimento e processo, e
tentam compreendê-los como se fossem formações estáticas, sem
considerar como surgiram e como mudam? Não é o preconceito teórico
mas a própria experiência que instam conosco para procurarmos
meios e maneiras intelectuais de traçar um curso entre o Cila
deste ‘estatismo’ – que tende a descrever todos os movimentos
históricos como algo estacionário e sem evolução – e o Caribde do
‘relativismo histórico’, que vê a história apenas em transformação
constante, sem chegar à ordem subjacente a esta transformação e às
leis que governam a formação de estruturas históricas. Pois é isso
que tentamos fazer aqui. As pesquisas sociogenéticas e
psicogenéticas propõem-se a revelar a ordem
subjacente às mudanças históricas, sua mecânica e
mecanismos concretos; e parece que, desta maneira, grande número
de questões que julgamos hoje complicadas, ou muito além da
compreensão, podem receber respostas bem simples e
precisas”.(ELIAS, 1994[1]: 16-17) Grifo do Autor
Uma vez que chegamos a este ponto,
devemos aproveitar para corrigir dois equívocos na historiografia
francesa da década de 1970: primeiro, o enquadramento em estudos de
“mentalidades” das investigações de Elias sobre as mudanças
nas estruturas de comportamento; segundo, a aproximação dos estudos
de Elias aos mesmos pressupostos da análise de “longa duração” de
Braudel. Como se pôde observar, Elias não substancializa o
comportamento em conceitos todo-abrangentes como “mentalidade”,
“consciência coletiva” ou “utensilagem mental” que
precedem o indivíduo, pois a noção de configuração pressupõe
perceber mudanças no comportamento fora de uma sociologia orientada
para a idéia de “estado” ou “sistema social”. Além disso, Elias não
faz séries homogêneas de documentos, pelo contrário, centra a sua
atenção nas variações ao comparar as transformações dos
patamares de pudor e controle dos instintos expressos através das
diferenças editoriais nos manuais de etiqueta ao longo de três
séculos. O mesmo argumento vale para as tentativas de aproximação
com Braudel, pois este pensa a “mudança social” como um atributo do
“estado de repouso”, o que coloca os problemas da mudança social e
política em segundo plano. Em termos simples, Elias estuda
processos sociais de longa duração, enquanto Braudel, ligado
ao monismo metodológico da “sociologia de estados”, investiga o que
pretende que sejam estruturas sociais de longa duração.
No prefácio feito por Roger Chartier à
obra “Sociedade de Corte”, são destacadas algumas idéias que,
a meu ver, são recorrentes em todas as análises sociais de Elias:
“interdependência”, “grupo central carismático” (parâmetro dos jogos
de distinção), “equilíbrio móvel de tensões” e “evolução da
configuração social”.(CHARTIER, 2001: 7-25) Para ilustrar seu viés
analítico, Elias prefere usar a metáfora da dança ao final do
prefácio de 1968 em “Processo Civilizador”, em vez da
metáfora do jogo de cartas apontada por Chartier. Ambas as metáforas
servem bem ao propósito de demonstrar uma visão dinâmica das
estruturas sociais que escapa completamente da sociologia orientada
para a idéia de “estado”: a dança não tem existência própria “fora”
dos dançarinos – portanto, a dança não é uma “substância” externa
aos sujeitos que a praticam, o que claramente nos afasta da idéia de
“utensilagem mental” –; o comportamento individual de cada dançarino
está orientado pela configuração das
interdependências, o que se correlaciona com o modo como
diferenciam e integram as suas posições; mesmo que
repita a mesma configuração, cada dança ou jogo é único e pode
variar conforme as estratégias, recursos ou desejos de ação das
partes envolvidas.
Desde 1936, uma pergunta fazia eco nas
análises de Elias: Que dinâmica de interdependência
humana pressiona para a integração de áreas cada vez mais extensas
sob um aparelho governamental relativamente estável e centralizado?
É nesse sentido que Elias define como ponto de partida para o estudo
da configuração estatal da sociedade as redes de interação e os
processos que tornam os homens interdependentes, pois tudo isso
indica como as estruturas de personalidade dos seres humanos mudam
em conjunto com as transformações sociais relacionadas ao surgimento
do Estado.(ELIAS, 1994[1]: 16; 250)
Voltemos agora para o que Chartier
chamou de “grupo central carismático” como uma das constantes
analíticas de Elias, pois tal noção pode ser empregada em diferentes
escalas, como demonstram os próprios trabalhos de Elias. A idéia da
natureza ou valor excepcionais de um agrupamento humano serviu
freqüentemente como legitimação de sua reivindicação de liderar e
subordinar outros. Embora um “grupo central carismático” só tenha
sentido num jogo de interdependência e distinção com os outros
grupos a que subordina materialmente e/ou simbolicamente, quanto
maior é a força social do “grupo central carismático” (e, portanto,
menor é a pressão vinda de seus ‘inferiores sociais’), muito mais
franco e aberto é seu senso de domínio e desprezo pelos demais e,
portanto, muito menos forte é a pressão para praticar a moderação e
controlar seus impulsos.
Não sem sentido, Elias associa o
processo de civilização ao avanço da interdependência condicionado
pelo grau de divisão do trabalho na sociedade, pois isso contribui
para que novos agrupamentos sociais possam concorrer entre si por
distinção, seja visando ocupar as mesmas posições antes restritas a
alguns, seja visando criar seus próprios referentes de destaque
social, postos em contraponto ou paralelamente a um grupo central
carismático precedente.(ELIAS, 1994[1]: 23-64; ELIAS, 2000)
Em 1968, pensando tais discussões em
termos interestatais, Elias lembrava que a pretensão demiurga de
liderança das nações industrializadas mais antigas sofreu forte
abalo na segunda metade do século XX, provocado por um aumento,
ainda que limitado, do poder dos países mais pobres, pelo
alongamento e multiplicação das cadeias de interdependência dos
Estados, pelo agravamento das tensões e conflitos específicos entre
eles, tanto devido às guerras de libertação nacional quanto às
ameaças então presentes de guerra nuclear. Tudo isso foi suficiente
para abalar a confiança nas possibilidades de futuro que
anteriormente sustentava as reivindicações dos países centrais em
liderar os demais.
Um dos efeitos de tal crise de confiança
teria sido o reforço de uma tendência já existente nos sentimentos
nacionais de pensar que a nação é e sempre foi
uma herança eterna, inalterável, com um valor afetivo muito maior de
autolegitimação do que qualquer promessa ou ideal localizado de
futuro. Assim, nestas circunstâncias, o “ideal nacional” teria
desviado a atenção do que muda para aquilo que julga imutável,
duradouro e já realizado no presente, deixando
de compreender o passado como desenvolvimento e voltando
para a conservação e defesa da ordem existente. Em médio prazo, tal
situação não teria deixado, logicamente, de afetar o quadro das
teorias sociológicas e antropológicas, cuja tendência tornou-se
marcadamente presentista, descricionista e estática, porém,
ancorando a sua legitimidade analítica na crítica desconstrucionista
da “virada lingüística”.(PORTER, 1997) |
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