Por HENRIQUE RATTNER

Professor da FEA (USP), IPT e membro da Associação Brasileira para o Desenvolvimento de Lideranças (ABDL)

 

Pelo resgate da Utopia

 

“No fundo de cada utopia, não há somente

um sonho; há também um protesto”

(Oswald de Andrade – a marcha das utopias)

 

Karl MarxNo mundo das incertezas

As incertezas e a perplexidade que afligem a maioria da população acuada pelos problemas de sobrevivência e a urgência com que exigem respostas aos desafios existenciais constituem um estímulo para pensar criticamente nossa realidade controvertida e contraditória. Para alguns seria o fim da História, enquanto para outros, é o início de uma nova fase na evolução da humanidade. Incertezas, instabilidade e contradições aparentemente insolúveis levam os indivíduos a perder a confiança em si, nos outros e no governo da sociedade. “Tudo que é sólido, se desmancha no ar” já dizia Marx, há 150 anos. O desmanche continua desde então, em ritmo e intensidade acelerados, devido à competição selvagem, o individualismo irracional da acumulação capitalista e o “darwinismo social” praticado pelas elites dominantes, configurando uma situação de caos.

Onde encontrar as respostas às dúvidas existenciais, às interrogações cruciais de cada indivíduo pensante – “quem somos? Donde viemos? E, aonde vamos?

Sartre ensinou que os seres humanos nascem para serem livres. Mas, liberdade implica também em responsabilidade. Somos responsáveis pelo que fazemos ou deixamos de fazer. Agindo e pensando sobre nossa realidade, transformamos essa realidade e a nós mesmos, encontrando sentido para nossas vidas. Sem uma orientação que guie nossas ações, a vida no mundo de incertezas torna-se um pesadelo, cheio de paradoxos e violência, sobretudo para a juventude angustiada e aparentemente incapaz de decifrar enigmas para os quais nem a ciência nem a religião oferecem respostas satisfatórias.

A vida nos ensina que elaboramos nossos valores e, com base nestes, em convívio e cooperação com os outros, encontramos os diferentes sentidos da vida. Não há satisfação maior para o indivíduo do que quando este se sente aceito e valorizado, sendo parte de um todo maior.

Sobre as premissas do discurso

A premissa central de nosso discurso postula, contra qualquer determinismo, que toda a realidade é uma construção social e, como tal, pode ser desconstruída e reconstruída.

Postulamos que o sentido de nossa vida seja o produto do pensamento e da ação e, inferimos que toda nossa realidade é uma construção social. Como corolário deste raciocínio podemos afirmar que os seres humanos fazem sua História, embora não a façam com todos os graus de liberdade. Herdamos das gerações que nos antecederam determinadas estruturas e posições condicionantes que limitam e estreitam os raios de nossas opções. Por isso, o conhecimento da História que não segue um curso linear e previsível, como pretende o pensamento positivista, é fundamental para a ação libertadora, capaz de ampliar os nossos graus de liberdade. São também as diferentes visões e interpretações do que acontece na História (vide Gordon Child – What Happened in History) que nos permitem contestar todo tipo de determinismo – econômico, ecológico, demográfico ou cultural – freqüentemente invocados para justificar a acomodação ao status quo. A valorização do ser humano como ator social capaz de construir seu destino como sujeito do processo histórico nos permite rechaçar as visões fatalistas ou maniqueístas da História. Em vez de análises e interpretações cartesianas dos fenômenos políticos e culturais, adotamos a metodologia sistêmica e interdisciplinar. Sem minimizar a especificidade de cada caso, procuramos entendê-lo em sua inserção e conexão com seu contexto. “O todo é diferente da soma das partes”. Portanto, a realidade não pode ser explicada a partir da simples soma de fatos e processos individualizados, o que nos levaria a perder de vista a floresta de tanto olhar as árvores. Voltando às incertezas que dominam o cenário do mundo atual, em todas as esferas do conhecimento científico, nas políticas econômicas e sociais e as possíveis e prováveis ações bélicas e suas conseqüências, as nossas análises e eventuais propostas estarão baseadas mais em probabilidades do que certezas que caracterizam o pensamento autoritário e linear. Esta postura tem profundas implicações para o sistema de valores e as relações de  meios – fins. O senso comum postula que os fins justifiquem os meios, mas não esclarece sobre a legitimidade dos fins.

Os impactos dramáticos do desenvolvimento desigual, aumentando o fosso entre ricos e pobres, ajudaram a lançar a reivindicação central de nosso tempo – direitos humanos – não como uma visão utópica ou idealista, mas como condição básica para a sobrevivência da sociedade e a sustentabilidade de suas instituições. Esse é o cerne de uma ética universal que transcenda todos os outros sistemas de crenças e valores, como síntese da consciência humana, ciente da preciosidade de todas as formas de vida e da necessidade de cooperação, solidariedade e interdependência. Essa ética é fundamentada em valores de alcance universal – a conquista do bem estar e da felicidade, através da liberdade (no sentido pregado por Amartya Sen). Ela se refere a um devir, uma visão do futuro da humanidade que tem inspirado os pensadores libertários, desde Thomas More, aos socialistas utópicos – Fourier, Saint Simon e R. Owen – até aos defensores do socialismo científico, baseado no materialismo dialético

O desmoronamento da ex-URSS teria eliminado a utopia do pensamento e das aspirações contemporâneas?

Vivemos uma época de conflitos políticos e militares, de dimensões e conseqüências imprevisíveis, inclusive a ameaça concreta de perda das conquistas dos últimos três séculos, da democracia e dos direitos humanos, significando um retrocesso à barbárie. Mesmo se for este o desfecho – totalmente irracional e contrário à ética  - da atual crise, não devemos nem podemos desarmar-nos em tempos de trevas. A evolução da humanidade segue por caminhos tortuosos e contraditórios. Após três séculos de idéias iluministas e de lutas pela liberdade, democracia e direitos humanos, a desigualdade e as injustiças precisam ser denunciadas e combatidas, porque sozinho, o mundo não vai melhorar!

Moral e ética – História e utopia

Segundo o dicionário de filosofia, ética é a ciência que tem como objeto os juízos de valor que distinguem entre o bem e o mal. Historicamente, moral e ética são tratados como sinônimos mas, na filosofia alemã, desde Kant, no século do Iluminismo, a ética é considerada superior à moral. A moral é historicamente datada e suas normas e sanções mudam de acordo com a evolução e as transformações da sociedade, sempre refletindo a visão do mundo e os interesses das elites.  Eloqüentes a respeito são as manifestações dos senhores escravocratas, dos capitalistas e tecnocratas cujo discurso e prática, supostamente racionais e ideologicamente neutros, justificariam a pobreza e a desigualdade. Teorias “científicas” quando não doutrinas religiosas são invocadas (“a seleção natural dos mais aptos”, ou “as leis do mercado”) para determinar o código de conduta moral dos indivíduos e as sanções positivas ou negativas atinentes ao seu cumprimento ou transgressões.

A ética postula um código de conduta para o grupo ou para a comunidade de indivíduos que exige um comportamento baseado em valores. Para Hegel, a moral seria o domínio de intenções subjetivas, enquanto a ética seria o reino da moralidade absoluta. A moral de uma sociedade procura assegurar sua coesão e solidariedade (mecânica, segundo E. Durkheim) amparadas por um conjunto de sanções e a força de coerção do Estado.

A ética está fundamentada em valores de alcance universal – a conquista da felicidade e do bem estar através da liberdade. Suas manifestações concretas são a cooperação e a solidariedade (orgânica, sempre segundo Durkheim) numa organização social pluralista e de democracia participativa. A ética se refere a um devir, uma visão do futuro da humanidade que se pretende realizável. É o projeto do futuro – a utopia – que tem inspirado os pensadores libertários em todas as épocas. Por todos os rincões do planeta verificamos a reafirmação da utopia, do pluralismo universal e democrático. Quem são seus porta-vozes? Não são os heróis individuais (os “lideres”), nem a classe messiânica (o proletariado), mas todos os indivíduos que pretendam agir como sujeitos do processo histórico, criando comunidades de cidadãos ativos, fontes de liberdade que transformem a História. São esses sujeitos coletivos que aceitam e praticam o pluralismo democrático como forma de “boa vida”, em oposição a outras formas, atuais e passadas.

Portanto, a utopia não é um tempo “a priori” da evolução ou da História. Seus protagonistas não pretendem a “descoberta” de novos tempos, mas nos apresentam uma simples proposta criativa de um devir humano desejável e realizável pela ação coletiva, Ela não é ficção, romance ou aventura individual, mas uma visão do futuro construída por meio de um discurso em que se confrontam os valores por seus impactos reais e prováveis na existência humana. Ela surge como um amalgama e recriação de valores cultuados em todos os tempos e que se combinam com as novas criações levando a uma síntese imaginária, com contribuições da filosofia, dos cientistas sociais, da ética e da política, à luz de experiências e práticas acumuladas.

A ética seria, então, a disciplina e a prática da virtude, do domínio da racionalidade substantiva (Max Weber) e cujo fim é a felicidade e o bem estar, a integração entre os seres humanos, a natureza e o cosmos.

Segundo os filósofos da Antiguidade, a utopia ética seria alcançada pelo comportamento virtuoso, em conformidade com a natureza dos atores sociais e dos fins buscados por eles. Postularam que o ser humano seria, por natureza, um ser racional e, portanto, a virtude ou o comportamento ético seria aquele no qual a razão comande as paixões. Cada ser humano, sob a inspiração da razão, realizará a boa finalidade ética determinada por seu lugar na ordem do mundo social, político e natural. Essas virtudes seriam efeitos de uma potencialidade da natureza humana, desde que a razão comande as paixões e oriente a vontade, pois só o ignorante á passional e vicioso.

A insustentabilidade do mundo atual

Em retrospectiva histórica, a sociedade parece afastar-se cada vez mais da racionalidade e da virtude do comportamento ético. Tanto a burguesia quanto o proletariado, ao conquistarem o poder, aderiram ao ethos e adotaram os objetivos do progresso via acumulação material e crescimento econômico, ambos insustentáveis.

Na sociedade capitalista, o crescimento econômico se tornou estéril por não gerar mais empregos, ao menos para compensar a eliminação de postos de trabalho em conseqüência de inovações tecnológicas e da redução dos investimentos.

O sistema é implacável em sua dinâmica: os ganhos são apropriados pelos ricos e poderosos, enquanto para os pobres, na melhor das hipóteses, são proporcionados os benefícios filantrópicos paternalistas.

Devido à concentração do capital e do poder, as relações sociais continuam sendo autoritárias, impedindo voz e vez às populações carentes. Em muitos lugares ocorre um retrocesso em termos de direitos de cidadania e de extensão dos direitos humanos a todos. Os efeitos sociais e culturais do sistema são desestruturadores: a corrida por acumulação e competitividade sufoca os valores de cooperação e solidariedade e reprime as manifestações de identidade cultural.  Finalmente, o sistema é auto-destrutivo em sua dinâmica: seu avanço está baseado na depredação do meio ambiente, o que mina a própria existência e sobrevivência da população, ignorando ou desprezando os direitos das gerações futuras.  A legislação ambiental surge como defesa tardia e incompleta diante o volume e a gravidade dos danos que ameaçam a segurança e a sustentabilidade ecológica do planeta e de seus habitantes.

Percebe-se portanto o esgotamento do paradigma de desenvolvimento capitalista, cuja natureza centralizadora e autoritária inviabiliza a evolução pacífica para um convívio democrático e solidário. Por isso, negamos a legitimidade de objetivos e prioridades economicistas, impostos pela lógica e a moral da globalização econômico-financeira. Conclamamos por uma construção de uma perspectiva social, democrática e sustentável que promova a liberdade e a dignidade humana. Enfim, um projeto do futuro, a utopia de transformação ética e cultural da humanidade como um todo!

A utopia em marcha

O cenário emergente no final do século vinte criou desafios econômicos, sociais e políticos  para os quais a social democracia, mesmo travestida de Terceira Via não estava preparada e capacitada de responder. Com a recessão profunda que se abateu sobre a economia norte americana cujos efeitos se propagaram como em círculos concêntricos através do sistema mundial, inúmeros países “emergentes” praticamente afundaram em suas dívidas e contradições sociais internas. O colapso da Argentina em 2001 assinalou que o sistema financeiro internacional estava nos limites de poder "salvar" economias falidas, endividadas e corruptas (México, Tailândia, Indonésia, Rússia, Brasil, Turquia, Equador, Filipinas e outras). Mas, ao caos econômico segue inevitavelmente o social e político, tese profusamente demonstrada pelas manifestações de massas de revoltados, cidadãos empobrecidos e marginalizados.

Do outro lado da "cortina de ferro", a derrocada do sistema stalinista na ex-URSS e nos países satélites resultou de imediato numa deterioração violenta das condições de vida da maioria das populações, repentinamente expostas às turbulências do mercado, sem a proteção paternalista (educação, saúde, habitação, emprego) do Estado.

Na década dos noventa, quarenta países estavam sendo dirigidos por governos sociais democratas ou por alianças dominadas pela "esquerda". Entretanto, revelaram se impotentes para induzir mudanças sociais e econômicas face à pressão avassaladora da globalização econômica e militar e, devido aos compromissos assumidos com os representantes do capital nacional e internacional.

As lideranças políticas dos partidos social-democratas inclusive o PSDB no Brasil ficaram presas na armadilha que elas próprias construíram. Tendo pregado e defendido durante anos que não haveria futuro fora do sistema neoliberal, assumiram plenamente a responsabilidade pelas políticas econômicas, financeiras e trabalhistas decorrentes, e contribuíram para o agravamento da marginalização e exclusão de milhões de pessoas vítimas do aumento da “divida social”, enquanto nas questões de política externa aderiram à doutrina da globalização "inevitável", aliando-se incondicionalmente à superpotência hegemônica.

Não advogamos contra a integração regional e internacional, mas rejeitamos sua imposição “por cima” que tende a agravar a assimetria social e a divisão da humanidade entre uma minoria rica e poderosa, e a massa de desprivilegiados e excluídos.

Não pregamos contra a integração e a aproximação dos povos, mas elas devem processar-se democraticamente, de modo gradual e seletivo.

A distinção entre a globalização e a universalização não é apenas conceitual. A investida da primeira contra barreiras ao livre comércio é brutal, sob o comando das corporações transnacionais. A universalização impulsionada pelas ONGs, os movimentos sociais, alguns sindicatos e partidos promove uma integração dos povos, de suas economias e culturas, de forma lenta, gradual e seletiva. Os agentes da globalização, em sua busca de maximização de retorno sobre os investimentos, pressionam por escalas de produção e o nivelamento dos padrões de consumo, enquanto os atores da universalização defendem o pluralismo e a diversidade de estilos de vida. A globalização adota padrões de organização, tanto no setor privado, quanto no público, rígidos, de centralização autoritária, em oposição aos princípios de democracia participativa, de transparência e de responsabilidade cidadã da universalização. Na primeira, os seres humanos estão sendo alienados e transformados em meros objetos de decisões tomadas segundo a racionalidade funcional de “meio-fim”, enquanto na segunda, cada um(a) se torna sujeito ativo e autônomo do processo, orientado por valores substantivos ancorados na Carta dos Direitos Humanos.

Os agentes da globalização são dominados pelo frio cálculo econômico, insensíveis aos efeitos desastrosos no tecido social. A universalização enfatiza os aspectos éticos do comportamento individual e coletivo e não gera desempregados, desabrigados, famintos, doentes, enfim, excluídos.

Em suma, a globalização configura um processo de integração “por cima”, na contramão da História, enquanto a universalização “de baixo para cima”, acena com um futuro mais digno, justo e seguro para a humanidade.

A utopia socialista no século XXI

O fim do século XX viu ruir as utopias revolucionárias e, ao mesmo tempo, o fracasso da ideologia desenvolvimentista. A maioria da população mundial, vivendo nos países do Terceiro Mundo, passou pela amarga experiência de rejeição e desencanto das promessas da ideologia dominante secularizada. Perdeu suas frágeis esperanças e com elas, a visão de um futuro mais justo e uma vida mais digna. A brutalidade das políticas reais do sistema capitalista, desprezando e reduzindo os valores humanistas a conceitos de mercado e de transações comerciais acabou provocando as reações de indignação e revolta, em busca da utopia perdida.

A promessa de uma era de progresso e justiça para todos, lançada com o advento da Revolução Francesa de 1789 e novamente, após a II Guerra Mundial, foi desmentida por um processo de desenvolvimento desigual que deixou o mundo das ex-colônias cada vez mais para trás. Os impactos  da modernidade nas sociedades tradicionais causaram a ruptura de seu tecido social e a conseqüente perda de identidade e das raízes culturais de suas populações, além da desorganização do sistema econômico.

A destruição e o caos causados pelo avanço impetuoso da chamada modernidade,criaram o caldo de cultura fértil para o renascimento do fanatismo fundamentalista, da xenofobia e intolerância e da propensão à “guerra santa” contra os “infiéis”.

É verdade, a crise de identidade é geral em todas as sociedades, à medida que a exclusão, a insegurança e a incerteza quanto ao futuro se tornem o destino comum da maioria da humanidade.

As experiências fracassadas da ex-URSS e, também, da social-democracia, inclusive da nati-morta Terceira Via, longe de assinalar o “fim do socialismo”, encerram lições valiosas para os movimentos sociais emancipatórios do século XXI. O Estado de bem-estar foi capaz de reduzir transitoriamente o desemprego e diminuir a pobreza nos países mais desenvolvidos. Mas, politicamente, levou à cooptação das elites dos trabalhadores e sua adesão ao discurso e às práticas de flexibilização das relações de trabalho, com a conseqüente polarização da sociedade e a marginalização dos mais pobres. Uma sociedade dividida em classes não pode construir um sistema socialista democrático e justo, seja por mando de um Estado autoritário, seja pelo mecanismo da “mão invisível” do mercado.

As políticas neoliberais e suas desastrosas conseqüências em termos de deterioração da qualidade de vida dos trabalhadores e da maioria da população estão na raiz do distanciamento das massas de seus partidos tradicionais e dos governos com os quais estes colaboram. Para os grupos mais politizados, os partidos social-democratas e socialistas perderam o poder de mobilização, pela incapacidade de evocar uma visão alternativa da sociedade. Outra parte das vozes e votos discordantes foi para a "direita" (vide o avanço de Le Pen, J. Haider e outros) que, pregando também contra a globalização, colheram os votos dos pobres marginalizados, da baixa classe média e dos desempregados que se sentiram abandonados pelos partidos de esquerda tradicionais.

Tanto os social-democratas reformistas quanto os revolucionários replicaram em suas organizações e nas práticas políticas os padrões de conduta e de liderança autoritários, baseados em raciocínios cartesianos lineares com suas interpretações deterministas da História. Uma proposta alternativa abrangeria inevitavelmente desde uma visão do mundo diferente ("o mundo não é uma mercadoria"...) até novas formas de organização e mobilização social. A nova visão, ao rejeitar a globalização imposta "de cima para baixo", propõe a integração a ser realizada pelas populações, "de baixo para cima". Em vez de um punhado de executivos, empresários, tecnocratas e seus intelectuais orgânicos, seriam as organizações populares e democráticas, baseadas na participação e o engajamento de todos, que conduzirão o processo de transformação social, econômica e política. Essa empreitada e as tarefas dela decorrentes não podem ser atribuição de uma minoria "iluminada".

A construção de projetos alternativos baseados nas premissas de cooperação, solidariedade e justiça social  constitui o pilar de um regime de democracia participativa, em substituição à coerção exercida mediante o marketing político e a manipulação da opinião pública pela mídia oligopolizada.

O neoliberalismo em ascensão no final do século vinte enfraqueceu o potencial democrático da luta pelos direitos humanos, característica central de nossa época. Desenvolveu uma estratégia dividida em três etapas: na primeira, privilegiam-se os movimentos e organizações do terceiro setor como expoentes da suposta solidariedade social. Mas, a ênfase na importância dos direitos civis tende a ofuscar a luta pelos direitos políticos. Ainda mais residual e relegada fica a terceira etapa, a conquista dos direitos sociais e econômicos - emprego, habitação, educação, saúde e lazer para todos.

Os movimentos em prol da emancipação de toda a humanidade e da conquista plena da cidadania procuram resgatar a natureza e a dinâmica indissoluvelmente interligada das três dimensões, desde os direitos básicos à uma existência material e espiritualmente assegurada até à liberdade, a participação democrática e a justiça social. É a concretização do conjunto dessas três reivindicações que constitui o paradigma alternativo ao modelo neoliberal.

A modernidade neoliberal provocou a desarticulação da luta pelos direitos humanos e a invasão do mundo de trabalho, gradualmente transformado em mundo de pobreza, marginalidade e exclusão. Pobreza e desigualdade acabam sendo marginalizadas dos debates políticos, e deslocadas para a categoria de fenômenos regidos pelas “leis da natureza" ou da economia do mercado. Em outras palavras, poderiam ser solucionados somente pelo crescimento econômico e, até lá, são sujeitos ao tratamento pela gestão técnica ou pela filantropia. Os donos do poder qualificam o discurso e as reivindicações pelos direitos à cidadania como manifestações de atraso que criariam obstáculos à ação modernizadora do mercado. Em vez de responsabilidade política oferecem a responsabilidade moral e a "comunidade solidária" que distribui benefícios e serviços que impedem a formulação de metas e objetivos da luta pelos direitos à cidadania como uma questão pública. Pobreza passa a significar objetivamente a negação desses direitos, condenando a maioria da população à condição de dependentes de caridade alheia, e ao mesmo tempo sufocam o espírito de reivindicação e luta.

A conquista dos Direitos Humanos, a plena vigência do Estado de Direito e da justiça social exigem ações coletivas nas quais os atores sociais se tornem agentes ativos e conscientes do processo histórico e gestores de seu destino.

Na sociedade capitalista, a reprodução da exploração econômica e da dominação política inviabiliza os esforços de humanização das relações sociais em geral, e do trabalho em particular. Por outro lado, sendo as questões de liberdade e igualdade inseparáveis do socialismo, este só é concebível com a plena vigência da democracia, ou seja, a abolição da separação entre dirigentes e executores, e o controle do processo de produção e de todas as atividades sociais por seus sujeitos, irmanados por laços de cooperação e solidariedade.

A nacionalização, o planejamento econômico impositivo e mesmo a socialização dos meios de produção pelo Estado não garantem a socialização do poder político. O Estado (na concepção leninista) continua a representar um mecanismo arbitrário de autoridade pública isolada da sociedade civil a qual procura construir o espaço de liberdade em oposição ao aparelho estatal. Este, embora possa superar a anarquia da concorrência selvagem, não é capaz de atender aos requisitos básicos de uma sociedade democrática – a liberdade e os direitos individuais, a autonomia e a iniciativa criativa.

O aparente impasse encontra respostas na prática política das sociedades modernas que evoluem de regimes de democracia formal representativa para a democracia participativa. A inadequação das primeiras fica cada vez mais patente, seja pelo nepotismo que cria verdadeiras dinastias, particularmente nas regiões mais atrasadas, seja pelo poder de manipulação e do marketing político da mídia, sem falar do peso das grandes organizações industriais e financeiras cujo poder financeiro constitui-se em fator decisivo em todas as eleições. São essas entidades que se tornam os maiores obstáculos à democratização da sociedade, em nome de supostos princípios racionais necessários ao funcionamento de organizações e sociedades complexas.

Reduzindo a participação da sociedade civil a um voto periódico, certamente mais eficaz do que a coerção autoritária despolitizam-se os conflitos alegando a busca de um consenso (manipulado).

Donde é possível inferir que a democracia social exige o controle dos meios de produção e dos aparelhos de poder. Mas, como contestar o argumento de competência necessária pela tecnologia de ponta cuja dominação exigiria os especialistas que inviabilizariam a democracia?

Sem resvalar para o fetiche da “democracia direta” via comícios, assembléias e revogação de mandatos seria possível construir a cidadania política? Comissões e conselhos em bases territoriais, dispondo de instrumentos de deliberação, fiscalização e censura, inclusive de referendos para decidir sobre prioridades de políticas públicas e alocação de recursos, como ocorre em vários municípios brasileiros que adotaram a prática de Orçamento Participativo, formarão a base da democracia socialista.

Aos céticos e cínicos que desdenhem de uma análise crítica do contexto histórico, sob a alegação da inviabilidade ou inutilidade de "utopias", deve se lembrar o que seria o mundo não houvesse, em todas as gerações, indivíduos capazes e corajosos de pensar as alternativas, posteriormente transformadas em realidade. Trezentos anos atrás, o mundo “civilizado” foi governado por um punhado de monarcas absolutistas (“l’ Etat c’est moi”) e suas cortes corruptas e parasitas.

Afinal, a História do capitalismo data de alguns séculos apenas, durante os quais foram travadas inúmeras guerras, com dezenas de milhões de pessoas exterminadas e inestimáveis recursos naturais devastados. Impelido por uma dinâmica perversa de concentração e polarização em todas as esferas da vida social, o sistema não parece dispor de saídas para romper o círculo vicioso. Baseando nos na premissa "toda a realidade é construção social" inferimos que aquilo que foi construído por seres humanos, por eles pode ser desconstruído e reconstruído. Portanto, seria ilógico e injusto rejeitar o socialismo, invocando o fracasso da única experiência de sua implantação, em condições históricas extremamente adversas.

Mas, diferentemente do embate entre capital e trabalho nos séculos XIX e XX que polarizou os conflitos sociais e políticos, o socialismo em nosso século será construído pelas alianças e redes entre movimentos e organizações sociais, em nível local, nacional e internacional. Suas lutas transcendem as questões salariais para enfrentar os problemas da exclusão social, o desemprego, a destruição de pequenas empresas, a precarização das relações de trabalho, a biodiversidade e a devastação ambiental, as reformas agrária e urbana e, sobretudo, a defesa intransigente dos Direitos Humanos em todas suas dimensões.

Para corresponder ao anseio generalizado por uma cidadania plena, de direitos e responsabilidades, a utopia socialista do século XXI será democrática, aberta à participação de todos e visceralmente comprometida com a liberdade individual e a justiça social.

Continuamos, portanto, a afirmar "um outro mundo é possível!”

Epílogo: A lenda da sarça ardente

Então, multiplicaram-se as vozes daqueles que diziam que os dias das trevas já duraram bastante, que se havia esperado demais para que a promessa da felicidade se tornasse realidade e o anúncio da luz – verdade.

E, eles diziam: ...”vamos, construiremos nossas casas ao redor da sarça que arde desde a eternidade. Os dias das trevas terminarão, pois a sarça continuará em chamas e nunca será reduzida a cinzas”.

Assim falaram os mais corajosos entre eles; aqueles nos quais o futuro vivia como a criança ainda não nascida vive no seio de sua mãe; aqueles que não perguntam ao oráculo “o que vamos fazer”?

Encontraram obstáculos e hostilidade em todos os lugares. Entretanto, foram muitos os que seguiram na escalada íngreme, rochosa que conduziu à sarça ardente. E, instalaram-se perto dela para viver no seu calor e sua luz.

Ora, aconteceu que seus ramos carbonizaram e caíram. As próprias raízes queimaram e viraram cinzas. De novo, as trevas expandiram-se e fazia frio.

E vozes se levantaram e diziam: “vejam como nossa esperança foi enganada. Não haverá culpa? Procuremos a quem ela cabe”!

Então, os novos senhores mandaram matar a todos que assim falaram e declararam: “Quem se levantar para afirmar que a sarça queimou, sofrerá uma morte ignominiosa. Somente o inimigo não enxerga a luminosidade da sarça, somente o inimigo sente frio em vez de seu calor”.

Assim, os novos senhores proclamaram, em pé sobre as cinzas e envolvidos por uma grande claridade espalhada pelas tochas nas mãos dos novos escravos.

Mesmo assim, alguns ainda se levantaram, e o futuro vivia neles como a criança que ainda não nasceu vive no seio de sua mãe e diziam: “A sarça apagou porque de novo existem entre nós senhores e escravos, mesmo que nós os chamemos por outros nomes. Porque existe entre nos a mentira, a baixeza, a humilhação e a sede de poder. Venham, vamos procurar alhures e recomeçar pelo começo”.

Entretanto, os novos senhores mandaram os escravos que cantassem, em todos os lugares e em todas as horas, em louvor da sarça ardente. Assim, ouviu-se seu salmodiar nas trevas: “Para nós, a luz brilha mais do que nunca”. Eles tremeram de frio, mas seu canto ressoava ...”o fogo eterno da sarça nos aquece”.

E os novos capangas dos novos senhores colocaram se a caminho para aniquilar todos que diziam a verdade, para afogar na vergonha os nomes daqueles que falaram em recomeçar. Mataram muitos, sem, contudo, destruir a esperança que é antiga como o orvalho e nova como a aurora que ainda não raiou.

“Existe uma outra sarça, precisamos procurá-la”, anunciaram as vozes secretas daqueles que têm em seu encalço os capangas dos senhores antigos e novos.

“Precisamos recomeçar, mesmo que tenhamos de plantar de novo a sarça”.

“Benditos sejam aqueles que assim falam! Que as pedras no caminho não sejam duras demais para seus pés e que sua coragem não seja menor do que nosso sofrimento”.

Assim falou o estrangeiro antes de nos deixar, mais uma vez. Tentamos olvidá-lo, ele e o gosto amargo de sua esperança. Estávamos cansados do eterno recomeço.

 

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