Por ANTONIO OZAÍ DA SILVA

Docente na Universidade Estadual de Maringá (UEM), membro do Núcleo de Estudos Sobre Ideologia e Lutas Sociais (NEILS – PUC/SP), do Conselho Editorial da Revista Margem Esquerda e Doutor em Educação pela Universidade de São Paulo

 

A corrida pelo Lattes

 

“... a política de “panelas” acadêmicas de corredor universitário e a publicação a qualquer preço de um texto qualquer se constituem no metro para medir o sucesso universitário. Nesse universo não cabe uma simples pergunta: o conhecimento a quem e para que serve?”

Maurício Tragtenberg [1]

 

Ao apresentar um currículo, enquanto componente do processo avaliativo, é normal que listemos as nossas realizações, fatores que edificam a nossa imagem e nos credenciam a receber as honrarias próprias dos vencedores ou a comprovar os limites e fragilidades da nossa ação. O curriculum vitae é o instantâneo da nossa corrida pela vida, corrida que não finda, pois que a vida nos exige seguir em frente. Ao apresentar o curriculum vitae nos habilitamos a permanecer no páreo, indagamos se somos merecedores de ir adiante e de poder participar da nova prova, num outro patamar.

Currículo também significa o ato de correr e curriculum vitae é, literalmente, carreira da vida. E, enquanto vivemos, corremos. A idéia prevalecente é que corremos sempre em direção à reta de chegada. Mas esta parece uma miragem, pois cada ponto de chegada indica um novo ponto de partida, e isso, permanentemente. Como Sísifo, estamos condenados ao eterno recomeço. Contudo, diferentemente da lenda grega, sabemos que nosso trabalho, nossa carreira da vida, embora pareça incessante, é finita; e, embora, às vezes nos questionemos sobre o sentido do nosso esforço, é um trabalho útil e compensador.

Sísifo foi condenado ao suplício de rolar uma rocha até o cume da montanha, de onde esta rola abaixo e ele é obrigado a recomeçar, um recomeço eterno. As rochas que carregamos parecem muitas vezes pesos insuportáveis, mas, ao contrário do triste labutar do rei de Corinto, o nosso recomeço indica que chegamos a um certo nível e que continuaremos a rolar a rocha a partir de um nível superior. Se aquele está condenado à eternidade, nós estamos sujeitos à finitude. E se tudo é finito, de que nos vale empurrar a rocha montanha acima, vencer batalhas, sabedores de que, inexoravelmente, perderemos a batalha final? De que nos valem os títulos próprios dos vencedores se estamos a priori derrotados pela nossa natureza intrínseca?

Competição e competência

A sociedade competitiva não admite perdedores, apenas vencedores. O currículo deixa de refletir as vicissitudes da vida e passa a ser a medida do sucesso. E este deve ser conquistado a qualquer preço. É uma corrida maluca, um vale tudo que se traduz no Currículo Lattes. Se você não tem o Lattes está socialmente morto, não existe. Mas não basta tê-lo, é preciso que ele expresse sua lista de realizações, e esta deve ser a maior possível.

Como o aluno, que para se redimir tem que ser aprovado no exame, o professor busca a sua redenção na folha corrida do currículo. Na angústia de atingir resultados e galgar o olimpo, ele tende a perder a dedicação ao saber, o prazer de estudar, pesquisar, escrever, desenvolver as atividades docentes etc. Em seu lugar, impõem-se as necessidades de sobrevivência: somar mais pontos e exibir títulos que o permita suplantar os concorrentes. Os meios se transformam em fins. Chega o momento em que até mesmo dar aulas torna-se um empecilho, um mal necessário, pois toma o tempo precioso que poderia ser dedicado às atividades que permitem acumular mais pontos. Disto pode depender o seu mestrado, o seu doutorado e o seu quinhão de poder.

O sistema de ensino se estrutura em função de uma idéia produtivista que envolve docente e discentes numa obsessiva competição: é preciso apresentar resultados. As exigências de títulos e a necessidade de se superar nos exames são cada vez mais intensas. Não há espaço para os incapazes, para os que não conquistam titulações. Mesmo os vencedores vivem numa espécie de estado de natureza hobbesiano onde a lei do mais forte se impõe e os obrigam a derrotar seus oponentes, a ser o melhor.

Assim como o aluno substitui o conhecer pela quantificação da memorização deste (Vale nota, professor?!), o docente e pesquisador tende a valorizar muito mais a produtividade do que o processo do conhecimento, da produção e elaboração teórica. É salutar que os indivíduos sejam estimulados a superarem a indolência, mas a pressão produtivista gera o efeito perverso do agir instrumental e o abandono do essencial (o processo em si, gerador de conhecimento e enriquecedor da formação intelectual) pelo aparente, isto é, o resultado espelhado na pontuação. Em outras palavras, privilegia-se a quantidade sem importar a qualidade.

Na sociedade competitiva, é preciso ser competente. A necessidade de engordar o Currículo Lattes está vinculada ao discurso da competência. Resgatando um argumento que utilizei em outra oportunidade[2] – e peço a compreensão do leitor pela insistência –, em termos práticos isso significa que todos estamos submetidos a exigências que não ousamos questionar, já que, por mais radicais que sejamos, delas dependem o nosso sucesso. Estabelece-se uma relação mecânica: quanto maior o currículo maior a competência. Muitos, à direita e à esquerda, afirmam a competência perante seus pares brandindo a folha curricular. Indubitavelmente, aceitam a hegemonia do discurso da competência. E parece impossível agir de forma diferente. Como não buscar a competência fundada em mecanismos de publicação e de participação interna e externa, quando se sabe que a carreira universitária, do mais simples aluno ao mais renomado pesquisador e docente, depende da quantificação de tudo o que ele faz na vida universitária? Tudo é contado, tudo é pontuado. Como no mercado, todas as atitudes são avaliadas e tem seu valor de troca quantificado em ‘x pontos’. Não importa onde você publicou, muito menos se o que você publicou tem importância e se terá leitores. Também não importam quais as estratégias que você utilizou para publicar.

Um exemplo nada exemplar

Não me estenderei mais na análise dos meandros que envolvem a necessidade de publicar nem sobre a participação em congressos, colóquios e coisas afins. Para além do cunho turístico e narcisístico que envolve tais eventos, reconheço as boas intenções e os bem-intencionados. Todos pecamos, mas nem todos temos consciência do pecado. Há, por exemplo, quem considere normal a prática de apresentar trabalhos assumidos em co-autoria, envolvendo docentes e discentes. Em certos eventos e áreas do conhecimento, não há qualquer estranheza sobre isso, é quase uma norma.

Antecipadamente, e para evitar mal-entendidos, esclareço que o enfoque desta reflexão recai sobre a graduação e que não há generalização em minha argumentação. Reconheço a possibilidade de um trabalho profícuo entre docentes e discentes. A dificuldade está em identificar onde há ou não a observância de procedimentos éticos, isto é, situações nas quais os discentes não sejam manipulados ou, o que é mais grave, que seus esforços sejam apropriados por seus professores sob o álibi do reconhecimento da orientação.

Não obstante, analisemos os argumentos favoráveis a esta prática. Um deles diz respeito à liberdade que o discente tem em recusar a manipulação e a apropriação do seu trabalho. Parte-se do princípio de que este tem o poder e as condições da recusa. Não nos caberia, portanto, questionar a co-autoria de um artigo publicado. Se o (a) aluno (a) aceitou tal associação, devemos apenas considerar o conteúdo do trabalho apresentado.

Ora, a relação docente/discente, por mais democrática que seja, não é uma relação entre iguais – e isto é ainda mais complexo quando esta relação vincula orientador/orientado. A relação professor/aluno, orientador/orientando é uma relação de poder. As relações de poder numa sociedade competitiva tendem a assumir uma característica negativa, isto é, a prevalência dos interesses daquele que se encontra em situação privilegiada. Mesmo o discurso democrático e paternalista não é capaz de superar esta desigualdade, apenas a mascara.

Por outro lado é preciso também considerar que o discente se encontra em início de carreira e susceptível a aceitar o mal menor. É o seu trampolim. Ele pode, conscientemente, submeter-se às exigências e argumentos do docente em nome da racionalidade instrumental – o professor o usa para “fazer currículo”, e ele o usa para “abrir as portas”, pois também necessita acumular currículo. Ele sabe que seu mestrado pode ser prejudicado se se indispor com tal professor. Essa racionalidade instrumental é a mesma que leva o graduando a escrever seu trabalho, sua avaliação etc., de acordo com a ideologia do docente. No final das contas, essa “troca” parecerá justa ao discente: ele se submete e ganha a nota, a publicação do seu artigo e porta aberta para um possível mestrado como prêmio; é o preço a pagar e chegará a sua vez de cobrar o seu preço.

Outro argumento favorável diz respeito à possibilidade de que, verdadeiramente, docente/discente, orientador/orientando formem uma parceria, independente das relações de poder e da autoridade legitimada de cada um. Esta é uma situação limite, que pressupõe indivíduos especiais e com experiências compatíveis. Não é esta a situação da maioria dos casos que envolvem graduandos. Uma coisa é um trabalho realizado conjuntamente, outro é, por exemplo, orientar uma iniciação científica e, por isso, considerar-se no direito de ser alçado à posição de co-autor. A orientação não substitui a pesquisa e elaboração do graduando; é redundante, porém necessário diante das circunstâncias, afirmar que o orientador orienta, não faz o trabalho pelo outro; por mais que esta orientação seja eficaz, a pesquisa e elaboração é tarefa do orientando (se o orientador gosta tanto de quem orienta, a ponto de fazer o trabalho por este, então extrapolou as suas funções).

Chegamos a um terceiro argumento: o orientador é partícipe do resultado apresentado pelo aluno pesquisador devido – eis outra redundância – ao fato de ter orientado. Ora, sua função não deve ser exatamente esta? Ou acaso a orientação dá o direito de considerar-se co-autor do trabalho orientado? Se orientar fornece o status de co-autor, então, para ser justo, as monografias e teses deveriam ser assumidas como de autoria do orientador/orientando – e, se publicada, deveriam constar o nome de ambos, como co-autores. Aliás, seria preciso acrescentar os nomes dos membros da banca, já que o produto final também é fruto deste diálogo e das críticas e sugestões dos mesmos.

Um último argumento que levarei em conta é aquele que afirma a necessidade de estimular o trabalho conjunto, inclusive multidisciplinar. Concordo com a preocupação em romper o isolacionismo do trabalho intelectual, o qual favorece o individualismo e aquela espécie de doença que acomete as comunidades narcisísticas. No entanto, devemos levar em conta a distância entre o ideal e o real. Desde crianças que somos ensinados a competir e se formamos grupos é apenas para melhorar a performance competitiva. Tomemos como exemplos os trabalhos escolares em grupos: em geral estabelece-se uma divisão taylorista do trabalho intelectual, com cada um se “especializando” numa determinada área do tema a ser pesquisado e exposto; é comum, inclusive, que no processo de “fazer o trabalho” uns se acomodem e se encostem nos demais; e, no final, o que importa é a nota, o prêmio. Conclusão: estamos longe da situação de um trabalho verdadeiramente conjunto.

Devemos estimular os graduandos a se superarem, a escreverem e publicarem – e precisamos criar os espaços e as condições para isso.[3] Enquanto indivíduos que, em tese, são mais experientes, os docentes devem orientá-los da melhor maneira possível – o que não é fácil. Não é suficiente que o reconhecimento destes a algo que, enfim, é uma das nossas funções, fique restrito à manifestação de apreço e respeito – ou mesmo a uma nota de rodapé no trabalho publicado? Por que a necessidade de aparecer como co-autor? Tenho certeza de que a “corrida ao Lattes” e a necessidade de acumular pontuação na tabela da carreira institucional são fatores a ser considerados como parte da resposta.

Em suma, trata-se de uma questão ética que envolve as já complicadas relações docentes/discentes. E diante da impossibilidade de diferenciar comportamentos éticos e anti-éticos, no que diz respeito à co-autoria no neste nível, o que exigiria um trabalho de detetive não pertinente à nossa função, a não ser que se tenha tendência à delação, considero que é aconselhável matar o mal pela raiz, ou seja, extirpar tal prática não aceitando, para efeito de eventos e publicações, trabalhos com esta característica. Quem orienta que assuma e se contente com o seu papel. E que ao discente seja dado a condição de caminhar com as próprias pernas.

Concluindo...

Não conheci o ilustre pesquisador cujo nome batiza o conhecido sistema de dados curriculares adotado pelas instituições universitárias. Acredito que a homenagem seja justa. Contudo, fico a refletir como o renomado pesquisador reagiria diante de determinadas ações racionais relativas a fins que permeiam o meio acadêmico e que se traduzem na “corrida maluca” pelo currículo; numa ânsia de produtividade na qual impera o vale tudo. É certo que a pressão é enorme e tem sua origem nas mais altas e prestigiadas instituições que zelam pelo ensino superior. É difícil resistir, sob pena de estorvar a carreira acadêmica. Entretanto, não é preciso “vender a alma ao diabo”. Se há quem o faça, e de bom gosto, não devemos condenar nossos alunos e orientandos ao “fogo do inferno”. Até porque nada disso nos acompanha. Pelo menos não conheço caso onde o renomado indivíduo tenha sido enterrado – ou incinerado – com o seu Currículo Lattes e tudo o que está listado no mesmo. E ainda que alguém cometa essa loucura, de que lhe valerá?

Não advogo o pessimismo ou o conformismo, próprio dos que passam a vida a ver as nuvens passarem. Como Sísifo, aceitemos o desafio que nos é colocado, o suplício próprio do viver e, também, a inevitabilidade do que está além das forças humanas. Porém, com a certeza de que esta não é uma corrida linear; que a chegada não constitui o ponto de chegada final – ao menos enquanto há vida; e, que o esforço de chegar pressupõe opções que podem até mesmo tornar a corrida mais longa e sofrível e distanciarmo-nos do ponto de chegada. Os níveis de chegada e de partida não são os mesmos para todos. Construímos os nossos currículos, as vitórias e derrotas determinam os diferentes pontos de chegada e de partida (abstraindo-se as condições externas). Onde quer que cheguemos, a vitória é sempre relativa, indica apenas um recomeço até o momento final quando se confirma o humano em sua plenitude. Além da certeza de que na corrida da vida cometemos erros e fracassamos, precisamos ter uma atitude humilde diante das nossas vitórias e sucessos. Pois mesmo o maior e melhor dos guerreiros não ultrapassará a última linha de chegada.

 

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[1] Maurício Tragtenberg. A delinqüência acadêmica. Revista Espaço Acadêmico, nº 14, julho de 2002.

[2] Ver  Apologia da competência e a defesa da universidade pública. Revista Espaço Acadêmico, nº 14, julho de 2002.

[3] A Revista Urutágua, vinculada ao Centro de Estudos Sobre a Intolerância – Maurício Tragtenberg, é uma tentativa de contribuir para suprir esta lacuna. Para conhecer esta experiência acesse  

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