Por RAYMUNDO DE LIMA

Psicanalista, professor do DFE da Universidade Estadual de Maringá (PR); doutorando em educação (FEUSP)

 

A lista da escola contemporânea

 

A lista de material escolar é tema, todos os anos, de reclamação dos pais. Reportagens denunciam  o excesso de itens, alguns absurdos, que não tem nenhuma função didático-pedagógica, como agenda de R$ 20,00, sabonete, esponja para louça, material de higiene, etc. O aumento dos itens é mais visível na escola particular, sem falar na elevação da matrícula, mensalidade, uniforme, transporte, lanche, etc. As escolas estão cobrando demais e ensinando de menos. Ou, usando a metáfora de um antigo jornalista: a cada ano os itens sobem pelo elevador e a qualidade de ensino sobre pela escada.

Tento entender o por que as escolas aumentam a lista de material. Seria reflexo do consumismo? Por que as “particulares” estariam mais propensas ao consumismo do que as escolas rede pública de ensino que vem tomando medidas para prevenir contra o abuso de itens exigidos?

Apostilas: símbolo do ensino consumista

Inserida na ideologia de mercado, a escola particular – que cresceu muito na última década - optou por um ensino sustentado no mero materialismo que vai desde a lista de início de ano até o conteúdo programado em apostilas obviamente pagas. O ensino médio passou a concorrer com os cursinhos preparatórios para o vestibular, com apostilas descartáveis e “positivadas” e caras. Um conhecido autor de livros didáticos me disse que a maioria das empresas fabricantes de apostilas não paga direito autoral das reproduções dos livros que usa.

Como uma espécie de marmita de cultura geral, estudar com apostilas é um faz-de-conta que está aprendendo as matérias sem profundidade alguma. A crítica ao ensino “diletante” realizada na década de 30 pelos Pioneiros da Educação Nova, continua hoje camuflada nas apostilas, que pretende ensinar tudo que termina em nada. Além do mais as apostilas não são reutilizáveis como o livro. Apostilas jamais irão substituir os livros e o conhecimento do professor, da mesma forma que a assistir o “O alienista” levado pela TV Globo, jamais poderá substituir a leitura do livro de Machado de Assis. A linguagem escrita é diferente da linguagem da televisão. O mesmo poderia dizer da apostila, cujo resumo de uma história, ou de um conteúdo de ciências não consegue substituir a profundidade e a extensão do livro.

Reclamo do ensino apostilado porque além de caras é uma fraude pedagógica. O uso e abuso de resumos de livros nela usados, evita que muitos alunos comprem livros para lerem mais de uma vez. Espanta-me saber que muitos mestres e doutores em educação não discutem sobre essas coisas. Os pais podem estar sendo lesados duas vezes: na quantidade de itens cobrados, e na qualidade de ensino dessas escolas cada vez mais materialistas e um segundo grau cada vez mais com cara de cursinho preparatório para o vestibular. Lamentável dizer, mas a classe média tem uma parte de responsabilidade num ensino cada vez mais a serviço do mercado, porque é ela que sustenta a ilusão de que só o ensino particular abrirá as portas do paraíso da universidade pública  para os seus queridos filhos, já que a qualidade do ensino público vem capengando, no Brasil, desde a década de 60.  

Professores não críticos?

Embora sejam agentes críticos da civilização, muitas vezes os professores também se rendem às pressões do mercado: quando a necessidade obriga-os a trabalhar na escola particular, e quando se vêem obrigados a servirem como instrumentos da ideologia deste segmento escolar. A atitude crítica, nesse momento, dá lugar à alienação e o auto-engano. Como o objetivo maior do mercado é o lucro, não há como não situá-lo na contramão dos verdadeiros valores da vida humana. Um professor quando não convida os alunos refletirem sobre sua relação com o mercado, o mundo, e a vida social, não está efetivamente ensinando de modo crítico e realista.

Não se trata de fazer uma crítica estereotipada, como geralmente acontece nos discursos sobre a política educacional, nem se trata de ser um crítico contumaz, mas de se realizar uma crítica fundamentada nos fatos e com idéias consistentes, tal como demonstrou J. Passmore (1979). O professor deve procurar desenvolver nos alunos o espírito crítico. Mas ele também deveria cultivar o seu próprio espírito crítico, na instituição em que trabalha e na vida prática em geral.

Não conheço nenhum professor fundamentando sua crítica sobre o merchandising escolar. Merchandising são aquelas marcas de produtos e de serviços que poluem as novelas, programas de auditório, jogos e também as salas de aula. Já foram denunciados cadernos com propaganda de fast food, professores pressionando os alunos a comprarem as marcas “x” ou “y” ou fazendo publicidade de um serviço ou produto.

A Tilibra – empresa que fabrica e praticamente monopoliza a venda de cadernos, agendas e outros materiais escolares – não precisa investir dinheiro em propaganda na imprensa porque tem as escolas e professores para fazê-lo de graça.

O consumismo passa por cima dos nossos valores. Corrompe os pais e crianças para comprarem produtos de marcas prometendo a felicidade através da quantidade de material escolar, do caderno de grife, da caneta mais bonita, da mochila mais bem transada, do par de tênis de marca “x”, etc. Tentei argumentar com meus filhos para eles não comprarem o tênis da marca “N”, que explora trabalho semi-escravo de crianças na Ásia. Mas foi em vão. Preferem andar igual aos colegas, porque tal marca lhes dá status. Como pai e educador, só não fiquei mais frustrado porque não pediram o tênis mais caro, a que outros pais se rendem e acabam comprando. Triste consolo.

 

 

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