Por JOÃO DOS SANTOS FILHO

Bacharel em Ciências Sociais e em Turismo – Professor da Universidade Estadual de Maringá – UEM. Professor do curso de turismo do Centro Educacional Filadélfia de Londrina. Mestre em Filosofia e História da Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Aluno especial do doutorado em ciência do turismo na ECA/USP. Fundador da Associação Brasileira de Bacharéis de Turismo de São Paulo - ABBTUR/SP e do Instituto de Análises sobre o desenvolvimento Econômico Social - IADES. Membro do conselho cientifico do Boletim de Estudos em Hotelaria e Turismo – BEHT das Faculdades Integradas da Vitória de Santo Antão. Email:

 

O conceito de Pós-Turismo: uma breve dimensão crítica

 

Fascinante e desafiador é o campo das ciências humanas em que os conceitos são resultados de uma práxis configurada no âmbito da objetividade e subjetividade ganhando dimensões alternadas e até antagônicas, segundo as diferentes epistemologias que realizam a leitura da realidade social. Neste sentido, o aparecimento de conceitos é resultado do movimento histórico dos homens na busca para satisfazer suas necessidades, podendo muitas vezes apresentar-se com diferentes significações, pois é apropriado por teorias de tronco episteme distintas.

Esse processo de produzir ciência tem por princípio a universalidade que deve conter cada conceito, pois sua validade não pode ser generalista e nem ocasional, mas sim, produto do movimento da história, em que:

[...] Em primeiro lugar, o ser em seu conjunto é visto como um processo histórico; em segundo, as categorias não são tidas como enunciados sobre algo que é ou que se torna, mas sim como formas moventes e movidas da própria matéria: “formas do existir, determinações da existência” [1].

Os conceitos para serem validados como pressupostos axiomáticos devem expressar o todo, com isso, afirmamos que o surgimento do conceito de “Pós-modernismo” deve ser anteriormente compreendido, para podermos  habilitar-nos a entender o conceito de “Pós-turismo”.

O termo Pós-modernismo vem da América hispânica[2], e surge de fato com toda sua carga de força literária em 1930 dentro do mundo hispânico e posteriormente entre a década 40 e 50 aparecem na Inglaterra e Estados Unidos, com a intenção de descrever o que estava ocorrendo no mundo contemporâneo. De um lado para criticar a chamada sociedade socialista na sua negação à participação popular, coletiva e pelo autoritarismo do Estado stalinista, como também, os ideais da sociedade capitalista estavam se exaurindo pela crise econômica, social e política em conseqüência da primeira e segunda guerra mundial e pela fase do capitalismo de acumulação que necessita criar governos fortes principalmente nos países latino-americanos.

Nos anos 60 a luta da Guerra Fria desenvolvida por ambas as potências econômicas mundiais, cujo objetivo era negar a liberdade de opção política dos indivíduos, restrição total ao aparecimento de novos valores e comportamentos, todos são considerados “subversivos” dentro do capitalismo e socialismo até que provem ao contrário. Esse período, deveras cerceador das liberdades democráticas e bloqueador do desenvolvimento do pensamento crítico carregam consigo a instalação de um fascismo de Estado “imposto à população” em ambos os sistemas.

Na década de 1970 com a guerra do Vietnã o modernismo na arquitetura e estética, como diz Lyotard:

[...] a chegada da pós-modernidade ligava-se ao surgimento de uma sociedade pós-industrial – teorizada por Daniel Bell e Alain Touraine - na qual o conhecimento tornara-se a principal força econômica de produção numa corrente desviada dos Estados nacionais, embora ao mesmo tempo tendo perdido suas legitimações tradicionais. Porque, se a sociedade era agora melhor concebida, não como um todo orgânico nem como um campo de conflito dualista (Parsons ou Marx), mas como uma rede de comunicações lingüísticas, a própria linguagem – “todo o vínculo social” – compunha-se de uma multiplicidade de jogos diferentes, cujas regras não se podem medir, e inter-relações agonísticas. Nessas condições, a ciência virou apenas um jogo de linguagem [...] [3].

Essas formas narrativas de leitura da realidade subestimam a questão da luta de classes e transformam o principal em secundário e o secundário em principal, isto é, retira da teoria marxista sua potencialidade revolucionária enfraquecendo e questionando o que é chamada pelos opositores de busca incessante da totalidade, como assim comenta Perry Anderson em seu livro Considerações sobre o Marxismo Ocidental: “A primeira e mais fundamental de suas características foi o divórcio estrutural entre este marxismo e a prática política” (ANDERSON, p. 43), pressionando os intelectuais militantes a se refugiarem dentro da academia, mas, apesar de tudo, o marxismo como corrente filosófica vem apresentando:

Assim, desde 1924 a 1968, o marxismo não <<parou>>, como pretenderia Sartre mais tarde, mas avançou por um desvio sem fim afastado de toda e qualquer prática política revolucionária [4]

O Pós-modernismo, enquanto conceito do momento busca fragmentar a realidade para entendê-la em suas varias especificidades em seu processo de desconstrução, atingindo o pensamento histórico e obedecendo à lógica do pensamento antitotalizante, rejeitando as grandes interpretações. O que ocasiona um apoio à não mudança do modo de produção capitalista, auxiliando na criação de mecanismos que solidificam seu “status quo”. Portanto a pós-modernidade pressupõe ultrapassar o capitalismo não enquanto sistema econômico, mas sim, atender o princípio básico da expansão máxima da produção, circulação da mercadoria e tecnologia, estendendo o acesso da mesma aos vários extratos sociais, na perspectiva de ampliar o consumo e com isso, minimizar a exploração capitalista. Ampliando os horizontes da ampliação do capital, congelando o cotidiano revolucionário da realidade e formatando a linguagem do “pós”, como presente em todas as instâncias da sociedade.

Essa perspectiva de “pós” aliado ao moderno, segundo James Petras corresponde ao lado mais avançado das relações de produção, para ele:

Hoy en dia ser <<moderno>> significa tener acceso a los circuitos industriales del comercio, las finanzas, las inmobiliarias y la industria turística. Ser<<marginal>> hoy significa ser nacional, regional, local. Las élites internacionales son las que hacen la historia; los marginales son los objetos de esta: objetos de explotación, objetos típicos o sexuales del turismo, un emplazamiento para la apropiación y la inversión [5].

Neste sentido, a definição de Pós-turismo aparece no cenário acadêmico com Sergio Molina que não foge da caracterização do modernismo, para ele essa “categorização histórica” só existe com:

As tecnologias de alta eficiência e os fenômenos sociais e culturais da década de 1990 explicam o desenvolvimento do pós-turismo em contraste com princípios que alteram a continuidade dos tipos de turismo industrial.

No quadro do pós-turismo geram-se produtos competitivos com capacidade crescente de inserção no mercado. A base tecnológica disponível pode ser considerada como um elemento fundamental em seu desenvolvimento, formando parte de um sistema mais amplo, o sócio-técnico, que compreende também a força de trabalho, a organização para o trabalho e a gestão[6].

O entendimento do conceito de “pós-turismo” para ele está formatado dentro de uma base epistemológica estruturalista, reduzindo o termo “pós” a algo determinado pelo avanço tecnológico e não pela racionalidade humana, ou melhor, há um desprezo pela razão e um apego à criação de modelos para entender a realidade. Esses construtos mentais de fundo idealista para se defenderem tacham o movimento dialético e histórico como totalitários e ligados ao determinismo das leis da natureza.

Com esse comentário, podemos indagar, nós latino-americanos dificilmente poderemos ter em nosso continente a aplicabilidade do conceito de “pós-turismo”, em razão de não dominarmos a alta tecnologia no campo da informática. O “pós-turismo” estaria reservado aos países desenvolvidos? Ou esse conceito é por si equivocado?

Para Molina Pós-turismo são os parques temáticos, em que a tecnologia manipula o real e leva o cotidiano das pessoas ao sabor do lúdico que substitui a consciência da práxis social pelo imaginário metafísico do impossível, materializado pela fuga do mundo dos mortais para o patamar dos super-heróis. Esse apego ao mundo do irracionalismo reflete a negação e desprezo para com a razão e a história.

A sociedade não pode ser vista conforme o olho de quem a controla economicamente, politicamente e socialmente, bem como, os conceitos são resultado de uma práxis histórica, por isso Sergio Molina acabou contribuindo para o empobrecimento da definição de “pós-turismo”. Trazendo a compreensão do fenômeno turístico para o campo tecnicista e fenomenológico o que vulgariza a ciência do turismo, pois coloca o mesmo num patamar de negação da dimensão histórica:

[...] a serviço dos interesses dominantes da ordem estabelecida. Nesse espírito, as definições de “modernidade” são construídas de tal maneira que as especificidades socioeconômicas são apagadas ou deixadas em segundo plano, para que a formação histórica chamada de “sociedade moderna” nos vários discursos ideológicos sobre a ”modernidade” possa adquirir um caráter paradoxalmente intemporal rumo ao futuro, em virtude de sua contraposição, exagerada de modo acrítico, ao passado mais ou menos distante [7].

Concluindo esse breve comentário a respeito do conceito de pós-turismo, não poderíamos deixar de salientar que o mesmo definido por Molina oferece o risco da visão fragmentada, e da incorporação de uma historiografia hegemônica em detrimento a uma historiografia Latino-americana e acaba subestimando a intelectualidade regional. Por isso, terminamos com um pensamento de Georg Luckács que em seu livro clássico: El Asalto a la Razon – La trayectoria Del irracionalismo desde Schelling hasta Hitler, afirma que

“[...] no hay ninguna ideología “inocente”. No la hay en ningún sentido, pero sobre todo en relación con nuestro problema, y muy en especial en lo que se refiere cabalmente al sentido filosófico […]”. (Luckács, 1972. P. 4 e 5)


[1] LUKÁCS, Georg. As Bases Ontológicas do Pensamento e da Atividade do Homem. In. Revista Temas de Ciências Sociais. São Paulo: Editora Ciências Humanas, 1978. P.3.

[2] Uma obra fundamental para a compreensão desse processo é a de Perry Anderson. As Origens da Pós-Modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. E outra de igual porte é a obra que foi organizada por Ellen Meiksins Wood e John Bellamy Foster. Em defesa da História: Marxismo e pós-modernismo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

[3] ANDERSON, Perry. As Origens da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999. P.32.

[4] ANDERSON, Perry. Considerações sobre o Marxismo Ocidental. Porto: Afrontamento, 1976, P. 58.

[5] PETRAS, James. Modernidad versus comunidad. In. Interrgantes de la Modernidade. Cuba: Ediciones Tempo, s/d, p.25.

[6] MOLINA, Sergio. O pós-turismo. São Paulo: Aleph, 2003. P. 27 e 28.

[7] MÉSZÁROS, István. O poder da ideologia. São Paulo:Ensaio, 1996. P. 29.

 

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REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

ANDERSON, Perry. Considerações sobre o Marxismo Ocidental. Porto: Afrontamento, 1976.

________. As Origens da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999.

LUKÁCS, Georg. As Bases Ontológicas do Pensamento e da Atividade do Homem. In. Revista Temas de Ciências Sociais. São Paulo: Editora Ciências Humanas, 1978.

MÉSZÁROS, István. O poder da ideologia. São Paulo: Ensaio, 1996.

MOLINA, Sergio. O pós-turismo. São Paulo: Aleph, 2003.

PETRAS, James. Modernidad versus comunidad. In. Interrogantes de la Modernidad. Cuba: Ediciones Tempo, s/d.

WOOD Ellen Meiksins, FOSTER John Bellamy. Em defesa da história: marxismo e pós-modernismo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999.

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