|
Por
ARLETE VIEIRA SILVA
Docente da
Universidade Estadual de Santa Cruz – UESC – Ilhéus, BA |
|
Uma reflexão para a prática educativa
em Paulo Freire
Antes
de anunciar a presença de Paulo Freire como educador faz-se
necessário contextualizá-lo como homem. Diga-se um “percebedor” da
realidade por sua condição de pobre, nordestino e brasileiro. Sua
luta e presença baseiam-se na categoria “opressão”, principalmente,
por ter sido um homem que fez uma leitura concreta do mundo do
oprimido, da complexidade da relação oprimido e opressor, para,
finalmente, propor uma pedagogia libertadora que consiste em uma
educação voltada para a conscientização da opressão (pedagogia do
oprimido) e a conseqüente ação transformadora.
Segundo Andreolla (1997), a categoria
“opressão” em Paulo Freire assume dimensões várias. A saber, na
dimensão antropológica, mata a cultura do homem, o seu saber
enquanto homem (nas palavras de Boaventura Santos, um “epistemicídio”:
matar o conhecimento do outro); na dimensão psicológica
derruba com o “ser”, o “eu” do homem, permitindo como conseqüência
sua coisificação e ou despersonalização; na dimensão ontológica
está paralelo à desumanização, enquanto “ser homem” (processo de
hominização x cultura necrófila); na dimensão econômica, a
opressão permite que ricos estejam cada vez mais ricos e pobres cada
vez mais pobres. A ideologia do “ter mais” se concretiza na relação
dominador e dominado; na dimensão política há
desenfreadamente a ação do poder central sobre a periferia, isto é,
ou são leis que beneficiam e privilegiam alguns, ou são “Medidas
provisórias” que retratam um poder autoritário que é cego às
necessidades e prioridades de uma grande maioria; e por último a
dimensão pedagógica cujo caráter de opressão se estabelece na
forma de leis que na prática retrocedem às conquistas e desejos de
toda comunidade educativa e também na forma de relação professor e
aluno e todas as nuances do sistema de ensino (currículo, prática
pedagógica e avaliação). Nestas dimensões a obra, e a vida de Paulo
Freire dão uma resposta, apontando caminhos: Ao tratar da
pedagogia da “consciência” pretendeu elucidar do educando sua
criticidade, criatividade e ação diante do que está dado: é preciso
que o oprimido tenha consciência de sua opressão (pedagogia do
oprimido). Ao tratar da pedagogia da “pergunta” ele torna-se
um sociólogo da sala de aula e reflete a relação professor e aluno
enquanto concepção bancária x concepção libertadora, onde o primeiro
(como num banco) deposita conhecimentos através da transmissão
apenas no segundo e, este o armazena e devolve na prova final.
“O educador faz “depósitos” de
conteúdos que devem ser arquivados pelos educandos. Desta maneira
a educação se torna um ato de depositar, em que os educandos são
os depositários e o educador o depositante. O educador será tanto
melhor educador quanto mais conseguir “depositar” nos educandos.
Os educandos, por sua vez, serão tanto melhores educados, quanto
mais conseguirem arquivar os depósitos feitos. (Freire, 1983:66)”
Prova, tão logo, que através da
“problematização” da realidade, da significação é possível
desenvolver uma concepção libertadora na relação professor e aluno e
conhecimento e aprendizagem.
“Como situação gnosiológica, em que
o objeto cognoscível, em lugar de ser o término do ato cognoscente
de um sujeito, é mediatizador de sujeitos cognoscentes, educador,
de um lado, educandos, de outro, a educação problematizadora
coloca, desde logo, a exigência da superação da contradição
educador x educando. Sem esta, não é possível a relação
dialógica, indispensável à cognoscibilidade dos sujeitos
cognoscentes, em torno do mesmo objeto cognoscível.” (Freire,
1983:78)
Entre
educador e educandos não há mais uma relação de verticalidade, em
que um é o sujeito e o outro objeto. Agora a pedagogia é dialógica,
pois ambos são sujeitos do ato cognoscente. É o “aprender ensinando
e o ensinar aprendendo”. O diálogo, em Freire, exige um pensar
verdadeiro, um pensar crítico. Este não dicotomiza homens e mundo,
mas os vê em contínua interação. Como seres inacabados, os homens se
fazem e refazem na interação com mundo, objeto de sua práxis
transformadora. (Boufleuer, 1991) A prática pedagógica passa a ser
uma ação política de troca de concretudes e de transformação.
O que Paulo Freire nos ensina hoje é
colocar em prática uma lição que sabemos de cor. Afinal, os cursos
de formação de professores tomam conhecimento de sua proposta.
Vários estudos e publicações têm mostrado que a proposta de Paulo
Freire perpassa tanto o ensino formal como o informal.
Nas análises de currículo, prática
pedagógica e avaliação, em nossas escolas, percebe-se uma
aplicabilidade de sua proposta. Ou seja, quando analisamos sobre os
conteúdos serem interdisciplinares (politécnicos), fragmentários;
quando abordamos a necessidade de união entre teoria e prática
enquanto metodologia; e, ainda a democracia enquanto gestão, nós nos
damos conta da pedagogia problematizadora de Paulo Freire.
A lição maior como educadores que temos
de Freire é a preocupação com o social. A busca de alternativas e
propostas devem ser uma constante em nosso dia a dia, no sentido de
resgatar o “homem”, o “cidadão” e o “trabalhador” da alienação de
seu “ser”, de seu exercício de cidadania e de sua dignidade.
Ainda, como homem de seu tempo, devemos
aprender de Freire, a ter presente o nosso tempo sem alienação do
real. As proposta pedagógicas devem ser alternativas de
“hominização” em contraposição ao processo de relações econômicas,
que se definem em alienação do homem e expropriação de seu saber.
Segundo Marx (1968), em O Capital, com a venda da força de trabalho,
o trabalhador é considerado igual a uma mercadoria, é coisificado na
relação de produção, é “apropriado” pelo capital. As relações de
produção passam pelos critérios do capital e não pelos critérios da
humanidade. A mercadoria encobre as características sociais do
próprio trabalho dos homens. Fernandes explica assim este fetichismo
da mercadoria:
“(...)...quanto mais o trabalhador se
apropria do mundo exterior, da natureza sensorial, através do seu
trabalho, tanto mais ele se priva de meios de vida segundo um duplo
aspecto; primeiro que cada vez mais o mundo exterior sensorial cessa
de ser um objeto pertencente ao seu trabalho, um meio de vida do seu
trabalho; segundo, que cada vez mais cessa de ser meio de vida no
sentido imediato, meio para a subsistência física do trabalhador.
(...) apenas como sujeito físico ele é trabalhador.” (Fernandes,
1989)
Finalizando, as categorias diálogo,
oprimido, problematização, conscientização, libertação definem o
homem político em Paulo Freire. Ou seja:
-
Sua proposta vai além das críticas das
formas educativas atuais, porque define-se em uma pedagogia da
consciência: consciência crítica enquanto conhecimento e práxis de
classe.
-
Na escola formal, a pedagogia de Paulo
Freire requer um professor problematizador da realidade, pois
trata-se da pedagogia da pergunta que requer diretividade.
-
Através de uma relação dialógica e
dialética entre professor e aluno, a proposta pedagógica de
Freire, centraliza-se na dimensão do conhecimento, no sentimento
de aceitação do outro, da interação, da intersubjetividade.
-
A revolução necessária para a
transformação social que não considera o amor, apenas substituirá
o opressor – o oprimido passa a ser o opressor – que continuará a
mesma lógica da dominação.
-
A revolução deve ser entendida como um
processo, uma mudança democrática e não apenas como uma ruptura. A
revolução é um processo político pedagógico de transformação, que
requer reconstrução do poder em novas formas de relação. “A
revolução que deve ocorrer é uma grande ação cultural para a
liberdade, realizada pelo povo (Freire, 1977).”
-
A pedagogia do oprimido tem por base o
diálogo, necessidade ontológica do ser humano.
-
Ser utópico, também, é uma exigência
ontológica do ser humano, uma exigência histórica.
Esta foi sua luta e, é esta a sua lição. |
|

|
|
Bibliografia
ANDREOLA, Balduíno. Comunicação
especial. Palestra proferida na disciplina “História das
Idéias Pedagógicas” no curso de Mestrado em Educação da
Universidade Federal de Pelotas. Dia 16 e 23 de maio de 1997.
BOUFLEUER,, José Pedro. Pedagogia
Latino-Americana: Freire e Dussel. Ijuí: UNIJUÍ, (coleção
educação: 12), 1991.
FERNANDES, Florestan.
Marx-Engels: História (textos selecionados) São Paulo: Ática,
1989.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do
oprimido.12a edição. Rio de Janeiro: Paz e
Terra, 1983.
____________. Educação e mudança.
15a edição. Rio de Janeiro. Paz e Terra, 1989.
____________. Ação cultural para
a liberdade. 2a edição. Rio de Janeiro: Paz
e Terra, 1977.
GADOTTI, Moacir. Paulo Freire,
uma biobibliografia. São Paulo, Cortez: Instituto Paulo
Freire; Brasília, DF: UNESCO,1996.
MARX, K. O Capital. Vol. 1,
Livro 1: O processo de produção capitalista. Civilização
Brasileira, 1968. |
|