Por EVA PAULINO BUENO

Depois de quatro anos trabalhando em universidades no Japão, Eva Paulino Bueno leciona Espanhol e Português na St. Mary’s University em San Antonio, Texas. Ela é autora de Mazzaropi, o artista do povo (EDUEM 2000), Resisting Boundaries (Garland, 1995), Imagination Beyond Nation (University of Pittsburgh Press, 1999), Naming the Father (Lexington Books, 2001), e I Wouldn’t Want Anybody to Know: Native English Teaching in Japan (JPGS, 2003)

 

Limpando a casa, organizando o planeta

 

Nestes dias em que temos umas horas de folga, qual é a coisa mais comum que fazemos? Depois de um semestre afogada em aulas, reuniões, provas e trabalhos pra corrigir, e constantes preocupações com a preparação das aulas, o que eu mais quero é ligar a televisão e me distrair. Durante o semestre letivo, mal tenho tempo de ver as notícias. Então, neste fim de dezembro, televisão ligada durante as manhãs, notei uma insistente tendência: programas em que os apresentadores vão à casa das pessoas, munidos de “designers,” arquitetos, pintores, arrumadores, e fazem mudanças radicais, deixando a casa “mais moderna", “mais funcional".

Estes tipos de programas de arrumação de casa estão no ar há muitos anos, logicamente. Mas eles eram coisas muito mais simples. Em 1990, por exemplo, me lembro de um tal show que era apresentado por duas mulheres muito caseiras, que ensinavam utilidades como: tirar manchas do carpete, conservar as flores, consertar uma torneira que estava pingando, limpar um ferro de passar que tinha grudado em plástico. Mais tarde, num programa produzido na Califórnia, o “designer” Chris Lowell ensinava como arrumar a casa de maneira que parecesse mais bonita, mais agradável. Chris Lowell tinha sido arquiteto de cenários de teatro, e seu programa realmente ensinava como disfarçar uma coisa como a outra, colocando cortinas, objetos que faziam reflexos em espelhos, e móveis feitos em casa, usando tábuas baratas e umas tintas muito espertas. Eu sempre gostei deste programa porque na ocasião que o assisti pela primeira vez gostei do apresentador, que era muito gentil com seus convidados, e era muito engraçado. Assim estavam as coisas em 1999, quando fui morar no Japão.

Na minha volta, entre a falta de tempo de ver televisão, e minha atenção dedicada a outras coisas mais urgentes, mal tive tempo de ver a revolução que tinha acontecido nestes tipos de programa. Agora, por exemplo, no sistema de cabo básico se encontram pelo menos 3 canais que se dedicam quase que exclusivamente aos cuidados da casa. Temos também um que ensina a fazer comidas o dia inteiro — e a noite inteira também, eu imagino, mas não conferi porque tenho o hábito de dormir durante a noite.

Os programas de arrumação de casa têm um estrutura básica muito simples: uma casa é detectada; ela precisa de alguma arrumação; os arquitetos, arrumadores, pintores, carpinteiros,designers, e a/o anfitriã/ão do show “baixam” na casa, e dentro de um tempo limitado, arrumam o que tem que ser arrumado, limpam o que tem que ser limpo, modificam o que tem que ser modificado, com ou sem a presença dos donos da casa. Tem um momento no final em que os donos da casa vêem o resultado final. A reação é sempre a mesma (exceto em um caso que eu vi): alegria, surpresa, agradecimentos, abraços, e até lágrimas de alegria.

Para o lado de fora da casa, existe um programa que dá à casa o que se chama de “curb appeal” — ou seja, “apelo da calçada.” Isto quer dizer: os profissionais transformam a fachada da casa, e o jardim, dando uma nova “cara” à casa. De acordo com os experts que fazem o show, isto aumenta o valor da propriedade e traz boa vontade dos vizinhos, os quais (pelo menos teoricamente) ficam satisfeitos em ver que o valor do bairro aumenta. Tem outros programas que consistem de um concurso entre três grupos de decoradores que fazem planos para como “atacar” um determinado problema numa casa, e os proprietários escolhem qual projeto fica mais a seu gosto.

Mas os shows que mais me chamam a atenção são aqueles que intervêm no espaço doméstico interior. Talvez porque este espaço seja realmente um espaço íntimo, que acolhe não só a fachada, a parte pública de uma casa, mas especialmente a história dos seus moradores, suas memórias, as pequenas lembranças ganhadas em aniversários, Natais, e outras datas. Um dos tais shows se chama “While You Were Out” — “Enquanto você estava fora”. Neste, um membro da família entra em conluio com o show, e arranja para o esposo ou esposa, o pai ou a mãe, ou ambos, saírem de casa por dois dias. Os pretextos para que estas pessoas passem dois dias fora variam desde “um prêmio para passar dois dias em um hotel fazenda,” a “colaborar em um filme comercial”. Com as pessoas fora da casa, a equipe então trabalha com o membro da família que restou. Já vi porões transformados em bibliotecas, salas simples transformadas em salas de alto luxo, quartos de dormir comuns transformados em quartos de hotel caríssimos (pelo menos na aparência).

Outro destes shows que me chama a atenção é chamado “Clean House” — “Casa Limpa.” Neste, a apresentadora do show, sempre usando uma rosa no cabelo combinando com a cor da roupa, invade a casa dos que estão vivendo na maior bagunça, faz um julgamento do que precisa ser feito, do que tem que ser eliminado e vendido em uma “venda de garagem.” Esta “venda de garagem” — “garage sale” – é coisa muito comum aqui nos Estados Unidos, e consiste das pessoas juntarem os bagulhos que não querem mais, colocarem na garagem da casa, encherem a vizinhança de sinais anunciando a venda, e passarem o dia vendendo, por moedas, tudo o que não usam mais. No show “Casa Limpa,” quem vende as coisas da garagem são os participantes profissionais. Foram eles quem escolheram os objetos a serem vendidos, muitas vezes ignorando os apelos dos donos da casa, que querem apegar-se a objetos de estimação, objetos de família. Durante a venda, os profissionais do show têm aqueles momentos em que eles querem forçar os transeuntes a comprarem os objetos, o que dá lugar a alguma comédia. Enquanto isto, os donos da casa olham, às vezes com dor nos olhos, alguns até com lágrimas, e não podem impedir que continue a venda, já que o dinheiro arrecadado vai ser dobrado pelo programa e depois usado para comprar coisas novas para a casa. O valor afetivo do objeto não significa absolutamente nada. O que importa é quanto dinheiro a equipe consegue arrecadar pelo que vende. O que não é vendido é doado a uma instituição de caridade.

Nestas alturas, uma equipe está se encarregando do interior da casa, que ficou completamente vazia. Paredes são preparadas e pintadas, janelas mudadas de lugar, chão renovado. Quando a venda da garagem está terminada, os donos da casa recebem dois dias “de férias” longe da residência, enquanto a equipe termina seu trabalho. Em geral, os gostos de decoração vão desde o modesto até o absurdo, com paredes negras e sofás vermelhos, cortinas de espelhinhos, coisas assim. Quando tudo está terminado, a família volta e fica maravilhada com a mudança, a organização, a transformação. Logicamente, não é mais a sua casa, porque seus objetos de estimação estão quase todos desaparecidos, mas que importa? Esta é uma casa nova, organizada, limpa, livre dos entulhos que existiam antes. E, além do mais, como disse Andy Warwhol, o artista plástico que pintava latinhas de sopa Campbell, estas pessoas tiveram seus “quinze minutos de fama”: apareceram na televisão.

Outro programa deste tipo se chama “Trading Spaces” — “Trocando Espaços,” que pode ser explicado simplesmente como um tipo de “swing” em que não são os corpos dos vizinhos que são “manipulados,” mas a casa do vizinho que é severamente re-decorada. O problema é que, claro, enquanto um casal mexe na casa do vizinho, o casal vizinho mexe na casa do primeiro casal. Tudo com dois grupos de decoradores, claro. Mas os resultados, aqui também, devem produzir surpresa, alegria, e, no fim de tudo, aceitação de que outra pessoa — os vizinhos, neste caso — sob a tutela de profissionais, fez com o espaço doméstico de cada um. Como esses vizinhos em geral se conhecem, é raro o gosto de um casal ser muito diferente do que o que o outro quer, mas mesmo assim, já houve gente não muito satisfeita com o resultado.

Tudo isto ocorre no espaço de uma hora televisual. Nós, a audiência, ficamos maravilhados com a eficiência, e eu devo confessar, às vezes até que não me importaria de ter alguém disponível pra vir limpar minha casa, arrumar as gavetas e armários, colocar ordem nos meus livros. Mas não creio que permitiria que meus objetos de estimação fossem dissipados, vendidos por centavos, escarnecidos, reduzidos ao seu mero valor monetário.

Então, estes dias, acabei por assistir um show em que exatamente isto aconteceu. As donas da casa, mãe e filha, não conseguiam concordar com nada que ia ser vendido, nem com o que fazer com suas vidas disfuncionais. As duas brigaram durante todo o show. A mãe brigou com os produtores do show. No fim, quando mãe e filha voltaram das “férias” de dois dias, e viram o que havia sido feito com a casa delas, a mãe quase teve um ataque de nervos, gritou com todos, caiu no pranto e disse que eles tinham destruído a sua casa, esbanjado seus tesouros, destruído o que ela tinha levado anos pra construir. O pessoal da produção do show ficou chocado; todos pediram desculpas, e saíram da casa, dizendo que tinham feito o que podiam, e que a bagunça da casa pelo menos tinha sido arrumada.

Entremeados aos segmentos do programa, anúncios de lojas vendendo móveis, objetos pra casa, roupas, sapatos, quinquilharias. Claro, faz sentido: saem umas coisas, outras têm que entrar. Assim caminha o capitalismo.

Qual é o ponto destes programas? Alguém pode dizer que é simplesmente entretenimento, diversão, até mesmo educação. Qualquer um pode apreciar o valor de uma casa bem arrumada, um espaço doméstico limpo, organizado, onde a pessoa possa relaxar, ter momentos de paz com a família, sem estar trombando em objetos, toalhas molhadas, brinquedos de crianças. Casais jovens, que passaram a vida estudando e agora têm sua própria casa, e não têm empregada (só os milionários têm empregadas aqui), podem muito bem se beneficiar com os conselhos práticos dos programas. Por outro lado, é possível dizer-se que estes programas também têm um outro lado, muito mais sutil, e portanto muito mais poderoso e sombrio. Senão vejamos, trocando em miúdos: a casa está fora de ordem, a decoração está feia, e isto é razão para poderes “de fora” virem e colocarem tudo no jeito.

Para colocarem tudo no jeito, têm que se desfazer do que existe, que está “fora de lugar,” que “não tem valor,” que está “fora de moda.”. Não importa o que os donos da casa sentem pelos objetos. O “poder” de fora tem toda a liberdade de escolher o que vale e o que não vale, e jogar fora o que acha que não tem valor. Doa quanto doer. A ordem tem que prevalecer.

Não é preciso a pessoa ser cientista política para perceber as implicações destes programas, cujas “gotas de sabedoria” seguem pingando no inconsciente do telespectador.

Nestas alturas, decidi dar uma revisadas nas minhas notas sobre ideologia. A Internet, como todos sabemos, pode ser uma fonte maravilhosa de conhecimentos, desde que saibamos onde procurar. Encontrei um excelente artigo de Christine Sypnowich The Stanford Encyclopedia of Philosophy, e ela diz, a um ponto da sua discussão:

…Marx and Engels contend that ideas are shaped by the material world, but as historical materialists they understand the material to consist of relations of production that undergo change and development. Moreover, for Marx and Engels, it is the exploitative and alienating features of capitalist economic relations that prompt ideas they dub ‘ideology.’ Ideology only arises where there are social conditions such as those produced by private property that are vulnerable to criticism and protest; ideology exists to inure these social conditions from attack by those who are disadvantaged by them. Capitalist ideologies give an inverted explanation for market relations, for example, so that human beings perceive their actions as the consequence of economic factors, rather than the other way around, and moreover, thereby understand the market to be natural and inevitable.[1]

Marx e Engels afirmam que as idéias são moldadas pelo mundo material, mas como materialistas históricos eles entendem o material como aquilo que consiste de relações de produção que sofrem mudança e desenvolvimento. Além disso, para Marx e Engels, é a característica exploradora e alienadora das relações econômicas capitalistas tais como as que são produzidas pela propriedade privada que são vulneráveis à crítica e ao protesto; a ideologia existe para proteger estas condições sociais do ataque por parte daqueles que são postos em desvantagem por estas condições. As ideologias capitalistas dão uma explicação invertida para as relações de mercado, por exemplo, para que os seres humanos percebam suas ações como conseqüência de fatores econômicos, e não o inverso, e, além do mais, entendam o mercado como natural e inevitável.

Voltando aos nossos programas de televisão, vemos que aquela mãe que chorou porque a sua casa tinha sido praticamente destruída foi julgada incoerente, irrelevante. A ordem era colocar a casa em ordem, jogar fora o velho, o “sentimental,” e colocar o “novo” no lugar.

Corte nada sutil à figura do presidente Bush, que diz, toda vez que pode, especialmente quando mais um soldado — ou um grupo de soldados — é morto no Iraque, ou Afeganistão: estamos levando “a liberdade” a estes povos, custe o que custar. Outro corte, ainda menos sutil, a cada ocasião pública atualmente nos Estados Unidos, quando alguém sempre tem que dizer que estamos agradecidos ao sacrifício das nossas forças armadas, que estão lutando pela “nossa liberdade.” Se trocarmos a palavra “liberdade” por “decoração,” e depois, “decoração” por “ideologia,” tudo se esclarece. Afinal, as pessoas que estão com a casa — ou o pais — em desordem, devem aceitar os benefícios da arrumação, doa quem doer.

Mas estes programas de televisão são, afinal, mostrados aqui, para o mercado interno. Qual seria sua função? Com o seu alcance, entrada desimpedida no televisor de todo o país, o que estes programas de televisão fazem, dia a dia, hora a hora, é preparar o povo americano para, a) a inevitabilidade destas “arrumações,” b) a necessidade de trocar o “velho e feio,” pelo “novo e bonito".

Talvez isto explique, pelo menos em parte, como os pais dos jovens soldados que vão para estas guerras em outros países podem aceitar o sacrifício dos filhos. A vida deles pode ter terminado, mas a ideologia continua.

 

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[1] Sypnowich, Christine, "Law and Ideology", The Stanford Encyclopedia of Philosophy (Winter 2001 Edition), Edward N. Zalta (ed.)

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