Por HENRIQUE RATTNER

Professor da FEA (USP), IPT e membro da Associação Brasileira para o Desenvolvimento de Lideranças (ABDL)

 

Empreendedorismo no capitalismo “tardio”

 

Max WeberNo início do século XX, a teoria e a prática econômicas exaltaram a figura do empresário industrial capitalista, a partir dos estudos de Max Weber (Economia e Sociedade, A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo), de Werner Sombart e de Joseph A. Schumpeter, que apontaram para o papel histórico dos indivíduos, pequenos empresários, verdadeiros “deus ex – machina” e inovadores no processo de acumulação capitalista. Com o avanço do processo de concentração de capital e a estruturação crescente da maioria dos setores produtivos sob forma de oligopólios e cartéis, o foco dos estudos e pesquisas deslocou-se para as grandes empresas e sua organização impessoal e burocrática.

“Big is efficient” (o que é grande é eficiente) foi a afirmação pragmática que serviu de justificativa para as mudanças no conteúdo e na metodologia de ensino e pesquisas nas escolas de economia e de administração de empresas, em processo de expansão contínua. No capitalismo oligopolista, sobretudo na segunda metade do século XX, desaparece a figura do empreendedor (“self-made man”) para dar lugar ao administrador profissional, supostamente desvinculado da propriedade dos meios de produção e, portanto, mais atento aos interesses e necessidades dos acionistas, empregados e consumidores. Livros como os de C. Wright Mills (A Nova Classe Média) e de James Burnham (A Revolução dos Gerentes) ilustram a tese de emergência de um novo estrato social, eqüidistante tanto do capital quanto do trabalho, que estaria preocupado essencialmente com a dinâmica do crescimento e da expansão das empresas e da economia.

A imensa quantidade (e péssima qualidade) de artigos e livros publicados, baseados em pesquisas empíricas e estudos de casos sobre “management” e mais recentemente, sobre liderança, evidencia a demanda insaciável por material de ensino e de divulgação referente a essa nova profissão e seus desafios.

Com o esgotamento histórico do modelo de capitalista empreendedor individual, particularmente nos países “emergentes” – ou de desenvolvimento tardio – invadidos pelo capital transnacional em conseqüência da política econômica neoliberal. O desinteresse da política oficial manifestou-se sob forma de redução de financiamentos, créditos, subsídios ou incentivos para a criação e o funcionamento de pequenas empresas e refletiu-se também nos programas e projetos de pesquisa dos cursos de economia e administração, cada vez mais orientados para a administração profissional.

Na análise das diretrizes e programas de apoio ao empreendedorismo, tais como foram formulados recentemente pelo poder público, é fundamental relacionar as propostas e ações na esfera política e social com os efeitos da política macroeconômica. Esta, apesar do discurso e da vontade subjetiva dos governantes, produz objetivamente o desemprego e a exclusão social de contingentes crescentes da população, em que pesem as promessas dos políticos em períodos pré-eleitorais. Os governos, tanto nos países ricos e industrializados, quanto nos “emergentes”, se mostram impotentes para lidar com a demanda por empregos e de acesso a oportunidades de educação e saúde.

As políticas de apoio às iniciativas de incentivar a criação de pequenas e médias empresas (PMEs). Incubadoras e parques tecnológicos procuram refazer o que foi destruído pelas forças do “mercado”. Preso entre as pressões do capital financeiro, nacional e internacional, para manter as diretrizes da política macroeconômica e as reivindicações das massas deserdadas – os sem terra, sem teto, os desempregados e os excluídos – que cobram acesso aos benefícios do Estado de bem-estar, os governos, mesmo quando constituídos por partidos da “esquerda” ficam sem condições de mudar a política macroeconômica, sob o risco de causar instabilidade política, fuga de capitais e movimentos de sedição no Congresso e nas diversas regiões do país. Por outro lado, o governo não pode, sob pena de perder os votos e o apoio popular, deixar de atender, pelo menos em parte, às reivindicações sociais mais urgentes. Cedendo às pressões das elites por um Estado “enxuto”, o governo dispõe cada vez de menos verba para educação, cultura, saúde e infraestrutura. Os apelos ao patriotismo dos empresários para que invistam no setor produtivo não surtem efeitos diante dos lucros que as altas taxas de juros permitem às aplicações especulativas.

Na ausência de investimentos significativos no setor industrial não há praticamente geração de empregos e, portanto, a possibilidade de retomada do crescimento. Em resposta a esta situação – o desemprego permanente e crescente, mesmo entre as camadas da população mais escolarizadas –, o Estado optou, como compensação, pelo empreendedorismo da pobreza, os negócios caseiros, os comerciantes de rua e os coletores de lixo. Todos desprovidos de proteção jurídica ao trabalho e com rendas abaixo do mínimo para a sobrevivência.

Quais as chances de sucesso de uma política de apoio às pequenas empresas condenadas a competir com o grande capital, infinitamente superior em todas as esferas relevantes de tecnologia, financeira, comercial e de marketing?Mesmo as mais eficientes serão sempre dependentes, subordinadas ou complementares às grandes empresas. Como vencer essa fraqueza estrutural cuja superação exige dos empreendedores muito mais do que as virtudes schumpeterianas convencionais?

Para se tornarem aptos a inovar e sobreviver com suas empresas (a taxa de mortalidade chega a 80%, nos primeiros cinco anos), os administradores das PMEs, além de se organizarem e atuarem em padrões coletivos, devem também conquistar a hegemonia política ou, pelo menos, uma participação significativa na tomada de decisões do Estado.

É possível superar essa dicotomia esquizofrênica de nossa sociedade que conclama e instiga a todos para que sigam competindo, desde a escola, nas empresas e na vida social e a necessidade inadiável de cooperar, associar-se e praticar a solidariedade, sem os quais não há possibilidade de sobrevivência?

As propostas de APL (Arranjos Produtivos Locais) e de criação de cooperativas ou consórcios de PMEs, embora não consigam derrubar o poder das grandes empresas e conglomerados, podem constituir-se em alternativa a longo prazo. Desde que o poder público, em todos os níveis, apóie essas novas formas de organização da produção, do comércio e dos serviços.

Individualmente, as PMEs não poderão atingir níveis de especialização flexível e de competitividade nos mercados nacional e internacional, mas podem compensar sua fragilidade pela associação em base setorial e regional. Estudos recentes realizados nos países industrializados reforçam a tese das vantagens de aglomerações setoriais, com mais chances de êxito em cidades de pequeno ou médio porte, onde evitam as deseconomias das áreas metropolitanas. A construção de uma estrutura local integrada mediante cooperativas ou consórcios de PMEs, estimula uma divisão de trabalho interempresas e a sub-contratação de especialistas eleva substancialmente a capacidade de lidar com inovações e mudanças nos mercados. O conceito de “eficiência coletiva” pode ser estendido a associações de PMEs capacitadas por integração sistêmica e inovações incrementais proporcionadas por institutos de pesquisa e centros de assistência técnica voltados ao aumento da produtividade e do desempenho econômico e financeiro.

Outro fator para o funcionamento exitoso de estabelecimentos industriais consorciados é sua forma de organização integrada, envolvendo empresas sub-contratadas, fornecedoras de peças, componentes e outros insumos, unidades de serviços especializados em pesquisa de mercado e processamento de dados. Além disso, a capacidade de adaptação à concorrência internacional e de absorção de seus impactos demolidores no mercado interno pode ser desenvolvida melhor por interesses setoriais e regionais comuns.

O fator central para seu êxito continua sendo a política industrial e tecnológica do governo, em nível macroeconômico, que define o potencial e as dimensões do mercado interno. Contudo, a reestruturação da indústria não pode ser deixada somente à iniciativa individual ou às forças do mercado. A intervenção do Estado mediante promoção, financiamento e coordenação seletivos, em nível local e nacional, constituirá a base de um processo de desenvolvimento alternativo, viável e sustentado.

Além do esforço visando aumentar a produtividade, a qualidade dos produtos e a flexibilidade da organização em nível intra e interempresas, esforços persistentes e programados devem ser desenvolvidos para elevar o capital social da comunidade, mediante a responsabilidade e confiabilidade dos dirigentes das empresas pelo que acontece no mercado e no espaço público.

 

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