Por JOÃO DOS SANTOS FILHO*

Bacharel em Ciências Sociais e em Turismo – Professor da Universidade Estadual de Maringá – UEM. Professor do Centro Educacional Filadélfia de Londrina. Mestre em Filosofia e História da Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Aluno especial do doutorado em ciência do turismo na ECA/USP. Fundador da Associação Brasileira de Bacharéis de Turismo de São Paulo - ABBTUR/SP e do Instituto de Análises sobre o desenvolvimento Econômico Social - IADES.

 

O Curso Universitário de turismo sobre as conseqüências da política neoliberal

 

Luta em favor da regulamentação profissional

 

A lógica com que o sistema capitalista movimenta-se em sua face neoliberal acaba impondo às Universidades e Faculdades públicas e privadas no Brasil uma paralisia no campo do ensino, pesquisa e extensão estas atitudes são nefastas e trágicas para o todo da educação brasileira.

Os alunos em casos diversos e cíclicos são objetos de uma prática pedagógica separada da reflexão e do pensamento crítico, padecendo da presença de professores melhor qualificados e dignamente remunerados, bem como, de uma infra-estrutura básica de apoio para que tenhamos a formação de profissionais com competência reconhecida e que garantam a segurança da própria sociedade.

O ensino oferecido apresenta o vício secular da tradicionalidade kantiana em que o discente desde o processo de alfabetização até a universidade vai sendo empurrado por etapas, perdendo o sentido da totalidade. A necessidade social de qualificar-se da forma que for possível rumo ao primeiro e segundo grau alcança o terceiro muitas vezes na posição de não saber ler e interpretar textos, portanto, não sabe ouvir e nem se expressar.

O nosso aluno em sua grande maioria trabalha, ganha mal, não tem tempo e disposição para estudar, entende o centro educacional como mais um dos muitos sacrifícios descolados de sua vida pessoal, vive num país em que a desigualdade foi naturalizada, a cultura é algo da elite e o direito de deslocamento para de fato desenvolver o turismo é possível para quem tem dinheiro.

A insensibilidade de governos para com a educação em adotar políticas públicas de inclusão é uma constante, em muitos casos tornam-se catastróficas, falta material de laboratórios, professores, infra-estrutura, papel higiênico, giz e dinheiro para pagar luz e água. Luta-se em favor da pesquisa por insistência de professores e pesquisadores que muitas vezes se vêem na obrigação de improvisar meios para conseguir os resultados de seus árduos experimentos.

Existe um plano dado pela expansão e lógica do Capital para desmoralizar o ensino público, pois o mesmo para se alastrar necessita extrair a mais-valia de setores antes governados pelos Estados do “bem estar social” e um destes é a educação, como coloca Mészáros:

A persistente e crescente intensidade da crise da educação nos principais países capitalistas, sem uma única exceção, sugere, porém, uma conclusão muito diferente. Resumindo-a numa frase: a crise de hoje não é simplesmente a de uma instituição educacional, mas a crise estrutural de todo o sistema da “interiorização” capitalista (...) [1].

A ânsia desenfreada apresentada pelos Estados Nacionais na busca de privatizar áreas estatais, demonstra o desenvolver de um processo de alienação que facilita o domínio do Estado pelas classes dominantes e marca a expansão capitalista da globalização. Nada passa despercebido, tudo converge para um processo de cristalização e reificação nas relações capitalistas de poder.

Divulga-se a idéia da eficiência e qualidade total, em que a educação deve ser vista como mercadoria destinada a dar lucro e não como investimentos sociais, por isso, estão sucateando a instituição pública de ensino no que se refere a classificá-la como burocrática, ineficiente, custosa e mal administrada, portanto, as mesmas pedem a “competência” da iniciativa privada.

Assim, o estado capitalista desfila seus ataques à educação pública como deficiente, onerosa, tradicional e limitada para as necessidades de mercado, colocando a decadência ao processo educacional. Esta observação reduz o entendimento das causas primeiras, pois julga que as questões da crise da educação se explicam por ela mesma, negando qualquer visão de totalidade e descartando que a crise esta localizada no Capital.

No campo das instituições de ensino público e privado as mesmas questões mencionadas surgem também, porém, a diferença entre elas se localiza na luta democrática que se dá no interior destas unidades educacionais. Nas públicas a representatividade discente e docente existe e possui uma história especifica, com isso, queremos dizer que em seu movimento existem infinitas maneiras de configurar a luta política que só não funcionam quando as representações sindicais estão desarticuladas ou comandadas por lideranças estranhas à categoria.

Na grande parte das escolas privadas o controle ideológico é extremamente devastador, principalmente quando o formalismo burocrático suplanta os interesses pedagógicos. A liberdade de pensamento ou a universalidade de idéias estão quase sempre presas a um estilo tacanho e weberiano de encarar a realidade, em que o pensar e o agir devem seguir os princípios do podre economicismo, clone dos acordos MEC-USAID.

Para os alunos sobra a opção de pedir transferência para outra instituição de ensino, enfrentando o desprezo dos diretores para com sua pessoa, humilhados pela direção que fazem de suas reivindicações motivos de piada.

Para os professores a imposição fiscalizadora de caminhar os seus conteúdos programáticos dentro da ideologia do empreendedorismo, iludindo-os quanto ao mercado afirmando que hoje tem que ser empreendedor. Não é por mera coincidência que surgem no interior das instituições educacionais funcionários da rede bancária oferecendo linhas de empréstimos e a possibilidade do aluno obter cartões de crédito.

Paralelo a este processo, as inteligências donas dos meios de produção educacionais constatam por meio do censo comum e do pragmatismo vulgar, que falta ao curso estimulo pavloviano ao aluno. Sendo que a solução adotada seria tornar os cursos mais técnicos e para isso, processa-se uma limpeza em sua grade curricular retirando disciplinas ou professores mais críticos que levam o aluno a pensar o fenômeno turístico. Esse processo vai se configurando durante um longo tempo no conjunto das medidas administrativas feitas pelas entidades educacionais:

1. Demissão dos professores doutores e contratação de mestres e especialistas, com o objetivo de diminuir os custos da instituição;

2. Contratação de pessoas ligadas ao trade que desempenham cargos políticos para exercerem o papel de professores;

3. Informação ao corpo docente que por questões de custos os salários sofrerão um corte substancial em seu valor;

4. Eliminação dos professores mais engajados e críticos, por meio do rebaixamento salarial de mais de 80%;

5. Palestras de auto-ajuda no início e meio do ano letivo, como forma de desviar as causas da crise dos cursos;

6. Reuniões pedagógicas para comunicar ao corpo docente que os cursos de turismo deverão ser coordenados por profissionais de outras áreas;

7. Alteração da grade curricular incorporando a disciplina de empreendedorismo e batizando os professores e alunos de empreendedores.

Entendemos que este processo de decadência dos cursos de turismo se deve aos interesses econômicos que rondam as instituições privadas de educação, bem como, a idéia atrasada e ultrapassada advinda da política neoliberal de tratar a crise do sistema capitalista por meio do empreendedorismo. Forçando professores e alunos a comungarem dessa proposta como solução para manter acumulação de capital das instituições de educacionais, que vem apresentando sinais profundos de inadimplência e crise de demanda.

Cabem a nós estudantes e professores lutar contra este processo nefasto de desqualificação educacional que atinge a totalidade da educação nacional como cidadão brasileiro. E como turismólogo lutar em favor da regulamentação profissional para que possamos criar nosso “Conselho Regional” que tem por finalidade observar legalmente o desenvolvimento pedagógico dos cursos de turismo e coibir os abusos contra professores e alunos.


[1] MÉSZÁROS, István. Marx: A Teoria da Alienação. Rio de Janeiro: Zahar, 1981. P. 269 e 270

 

 
 

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