Por EVA PAULINO BUENO

Depois de quatro anos trabalhando em universidades no Japão, Eva Paulino Bueno leciona Espanhol e Português na St. Mary’s University em San Antonio, Texas. Ela é autora de Mazzaropi, o artista do povo (EDUEM 2000), Resisting Boundaries (Garland, 1995), Imagination Beyond Nation (University of Pittsburgh Press, 1999), Naming the Father (Lexington Books, 2001), e I Wouldn’t Want Anybody to Know: Native English Teaching in Japan (JPGS, 2003)

 

Leopardos no templo

 

Argentina: Plaza de los Dos PoderesPiadas à parte, a nossa relação com nossos irmãos argentinos vem de longa data. Não tem sido sempre uma relação amistosa, nem simples: já nos juntamos a eles para uma guerra importante (“massacre” talvez seja o termo mais correto), a do Paraguai; já nos irritamos com eles, assim como eles conosco; fizemos alianças, desfizemos alianças, vendemos, compramos, visitamos, fomos visitados. Estamos destinados, de todas as formas, a sermos como irmãos que às vezes são os melhores amigos, outras vezes ficam suspeitando um do outro. Vários fatores têm influenciado esta relação, além do fato de sermos vizinhos e termos uma história com vários episódios semelhantes. Uma coisa que se sobressalta é a nossa composição étnica brasileira--decididamente mestiça--quando contrastada com a suposta composição “branca” e “européia” da Argentina. De fato, uma visita rápida a Buenos Aires pode deixar a impressão que todos os argentinos são brancos. Também pode-se pensar que todos são adoradores de Evita Perón, torcedores de Maradona, falantes de inglês e dançarinos de tango. Mas, uma olhada mais cuidadosa vai nos revelar que nuestros hermanos argentinos podem ser tão complexos e surpreendentes como nós, em todos os sentidos.

Comecemos com uma olhada à questão racial. Apesar do esforço concentrado, no fim do século XIX, chamado “A conquista do deserto,” em que o exército argentino liderado por Juan Manuel de Rosas derrotou os nativos da Patagônia em 1879 e os condenou à abjeta pobreza (senão à morte), hoje a palavra “Mapuche” - nome do maior grupo indígena que vive no território argentino e no chileno--aparece mais e mais na cultura argentina. Há muitos artefatos culturais sendo vendidos nas butiques elegantes de Buenos Aires; há notícias nos jornais a respeito da luta dos Mapuche. Já se podem ver várias pessoas que se orgulham de sua herança étnica nativa da argentina.  Também, se alguém se aventura pelo interior do país (que é composto de tudo que não é Buenos Aires), vai notar que a população não é uniformemente branca, e que muitos são realmente mestiços. Destes, nem todos estão politicamente esclarecidos para admitir esta herança, infelizmente. E por que não admitem? Este assunto nos levaria a uma longa discussão sobre ideologia, o que o velho Marx chamaria de a “produção de idéias, concepções, consciência” que todos os seres humanos, de uma forma ou de outra, “dizem, imaginam, concebem.” [1] Como não temos tempo para uma longa discussão sobre ideologia, basta que digamos que embora uma grande parte dos argentinos acha que realmente são todos brancos, é importante que marquemos que nem todos os argentinos têm a aparência que imaginam ter, ou são o que pensam, ou mesmo dizem, ser. Basta ter olhos para ver. E lá se vai um dos mitos da nossa diferença. E nem convém que nós brasileiros achemos que somos muito mais esclarecidos, porque já “assumimos” nossa origem racial misturada: para nós também o reconhecimento de nossas raízes fincadas em muitas raças levou um longo  tempo. O próprio Domingo Faustino Sarmiento, escritor, político, e presidente argentino (1868-1874) escreveu, a este respeito:

¿Somos europeos? Muchas caras cobrizas lo desmienten. ¿Somos indígenas? Las sonrisas de desdén de tantas argentinas blondas lo contradicen. ¿Somos mixtos o mestizos? Nadie quiere serlo. Y hasta hay millares de argentinos que no querrían ser llamados americanos ni argentinos. ¿ Somos argentinos? Hasta dónde y desde cuándo, bueno es darse cuenta de ello.

Somos europeus? Muitas caras de cor de cobre o desmentem. Somos indígenas? Os sorrisos de desdém de tantas argentinas louras o contradizem. Somos mistos ou mestiços? Ninguém quer ser isto. E existem milhares de argentinos que não gostariam de ser chamados nem de americanos nem de argentinos. Somos argentinos? Até quando e desde quando, é melhor que nós fiquemos conscientes disto.[2]

Eva PeronA segunda questão é a adoração a Evita Perón, que muitos acham que é universal na Argentina. Embora a cidade de Buenos Aires contenha uma estátua dedicada a ela na Plaza Rubén Darío, o lugar de adoração mais concentrada é mesmo o cemitério da Recoleta, localizado numa das partes mais nobres da cidade. Logicamente, todo mundo conhece a história de Eva Duarte de Perón, esposa de Juan de Perón, mas talvez seja bom revisar: nascida pobre, viveu como artista seus primeiros anos, até encontrar-se com Juan em 1944. Os dois se casaram em 1945 e viveram, ao que tudo indica, felizes, até a morte dela em 1952. Mas foi a sua vida política que a distinguiu em sua época, assim como sua inteligência em manipular sua imagem que a mantém até hoje no centro da vida ou do imaginário político da Argentina. De menina pobre e uma vida difícil, Eva conseguiu o amor do povo pobre da Argentina. Mesmo usando roupas caríssimas, ela se transformou na “mãe dos descamisados” (o que, mesmo depois de tantos anos, parece difícil de acreditar, a não ser que nos lembremos que muita gente pobríssima do Brasil não só votou no Fernando Collor, mas jurava que daria até a camisa por ele...). Mas não só de imagens se criou Evita: ela se tornou popular porque usou seu começo de vida humilde como uma ponte de contacto com as classes trabalhadoras, ao mostrar que sentia a dor deles, ao organizar seu trabalho em prol deles. Quando ela criou a Fundação Eva Perón, sua função era ajudar aos pobres, atender aos doentes, construir escolas e hospitais. Além disso, ela usou seu poder político para conseguir que as mulheres argentinas obtivessem o direito ao voto. Embora ela tenha sido “esnobada” pelos ricos, tanto da Argentina como de outros países, ela continuou no coração do povo tanto durante sua vida como após sua morte aos 33 anos de idade. Foi fácil para os que adoravam, ao que tudo indica, esquecer que ela foi o braço direito de Juan de Perón quando ele se tornou ditador e começou a governar o país como tal. O que importava era que ela representava o que todos os argentinos humildes queriam para si: uma vida de sucesso e poder, a possibilidade de fazer algo e influir nos rumos da história. Se uma pessoa só tinha uma camisa, e esta estava furada, esta pessoa podia se mirar na história de Evita, que vestia casacos de peles e roupas de Dior. A psicologia de muitas pessoas evidentemente requer estas ilusões, estas fantasias de superação do presente difícil em troca de uma esperança espelhada em alguém que conseguiu tudo. Foi uma coincidência muito interessante que Evita tenha morrido tão jovem, na idade de Cristo. Ela nunca chegou a decepcionar, pelo menos aos que a adoravam e adoram. Seu corpo, embalsamado, levado pelo mundo e escondido em vários lugares, talvez agora esteja descansando em paz na Recoleta, no jazigo da família Duarte, sempre alvo de peregrinações, orações, homenagens, até lágrimas. Santa Evita.

Diego MaradonaDaí vem a história de Diego Maradona, que é muitíssimo fascinante, especialmente se levarmos em conta a história de Evita, e de como ambas histórias quase correm paralelas. Quase. Vejamos: assim como Evita, Diego também vem de um passado humilde. Assim como ela, ele subiu ao que alguns poetas de antigamente poderiam chamar “os píncaros da glória.” Ele até virou a própria mão de Deus! Quem vê futebol bem sabe, e se lembra como a interferência divina coroou a carreira de Diego nas quartas de finais da Copa do Mundo de 1986[3], quando, com uma só mão, e em uma só jogada, ele vingou todos os argentinos pela derrota na guerra das Malvinas, fazendo um gol contra os ingleses. Pena que a vida continuou, e Maradona não teve estrutura para continuar nos píncaros. De drogas em drogas, de queda em queda, de fracasso em fracasso, pobre Diego Maradona agora é um fiapo de gente, um mero rascunho inchado do grande atleta que foi. Até mesmo alguns argentinos, embora não gostem de admitir, ficam meio sem graça em lembrar. Quem te viu, quem te vê.

Mas Diego Maradona, “La Mano de Dios”, continua vivo em Buenos Aires, especialmente no Bairro da Boca, onde está a sede do antigo time em que ele jogava, o Boca Juniors. É neste bairro que se encontram as recordações mais doces, as homenagens mais emocionadas àquele que rodou mundo, provocou escândalos, vitórias, ódios, e grandes alegrias também. Ali, Diego Maradona é sempre jovem, sempre vibrante, sempre um gênio em futebol, sempre o menino que, como o guri do morro na música de Chico Buarque, “chegou lá.” Maradona, filho de italianos e gente de origem indígena, representa uma versão atualizada de Evita Perón: da pobreza à glória. Às vezes a morte não é a pior coisa que pode acontecer a uma figura pública, com certeza. De Evita, as recordações são sempre boas. De Maradona, nem tanto.

Mas uma visita a Buenos Aires não fica completa sem pelo menos uma passagem rápida por um outro lugar: a Plaza de Mayo, localizada no “coração” de  Buenos Aires, bem em frente à Casa Rosada, o palácio do governo argentino, e flanqueada pelas avenidas Rivadavia e H. Yirigoyen. Das janelas da Casa Rosada, Evita Perón falou ao povo, aceitou sua adoração, fez discursos, exibiu suas roupas e jóias caríssimas enquanto falava aos humildes. Madres de la Plaza de MayoDas janelas da mesma Casa Rosada, anos mais tarde,  os generais ordenaram que as mulheres que se congregavam na Praça fossem perseguidas. O que queriam estas mulheres?

Para todos nós que já éramos adultos no Brasil nesta época, embora nossos próprios generais tentassem nos manter no escuro quanto à resistência às ditaduras no continente, conseguiram chegar notícias da luta destas mulheres, a maioria mães, mas também filhas, esposas, irmãs, amigas de pessoas “desaparecidas” pelos militares argentinos. Ali estavam elas, marchando em volta da praça, carregando fotos de seus filhos, filhas, maridos, irmãos, irmãs, namorados, amigas, exigindo que os militares explicassem o que tinham feito com seus entes queridos. “Con vida los llevaron, con vida los queremos” era uma das faixas que elas carregavam. Logicamente, a perseguição a estas mulheres, algumas das quais foram também assassinadas pelo aparato repressivo, não impediu que outras continuassem sua luta.[4]

Hoje, tantos anos depois do fim da ditadura militar na Argentina, as “Madres de la Plaza de Mayo” continuam marchando. Muitas, já bem velhinhas, ainda levam posters com fotos dos entes queridos que nunca retornaram do que se chamou “a guerra suja.” Hoje, entretanto, diferentemente dos primeiros anos em que elas arriscaram suas vidas para denunciar a repressão do governo, as mães da praça são uma instituição na Argentina. Uma passagem pela praça é necessária para qualquer um que queira conhecer Buenos Aires. Elas agora ampliaram sua luta, e, como presenciei neste último junho de 2004, dão sua opinião sobre uma série de assuntos, assim apoiando causas e emprestando seu prestígio para promover a discussão e a resolução de assuntos que consideram válidos. O fato da presença e do exemplo destas mulheres se tornou uma inspiração para diversos outros grupos na cidade. Na última vez em que estive em Buenos Aires, na Plaza de Mayo se encontravam também veteranos da Guerra das Malvinas, exigindo que o governo lhes prestasse atenção, lhes desse atendimento médico e outros benefícios. Enquanto isto, no mesmo dia, na Plaza de los Dos Congressos, que fica localizada mais a oeste, seguindo a avenida Rivadavia, outras pessoas faziam manifesto, carregando faixas e fotos e fazendo discursos. Mas aqui na Plaza de los Dos Congressos o ambiente era quase festivo. Jovens batiam papo pelos cantos das manifestações, enquanto pessoas mais velhas discutiam outras coisas, tais como, por exemplo, futebol.

Hoje, em Buenos Aires, qualquer pessoa que visita a Plaza de Mayo pode participar da marcha das mães, em qualquer dia da semana. Pode também visitar o estabelecimento ao lado da praça onde está a Associação das Mães. Ali há, além de uma livraria, uma confeitaria onde se pode tomar um bom café e pensar nas coisas todas que esta praça já viu nos anos todos da história argentina. Pode-se imaginar como estas mulheres tiveram que enfrentar até mesmo a opinião pública no começo de sua luta, porque o governo militar mantinha as informações debaixo de censura e muitos não sabiam que pessoas inocentes estavam sendo arrancadas de suas casas, torturadas e assassinadas. Ou que jovens grávidas presas eram mantidas vivas até darem a luz, para que seus filhos fossem dados ou vendidos. Pode-se pensar em muita coisa. Pode-se inclusive pensar no que disse Franz Kafka a respeito dos leopardos no templo:

Leopards break into the temple and drink to the dregs what is in the sacrificial pitchers; this is repeated over and over again; finally it can be calculated in advance, and it becomes part of the ceremony.[5]

Os leopardos invadem o templo e bebem tudo o que está nas jarras de sacrifício; isto é repetido muitas e muitas vezes; finalmente, a invasão dos leopardos pode ser calculada com antecedência, e se torna parte da cerimônia. (minha tradução)

A partir deste ponto de vista da América do Sul e da Argentina, uma das vantagens de nos lembrarmos dos leopardos no templo é que eles também podem se disfarçar em dançarinos nas ruas.  É praticamente impossível (e desconfio que pode ser até mesmo ilegal) ir-se a Buenos Aires e não se deparar com um show de dança. No verão assim como no inverno, primavera e outono, lá estão eles, tanto nos teatros para os que podem pagar a entrada, ou--especialmente--na rua de pedestres chamada Calle Florida, providenciando um espetáculo maravilhoso que nos lembra que se para nós brasileiros tudo acaba em samba, na Argentina pelo menos tudo pode acabar em milonga, uma das danças mais bonitas das Américas.

 


[1] Ver a excelente discussão sobre o pensamento de Karl Marx em Felluga, Dino. "Modules on Marx: On Ideology." Introductory Guide to Critical Theory. 28 de novembro de 2003. http://www.purdue.edu/guidetotheory/marxism/modules/marxideology.html

[2] Citado em Carlos A. LOPRETE. Iberoamérica. Historia de su civilización y cultura. 4ª. Edição. Upper Saddle River: Pretice Hall, 2001, p. 70.

[3] Ver a letra da música “la mano de Dios”, em http://www.vivadiego.com/rodrigo.html

A internet se encontra cheia de páginas dedicadas ao louvor da carreira de Maradona, o qual recentemente se encontrava hospitalizado, mais uma vez, numa tentativa de rechaçar os malefícios causados pelas drogas.

[4] Além das muitas publicações apoiadas pela Asociación Madres de Plaza de Mayo, documentando a sua luta, outras informações podem ser encontradas na página da associação em http://www.madres.org

[5] Kafka, Frank. Parables and Paradoxes; in German and English. New york: Schocken Books, 1961.

 

 
 

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