Por HENRIQUE RATTNER

Professor da FEA (USP), IPT e membro da Associação Brasileira para o Desenvolvimento de Lideranças (ABDL)

 

Sobre Ética em Tempos de Barbárie

 

Incertezas e insegurança permeiam profundamente o nosso cotidiano e aumentam nossa angústia existencial.  “Tudo que é sólido se desmancha no ar” e, perplexos e desnorteados diante as informações e interpretações contraditórias da mídia e da academia, os indivíduos se interrogam desesperadamente sobre os rumos da sociedade e de suas próprias vidas.

Encurralados cada vez mais no seu espaço vital – a violência do cotidiano, o meio ambiente arrasado e as oportunidades econômicas minguando – a vida no mundo de incertezas tornou-se um pesadelo carregado de absurdos cuja razão ou sentido parece fugir de qualquer esforço de análise racional.

Desesperados com as falsas promessas de “desenvolvimento pelo progresso técnico” e constantemente desorientados pelos discursos mentirosos de chefes de governos, de políticos corruptos, a ganância voraz é insaciável do “mercado” e a maior parte da mídia cooptada e controlada pelas “elites”, os jovens perplexos diante dos aparentemente inescrutáveis enigmas da vida, procuram escape no niilismo, nas drogas, na violência ou na autodestruição.

Como lutar contra essas tendências destrutivas e orientar para caminhos e valores que resgatem o sentido da vida, individual e coletivo?

Contra qualquer crença determinista, postulamos que toda nossa realidade é produto de uma construção social e, portanto, pode ser desconstruída e reconstruída.

Moral e Ética

Segundo o dicionário de filosofia, ética é a ciência que tem como objeto os juízos de valor que distinguem entre o bem e o mal. Historicamente, o senso comum trata moral e ética como sinônimos, mas, desde E. Kant, no século do Iluminismo, a ética é considerada superior à moral.

A moral é historicamente datada e suas normas e sanções mudam de acordo com as transformações da sociedade, sempre refletindo a visão do mundo e os interesses das elites. Basta recordar as manifestações dos senhores escravocratas, dos primeiros capitães da indústria e dos tecnocratas das grandes empresas, hoje, supostamente racionais e ideologicamente neutros, ao justificarem a pobreza e a desigualdade.

Enquanto a moral é particularista, profundamente vinculada e identificada com grupos religiosos, nacionalistas, étnicos, políticos ou classistas, a ética tem conteúdo universal e parte do princípio da igualdade dos seres humanos e de seus direitos inalienáveis à paz, ao bem-estar e à felicidade, individual e coletiva. Suas manifestações concretas são a cooperação e a solidariedade numa organização social pluralista e de democracia participativa.

A ética postula um código de conduta para a comunidade de indivíduos que exige um comportamento baseado em valores consentido e praticado em dimensões universais.

O cerne da ética universal transcende a todos os outros sistemas de crenças e valores, como síntese da consciência humana, ciente da preciosidade de todas as formas de vida humana e dos direitos dos indivíduos à liberdade e felicidade.

A ética se refere a um devir, uma visão futura da humanidade que tem inspirado inúmeras gerações durante o processo histórico, cujos sujeitos “desejantes” e ativos criaram comunidades de cidadãos ativos, fontes de liberdade que transformaram a História. Essa ética não é ficção ou sonho, mas uma visão do futuro construída por meio de um discurso em que se confrontam os valores por seus impactos reais e prováveis na existência humana. Ela surge como um amálgama e a recriação de aspirações e valores cultuados em todos os tempos, levando a uma síntese imaginária à luz das experiências políticas e práticas acumuladas.

Segundo os filósofos da Antiguidade e os profetas bíblicos, a ética seria instituída pelo comportamento virtuoso, em conformidade com a natureza dos atores sociais e dos fins buscados por eles. Postularam que o ser humano seria, por natureza, um ser racional, cuja virtude se manifesta pela razão que comanda as paixões. Essa virtude seria o efeito da potencialidade da natureza humana desde que a razão comande as paixões e oriente a vontade, pois só o ignorante é violento, passional e vicioso.

Para reconstruir a “utopia”, o comportamento ético exige a paz e o desarmamento, a contestação da dominação autoritária e a reivindicação do poder para construir uma nova realidade. Nesta, se cuidará da melhoria da qualidade de vida e da ampliação do horizonte social e cultural de todas as pessoas. Um indicador do nível ético da sociedade seria o grau de confiança das pessoas no futuro e nas possibilidades de realizar seu pleno potencial, contribuindo, ao mesmo tempo, para o bem-estar coletivo.

 

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