Por RAYMUNDO DE LIMA
Psicanalista, Professor do Departamento de Fundamentos da Educação (UEM) e doutorando na Faculdade de Educação (USP)

 

“Eu estou convicto...”. E você?

 

“‘Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!

Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais ou menos certo?”

Fernando Pessoa

 

“É preciso se prevenir contra o enfeitiçamento da linguagem”.

L. Wittgenstein

 

Sobressaem no discurso político a convicção de possuir a verdade e a promessa de felicidade.  A verve política do presidente Lula, por exemplo, sempre esteve marcada pelo tipo de frase “eu estou convicto que”, “eu acredito”, “eu tenho certeza”.  Desde a campanha eleitoral era lugar comum nos seus discursos, dizer: “Tenho certeza que já no primeiro ano teremos um salário mínimo decente”. Ou, “estou convencido de que no final de meu governo todos os brasileiros estarão fazendo três refeições por dia”.

Os filósofos da linguagem, como L. Wittgenstein, observam que esse tipo de frase tenta passar uma verdade predestinada; no fundo, trata-se de uma verdade apenas sustentada na subjetividade do sujeito que a produz. Ou seja, “os limites da linguagem significam os limites do meu mundo”. Quine entende que tais sentenças parecem substituir as idéias. Já o psicanalista lacaniano reconhece nelas uma forma de mais-gozar do sujeito tanto em pronunciar e ouvir tais palavras que só o sujeito e os convertidos acreditam serem verdadeiras. Enfim, se há verdade na ‘convicção’, ela só pode ser uma ‘verdade subjetiva’. 

Por que “verdade subjetiva”? Porque apenas indica que o sujeito tem a convicção que sabe, mas apenas porque acredita que sabe, e não porque possui meios ou critérios objetivos que garantem realmente saber. Também o fanático religioso está convencido de sua certeza. O louco, idem. Fernando Pessoa observa que ‘Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!/ Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais ou menos certo?”“.

Evidentemente que não vai aqui a mínima insinuação de fanatismo ou insanidade mental no nosso presidente Lula-lá, mas apenas fazer uma  sinalização de que parece existir nos seus discursos um excesso de subjetividade ou mínimo de objetividade. Aliás, em qualquer discurso político a verdade é sempre atravessada pelas paixões, principalmente pela paixão da fé. N. Bobbio já havia sinalizado o quanto a política é mais refém da paixão do que da serenidade e da racionalidade. Os políticos empenham-se de fazer parecer como ‘verdade’ suas “meias verdades”, ou “convicções” e “certezas” de inaugurar uma nova era de ouro quando ele – ou seu partido – forem eleitos. Quando os homens do governo Lula-lá discursam que herdaram o país quebrado, e que estão fazendo uma política completamente diferente do governo FHC, não estão faltando com a sua verdade  - subjetiva, é claro. E, portanto, não estão sendo desonestos, na medida que estão profundamente convictos de estarem cumprindo seu projeto político junto à sociedade, especialmente junto aos mais necessitados.

Aquém da política

Em vários outros campos da vida humana também o sujeito é levado pela convicção. Um vestibulando que estudou muito necessita ter uma autoconfiança inabalável de que irá passar na prova; os jogadores de um time precisam ter fé inabalável –  reforçada mais ainda pelo técnico – de que irão derrotar o time adversário[1]. G. W. Bush tinham e seus falcões tinham ‘certeza’ de que não somente tomariam o Iraque como também acreditavam que a população ficaria agradecida por ter sido ‘libertada’[2]. Até mesmo o cético cientista precisa ter uma dose mínima de convicção de que sua teoria está correta ou que os seus experimentos, apesar dos fracassos preliminares, irão obter resultados positivos[3].

Muitas vezes, a convicção faz intersecção com a utopia, isto é, com um lugar que não existe[4]. Por exemplo, a geração da década de 1970 estava convicta que as contradições do capitalismo automaticamente abririam o caminho para a revolução socialista. Viraram as costas para argumentos de um K. Popper, de um E. Morin, de um C. Castoriadis, entre outros, que criticavam uma certa dose de fé religiosa no marxismo (embora ateu) – e também na psicanálise - , fazendo desses dois saberes não exatamente ‘ciências’, mas um bom exercício de metafísica. O próprio Freud chamava sua teoria  de metapsicologia, uma clara alusão de que esta estava mais para metafísica do que ciência genuína.

Todavia, a paixão por essas teorias fazia com que os marxistas e os psicanalistas extremamente convictos da cientificidade de suas teorias, bem como de sua práxis e, obviamente, cegos e surdos às críticas tanto de fora como de dentro do seu movimento. Assim, as críticas de F. Roustang, de T. Szasz, de M. Mannoni,  foram barradas de serem discutidas em muitas instituições psicanalíticas. O movimento de “retorno a Freud” proposto por J. Lacan, até hoje, é barrado de ser discutido em algumas instituições e cursos de formação de psicólogos, porque já estão convictos de suas verdades. Cada instituição psicanalítica está convicta da ‘verdade’ de sua leitura da obra de Freud e veladamente prega aos seus membros ‘convertidos’ fazer psicanálise genuína. Portanto, além do espírito de seita religiosa, existe um zelo feudal monopólio de ‘ensinar’ ou ’transmitir’ a psicanálise, sem fazer a mínima autocrítica quanto aos problemas epistemológicos da própria teoria e o limite da clínica psicanalítica.

Por seu lado, os marxistas dogmáticos pensavam – e muitos ainda pensam assim - fazer um raciocínio ‘objetivo’ ou ‘científico’ guiado pela ‘verdade da História’. Lembro-me do meu professor C. H. Escobar, no Rio de Janeiro, convencido de que a “Ciência da História” vaticinava a corrosão do capitalismo e o triunfo do ‘proletariado’. (Hoje, quem tem coragem de falar ‘proletariado’, ‘dialética’, ‘alienação’?). 

A verdade ‘verdadeira’ é que boa parte desse discurso político marxista ou psicanalítico não passava de ‘certeza subjetiva’ que nada tinha a ver com a verdade supostamente ‘objetiva’ ou ‘científica’. No fundo, era uma forma de ‘mais-gozar’ através das palavras, e da projeção onírica de uma felicidade coletiva ou do ‘paraíso’ perdido no mundo das idéias.

Naquela época precisávamos – e, de certa forma, ainda precisamos – que essa utopia é necessária como combustível da esperança de viver uma vida melhor no futuro; faz com que a vida tenha algum sentido do presente para o futuro. Conforme diz E. Bloch, é preciso “temos a esperança poderosa de que o que ‘ainda não’ é, poderá ser um dia”. Contudo, sempre é preciso estar alerta dos riscos de se realizar na prática o que é da ordem da linguagem e da utopia.

Foi Popper quem disse que, toda vez que os homens ousaram trazer o céu para a terra a vida cotidiana virou um inferno. Alguém afirmou que os ocidentais acreditam demais nas suas teorias, forçando-as a uma aplicação prática na realidade, esquecendo que as teorias não passam de ficções. Wittgenstein também entende que a ciência não passa de um conjunto de proposições ou enunciados, logo, deveríamos ter mais cuidado em acreditar demais que a teoria tem o poder de transformar a realidade. Também deveríamos desconfiar nos discursos que nós convencem.  A pregação teórica sugestiva que estimula a catarse, confundindo ‘certeza’ com ‘verdade’, e ‘previsão’ com ‘adivinhação’ e misticismo pode vir a ser trágica numa sociedade ansiosa por transformações urgentes e radicais. Porém, talvez se essa utopia for encaminhada para uma discussão livre e radicalmente democrática, poderia vir a ser traduzida em projeto político e social.

Alguns pensam que a educação tem esse papel de preparar as gerações para uma nova sociedade  utópica, como ante-sala do projeto político (Ricoeur, 1983). Outros, como H. Arendt (2001), pensam que a educação deve ensinar como o mundo é, e não como gostaria como que o mundo fosse. No primeiro caso, o educador pretende “estar convicto” para “convencer” os alunos  sobre a verdade de sua  visão de mundo. No segundo caso, cabe ao educador a função ética de demonstração objetiva, experimentação rigorosa, e discussão democrática quanto à sociedade em que vivemos, para além das crenças e convicções sempre presentes no ensino, e que devem ser assumidas pelos docentes no ato de ensinar. Pensamos que o professor deve evitar  fazer de sua aula um panfleto um político-ideológico. Ele até pode revelar sua ‘convicção’, mas deve estar aberto para examiná-la junto com seus alunos. O professor centrado na ética da função, cuida tanto evitar o dogmatismo, como transmitir o conhecimento[5] com clareza e objetividade possível. 

Uma coisa é a crença numa utopia, outra bem diferente é o discurso sustentado por convicções subjetivas alheias a qualquer elaboração objetiva, confrontação com a realidade ou discussões. Assim, para os utópicos ‘progressistas’ de 1970, a felicidade só seria possível depois da revolução, da abolição da propriedade privada e da coletivização dos bens de produção, e tínhamos que acreditar nessa única alternativa.

Hoje, a felicidade de inspiração neoliberal resume-se em um estado mínimo, onde tudo tende a privatização, o estilo individualista de vida e o discurso sustentado no marketing das convicções políticas, religiosas e pseudocientíficas. Os governos considerados de esquerda precisam sair da retórica das convicções – grifada pelo espetáculo das palavras de crítica e de promessas de felicidade coletiva. Em atos concretos e ousados, a esquerda do Brasil e do mundo, precisa reorganizar sua identidade voltada para a transformação da sociedade para além das teorias fechadas e dos discursos políticos de ocasião.

 

Referências bibliográficas

ALVES, R. Entre a ciência e a sapiência. São Paulo: Loyola, 2001.

ARENDT, H. Entre o passado e o futuro. São Paulo: Perspectiva, 2001 : 238-9.

CORBISIER, R. “Utopia”. Enciclopédia filosófica. Vozes, 1974.

FONSECA, E. G. O auto-engano. São Paulo. C. Letras, 1997.

FREIRE-MAIA, N. A ciência por dentro. Petrópolis: Vozes, 1997.

FURTER, P. Educação e reflexão. Petrópolis: Vozes, 1966.

GARCIA-ROZA, L. A. Freud e o inconsciente. Rio de Janeiro: Zahar, 1983.

GLOCK, H-J. Dicionário Wittgenstein. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

MATTEI, J.-F. A barbárie interior: ensaio sobre o i-mundo moderno. São Paulo: UNESP, 2002

MORENO, A. Wittgenstein: os labirintos da linguagem. São Paulo: UNICAMP - Moderna, 2000.

RICOEUR, P. Interpretação e ideologias. Rio de Janeiro: F. Alves, 1983.

SAPORITI, E. A cientificidade da psicanálise: Popper e Pierce. São Paulo: Escuta,1994.

WITTGENSTEIN, L. Investigações filosóficas. In: Os pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1979.

WITTGENSTEIN, L. Tractatus logico-philosophicus. São Paulo: EDUSP, 1994.

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[1] Conta-se que o técnico de futebol e “materialista dialético” João Saldanha ironizou quando soube que dois times baianos tinham ‘certeza’ que iriam ganhar o jogo, após consulta dos búzios. Possivelmente a pior ‘convicção’ é a certeza mística-religiosa, porque deseja impor a todos “sua” verdade, por meio do discurso ideológico ou do terror.

[2] Aqui, parece estar presente o mecanismo de auto-engano. Uma pesquisa divulgada em junho/ 2004 pelo jornal inglês Independent diz que somente 2%  dos iraquianos consideram “libertados” contra 92% que vê os norte-americanos como força invasora do seu país.

[3] O mais convicto dos inventores provavelmente foi T. A. Edison porque repetiu mais de quatrocentas vezes o experimento que resultou na invenção da luz elétrica, em 1878.

[4] Utopia, do grego outopos: quer dizer: sem lugar , ou lugar que não existe. Geralmente usa-se utopia para idéias e projetos, que, embora interessantes, jamais poderiam ser realizados. Existe, porém, dois sentidos de utopia: o sentido positivo e dinâmico, indicando não apenas imaginação e sonho, como também projeto de realização de um desejo em um tempo futuro. Uma obra literária seria uma ‘utopia’ quando o autor não crê mais nas possibilidades pessoais de realização, restando apenas escrevê-la como última mensagem, deixada para que uma geração ulterior se sinta inspirada a realizar o que foi previsto (Furtier, 1966 : 40). Ser utópico para K. Mannheim não é fugir em nenhum lugar (u-topos), nem em nenhum tempo (u-cronos), mas ao contrário, um modo de criticar a situação concreta e expressar esperança e possibilidade real noutra forma de vida. O sentido negativo de utopia estava presente nos discursos dogmáticos das décadas de 1970 e 1980; ao querer distanciar-se duma posição idealista, bastava caracterizá-la “utópica”. Essa visão negativa de utopia teria sido  inspirada no texto de Marx e Engels “Socialismo utópico e socialismo científico”, influenciando uma geração de ‘revolucionários’ que dizia caminhar na contramão da utopia, isto é, rumo a uma sociedade socialista. Donde surge a pergunta: será que “socialismo científico” não era mais um tipo de utopia, tal como era a utopia de:  Platão, Agostinho, Morus, Campanella, Saint Simon, Fourier, Owen?

[5] Uma terceira posição pode ser representada por J. F. Mattei (2002) que diante do crescimento da barbárie de nosso tempo, só resta a escola se fechar para proteger-se como instituição do conhecimento. O autor está convicto de que em época de decadência como a nossa, resta-nos inspirar na atitude de Epicuro e de seus discípulos que saíram da decadente democracia ateniense, indo construir nos arredores o que ficou conhecido como “Os jardins”.

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