Por JOÃO DOS SANTOS FILHO*

Professor da Universidade Estadual de Maringá(UEM) e do Curso de Turismo da Faculdade Nobel. Aluno especial do doutorado da Universidade de São Paulo (USP) na Escola de Comunicação e Artes (ECA)

  MARCELO PARREIRA VELOSO**

** Turismólogo, Especialista em Pesquisa e Docência em Turismo e Hospitalidade (UnB/DF), Professor, Consultor em turismo e eventos e autor dos livros Visita Técnica, uma investigação acadêmica (Goiânia: Kelps, 2000) e Turismo, simples e eficiente (São Paulo: Roca, 2003)

 

 

O (des)tempero das instituições de ensino superior

 

As confissões solitárias de dois professores e quem sabe de todos que militam na docência em turismo?

Aprender é sinônimo de saber e educar é resultado de querer bem.

 

Por que há uma rejeição de determinadas instituições a docentes que aplicam didáticas fora do conservadorismo e da “engessada” aula teórica? Por que o processo de discussão sobre a organização da categoria incomoda determinados coordenadores dos cursos de turismo, impedindo, na maioria das vezes, a construção de ações em prol da valorização e regulamentação da profissão do bacharel em turismo?

Ao desenvolvermos estudos no campo do turismo e da hospitalidade, bem como por atuarmos na docência, tivemos a oportunidade nesses anos de fazer algumas observações que hoje se tornaram questionamentos de grande relevância para a discussão da finalidade e objetivos dos Cursos superiores de Turismo no Brasil.

Esse esforço por nós desenvolvido resultou num trabalho primeiramente individual, mas que se cruza em uma universalidade que toca a todos que são professores e pesquisadores nesse país. Nossas ponderações podem ser explicitadas nos seguintes questionamentos:

Por que as grades ou fluxos curriculares dos cursos de turismo no Brasil são tão heterogêneas (diferenciadas), discutíveis e, às vezes, de difícil compreensão?

Por que as Instituições de Ensino Superior não implementam em suas próprias estruturas, no mínimo, o que é ministrado e ensinado em sala de aula?

Por que não há uma preocupação em proporcionar aos discentes um atendimento completo de boa convivência, que vai desde a recepção, secretaria, tesouraria, laboratórios, coordenações até à Diretoria?

Por que os serviços de informações e de integração aluno x instituição são tidos como uma prestação de serviços de característica exclusivamente comercial e mercadológica?

Por que o Ministério da Educação não tem uma ação mais impactante sobre os serviços prestados pelas Instituições, não se atendo apenas ao “compromisso inserido no papel?”.

Por que não há um acompanhamento mais rigoroso das Coordenações sobre os resultados das aulas ministradas? Um feedback entre instituição (coordenação, docentes) x discentes?

Por que há rejeição de determinadas instituições às propostas construtivistas de interação, interdisciplinaridade e integração aluno x instituição?

Por que a pesquisa é tida como um “bicho-de-sete-cabeças” e não é implementada com mais nitidez e seriedade?

Por que há resistência, nas Instituições, aos profissionais de turismo, principalmente aos bacharéis em turismo (turismólogos) em aceitá-los como docentes inclusive para as disciplinas de característica teórica do turismo?

Por que não há uma integração discente x docente no sentido de estabelecer, em cada instituição que possua o Curso de Turismo, ações que contribuam para, junto aos organismos oficiais exigir, além da regulamentação da profissão do bacharel em turismo, espaços para a aplicação da prática, principalmente por meio de estágios, concursos, contratações e/ou nomeações?

Por que a Comissão de Turismo da Câmara dos Deputados não busca junto às instituições e entidades verdadeiramente representativas, informações e dados que realmente interessam e são necessários para a melhoria da qualidade do turismo, para que não proponha ou aprove normas e leis que possam prejudicar e inviabilizar a dinamicidade do turismo e dos seus profissionais?

Por que não se estabelece uma relação institucional entre Ministério do Turismo/Embratur e os cursos de Turismo das Instituições de Ensino Superior, tendo uma participação efetiva de docentes e discentes, no sentido de estabelecer mecanismos de caráter educacional, social e econômico, evidentemente produtivo, através de pesquisas científicas, inventários, diagnósticos, enfim, de ações que dignifique e alavanque o turismo de maneira verdadeiramente profissional em nosso país?

Afinal porque somos (os turismólogos) tão desconsiderados dentro do trade? Por sermos preocupados com a pesquisa e tentar avançar no estudo científico do turismo ou porque a visão tecnicista ainda é que prevalece dentro do turismo, como assim relata de forma competente a professora Marutschka Moesch com seu livro: A produção do saber turístico.

No campo da docência sofremos da violência que o velho professor brasileiro vem sofrendo desde o nascimento da República, seja com o “otimismo pedagógico” que não correspondeu às necessidades de um país que estava se modernizando e compartilhava de mudanças nos diversos campos do saber, seja com o ensino ainda elitista e extremamente formal, o qual não estava preparado para atender uma população de 75% da população de analfabetos.

O professor possuía e ainda possui um certo status social, a sociedade o respeita como educador, porém, o aparelho estatal ou privado não o remunera dignamente, pois o enxerga como simples mercadoria considerada na forma mais contemporânea como peça de simples e fácil reposição no mercado.

O dilema do processo educacional brasileiro se agravou ainda mais nos novos campos do saber como o turismo. O professor da área específica e comum sofre do descaso salarial, no campo da pesquisa poucos recebem incentivo moral e material para executá-las e as “empresas” de educação estão voltadas para uma reorganização do tecnicismo pedagógico em que a sensibilidade interior cria um ufanismo do ser.

Esse é o motivo pelo qual a maioria delas incluam em seu fluxo curricular palestras e disciplinas de auto-ajuda, fazendo do corpo docente e discente espectadores de espetáculos dantescos.

Eliminar as explicações históricas estruturais como forma de entender o real é sua intenção, pois a lógica do capital, necessita ocultar suas contradições e resguardar o status quo da regência do capital. Para tanto, coloca a explicação do mundo como resultado da vontade de cada um, por isso, o aparecimento das palestras de auto-ajuda, e não aquelas importantes palestras instrumentalizadas para a discussão, análise e comprovação da prática frente à teoria e a técnica ministrada em sala de aula, em que a mudança depende do ato de acreditar na potencialidade interior de cada indivíduo.

Essa perspectiva que na verdade aborta o movimento da história, acaba criando a ideologia do conformismo diante dos problemas nacionais, pois as contradições se localizam nos indivíduos e não na estrutura econômica. Essa miséria racional acaba induzindo as “empresas” educacionais a reviverem antigos comandos pedagógicos alienígenas, quando seduzidas pelo modismo, já decadente no mundo do empreendedorismo.

Parece absurdo, pensar em empreendedorismo, numa sociedade que está em um processo perigoso de recessão (veja que ainda não se vislumbra o começo do tal propalado espetáculo do crescimento), em que a taxa de juros é uma das maiores do mundo (independente da justificativa de que tal taxa é importante para se manter o controle da inflação) e o setor de serviços é um dos principais sacrificados (e que nesse caso não se deve apenas à política econômica dos governos federal, estaduais e municipais mas também à insensatez de entidades privadas que têm em seus projetos o imediatismo, deixando de lado o profissionalismo e a qualidade).

Com isso, declaramos nosso desafeto a todos aqueles que de forma irresponsável induzem nossos alunos a fazerem empréstimos junto à rede bancaria e a se aventurarem a abrirem agências e negócios no campo do turismo sem uma rigorosa e competente pesquisa de mercado.

Sabemos que haverá manifestação contra e a favor dos questionamentos elencados e das considerações aqui apresentadas, pois temos a certeza de ter colocado o “dedo na ferida” de muitos daqueles que insistem em querer que os cursos de turismo continuem formando turismólogos sem nenhuma responsabilidade com o seu futuro profissional. Fica então registrado, para reflexão daqueles que tem a Instituição de Ensino Superior apenas como um local somente para ensinar, deixando de lado o educar, aprender e saber, que estes dois ditados populares não sejam os norteadores da vida acadêmica, nem docente e nem discente:

Em casa de ferreiro o espeto é de pau”
“Faça o que eu digo não faça o que eu faço”

 

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