Por EVA PAULINO BUENO

Depois de quatro anos trabalhando em universidades no Japão, Eva Paulino Bueno leciona Espanhol e Português na St. Mary’s University em San Antonio, Texas. Ela é autora de Mazzaropi, o artista do povo (EDUEM 2000), Resisting Boundaries (Garland, 1995), Imagination Beyond Nation (University of Pittsburgh Press, 1999), Naming the Father (Lexington Books, 2001), e I Wouldn’t Want Anybody to Know: Native English Teaching in Japan (JPGS, 2003)

 

Quanto mais as coisas mudam...

 

O amigo Raymundo me perguntou o que eu achei do Brasil de Lula. Depois de minha última visita à pátria amada que coincidiu com a tomada da posse de Lula, a pergunta do companheiro faz sentido, já que por estas alturas é bem possível que as mudanças lulais devam ser visíveis. Sim ou não?

Difícil dizer. Primeiro, porque é quase impossível voltar ao Brasil e tentar recuperar o que já estava em andamento da última vez que estive aí. Isto é, as mudanças que observei podem ser resultado da política governamental, ou simplesmente o que acontece naturalmente com as coisas. Segundo, porque é totalmente impossível “fazer de conta” que o Brasil é somente  mais um país que visitei. Esta coisa da pátria, do país da gente, é muito forte, muito visceral, mesmo quando a gente mora fora há muitos anos. Tomando como exemplo Curitiba, onde morei por algum tempo nos inícios dos anos oitenta: a cada esquina que passo, mesmo quando ela tenha mudado superficialmente, vejo não só a esquina que está ali no momento, mas todas as outras vezes que passei por aquela esquina, as pessoas com quem passei aquela esquina, as mudanças, perdas, danos e ganhos que ocorreram nas muitas passagens por aquela esquina. O quiosque que vende cafezinho e pão de queijo, perto da praça Ozório na Rua Quinze de Novembro é ele mesmo, e também os papos com colegas do mestrado na Federal, e encontros com amigos, e passeios com os filhos no fim de semana. O tempo se comprime às vezes, especialmente quando a gente viaja de volta a lugares importantes da nossa vida.

Isto não significa que não pude observar algumas coisas que ocorrem “do lado de fora”.

Aqui vão algumas observações que fiz ao decorrer das últimas cinco semanas. Talvez não sejam mais agudas que as que faria qualquer cidadão ou cidadã que continuou no Brasil desde o começo do governo Lula. Mas talvez tenham um pouco daquela claridade que a gente obtém quando vai a um lugar pela primeira vez.

Em Ouro Preto

Primeira parada no Brasil: São Paulo. Mas somente para tomar um ônibus para Ouro Preto, Minas Gerais, com familiares. Novidade: minha sobrinha pôde comprar as passagens de ônibus pela internet, e uma pessoa as levou ao escritório dela. Isto tudo, de acordo com a informação sobre este serviço, pra evitar que o passageiro tenha que ir à rodoviária e enfrentar os trombadinhas para poder comprar a passagem. Isto certamente ajuda a quem tem computador e conexão com a internet. Pra quem não tem nada destas coisas, o jeito é ir mesmo à rodoviária, e salve-se quem puder. Eu não estou exatamente reclamando, somente comentando, já que fui a beneficiária do serviço, e achei-o estupendo.

Em Ouro Preto, meus familiares e eu tivemos o prazer de contar com o profissionalismo dos agentes de turismo da cidade, gente boa, mineira, hospitaleira. Fomos rever todos os lugares de praxe nas cidades históricas, comer os quitutes, bater papo com gente nas praças, tirar fotos. Entre as surpresas nesta viagem esteve a presença negra. Não que em Minas haja mais negros que antes. O que houve desta vez foi a presença do discurso negro. O nosso excelente guia, enquanto se deleitava em explicar ao nosso grupo sobre os monumentos, igrejas, estátuas, usava toda a oportunidade que podia para frisar a presença negra na história, o trabalho dos negros, a contribuição negra em todos os aspectos da sociedade.

Não sei se esta característica é um efeito do governo Lula. Mas me lembro que, da última vez que estive em Minas com um grupo (em 1994), o nosso guia ( também mulato), se concentrou mais nos aspectos técnicos dos monumentos. De todas formas, quando todos nós discutimos os passeios do dia, todos meus familiares concordaram que nosso guia não tinha exatamente dado informaçes novas sobre a colonização de Minas, ou a exploração das minas de ouro, mas que ele tinha enfatizado uma parte da história que até recentemente era passada por cima como subentendida, ou mesmo não merecedora de menção.

Em Londrina

Quando a Sanbra construiu o seu primeiro silo em Maringá, até no jornal da cidade (a Folha do Norte do Paraná) houve um comentário que a cúpula do silo parecia um disco voador. Isso faz muito tempo mesmo. Mas não faz tanto tempo que uma pessoa como eu não se lembre que então a companhia era sinônimo de produtos feitos de soja, ou seja, exclusivamente o óleo e uma outra coisa que só sabíamos que era exportada para servir de ração para animais. Ninguém que eu conhecia sequer pensava em consumir algo feito de soja que não fosse o óleo.

Agora, ao que tudo indica, tudo que é bom é feito de soja.  É quase como uma nova versão do ipê roxo, que se dizia que curava câncer e outras doenças. Desde os efeitos beneficiais para as pessoas que precisam repor hormônios, até aqueles que têm doenças intestinais, tudo de soja parece ser a solução. Através de uma das minhas irmãs eu tinha experimentado uma deliciosa versão com sabor de picanha, aliás muito melhor que outros produtos tais como o conhecido tofu, e o menos conhecido “natto” (os grãozinhos de soja fermentados). Não é de se admirar, portanto, que quando estive em Londrina por uns dias, ao achar uma lojinha que vende os tais produtos, resolvi comprar vários pacotinhos. A vendedora era uma convicta consumidora dos produtos. Conversamos animadamente, e ela me explicou ainda mais os benefícios da soja. Então um senhor que estava na loja nos interrompeu, sem a menor cerimônia.

– “Não é a soja. Está errado dizer a soja. Tem que ser o soja.” (Lógicamente a fala do homem não tinha sublinhado, mas ele bem que frisou o ponto.)

A moça e eu respondemos:

– “Quê??”

E o distinto senhor:

– “Tem que ser o soja porque é o feijão soja. Detesto escutar gente apunhalando a língua portuguesa! Sou professor de português, e tenho que defender a nossa língua.”

Ai ai ai. Que responder? Que objetar? Logicamente, logo de cara, poderia dizer que ele não estava na nossa conversa, e não tinha nada que se meter. Por outro lado, a língua não é só dele, mesmo que ele tenha ensinado a conjugar verbos e a colocar acentos durante uma carreira inteira de magistério. A língua portuguesa, assim como todas as línguas, é uma entidade viva, que respira, cresce, muda. Ele deveria saber disto, mas o caro professor da língua portuguesa se sentiu tão injuriado pela “indiscrição lingüística” cometida por mim e pela balconista, que ele se viu na obrigação de sair em defesa da última flor do Lácio, inculta e bela, que está sendo atacada por todos os lados por gente que nem sequer presta atenção ao gênero desta palavra, SOJA.

Eu objetei ao senhor, de todas formas, que a maioria das palavras portuguesas terminadas em “a” são femininas, e portanto esta palavra relativamente nova dentro da língua tenderá a seguir o padrão normal. E também acrescentei que “o feijão soja” não é a mesma coisa que “a soja,” porque no primeiro caso a palavra “feijão”, por ser mais antiga, e estar mais próxima do artigo,  vai dominar o gênero.

Mas, ao fim de contas, fiquei eu mesma na dúvida, e comecei a fazer uma pesquisa informal entre amigos e parentes, pra saber se eles usam “a soja” ou “o soja.” Todos com quem falei concordaram comigo: é “a soja.” Todos concordaram, menos, lógico, uma irmã que foi professora de português por uns 30 anos. Então, temos o grupo de falantes, e outro de mandantes da língua portuguesa.

Moral da história: masculina ou feminina, a soja ou o soja é um produto agrícola maravilhoso mesmo. Recomendo a de sabor picanha. Os pacotinhos são bastante portáteis, e o produto é barato, nutritivo, gostoso.

Na capital

Passeando por Curitiba, notei a presença constante de uma placa que diz que esmola não dá futuro, e pede às pessoas que contribuam diretamente a assistências à criança e adolescentes.

Certo. Melhor dar apoio a estas instituições que vão providenciar comida, calçado, escola, para os jovens carentes. Não tem nada que faça com que a gente se sinta em um país desmoralizado como ver gente mendigando, especialmente crianças e jovens que deveriam estar na escola, brincando, se educando e aprendendo uma profissão.

Durante minha passagem por Minas, São Paulo e Maringá, não vi realmente ninguém pedindo esmola. Este fato me chamou muito a atenção, porque o contrário era a norma anterior. Entretanto, no meu terceiro dia em Curitiba, caminhando pela Carlos de Carvalho, me deparei com uma cena chocante: um homem de uns 30 anos, abrindo sacos de lixo na calçada e comendo o que encontrava neles.

Que fazer numa situação destas? As pessoas passando pela mesma calçada ignoravam o homem. Ele, por sua vez, ignorava todos e seguia sua tarefa. A sua aparência mostrava que, provavelmente, ele também sofria de algum problema mental. Ou seria simplesmente a fome que o colocava nesse desvario?

Me lembrei, naquele momento, de algo que Carolina Maria de Jesus escreve no seu Quarto de despejo (escrito de 1955 a 1960). A cena era exatamente a mesma: uma pessoa cavando no lixo e comendo o que encontrava. Mas esta lembrança não durou mais que um segundo. Ali, na minha frente, estava um ser humano reduzido a uma condição que outro ser humano não deveria jamais deixar acontecer. Que fazer? Que fazer?

Ali perto estava a placa dizendo que esmola não dá futuro. Na minha frente, uma pessoa que desesperadamente necessitava uma ajuda naquele momento. No país, uma campanha diz que todos os brasileiros têm o direito de comer. Na minha cabeça, tudo ao mesmo tempo, a certeza de que ao dar um pouco de dinheiro àquele homem, eu estaria somente aliviando minha consciência, mas não resolvendo o problema, realmente. Além do mais, havia a possibilidade de que o homem era doente mental, e que não receberia bem qualquer tentativa de ajuda da minha parte, e talvez até me atacasse.

Que fazer? Que fazer?

Antes de ficar completamente paralisada por minhas vacilações, tirei uma nota da bolsa, caminhei até o homem, e lhe disse que parasse de comer porcarias e fosse almoçar com o dinheiro que eu estava lhe dando. Eu tinha o direito de dizer isto a ele? Não sei. Eu resolvi o problema da fome? Claro que não. Eu ajudei na campanha de conscientização que esmola não dá futuro? Também não. Mas pelo menos sei com certeza é que talvez aquele pobre homem tenha podido comer uma refeição decente naquele dia. Às vezes os grandes discursos não ajudam a pessoa real, que está bem na nossa frente. Acho que, por mais que digam que esmola não dá futuro, a intervenção no momento é a única coisa que resolve um problema tão básico como chegar às 3 da tarde sem ter nada que comer. Mas não me sinto nem moralmente superior a ninguém por ter dado àquele pobre homem um pouco de dinheiro, nem como alguém que já fez o que pôde. Falta muito a fazer pra resolver o problema da fome, e dos desesperados pelas ruas do Brasil. Precisamos que estes programas governamentais continuem, e que as estruturas de apoio e de recuperação dos que caíram pelas beiradas da sociedade sejam formadas para que cidadãos como eu possam confiar que a nossa contribuição vai realmente beneficiar aos necessitados, e não somente criar condições de continuação da mesma situação de miséria e fome.

Mais questões lingüísticas

Quem é que não se lembra como, em Maringá dos idos 60 e 70, fazíamos piada com os curitibanos, imitando aquele sotaque cantado, dizendo com todas as vogais pronunciadas como na escrita, e o “te” sem o nosso “tchi”,  e do “de” sem o “dij”: “leite quente dá dor de dente”? Aliás, outra piada comum era ver os colegas que tinham ido fazer uma visitinha de fim de semana a Curitiba voltarem imitando o sotaque afetado, porque isto dava status. Curitiba era, para todos nós, a terra do “leite quente dá dor de dente.” E até minha última visita, continuava sendo.

Tenho a reportar que isto mudou, caso alguém não tenha notado. Nas ruas da capital paranaense, nas lojas, nos restaurantes, o sotaque característico está em extinção. Provavelmente, com o influxo de gente de outras partes do país em busca de trabalho, as resistências do sotaque  foram sendo minadas, as muralhas entraram em erosão, e finalmente o arcabouço do “leite quente” está caindo por terra.

Mas não completamente. Parada num ponto de ônibus em um bairro da periferia da capital, notei que o sotaque continua vibrante, com todas as notas musicais a que tem direito, todos os “de” e “te” e as vogais pronunciadas. A não ser, obviamente, que aquelas pessoas que escutei eram realmente do interior do estado e estavam tentando imitar o sotaque curitibano.

Maracatu

Outra coisa que se escutava muito de Curitiba no passado era como esta cidade era “européia.” Maracatu (Foto da autora)Sabe-se lá o que isto queria dizer na verdade, mas provavelmente o que isto significava era que a maioria da população de Curitiba era branca. Ainda continua sendo uma verdade, pelo menos nas partes centrais. Outra coisa que este “européia” queria dizer era que as manifestações culturais eram européias, afinal, Curitiba tem balé e ópera, entre outras coisas.

Então, a apresentação de um grupo de maracatu na Rua XV de Novembro foi não só uma surpresa agradável, mas, eu espero, um sinal dos tempos. Embora a maioria dos membros do grupo era branca, a apresentação foi excelente. Conversando mais tarde com alguns dos participantes, eles disseram que são um grupo de uns 30 jovens que se reúnem semanalmente para praticar o maracatu e estudar a história do maracatu. Para eles, a recuperação da herança negra é um ponto importante da sua compreensão do que significa ser brasileiros. Neste tempo em que um guia turístico em Ouro Preto pode falar abertamente da presença negra na história do Brasil, e um grupo de jovens no sul do país se dispõe a estudar a praticar um evento cultural negro podemos dizer que as coisas estão melhorando.  Quem sabe o grupo continue praticando, fazendo apresentações nas ruas da cidade, explicando o que o maracatu significa. Tomara que sim.

* * *

Mas ainda falta resolver o problema da fome. Ainda tem muita gente desempregada. Os professores e outros profissionais ainda ganham muito mal. O problema (ou o discurso) da violência continua como antes. Tem mais, mas vamos ficando por aqui mesmo por hora. Talvez o governo Lula não consiga resolver estes problemas, mas está tentando. E, quando eles forem solucionados, ainda vai faltar decidir o gênero da soja.

 

 
 

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