Por HENRIQUE RATTNER

Professor da FEA (USP) e membro da Associação Brasileira para o Desenvolvimento de Lideranças (ABDL)

 

Um outro mundo é possível

 

A globalização impulsionada pela expansão do capital e a intensificação da tecnologia em escala planetária não resulta apenas em maior circulação de mercadorias e de recursos financeiros, mas cria também oportunidades para a difusão de conhecimentos e de conceitos éticos universais, produtos da imaginação e da criatividade humanas.

Neste sentido, é possível afirmar que a globalização está disseminando as raízes de uma nova ordem mundial baseada em princípios e valores – democracia, direitos humanos e solidariedade – que auguram uma nova era do convívio humano.

Diariamente, são construídas redes de informação e comunicação, com base em tecnologias abertas e acessíveis o que permite a elaboração de uma visão e compreensão mais completa sobre a encruzilhada da sociedade e os impactos das ações individuais e coletivas na vida humana e no meio ambiente.

A abertura do mercado pela dinâmica do capital transnacional tem encontrado parceiros e aliados nas classes abastadas e nos governos nacionais, mesmo aqueles que se dizem da “esquerda”.

Para enfrentar os desafios decorrentes da desarticulação das organizações comunitárias tradicionais torna-se mister uma ampla mobilização popular exigindo novos padrões de políticas públicas e a participação nas decisões que afetem seus destinos, mediante consultas, plebiscitos e referendos de toda a população.

Essa concepção coloca em discussão a reformulação do sistema de ciência e tecnologia, tradicionalmente atreladas aos interesses das classes dominantes. A abordagem alternativa, além de romper as barreiras das disciplinas rigidamente enquadradas numa estrutura departamental, procurará incorporar novas práticas de aprendizado social através de elementos de ação coletiva, políticas públicas inovadoras e experimentação social, com a participação de todas as camadas da população.

Procuramos criar alternativas que transcendem as práticas assistenciais que fornecem álibis para pseudo-soluções e reforçam os processos de exclusão social. Para superar o impasse em que se encontra a sociedade postulamos a primazia da cooperação em lugar da competição como valor fundamental e esta tarefa não pode ser reduzido à superação da dicotomia simplista “Estado x mercado”. Na construção da nova ordem social caberá ao Estado a função de coordenar e orientar as atividades econômicas e sociais, enquanto a população conquista sua autonomia, autogestão, iniciativa criativa e liberdade.

Após mais de trezentos anos durante os quais o Estado constituiu o marco jurídico legal e político para a ordenação das atividades produtivas e políticas das populações estabelecidas nos seus limites territoriais, ele se revela impotente para impedir a privatização de bens públicos e a deterioração das condições de vida da imensa maioria da população. Perde, também, a maior parte de sua capacidade financeira em conseqüência da baixa arrecadação, sonegação e o pesado ônus do serviço das dívidas externa e interna. O desafio para a sociedade civil é reconstruir o Estado em suas funções de provedor de empregos, de serviços de infraestrutura e, sobretudo, de atendimento às necessidades básicas dos menos favorecidos e marginalizados.

Trata-se, em última análise, de transformar um modo de vida que produz e reproduz cronicamente a concentração de riquezas, da cultura e do poder enquanto agrava, no outro lado, a miséria, a marginalidade e a exclusão. Os padrões culturais impostos e disseminados pelas elites à sociedade recusam os direitos à cidadania aos pobres e discriminam os subalternos aos quais é vedado acesso à representação pública, principal obstáculo a um processo de mudança. Não havendo um fluxo de informações atualizadas e relevantes para os excluídos, não haverá barreiras à gestão autocrática e centralizadora. O adiamento dos debates dos problemas da sociedade pela população e sua participação na definição das prioridades de investimentos tende a aumentar as disparidades sociais e regionais e, assim, agrava as tensões e conflitos. A alternativa exige descentralização e transparência nos processos decisórios e a plena participação democrática.

Os impactos dramáticos do desenvolvimento desigual que aumenta o fosso entre ricos e pobres tendem a lançar a reivindicação central de nosso tempo – direitos humanos – não como visão utópica, mas como condição básica para a sobrevivência e a sustentabilidade.

A inadequação da democracia formal representativa para dar vazão às expectativas e aspirações das populações privadas e marginalizadas levou a propostas e práticas de desenvolvimento da organização da produção, distribuição e consumo de bens e serviços mais compatíveis com a integração social, participação comunitária e o exercício pleno da cidadania. Foi a partir da organização crescente da sociedade civil que o Fórum Social Mundial lançou o desafio que reverberou por todos os continentes – “Um outro mundo é possível”.

Utopia? Mas o que seria o destino da humanidade sem os sonhadores de um futuro alternativo? E, como dizia Oswald de Andrade, ”no fundo de cada utopia há não somente um sonho, mas também um protesto". São os protestos que estimulam a tomada de consciência, a mobilização e a luta política.

O fracasso do socialismo real que foi a primeira experiência de um regime alternativo, não redime o capitalismo que trouxe à humanidade, além da opulência material para poucos, a exploração e alienação da maioria e as hecatombes de duas guerras mundiais.

Sabemos que o socialismo democrático não pode ser realizado com base na pobreza generalizada, onde a distribuição de bens e serviços escassos exigirá a formação de filas, as quais, para manter a ordem, apelarão para o aparelho de segurança do Estado, ressuscitando a burocracia, a polícia e a desigualdade.

Entretanto, não há motivos para pessimismo. Duzentos e cinqüenta anos atrás, o mundo “civilizado” da época era dominado por um punhado de déspotas absolutistas que negavam terminantemente quaisquer direitos aos membros de suas respectivas sociedades.Foram as idéias “subversivas” de alguns visionários, iluministas e racionalistas, que proclamaram os direitos naturais universais à liberdade, fraternidade e igualdade que fizeram ruir as monarquias autoritárias e que deram origem a uma onda de reformas democráticas, desde a guerra de Independência dos Estados Unidos, a Revolução Francesa e os sucessivos movimentos em prol da libertação nacional, durante todo o século XIX.

A segunda razão se prende à interrogação sobre o destino da humanidade e o sentido da vida. Os mestres da Cabala comparam o mundo a uma ponte. De onde ela vem? Não sabemos. E, aonde ela leva? Tampouco o sabemos. Mas, viver é atravessar a ponte e, caminhando na ponte procuramos encontrar idéias, objetivos e valores que conferem sentido às nossas vidas. As teorias científicas que proclamam o acaso na criação do universo, foram contestados por Albert Einstein que dizia “Deus não joga dados com o universo” e Amílcar Herrera tentava demonstrar, com base em estudos e elaborados cálculos, que o universo não poderia ser obra do acaso.O sentido da criação e a missão da humanidade, segundo esse autor, seriam a disseminação da inteligência, do conhecimento e da ética através do universo, um desafio permanente para a auto-realização individual e coletiva. E, se não podemos comprovar a tese de Amílcar cientificamente e não podemos solucionar todos os problemas , desafios e mistérios da vida, chegamos a um ponto que nos leva a afirmar simplesmente...”porque ,assim, acreditamos”.

 

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