Por EVA PAULINO BUENO

Depois de quatro anos trabalhando em universidades no Japão, Eva Paulino Bueno leciona Espanhol e Português na St. Mary’s University em San Antonio, Texas. Ela é autora de Mazzaropi, o artista do povo (EDUEM 2000), Resisting Boundaries (Garland, 1995), Imagination Beyond Nation (University of Pittsburgh Press, 1999), Naming the Father (Lexington Books, 2001), e I Wouldn’t Want Anybody to Know: Native English Teaching in Japan (JPGS, 2003)

 

Kyoto, mon amour

 

Quando eu ouvi o nome desta cidade pela primeira vez? Não me lembro ao certo, mas deve ter sido quando comecei o ginasial no antigo Colégio Gastão Vidigal, quando ele ainda estava no centro da cidade, detrás do lugar que mais tarde seria a catedral Nossa Senhora da Glória. Na minha sala de aula havia várias coleguinhas de origem japonesa. Naquele tempo (parece que faz um século) as meninas estudavam em um período, e os meninos em outro, por isso eu só tinha coleguinhas mesmo. Pois bem, uma destas coleguinhas um dia trouxe um cartão postal muito antigo, e disse que era uma foto de Kyoto.

Pra qualquer paranaense da minha idade, estes encontros com vestígios, memórias, menções de coisas japonesas eram costumeiros. Todos tínhamos muitos amigos japoneses, vizinhos japoneses, e alguns, como eu, iam às festas do Bon-o-dori da Acema em outubro. Mas eu nunca tinha ouvido falar de Kyoto. A imagem, de um jardim coberto de uma graminha muito verde (que mais tarde descobri ser musgo), parecia tão distante da nossa empoeirada Maringá, que poderia ser a foto de um outro planeta. Minha amiga disse que a mãe dela tinha uma tia que morava em Kyoto, e que ela gostaria de um dia ir a esta cidade, cheia de jardins, templos, casas onde as pessoas andavam descalças para não sujar o chão. De dentro das nuvens de poeira vermelha de Maringá dos idos 1960, tal idéia parecia incrível. Este contato inicial com Kyoto inaugurou o desejo, que me seguiu durante muitos anos, de ir visitar a maravilhosa cidade de reis e princesas, aristocratas, templos, jardins, casas tão limpas que as pessoas podiam dormir no chão. A minha imaginação de Kyoto ficou cristalizada naquela imagem e naquelas primeiras conversas.

Então, quando me surgiu a oportunidade de ir morar e trabalhar no Japão em 1999, lecionando na Mukogawa Women’s University em Nishinomiya, a primeira coisa que eu fiz foi olhar o mapa e ver a distância de minha universidade em relação a Kyoto. A relativa proximidade foi, talvez, uma das razões porque deixar um trabalho nos Estados Unidos e ir trabalhar por alguns anos no Japão me pareceu uma boa idéia. A possibilidade me liberou para reativar minha memória da fabulosa — em minha imaginação — cidade de Kyoto. E assim foi que fui morar perto de Kyoto.

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Kyoto StationComo qualquer um pode dizer a quem vai ao Japão, o meio de transporte mais usado no país é o trem. As linhas são abundantes, os carros são em geral muito limpos, as máquinas potentes, enfim, os trens são uma maravilha. São também muito caros; esta parte quase ninguém se lembra de avisar. De minha casa em Nishinomya, até a estação de trem de Kyoto, são aproximadamente 75 minutos de viagem, e pelo menos três trens, e o equivalente a trinta dólares, ida e volta. Dentro de Kyoto, se você precisa tomar mais trens, ou ônibus, são mais horas e mais dinheiro gasto. Se quisermos ir a algum lugar mais afastado do centro, tal como o templo de Enryaku-Ji, nas montanhas ao norte da cidade, são pelo menos mais 60 minutos, e mais o equivalente a vinte dólares. Vale a pena?

Depende de quais são seus interesses no Japão. Para as pessoas que querem fazer compras, ou somente se escandalizar com os preços exorbitantes, basta ficar na estação da JR (Japan Railway) no centro. Esta estação tem uma arquitetura que está em contraste com os edifícios tradicionais da cidade, mas completamente de acordo não só com a arquitetura mais nova da cidade, mas também com a nova ideologia do país, que desde o fim da segunda guerra mundial decidiu que alcançaria o oeste em tecnologia e outros avanços. (foto da estação) O edifício tem inúmeras lojas, restaurantes, e até uma excelente galeria de arte que exibe uma variedade de artistas japoneses e internacionais.

Mas o meu interesse em Kyoto era encontrar aquele templo cuja foto eu tinha visto quando menina em Maringá. Mas como saber qual era? Numa cidade com tantos templos, uma imagem da minha memória, transmitida com as poucas palavras que eu sabia de japonês, realmente não me ajudaram. Então decidimos, eu e meu marido, ir de templo em templo, como em uma romaria. Um dia encontraríamos o tal que eu buscava.

O primeiro templo, creio que não só para mim, mas para muitos que visitam Kyoto pela primeira vez, é Kyomizu-dera, que fica na parte leste da cidade, e não muito longe da estação JR, uma meia hora de ônibus. Este templo é um dos maiores, e é realmente uma maravilha arquitetônica construída toda em madeira, durante a administração do general Sakanoue no Tamuramaro (viveu de 758 a 811). Para os apaixonados por carpintaria, este templo é uma festa para os olhos, porque todas as juntas são feitas sem pregos. Naquela primeira vez, como quase todo mundo, eu também bati no pote de ferro que todos batem pedindo boa sorte e saúde. Em Roma, falamos como os romanos; em Kyoto, damos batidas nos sinos e potes como os kyotenses.

Mas Kyomizu-Dera não era o templo da minha memória. Nem também eram os demais naquela linha de ônibus, e que eram mais acessíveis a nós, marinheiros de primeira viagem. Voltamos a Kyoto muitas vezes, sozinhos ou acompanhados de amigos. À medida que nosso conhecimento da língua e das linhas de trens se tornava mais confiante, nos aventurávamos aos mais distantes, que requeriam mais tempo, e mais dinheiro, para chegarmos lá.  De particular interesse para mim e meu marido foi o templo Sanjusangen-do, construído por Taira no Kiyomori, que aliás pode ser alcançado a pé desde a estação (se você sabe ler o mapa). Este templo tem um pavilhão muito longo e vazio, em cujas vigas há sinais de flechadas: os nobres que freqüentavam o templo faziam torneios para ver quem acertava no alvo ao fim do pavilhão. Este templo é também interessante porque é muito “zen” — quer dizer, é bastante vazio e tem um ar de dignidade e serenidade.

Outros templos muito famosos em Kyoto, e devidamente visitados nas subseqüentes vezes que fomos a Kyoto, foram o Ginkaku-ji, Kinkaku-ji e Ryoan-ji. Em cada um destes, uma multidão tinha tido exatamente a mesma idéia que nós, e era quase impossível ver as belezas dos jardins, muito menos de ter a experiência emocional que sempre achei que teria, especialmente em Ryoan-ji, o templo com o jardim de pedras.

Depois de um ano morando no Japão e várias visitas a Kyoto, já estava pensando que jamais iria encontrar o templo que trazia comigo desde a infância maringaense. Foi então que uma amiga nossa, Robin chegou para passar duas semanas em Kyoto. Esta mulher nunca tinha ido ao Japão, mas era uma verdadeira perita na cidade. Quando nos comunicamos por email antes dela chegar, ela me disse que desde a infância teve grande interesse por Kyoto, e que sentia uma afinidade espiritual com a cidade. “Talvez”, ela escreveu uma vez, “se é verdade que existe reencarnação, eu já vivi em Kyoto em outra vida”.De fato, como Robin nunca tinha tido nenhum contato com o Japão, ou com amigos japoneses durante sua vida, o seu interesse — a sua paixão — por Kyoto era algo difícil de explicar. Enfim, quando ela chegou para sua estadia de dez dias, Robin trazia consigo mapas, fotos, roteiros, e inclusive tinha conseguido se hospedar em uma das hospedarias tradicionais japonesas – ryokan - que ficava bem no distrito artístico das gueixas, no centro do bairro de Gion. Fomos visitá-la com uns amigos japoneses, Akira e Shigeko, e eles também ficaram impressionados com o conhecimento de nossa amiga. Ela conseguiu levar-nos a templos na parte leste da cidade que nem os amigos japoneses tinham visitado. Na volta ao ryokan, ela nos conduziu a um teatro da vizinhança onde estavam fazendo a apresentação anual dos alunos que se especializavam em “anka”, um tipo de música tradicional japonesa. Os alunos e alunas usavam roupas muito elaboradas, e toda a maquiagem de praxe. Foi uma experiência impressionante, em parte por si mesma, em parte por ter sido tão inesperada. Por fim, ela nos levou para conhecer algo em que eu tinha muito interesse, um mercado livre de antiguidades em um templo de Kyoto.

O nome do templo: To-ji. Não fica muito longe da estação JR, mas se a pessoa não sabe como chegar até o templo através da leitura dos mapas, as chances de encontrá-lo são quase inexistentes. No entanto, To-ji tem um edifício — o tradicional pagode de várias “camadas” bem alto, e uma vez que a pessoa chega lá, este pagode parece bem imponente. Mas a não ser que a pessoa saiba onde olhar, jamais o encontra. Pois nós o encontramos naquele domingo, um primeiro domingo do mês, em que ocorre a feira.

Quando nós cristãos, ou pessoas criadas numa cultura majoritária cristã, pensamos na palavra templo, imaginamos uma igreja, um edifício único, onde os fiéis se congregam para rezar, ou para fazer as diversas cerimônias da religião, ou da comunidade. O templo no Japão é diferente: ele é um conjunto de edifícios que têm funções diferentes. Em alguns, é possível assistir-se às peças do teatro tradicional Noh. Em outros, como vimos com Sanjusangen-dô, costumavam – e ainda costumam – ter competições de arco e flecha. Em outros, há pequenas escolas para crianças, ou mesmo lugares para os idosos passarem várias horas do dia. Em To-ji, há esta feira de antiguidades duas vezes ao mês, no primeiro domingo, e no dia 21.

Quando nossa amiga nos levou a To-ji pela primeira vez, eu mal pude acreditar: em volta de um dos edifícios dedicados às cerimônias religiosas, se encontravam centenas de barracas coloridas, cada uma com objetos muito interessantes feitos de cerâmica, de madeira, de porcelana, de tecido, de pedra e de papel. Alguns destes objetos eram raridades, outros, somente kitch. Das ilustrações de papel, algumas do século, exalava o cheiro das coisas guardadas, antigas, e me faziam lembrar velhas livrarias, sebos que visitei em outros países. Os objetos de cerâmica tradicional japonesa me encantaram com a sua simplicidade e humildade, e as bonequinhas de madeira mais uma vez me fizeram lembrar das amigas de infância que tinham em suas casas tesouros como aqueles, alguns trazidos do Japão pelas avós, nos navios em que fizeram a travessia do mundo para desembarcar no Brasil.

Mas o que mais me interessou imediatamente foram as barracas com kimonos antigos. Para minha grande surpresa, estes kimonos de seda — que novos custam até vinte mil dólares — aqui se encontravam por até cinqüenta dólares. Ainda não eram exatamente baratos, mas se considerarmos que quase todos estavam em perfeitas condições, e que todos eram feitos completamente à mão, e tinham estampados incríveis, estes kimonos se transformaram naquilo que eu jamais pude resistir no Japão. Minha pequena coleção de tecidos e estampas, que havia começado assim que eu tinha chegado ao país, cresceu muito a partir do momento em que eu fui a To-ji.

Esta descoberta de To-ji acabou me proporcionando vários outros benefícios, assim como mais descobertas a respeito da cultura japonesa. Uma das primeiras descobertas foi que os japoneses em geral não gostam de coisas “usadas”.Isto explica porque a cada janeiro as pessoas se juntam em um templo e fazem uma grande queima de objetos que representavam o ano anterior. Isto acontece todos os anos na cidade de Nara (também perto de Nishinomiya). Não vi nunca a queima de kimonos, mas vi que, na feira de To-ji, a maioria dos fregueses eram estrangeiros. Perguntei a umas amigas na minha universidade se elas comprariam um kimono usado, e elas disseram que não. Perguntei a razão, e elas disseram que os kimonos vêm com a “alma” de quem os usou. “Além do mais”, elas explicaram, “o kimono é um traje muito formal, e preferimos comprar um novo”.Então a superstição explica porque a maioria dos maravilhosos kimonos japoneses antigos estão em mãos de estrangeiros, que não temem os “fantasmas” e apreciam a técnica e a arte empregadas na confecção da peça.

Outra descoberta que To-ji me proporcionou foi de que os kimonos são extremamente desconfortáveis e difíceis de colocar. Isto talvez explique o fato de que esta vestimenta hoje em dia só seja usada pelas mulheres japonesas em ocasiões especiais, e elas têm que ir a um salão de beleza especial para serem ajudadas a colocar a roupa. Dentre os trajes femininos tradicionais de várias sociedades — o sari indiano, por exemplo — o kimono é talvez o mais difícil de usar, e provavelmente o mais caro também. A mulher japonesa geralmente só usa o kimono seis vezes na vida — quando é apresentada ao templo, alguns meses depois do nascimento; aos três anos, aos cinco, aos sete, quando se forma na faculdade, e quando se casa—e cada uma destas ocasiões é cheia de significados. Deve ser muito caro para a família de hoje comprar kimonos para as filhas para cada uma destas ocasiões, o que explica, primeiro, que em geral as meninas das famílias menos abastadas usam kimonos da mãe ou da avó até os sete anos, compram um novo para a formatura, e alugam o kimono do casamento. O preço e o desconforto também devem explicar o fato de que mesmo para o casamento e a formatura da faculdade as moças japonesas estão preferindo usar roupas ocidentais.

Os dois benefícios mais importantes que To-ji representou foram, primeiro, o fato de que eu finalmente “conquistei” Kyoto, e passei a ir à feira sozinha, e mesmo a ensinar a colegas e amigos como chegar ao templo. O outro benefício, talvez o mais importante, foi que em minhas visitas, conseguia conversar com os vendedores. Diferentemente de outras pessoas na cidade, que muitas vezes se recusaram a entender as minhas tentativas de falar japonês, estes vendedores (como todos os vendedores no mundo inteiro, creio), sabiam que tinham que se comunicar comigo para poderem vender sua mercadoria. Depois de dois anos freqüentando o templo, cheguei a conhecer muitos dos vendedores, e podíamos até bater papo e falar do tempo. Eu os conhecia muito superficialmente, claro, mas o suficiente para ver que o famoso sentido de humor da região de Osaka existe, e que o sotaque desta região do país é bem peculiar. Cada primeiro domingo do mês, quando o tempo era favorável, eu tomava os trens todos, e ia à feira. Quando voltava para casa, à tarde, sentia que tinha entrado em uma parte do Japão que está desaparecendo. Eu me sentia privilegiada e agradecida pela simpatia das pessoas, seu bom humor, e sua bondade para comigo.

Nestas alturas, eu já quase tinha me esquecido da minha intenção inicial de encontrar o jardim japonês da minha infância. Acho que tinha cansado de perguntar aos japoneses se conheciam um jardim como aquele. Todos diziam que sim, mas não se lembravam qual era. Um dia de outono, quando as folhas das árvores do Japão fazem um escândalo de cores, fui a Kyoto com meu marido, fazer compras na região de Gion, que tem umas lojas muito interessantes. Estávamos distraídos, e tomamos o ônibus errado. Decidimos seguir adiante e ver onde iríamos parar. No caminho, vimos as placas para um templo que não conhecíamos, Daitoku-ji. Decidimos descer do ônibus e visitar este também, depois de ler apressadamente no guia que este templo havia sido construído em 1319, depois destruído durante uma guerra uns cem anos mais tarde, e reconstruído com a ajuda de Hideyoshi, um dos shoguns mais importantes do Japão e um aficcionado da cerimônia do chá. Ali, inesperadamente, depois de caminharmos um pouco entre edifícios sombrios, passando por vários tipos de jardins com pequenas cerejeiras, encontrei o jardim da minha infância. Infelizmente, não trazia uma câmera naquele dia.

Em outras viagens a Kyoto, decidi não voltar ao Daitoku-ji. Acho que eu queria preservar a aura especial da memória desta nova imagem que agora se juntava à que eu trazia da infância. Os jardins dos templos japoneses, eu já tinha aprendido, são criaturas vivas e, como tal, são sujeitos a humores, os quais são ditados pela hora do dia, temperatura, luz do sol, e até pelo silêncio ou o ruído que circundam o jardim na hora que o vemos. A experiência de ver um canto de Daitoku-ji com o musgo verde contrastando com as cores rosadas, vermelhas, alaranjadas, marrons, das plantas ao redor seria impossível de repetir. Voltar a Daitoku-ji num dia quente, em que duas mil pessoas estivessem trombando em mim para escolher o melhor ângulo para tirar uma foto seria uma dissecação não só do jardim em si mesmo, mas do “jardim” que eu tinha em minha memória. Do mesmo jeito que me recusei a voltar a Ryoan-ji porque a primeira visita tinha sido tão decepcionante, decidi não voltar a Daitoku-ji para não destruir a imagem que tinha do jardim.

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Aqui nos Estados Unidos muita gente fala da diferença entre ser um “turista” — tourist – e um “viajante” — traveller. Em geral, todos preferem ser “travellers”, porque, pelo que tenho lido, o “traveller” é o que tem tempo de apreciar as coisas profundas, as belezas escondidas de um lugar. Também, eu concluo, o “turista” viaja em pacotes, vai rápido e volta depressa, enquanto que o “viajante” vai devagar e demora mais. Estas são, logicamente, considerações que tem muito a ver com capacidade financeira, que se faz passar por classe. Em outras palavras: os ricos viajam, os pobres fazem turismo.

Mas seria realmente sempre este o caso? Vamos tomar como exemplo o que ocorreu quando minha amiga Robin veio nos visitar no Japão e ficou num ryokan em Kyoto por 10 dias. A passagem dela pela cidade — e ela só visitou Kyoto, porque este era seu único interesse no Japão — foi quase uma residência, porque ela escolheu onde ficar, fez amizades com o pessoal do hotel, e, pelo que vimos quando a visitamos naquele domingo, ela sabia mais de Kyoto que os próprios locais. Robin juntou dinheiro por muitos anos para poder fazer esta viagem, portanto não é rica, mas determinada. A minha situação, quando visitava Kyoto, embora eu fosse residente de uma cidade vizinha, era a de uma turista mesmo, porque eu nunca tinha muito dinheiro. Ou talvez, porque eu voltei lá tantas vezes e acabei conhecendo a cidade quase tão bem como Robin, talvez eu tenha me tornado em algo entre viajante e moradora. Ao mesmo tempo, convém lembrar que tanto para minha amiga como para mim, a nossa busca em Kyoto tinha que ver com coisas que “sabíamos” da cidade, parte de uma vida passada que buscávamos recuperar quando nos defrontamos com a cidade real de Kyoto. No meu caso, a referência era muito clara: uma recordação da infância. No caso de Robin, um fenômeno quase inexplicável.

No último domingo que fui ao templo To-ji em Kyoto, sabendo que aquela era a última vez que veria aqueles edifícios, que tocaria aqueles objetos antigos que eu jamais nem sequer considerei comprar, que conversaria um pouco com aquelas pessoas tão simpáticas que haviam conversado comigo no meu japonês quebrado, que comeria aqueles bolinhos vendidos em um dos portes do templo, me deu uma saudade louca daquela cidade. Naquele momento, a imagem do jardim sereno de Kyoto, que tinha vivido em minha memória por tantos anos, se acomodou lado a lado com as imagens, os sons, os cheiros de To-ji.

Eu espero voltar algum dia. Como no Japão há tantas coisas que foram conservadas por mil anos, espero que também To-ji, e os outros templos, estejam lá quando eu voltar, nesta vida, ou, como acredita minha amiga Robin, numa próxima.

 

 
 

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