Por CELUY ROBERTA HUNDZINSKI DAMÁSIO
Doutoranda no Institut Catholique de Paris e Université Marne-la-Vallée

 

Cannes 2004 – reivindicação e política

 

Cannes, cidade francesa desde 1480 e conhecida desde 1830 como “cidade aristocrática por excelência”, tem sido, nos últimos tempos, popularizada como a “cidade das estrelas”.

Batizada em 1837 pelo nome de “Caminho da Cruzinha” e logo em seguida por “Croisette”, a avenida que serpenteia o litoral serve de passeio a inúmeros turistas durante o ano todo, sendo inteiramente invadida durante a realização do famoso Festival Internacional do Filme – inaugurado solenemente em 1° de setembro de 1939, mas cancelado no dia seguinte por causa da declaração da Segunda Guerra Mundial. Somente em 1946, Cannes pôde começar a exibir o titulo de “Capital do Cinema”.

Este ano, o 57° Festival de Cannes, realizado entre 12 e 23 de maio, começando por um inédito clima de tensão, não foi somente turismo e cinema. Os trabalhadores, chamados “intermitentes”, foram à “Cidade das cabeças coroadas e dos bilionários” para fazer “explodir o festival”.

Aproveitando o evento mais mediatizado da França, diante de 4.000 jornalistas do mundo inteiro, esses trabalhadores engajados somente em períodos de festivais, reuniram-se em frente ao “Bunker” (apelido do Grande Palácio), em manifestação, reivindicando melhorias como, entre outras, o direito às licenças maternidade e para enfermos.

Segundo o recenseamento da Unedic, os intermitentes atingem o número de 110.000 em toda França, dos quais 35.000 trabalham para o cinema, rádio e televisão e 65.000 são empregados em espetáculos vivos (teatros, concertos, etc.). em 26 de junho de 2003 eles conseguiram assinar os acordos concernentes à reforma do seguro desemprego; mas somente agora, dia 10 de maio, o primeiro ministro Jean-Pierre Raffarin pede ao presidente da Unedic que as discussões sejam engajadas.

Depois de terem provocado a anulação do conceituado festival de Avignon, em julho de 2003, a classe reivindicadora afirma não querer bloquear Cannes, e sim advertir para sua situação crítica. Em 2001, 41% deles trabalhou menos de 100 horas. Essa declaração assegura a direção do festival que reconhece sua imprescindibilidade dizendo : “Se os intermitentes não existissem, nossos filmes não existiriam”.

A pirataria de filmes também foi razão de discussão. Somente na França, um milhão de filmes piratas passam, diariamente, pela internet. Isso é mais que o dobro do número de entradas em salas de cinemas e cinco vezes mais que a venda cotidiana de vídeos.

Assim sendo, a pedido de Gilles Jacob, presidente do Festival, os grandes estúdios de todo o mundo reuniram-se para reclamar maior proteção aos poderes públicos. Contando com o apoio do presidente francês Jacques Chirac, definiram, juntamente com os 20 ministros europeus da cultura presentes em Cannes, um plano comum de luta contra a pirataria.

Como não há fronteiras na internet, optou-se pela integração com a educação nacional na criação de um programa de sensibilização, de pedagogia e de prevenção aos jovens ressaltando a ilegalidade do ato. Além disso, os profissionais do setor serão incitados a dialogar entre si para encontrar soluções. Desta forma, um novo projeto de lei sobre os direitos do autor será submetido ao Parlamento, em nome da propriedade artística e da diversidade cultural.

O Festival, apesar de tudo, seguiu seu curso normal até o prêmio oferecido à “Fahrenheit 911”, de Michael Moore, quando a mídia substituiu os comentários sobre a reclamação trabalhista pela política.

Foi a primeira vez que o júri, além de votar, justificou sua opção. De acordo com a imprensa, que fez questão de lembrar que a escolha foi de um júri internacional composto de quatro americanos, o prêmio não foi justificado pela verdadeira razão: a política americana. A “ Palma de Ouro”, certamente, dará a esse primeiro documentário a recebê-la desde “O mundo do silêncio” de Cousteau, em 1956, um empurrão para encontrar um distribuidor nos Estados Unidos e tentar, assim, convencer os eleitores americanos a votarem contra o Bush.

Outro fato interessante, foram os inúmeros aplausos calorosos à realizadora Keren Yedaya que obteve a câmera de ouro para seu filme “Ouro (meu tesouro)”, quando falou em nome dos Israelitas que se opõem ao governo Sharon, hostil à causa dos Palestinos.

O questionamento gira em torno da superação da Arte pela Política, apesar de ter tido um ótimo motivo. Alguns alegam que os propósitos do festival ficaram à margem, sobretudo, porque a guerra do Oriente Médio foi a “star” do encerramento; e que muitos outros filmes bons esteticamente (e em vários aspectos artísticos), foram deixados de lado pela nobre causa.

Fugindo ou não dos objetivos, a Palma de Ouro provocou vinte minutos de gritos e aplausos emocionados que abafaram o sussurrar do Mediterrâneo, e fez com que os turistas, por alguns momentos, esquecessem de sua imponente beleza azul. Desta vez, o encanto natural do local, as plumas, os paetês e os smokings não mascararam a realidade da guerra que muito influencia e também faz o cinema mundial.

 

 

 

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