Por HENRIQUE RATTNER[1]

Professor da FEA (USP) e membro da Associação Brasileira para o Desenvolvimento de Lideranças (ABDL)

 

A Sarça Virou Cinzas

(Da crise do PT)

 

MaringoniHá várias semanas, uma crise sacode o PT – Partido dos Trabalhadores, desde suas bases até os ocupantes do Planalto. As causas aparentes ou alegadas – a corrupção de um assessor do Chefe da Casa Civil, seguida do fechamento por uma Medida Provisória das casas de bingo em todo o país permitiram à oposição posar como defensores da moralidade e clamar da tribuna do Congresso a instalação de duas CPIs.

As raízes do mal estar que afeta amplas faixas do PT, inclusive seus dirigentes, residem na estagnação da economia que teria “crescido” apenas 0,2% no ano passado, primeiro da gestão Lula. Apesar das promessas, nos discursos do Presidente, de um “espetáculo de crescimento” em 2004, os primeiros dois meses não auguram as mudanças substanciais na política econômica que seriam capazes de aliviar as pressões e o clamor da população por mais empregos, melhores salários e o controle efetivo da inflação. Continua a sangria dos recursos do país com o pagamento das dívidas externa e interna, enquanto prossegue a redução, já tornada crônica, da massa salarial, agravada pelo corte dos gastos sociais, a fim de assegurar o famigerado superávit fiscal.

Nas suas viagens ao exterior, Lula faz discursos bombásticos, exortando por uma partilha mais justa entre os países desenvolvidos e os “emergentes”. Mas, no cenário nacional, o governo do PT segue a política da ortodoxia financeira pautada pelo FMI – Fundo Monetário Internacional. Os discursos da área econômica do governo, insistindo sobre a necessidade de se controlar a inflação por meio de altas taxas de juros para depois crescer, não convence mais ninguém, a não ser o tal de “mercado” – as instituições financeiras que lucram mais do que nunca, num mar de miséria.

O governo parece apostar numa nova onda de liquidez e conseqüente afluxo de capital internacional, atraído pelas altas taxas de juros e os baixos salários da força de trabalho. Insensíveis ao clamor de milhões de desempregados e subempregados, os novos donos do poder se aliam às elites tradicionais na reprodução de uma política econômica neoliberal, com conseqüências funestas no cenário social. Na busca de uma saída ilusória pelo aumento das exportações (soja, açúcar, frangos, carne etc) os governantes parecem ignorar a opção pelo mercado interno e a mobilização de sua poupança, capaz de assegurar à massa dos deserdados os direitos básicos, econômicos e sociais, sobretudo empregos com salários decentes, em vez de programas assistencialistas de “alívio da pobreza”.

Essa política agrava a crise da “esquerda” brasileira e coloca na ordem do dia a criação de novos movimentos sociais que lutem pela superação da dominação de classes baseada na pseudodemocracia representativa, historicamente controlada pelo grande capital, pela tecnocracia civil e militar e pelos conglomerados da mídia.

Ao limitar suas metas a taxas de crescimento do PIB, das exportações e do saldo fiscal superavitário, sem vislumbrar a redistribuição da renda e a inclusão de todos como cidadãos – sujeitos de sua História –, o PT abre mão de sua responsabilidade histórica como agente catalisador das transformações exigidas pela sociedade brasileira. Essas foram relegadas ou abandonadas em nome de um pragmatismo oportunista que relembra as práticas históricas de cooptação e assimilação pelas elites dominantes.

O que está sendo apontado pela oposição interna e externa ao PT? O caso de Waldomiro Diniz teria revelado que as esperanças e expectativas da população que apostara em mudanças foram despedaçadas. A democracia do PT não estaria imune da corrupção, de nepotismo, da especulação e do enriquecimento ilícito típicos das elites tradicionais.

Estamos apenas no início do ano de 2004 e a campanha eleitoral já está na mídia e nas ruas. Os candidatos de todos os partidos necessitam, para se eleger, de forte apoio financeiro que, invariavelmente, vem dos grandes grupos econômico – financeiros: empreiteiras, bancos, empresas e mídia que costumam apresentar suas “faturas” após o veredicto das urnas. O atual esquema, solidamente entrincheirado na legislação eleitoral e política, desvirtua e inviabiliza a democracia representativa tal como funciona na maioria dos países ocidentais.

Para avançar na teoria e na prática de transformações sociais torna-se imperativo a construção de novos modelos de organização social para abrir espaço à participação popular permanente nos processos decisórios.

Ironia da História, até os chamados partidos da “esquerda”, quando guinados ao governo, sucumbem ao autoritarismo e à centralização imanentes ao exercício do poder. Todo poder tende a se burocratizar num processo que substitui o carisma dos fundadores ou revolucionários pelas normas e o controle da máquina administrativa e policial. Assim foi com as várias denominações religiosas que surgiram nos últimos dois mil anos e, também, com os regimes revolucionários vitoriosos que nasceram de revoltas populares contra a opressão ao longo do século XX.

A evolução social e política nos últimos séculos apontam para o despertar da consciência política individual e coletiva, para reivindicar a soberania historicamente apropriada pelas elites e para exercer o poder mediante decisões coletivas em todos os níveis da sociedade. Suas raízes se encontram nos inúmeros movimentos e organizações populares que, construindo redes virtuais e convergindo para um sistema de governança dinâmico e complexo, apelam e proclamam para a autogestão, a autonomia cultural e política e a interdependência. Trata-se de um processo longo e penoso de educação e capacitação da população para que assuma seu papel numa democracia participativa. Inevitavelmente, durante um longo período, haverá a necessidade de convivência com um sistema de poder dual – as formas tradicionais do exercício de poder, fiscalizado e controlado pelas representações da sociedade civil, e as formas emergentes de organização social que se estruturam com base na democracia direta e participativa.

Eis o desafio que se coloca perante o Partido dos Trabalhadores: tornar-se o elemento catalisador de um processo histórico que despontou esporadicamente ao longo do século XX – a construção de uma sociedade capaz de se autogovernar e onde todos realizam seu potencial para se tornarem sujeitos de seu destino. As formas concretas desse novo poder popular estão surgindo em todos os lugares e sociedades, como tão bem ilustrou o Fórum Social Mundial, em suas sucessivas edições de 2001 até 2004. São as cooperativas e consórcios, locais e regionais, e associações de cidadãos participando efetivamente dos debates sobre a causa pública, num espírito de solidariedade e respeito mútuo, que garantem o funcionamento de uma verdadeira sociedade democrática.

A lenda da sarça ardente[2]

Então, multiplicaram-se as vozes daqueles que disseram que os dias das trevas já duraram bastante, que se havia esperado demais para que a promessa da felicidade se tornasse realidade e o anúncio da luz – verdade.

E, eles disseram: ”... vamos, construiremos nossas casas ao redor da sarça que arde desde a eternidade. Os dias das trevas terminarão, pois a sarça continuará em chamas e nunca será reduzida a cinzas”.

Assim falaram os mais corajosos entre eles; aqueles nos quais o futuro pulsiona como a criança ainda não nascida vive no seio de sua mãe; aqueles que não perguntam ao oráculo “o que vamos fazer”?

Encontraram obstáculos e hostilidade em todos os lugares. Entretanto, foram muitos os que seguiram na escalada íngreme e rochosa que conduziu à sarça ardente. E, instalaram-se perto dela para viver no seu calor e sua luz.

Ora, aconteceu que seus ramos carbonizaram e caíram. As próprias raízes queimaram e viraram cinzas. De novo, as trevas expandiram-se e fazia frio.

E vozes se levantaram e diziam: “vejam como nossa esperança foi enganada. Não haverá culpa? Procuremos a quem ela cabe”!

Então, os novos senhores mandaram matar a todos que assim falaram e declararam: “Quem se levantar para afirmar que a sarça queimou, sofrerá uma morte ignominiosa. Somente o inimigo não enxerga a luminosidade da sarça, somente o inimigo sente frio em vez de seu calor”.

Assim, os novos senhores proclamaram, em pé sobre as cinzas e envolvidos por uma grande claridade espalhada pelas tochas nas mãos dos novos escravos.

Mesmo assim, alguns se levantaram, e o futuro vivia neles como a criança que ainda não nasceu vive no seio de sua mãe e disseram: “A sarça apagou porque de novo existem entre nós senhores e escravos, mesmo que nós os chamemos por outros nomes. Porque existe entre nos a mentira, a corrupção, a humilhação e a sede de poder. Venham, vamos procurar alhures e recomeçar pelo começo”.

Entretanto, os novos senhores mandaram os escravos que cantassem, em todos os lugares e todas as horas, em louvor da sarça ardente. Assim, ouviu-se seu salmodiar nas trevas: “Para nós, a luz brilha mais do que nunca”. Eles tremeram de frio, mas seu canto ressoava “... o fogo eterno da sarça nos aquece”.

E os capangas dos novos senhores colocaram se a caminho para aniquilar todos que diziam a verdade, para afogar na vergonha os nomes daqueles que falaram em recomeçar. Mataram muitos, sem, contudo, destruir a esperança que é antiga como a tristeza e nova como a aurora que ainda não raiou.

“Existe uma outra sarça, precisamos procura-la”, anunciaram as vozes secretas daqueles que têm em seu encalço os capangas dos senhores antigos e novos.

“Precisamos recomeçar, mesmo que tenhamos de plantar de novo a sarça”.

“Benditos sejam aqueles que assim falam! Que as pedras no caminho não sejam duras demais para seus pés e que sua coragem não seja menor do que nosso sofrimento”.

Assim falou o estrangeiro antes de nos deixar, mais uma vez. Tentamos olvida-lo, ele e o gosto amargo de sua esperança. Estávamos cansados do eterno recomeço.


[1] Outros textos do autor: www.abdl.org.br/rattner/inicio.htm

[2] Prólogo do livro “E a sarça virou cinzas” de Manès Sperber, Éditions Calman-Levy, Paris, 1949, traduzido do francês pelo autor

 

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