Por EVA PAULINO BUENO

Depois de quatro anos trabalhando em universidades no Japão, Eva Paulino Bueno leciona Espanhol e Português na St. Mary’s University em San Antonio, Texas. Ela é autora de Mazzaropi, o artista do povo (EDUEM 2000), Resisting Boundaries (Garland, 1995), Imagination Beyond Nation (University of Pittsburgh Press, 1999), Naming the Father (Lexington Books, 2001), e I Wouldn’t Want Anybody to Know: Native English Teachi ng in Japan (JPGS, 2003)

 

A guerra sem fim

 

Guerra no Vitenã, ataque a aldeia. (Foto: Claude Johner) Então, estes dias, depois que se abateu um pouco a celeuma sobre o filme de Mel Gibson sobre uma história acontecida há vinte séculos, as telas das TVs voltaram a ser povoadas por imagens do passado, só que desta vez de um passado menos distante, dos anos setenta, do século passado. As imagens, bastante reconhecíveis (embora, amigos, os anos pesam na cara de todos, ricos e pobres, famosos e anônimos), nos mostravam um George W. e um John Kerry bem jovens. A celeuma, desta vez, tem a ver com a participação de cada um na guerra do Vietnã.

John Kerry, como já parece bem conhecido, realmente lutou na guerra e foi condecorado por bravura. George W., por sua vez, ficou por aqui mesmo, em um posto que não o enviaria à guerra. Até aí, nenhum problema; muitos dos homens americanos que estavam na idade certa naquela época ficaram em um ou outro grupo. O que diferencia John de George é o fato de que, enquanto John foi, lutou e voltou do Vietnã e se juntou ao movimento contra a guerra, George parece que não compareceu à sua unidade, no Alabama, após uma transferência, e sabe-se lá por onde andou. E, enquanto veteranos que serviram com John Kerry estão sempre aparecendo, dando depoimentos sobre o caráter e a dedicação dele, até agora ninguém apareceu nem pra dizer que serviu com George. Será possível que este honrado senhor que ocupa o cargo mais alto nos Estados Unidos, e que mandou milhares de soldados ao Afeganistão e agora ao Iraque, e que, quando muitos países do mundo se negavam a ajudar na guerra do Iraque declarou, “Se ninguém nos ajudar, faremos a guerra sozinhos”, escapuliu do serviço militar? E, pra ficar ainda mais interessante, será possível que este honrado cidadão que tem gente cavando milhares de horas de fotos e filmes para achar John Kerry sentado num gramado atrás de Jane Fonda numa manifestação contra a guerra, tenha, ele mesmo, usado a influência do pai dele pra passar a guerra não só sem realmente ir servir, mas agora está tentando usar o seu “serviço militar” como prova do seu patriotismo? Difícil de acreditar.

O fato é que, no imaginário americano, o Vietnã está de volta com toda força. Para nós brasileiros que (teoricamente) não nos metemos em guerra, esta idéia de que todo candidato tenha que apresentar suas credenciais vis-à-vis uma guerra que aconteceu há 30 anos, pode parecer estranho. Para alguém que, como eu, mora aqui há algum tempo, esta recorrência não é nada estranha. É o tal do déjà vu, mais uma vez de novo e todos os dias.

***

O cemitério é um dos lugares que eu sempre gosto de visitar quando vou a países diferentes. Não é nem por motivos religiosos, nem por motivos de superstição, nem por motivos de morbidez. Qualquer pessoa que viaje por diferentes culturas vai notar que os cemitérios, além de serem um lugar muito calmo, também são um dos lugares onde as manifestações culturais podem ser mais puras. Afinal, desde os primeiros tempos, nós humanos homenageamos nossos mortos, e estas homenagens ocorrem de maneiras diferentes, sempre indicando o que cada cultura tem mais específico seu, talvez como uma maneira de transformar o cemitério em uma pequena cidade parecida com aquela em que os falecidos viveram. Por exemplo, no Brasil, o cemitério tradicional parece uma cidade, com seus pequenos prédios, os nomes dos figurões devidamente enfeitados, seus anjos, seus santos, suas palavras de consolo ou de tristeza. Em Buenos Aires, também por exemplo, no cemitério principal, pode-se acompanhar quase que toda a história da Argentina desde o século XIX, família importante a família importante, político a político. Em países mais antigos que os da América, os cemitérios às vezes têm esculturas muito interessantes, que mostram a passagem do tempo não só pela destruição dos elementos, mas também das diferentes ondas de imigrantes/invasores/colonizadores que passaram por aquelas terras. Então, nada estranho que eu quisesse ver os cemitérios americanos quando vim morar aqui.

Como os cemitérios de outros países, aqui também se notam as diferentes culturas, os grupos étnicos, os costumes religiosos nas esculturas, nas decorações. Mas, acima de tudo, o que mais salta à vista de um estrangeiro vindo aqui pela primeira vez, é a presença das bandeirinhas americanas enfiadas no chão, perto da maioria das sepulturas.

Cada ano, no “Memorial Day,” que acontece no mês de maio, vários clubes de serviço vão aos cemitérios e colocam bandeirinhas novas nos túmulos: é um ritual que indica o fim das aulas e o começo “oficial” do verão. Caso alguém passe pelos cemitérios nestes dias, verá a festa colorida, azul, vermelha e branca de bandeirinhas novas, tremulando ao vento. Alguém desavisado (como eu no começo da minha estadia aqui), vai achar que a bandeira americana é o enfeite funerário mais comum neste país. Mas o fato é que cada pessoa americana – seja homem ou mulher – que participou em uma guerra, ou que foi parte das forças armadas, recebe a bandeirinha. Quando me explicaram a razão das bandeiras nos cemitérios, cheguei à conclusão que a maioria dos americanos esteve envolvida em uma situação militar, uma guerra qualquer.

Pode ser que eu esteja errada. Mas acho que não. Outros símbolos recorrem com grande freqüência na sociedade. Uns são inócuos. Outros, irritantes. Entre os inócuos está a presença constante de uniformes militares usados por civis, aquelas roupas de tecido que parece cheio de manchas – os tais “disfarces.” Só que, neste caso, não disfarçam, mas reforçam. Entre os irritantes está o aumento dos carros chamados “Hummer”. Estas monstruosidades, filhotes dos “humvee” militares, são verdadeiros carros blindados, parecidos com um Jeep esticado, alto, amedrontador. Todos são operados por civis, no meio da cidade, em qualquer canto. Não só estes carros ocupam mais espaço nos estacionamentos, como são mais perigosos em um choque com os carros menores que eles, como gastam mais gasolina que os carros comuns de passageiros. A atitude de quem os dirige, logicamente, é belicosa, e claramente diz: “saiam do caminho, aqui quem manda sou eu. Se não saírem, eu passo por cima.” Este tipo de carro, convém esclarecer, apareceu depois da guerra do Iraque, a número um, a guerra do George pai. Na ocasião, o ator (e agora governador da Califórnia), Arnold Schwartznegger, divulgou muito o veículo. Agora, na guerra do Iraque número dois, a guerra de “Debiú”, o carro está aparecendo cada vez mais nas ruas. A conclusão de quem vê estes carros intimidantes é que a sociedade inteira está tomada de um incipiente militarismo. Os civis que andam de carro comum, estes que se danem. Os hummers vão passar por cima, do mesmo jeito que os “humvees” passam por cima das pessoas no Iraque.

***

Um outro assunto que tem ocupado os noticiários daqui é o julgamento da “diva da domesticidade”, Martha Stewart. Esta senhora, ao que parece, vendeu suas ações de uma companhia no dia antes que o preço das tais ações cair. Coincidência? Parece que não: no dia anterior ela tinha recebido um telefonema de uma pessoa ligada a estes assuntos, que a tinha alertado ao fato que uns figurões estavam vendendo todas ações que tinham desta companhia. O grande circo do julgamento foi acompanhado em doses diárias, e o júri concluiu que Martha Stewart havia mentido aos promotores e tentado despistar a investigação, e desta mentira e destas ações ela foi julgada culpada. Agora, se as rodas da justiça não forem descarrilhadas pelas pedras dos milhões de Martha Stewart, ela irá para a prisão. O tempo dirá.

Mas se ela vai ou não vai pra cadeia, nestas alturas, é de menos. O que é interessante é que ela foi julgada culpada de mentir e de tentar influenciar a investigação com estas mentiras. O castigo vai ser não porque ela vendeu as ações ilegalmente, para evitar perder uns quarenta mil dólares. Ela vai ser punida porque mentiu, porque inventou, porque tentou virar o curso da investigação. A opinião pública está muito interessada nesta história, mas bem poucos pelo jeito notam as semelhanças com um outro personagem do momento atual, das mentiras que ele disse para obter o efeito que desejava, e de como ele tem torcido o braço de investigadores.

Mais uma vez, estamos falando da mesma pessoa, o honrado “Debiú,” que garantiu que o Iraque tinha armas de destruição em massa, coletou testemunhos de supostos especialistas, e levou o país a uma guerra que, pelo que tudo indica, ainda pode fazer este país ter saudade do Vietnã. O mais curioso é que, apesar das manobras descaradas de W. Bush e seu partido, da indecente coleta de dinheiro para a campanha presidencial, das evidências do desequilíbrio mundial que esta guerra está causando, ainda assim muitos americanos estão a favor desta invasão do Iraque. Será possível que este povo está amaldiçoado a carregar a bandeira da guerra para sempre?

***

No dia 12 de março, no deserto de Nevada, houve uma grande corrida. Ouvi falar da corrida através de uma entrevista na estação de rádio conhecida aqui como NPR (National Public Radio – Rádio Pública Nacional). Esta estação tem quase que unicamente programas de entrevistas, comentários, e os ouvintes telefonam e conversam com os entrevistados. Esta rádio é realmente um patrimônio nacional, e, pelo que tenho podido acompanhar, os entrevistadores, embora neutros, sempre fazem perguntas bem agudas, e levam os entrevistados a revelarem  muitas coisas. Nesta entrevista sobre a grande corrida, claramente o entrevistador não queria expressar nenhuma opinião, ou mesmo fazer qualquer pergunta que expusesse às claras aspectos que eu consideraria extremamente importantes.

O que fazia esta corrida diferente de outras, é que os carros todos eram computadorizados, e que a corrida não teria motoristas. Os carros não eram teleguiados, mas equipados com computadores que, ao deparar-se com obstáculos, encontrariam uma solução para continuar a corrida. O criador da corrida, um coronel do exército, estava super feliz com a realização  da corrida, e muitas vezes disse que as “melhores e mais importantes universidades do país” estavam envolvidas nela, com os carros projetados e executados pelos seus engenheiros. Até aí, nada de mais, porque qualquer um pode ter fantasias de um tempo em que possamos programar o caminho no computador do carro, deitar do banco de trás e tirar uma soneca enquanto o carro se encarrega de nos levar ao nosso destino. O problema, aqui, é que o tal criador da corrida insistiu várias vezes, que estas experiências iam ser “colhidas” pelos militares, e que num futuro muito próximo, o país vai ter carros que vão à guerra, para “evitar que vidas americanas sejam perdidas.”

Impossível ouvir estas declarações e não pensar que alguma coisa está errada com esta figura. Estes carros-robôs iriam então, devidamente programados, a outros países com quem os Estados Unidos se encrencassem por qualquer motivo, e que eles se encarregariam de vencer a guerra sem a perda de vidas americanas. Nenhum dos que telefonaram ao programa levantaram esta questão moral das vidas não-americanas que podem ser perdidas no confronto com os carros-robôs. Todos, entusiasmados, ficaram parabenizando o “gênio” que teve esta idéia, e desejando boa sorte a todos os participantes da corrida. Alguém falou em arrogância e covardia aí? Desde quando a vida dos cidadãos de um país têm mais valor que a dos de outros países? Ou será que estas cabeças, estes cérebros, forjados por e para a guerra, não acham que outros seres humanos têm valor? O sangue dos outros pode ser derramado à vontade? A dor dos outros não dói?

***

No dia 19 de março, aniversário de um ano do começo da guerra do Iraque, houve demonstrações em várias partes do mundo. Também nos Estados Unidos em várias cidades – inclusive cidades militares – as pessoas saíram às ruas carregando faixas, pedindo o retorno dos soldados e o fim da guerra. As estações de televisão disseram que o número dos manifestantes foi menor que os de antes do começo da guerra.

Mas, apesar das televisões dizerem que o número de pessoas é pequeno, o importante é que os protestantes permanecem. Agora, mães estão saindo às ruas com o nome dos filhos mortos na guerra. Muitas carregam faixas acusando W. Bush de mentiroso. Ali estão, nas faixas carregadas por algumas das mães, as fotos dos filhos mortos. Pra qualquer um que tem um pouco de memória, esta imagem lembra a Argentina, quando “As mães da Plaza de Mayo” protestavam contra os militares que lhes haviam tirado e morto os filhos. 

Déjà vu, uma vez mais. Só espero que aqui pelo menos as mães não comecem a “desaparecer” misteriosamente depois de participarem destas demonstrações.

***

Se a pessoa tenta pensar questões relacionadas à identidade, tradição e modernidade em relação aos Estados Unidos hoje, esta breve análise mostra que, infelizmente, a identidade deste país está inexoravelmente ligada ao militarismo. A tradição – ou melhor, a ideologia do país – forjada em guerras contra os índios, contra os ingleses, contra os franceses, contra eles mesmos, contra o México, contra a Espanha (e isso só nos primeiros 150 anos de sua existência) parece indicar que o cidadão mais respeitado é aquele que teve algum envolvimento com um conflito militar. A carreira no exército, na aeronáutica, na marinha, nos marines, parece ser condição si ne qua non para qualquer homem que quer se envolver em política. A sua ausência tem que ser notada, explicada, entendida ou desentendida. Não é de se admirar que, neste momento, John Kerry tenha que ficar enfatizando a torto e a direito a sua atuação na guerra do Vietnã. O que é mais patético é que W. Bush, que pelo que tudo indica escapuliu dos seus deveres militares (provavelmente graças à proteção do pai), o homem que está levando o país à ruína financeira e o mundo ao caos, ainda está empatado com seu concorrente nas pesquisas de opinião pública. Das duas uma: ou a maioria dos americanos realmente sofre de uma terrível miopia política acrescentada por incapacidade de se lembrar do que aconteceu ontem, ou a maioria realmente acredita que este país nunca erra, e que são enviados por Deus para civilizar o mundo. O que se perde nesta figura são as muitas pessoas de boa vontade, pacifistas, generosas, que, por incrível que possa parecer, existem neste país.

A esperança é que, quando o outono chegar, chegue uma primavera política para este país. Ainda que John Kerry também não seja exatamente uma pessoa destituída de problemas, pelo menos em seu currículo está o fato de que ele realmente viu o horror de uma guerra, e batalhou pelo seu fim. Obviamente, não podemos esquecer que John Kerry votou a favor da guerra do Iraque, e que ele está “poluído” por suas relações com grupos de interesses. Mas ele é a única esperança, neste momento, que os Estados Unidos não vão virar o país pesadelo em que os cidadãos são perseguidos por discordarem do governo. Se W. Bush continua na presidência, a realidade é que este é o país que se prenuncia para todos nós que moramos aqui, e escutamos “cliques” nos telefones e ficamos pensando (ilusão de auto-importância, talvez), que alguém do governo está escutando nossas conversas. Depois do estabelecimento da agência da Homeland Security em 2001, tudo é possível. Se a colocação de microfones ocultos, a perseguição aos descontentes continuar, este desenvolvimento é nada mais que a seqüência natural da belicosidade, do maniqueísmo pregados por W. Bush, que diz que “quem não está comigo é meu inimigo.” E os inimigos, estes já sabemos o que ele pretende fazer com eles.

Mas devemos ter esperança neste novembro. Esta esperança teimosa feito erva daninha, que resiste, resiste.

 

 
 

clique e acesse todos os artigos publicados...

http://www.espacoacademico.com.br - Copyright © 2001-2004 - Todos os direitos reservados