Por ANTÔNIO INÁCIO ANDRIOLI

Bolsista do EED e doutorando em Ciências Sociais na Universidade de Osnabrück – Alemanha

 

Posso escrever o que eu penso?

 

O Pensador, de Auguste Rodin (1889) - Foto: Eduardo AlbarelloEm minha experiência de professor, fui muitas vezes confrontado com a pergunta dos alunos: professor, posso escrever o que eu penso? A resposta, que parece óbvia, no entanto, nem sempre é bem compreendida: por favor, só não me escreva o que você não pensa! Assim, a pergunta continua: mas professor, o senhor não entendeu, eu pergunto se podemos escrever com as nossas “próprias palavras”? E poderia alguém escrever sem pensar ou, então, usando as palavras dos outros?

Por detrás desta simples discussão está implícita uma lógica, uma certa teoria do conhecimento que pressupõe uma separação entre escrever e pensar. Quem é que não teve a experiência de participar de aulas de metodologia da pesquisa, onde a escrita é encarada como uma etapa final, bem elaborada, após um intenso processo de leitura e interpretação de textos? A própria idéia da pesquisa, infelizmente, continua sendo confundida com a mera leitura ou, o que é pior, com a cópia de partes de livros e de idéias de outros.

É possível que essa concepção equivocada de pesquisa, ou de conivência com métodos reprodutivistas de idéias, leve muitos estudantes a expressarem suas dificuldades com a pesquisa somente na universidade ou, inclusive, na pós-graduação. Em cursos universitários que não oferecem aos graduandos o desafio da monografia acadêmica, é comum que alguns pesquisadores tenham seu primeiro contato com a pesquisa apenas no mestrado. Nesse momento, as dificuldades com a leitura intensiva, atenta e minuciosa de textos, soma-se à inexperiência com a escrita. Dificuldades básicas com citações, com a fluência da escrita, a lógica de estruturação de um texto, e mesmo problemas gramaticais e ortográficos, surgem num momento que já pode ser identificado como profundamente desafiador pelo simples fato de exigir uma relação ativa do estudante com textos.

Conceber-se como autor de um texto implica assumir publicamente idéias com estilo próprio e que, ao serem disponibilizadas à publicidade crítica, assumem uma autonomia em relação ao próprio escritor que, ao ler novamente seus próprios escritos, percebe a influência do que escreveu sobre si mesmo e suas idéias que, em relação ao texto produzido, já expressam uma diferença substancial. Embora todos os sujeitos, para se entenderem, necessariamente utilizem uma linguagem universal, cada indivíduo articula um jeito, um estilo, um significado, que merece ser analisado. Esta possibilidade de articulação de um estilo próprio de expressar a linguagem, garante a originalidade do sujeito que, por si próprio, incorpora um sentido ao seu pensamento.

Para a elaboração de um texto com condições de ser bem entendido, é fundamental o conhecimento da história conceitual das palavras que escolhemos, tendo-se o esforço de exprimir clareza e visão crítica, com detalhamentos. É preciso ter cuidado também para não se perder na complexidade do tema em que “mergulhamos”, para evitar imprecisões e mal-entendidos. Ao mesmo tempo, a descoberta do paradigma em que o texto é escrito torna-se uma condição para a interpretação. O paradigma teórico é o ambiente em que se situam os nossos conceitos. Ao mesmo tempo, é o processo de descontração e singularidade do texto, desenvolvendo uma nova dinâmica a partir deste, sem se limitar pelo paradigma em que o mesmo foi escrito, que produz a novidade: aquilo que ainda não havia sido escrito, até por não ter sido assim pensado.

É preciso haver um cuidado para elaborar uma linguagem rigorosa para a interpretação. Isto implica na utilização de uma forma cautelosa e sistemática dos conceitos para situar os textos em seus devidos contextos. Agrega-se a isso a importância da intersubjetividade do texto, entendida como a possibilidade de ser lido e compreendido por outros. Assim, o possível leitor de um texto aparece ao autor como um elemento imaginário que passa a influenciá-lo já no momento da escrita. É por isso que se faz necessário o uso de regras e o próprio método. A intersubjetividade é fundamental para que o texto possa ser avaliado e atinja um dos objetivos fundamentais pelo qual fôra produzido: a sua contribuição para a humanidade. Com a necessidade emergente de validar as teorias num entendimento intersubjetivo, há o pressuposto de que se identifique claramente o objeto que se pretende problematizar. No entanto, sempre fica aberta esta lacuna entre o esquema articulado pelo sujeito e a unidade objetiva do mundo que se procura identificar. E é nesta “lacuna” que se dá a construção do conhecimento humano, expresso pela linguagem.

Ao escrever percebemos o quanto nossas idéias, muitas vezes, estão confusas, incompreensíveis e carentes de maior aprofundamento, o que nos conduz a novas perguntas e a uma maior responsabilidade na escrita que, afinal, expressa um comprometimento com determinadas idéias, as quais precisam ser apresentadas num raciocínio lógico. Mas, a escrita não constitui apenas o momento de apresentação de uma pesquisa. Uma pesquisa científica pressupõe, basicamente, que tenhamos um tema delimitado, um conjunto de questões que carecem de uma resposta, um referencial teórico e uma apresentação de nosso estudo. Se prestarmos atenção nestas condições, notamos que a escrita perpassa todo o ato de pesquisar. É essa a processualidade da construção do conhecimento em que a escrita, como afirmava Mario Osorio Marques, pode ser encarada como o princípio da pesquisa. O processo de escrita, e de progressiva reformulação dos próprios textos, permite a estruturação das idéias e também motiva e orienta a leitura e a interpretação. Por que, então, ao pesquisar, não nos dedicamos mais à escrita, ao invés de concebê-la apenas como momento conclusivo? Quem sabe, então, teremos a possibilidade de não somente usar a escrita para expressar o que pensamos, mas de escrevermos para pensar e fazer pensar.

 

 

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