Por HENRIQUE RATTNER
Professor da FEA (USP) e membro da Associação Brasileira para o Desenvolvimento de Lideranças (ABDL)

 

Em busca da identidade no mundo de incertezas

Como manter a identidade e a lealdade às raízes, à cultura de origem na era da globalização e da eliminação das fronteiras geográficas e políticas pelo avanço das tecnologias de ponta nos transportes e comunicações e pela redução de barreiras tarifárias a fim de facilitar o fluxo internacional de mercadorias, serviços e capitais? A ideologia dominante endossada e apoiada pelos organismos internacionais nos apresenta a globalização como sinônimo de progresso e a associação dos países em blocos econômicos como o primeiro passo na construção de “um mundo só”. Crescimento econômico ilimitado, livre comércio e flexibilização das relações de trabalho nos trariam rapidamente a era de abundância e bem-estar para todos os habitantes da Terra.

A realidade ao nosso redor é bem diferente: uma dinâmica “perversa” do sistema econômico induz uma polarização intensa e crescente entre riqueza, poder e acesso à informação nas mãos de poucos, e a miséria, ignorância e marginalidade de muitos, dentro e entre as sociedades, distanciando-nos cada vez mais da tão almejada fraternidade e solidariedade dos povos, em uma nova ordem mundial.

No comportamento individual e coletivo, as leis do mercado substituíram as Escrituras Sagradas e o próprio mercado passou a ocupar o lugar da providência divina, disseminando, nas palavras de Max Weber, o desencantamento do mundo (Entzauberung der Welt) e da vida.

O fim do século XX viu ruir as utopias revolucionárias e, ao mesmo tempo, o fracasso da ideologia desenvolvimentista. A maioria da população mundial, vivendo nos países do Terceiro Mundo, passou pela amarga experiência de rejeição e desencanto das promessas da ideologia dominante secularizada. Perdeu suas frágeis esperanças e com elas, a visão de um futuro mais justo e uma vida mais digna. A brutalidade das políticas reais do sistema capitalista, desprezando e reduzindo os valores humanistas a conceitos de mercado e de transações comerciais acabou provocando reações de indignação e revolta, e a busca da utopia perdida.

A promessa de uma era de progresso e justiça para todos, lançada com o advento da Revolução Francesa de 1789 e novamente, após a II Guerra Mundial, foi desmentida por um processo de desenvolvimento desigual que deixou o mundo das ex-colônias cada vez mais para trás. Os impactos da penetração fragmentada da modernidade nas culturas tradicionais causam a ruptura de seu tecido social e a conseqüente perda de identidade e das raízes.

É verdade, a crise de identidade é geral em todas as sociedades, à medida que a exclusão, a insegurança e a incerteza quanto ao futuro se tornem o destino comum da grande maioria.

Neste contexto de fracasso das políticas oficiais de desenvolvimento em que indivíduos e grupos desesperem das promessas dos políticos ocorre um retorno em massa às diferentes formas de pensamento e ação dominadas pela religião. O abismo que se alarga entre “os que têm e os que não têm” transformou o relacionamento humano em um cenário de conflitos permanentes – étnicos, tribais, religiosos, nacionalistas ou meramente sociais, enquanto os indivíduos experimentam frustração, alienação e desconforto sem fim.

Durante os séculos de expansão da civilização ocidental foi a religião que proporcionou os elementos de coesão e solidariedade (“mecânica”, na tipologia Durkheimiana). Seus dogmas e doutrinas uniram a sociedade, legitimando os valores e a moral dominantes e contribuíram, via um conjunto de normas e sanções, para controlar o comportamento individual e público. Ao mistificar o poder e seus detentores, justificou as desigualdades e injustiças em nome de uma racionalidade divina, fora do alcance dos mortais. Como explicar, então, o retorno ao fundamentalismo nas principais religiões, no Ocidente e no Oriente, após o Século das Luzes, a emancipação, os avanços espetaculares de ciência e tecnologia e o Estado do Bem-estar?

A cultura é um mecanismo dinâmico e adaptativo garantindo a sobrevivência de seus portadores – os membros do grupo social específico. Sua função básica é manter a coesão do grupo, resistindo às mudanças trazidas por processos econômicos e políticos, internos e externos. Ao incorporar normas, costumes, atitudes e valores do mundo externo através de aculturação e assimilação, a cultura se transforma para assegurar a sobrevivência de seus portadores. Através de contactos e interações com outros grupos ao assimilar ou resistir aos hábitos, atitudes e valores dominantes, surgem tensões e conflitos que têm caracterizado a evolução histórica da humanidade. Sempre há conservadores que resistem aos novos padrões culturais, sobretudo quando afetam o código moral e a estrutura familiar, enquanto inovações tecnológicas e bens de consumo são mais facilmente assimilados. Mas, esses aspectos aparentemente materialistas da cultura não podem ser separados das dimensões filosóficas e psicológicas da vida, que nos revelam os significados mais profundos da cultura na formação da mentalidade humana.

Os seres humanos vivem envoltos em teias de significados simbólicos por eles criados e que lhes conferem os sentimentos de identidade, de “pertencer” ao mundo e ao grupo que professe as mesmas crenças e valores. Esses recursos simbólicos permitem aos indivíduos perceberem-se como atores e sofredores, ativos ou passivos, sempre como participantes de uma determinada cultura. São também esses recursos simbólicos, portadores de significados e carregados de sentidos – orações, ritos, músicas e danças religiosas e profanas, lendas, leis, normas e instituições – que possibilitam o funcionamento da imaginação e sua materialização como “bem” público, sagrado ou secular.

A destruição e o caos causados pelo avanço impetuoso da chamada modernidade, criaram o caldo de cultura fértil para o renascimento do fanatismo fundamentalista, do isolacionismo, da xenofobia e intolerância e da propensão à “guerra santa” contra os “infiéis”.

Em busca do “paraíso perdido”, milhões de deserdados aderem aos falsos profetas da violência, individual ou coletiva, nos quais procuram encontrar identidade e sentido para suas vidas.

Chegamos a uma encruzilhada na evolução da espécie humana. A ameaça de cairmos numa nova idade de trevas tornou-se concreta e visível para todos, a partir do ataque de um punhado de suicidas aos símbolos de poder militar e econômico norte-americanos e, em seguida, pelas guerras desencadeadas contra o Afeganistão e o Iraque, logo conotadas falsamente como um conflito de culturas (S. Huntington), entre o Ocidente e o Oriente.

Em vez de aplicar a “lei de Talião”, de “... olho por olho”, deve-se envidar todos os esforços para eliminar as causas da revolta e do ódio das multidões islâmicas, inimigas de uma globalização que amplia o fosso entre pobres e ricos, ameaça as culturas tradicionais e sufoca os movimentos legítimos de emancipação e autonomia.

Eis um desafio para a humanidade no início de século e de milênio: como superar a contradição entre a valorização da cultura própria, tradicional ou moderna, e a intolerância, o preconceito e desprezo pela cultura dos “outros” ou, em outras palavras, como assegurar a aceitação dos outros e, portanto, o convívio pacífico entre membros de culturas diferentes?

O desafio reside na construção de um mundo novo, repleto de alternativas que contemplem a todas as organizações e movimentos, em sua rica e imensa diversidade.

Partindo da premissa que os fundamentos culturais de uma sociedade sustentável são a diversidade cultural e a liberdade e autonomia dos indivíduos, ligados pelas redes de cooperação e solidariedade interdependentes, cabe-nos empreender esforços para a construção de um marco referencial para a reflexão e ação conduzindo à sociedade sustentável.

Propósitos e esforços comuns criam uma teia complexa de idéias, crenças e valores coletivos que não somente conferem legitimidade às ações políticas e práticas governamentais, mas também induzem processos poderosos de identificação, motivação e participação que energizam e potencializam as aspirações coletivas. Os seres humanos se sentem mais realizados quando unidos, cada um atento a e consciente de seu compromisso pessoal, servindo a um propósito comum.

O florescimento ilimitado da cultura pode ser concebido como um bem em si no caminho do desenvolvimento humano. Preservando e promovendo sua diversidade projeta uma dimensão mais ampla do que o desenvolvimento no entendimento estreito dos economistas. Os esforços de preservação das diversidades biológica e cultural podem ser considerados duas faces da mesma moeda. Seguindo a visão evolucionista, os seres humanos se desenvolveram mediante a adaptação da espécie às condições mutantes do ambiente ecológico e social, ao criar variadas respostas adaptativas que resultaram em padrões culturais diferentes. Assim, a diversidade cultural é claramente o produto das capacidades criativa e adaptativa da humanidade e, como tal, de incomensurável valor para a sobrevivência e a sustentabilidade.

Nas palavras de Boaventura de Souza Santos (Folha de S.Paulo, 22/04/01) ...”o que está em causa é uma globalização contra-hegemônica em que caibam as diferentes concepções de identidade cultural e emancipação social” ou em outras palavras, a única opção ao ciclo infindável de violência é a democracia com justiça social.


 

Outros textos do autor

Referências Bibliográficas:

Benedict, R. (1972) O Crisântemo e a Espada trad. em português, Perspectiva, S.Paulo

Herskovits, M.J. (1955) Cultural Antropology, Alfred A. Knopf, New York

Kardiner, A. et al (1945) The Psychological Frontiers of Society, Columbia University Press, New York

Linton, R. (1955) The Tree of Culture, Alfred A. Knopf, New York

Mead, M (1954) Cultural Patterns and Technical Change, A Mentor Book, New York

Opler, M. (1959) Culture and Mental Health, The Mc Millan Company, New York

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