Por JOSÉ APÓSTOLO NETTO

Historiador e doutorando em História (UNESP - Campus de Assis, SP)

 

Monteiro Lobato: entre risos e gargalhadas

 

Lobato mostrando, entre blagues, a línguaSem dúvida, o mundo mágico do Sítio do Picapau Amarelo é a expressão literária mais acabada do riso lobatiano. Nele ri-se de tudo (ou de quase tudo), principalmente da estupidez e da incoerência dos adultos. Ri-se dos homens de governo, dos graves pedagogos, dos gramáticos e do burocrata; todos merecedores do escárnio infantil. No Sítio, todos riem. Há o sorriso meigo e doce de Narizinho, o riso triunfante de Pedrinho, a risada estrondosa da Tia Nastácia, o riso de velha sábia da Dona Benta, a gargalhada rouca e sincopada do Tio barnabé, o risinho embaraçante da Emília e ... íamos nos esquecendo: o Visconde de Sabugosa é o único picapau amarelo que, em meio à tamanha alegria sonora, não ri. Salvo um momento ou outro de intensa e irreprimível emoção, como aquele em que fica perdidamente apaixonado pela pequena Cléu, a menina do mundo real que visita o Sítio do Picapau Amarelo.

Parece que, segundo a ótica do autor, a ciência não possui essa abertura para o riso. Ao contrário, ela se acerca de mil e um preceitos de cientificidade, tornando-se demasiadamente séria, no conteúdo e na forma. E ao riso - amaldiçoado antípoda - essa senhora só lhe tem ojeriza e horror.

Muitos estudos sobre a literatura infantil de Monteiro Lobato são unânimes em afirmar que o sucesso das histórias e estórias do Sítio do Picapau Amarelo junto às crianças leitoras reside justamente no fato primeiro do autor/narrador combinar naturalmente fantasia e realidade, procedendo de igual maneira às operações mentais da criança no ato de brincar. Realmente não existe constatação mais acertada. Nelly Novaes Coelho, por exemplo, diz que:

“O sucesso entre os pequenos leitores  decorreu, sem dúvida, se um primeiro e decisivo fator: a realidade  comum e familiar à criança, em seu cotidiano, é subitamente  penetrada  pelo maravilhoso ou pelo mágico, com a mais absoluta verossimilhança ou naturalidade”. (NOVAES,1981,356).

Contudo, sem querer empalidecer o colorido da tese acima, acreditamos que, ao lado da imaginação, o cômico também funciona como elemento de captura do gosto da criança, na literatura infantil de Lobato.

Nada mais agradável, na vida como na arte, do que o riso provocado pela manifestação do absurdo, do non-sense, do alogismo, das inversões de valores e formas, dos nomes inusitados etc. O universo ficcional do Sítio do Picapau Amarelo está repleto de cenas caráter circense e cômico-popular, do tipo apontadas nas linhas anteriores. Uma delas, a título de exemplo, refere-se aos nomes e sobrenomes dos próprios picapaus amarelos. São engraçados, primeiro, porque lembram nomes de coisas e animais e, segundo, porque, às vezes, não correspondem ao perfil do dono do nome. É o caso aqui da Dona Benta, cujo sobrenome – “Encerrabodes” - apesar da descendência portuguesa da respeitável senhora, torná-se engraçado para os nossos ouvidos brasileiros, devido a sua sonoridade.

Inúmeros outros exemplos particulares poderiam ser aqui apresentados. Afinal, obra é pródiga em cenas de riso. Em geral, o riso é garantido pelo jogo lúdico com as significações das palavras, da linguagem, isto é, pelo ato de brincar com a lógica do sentido.

Todavia, se é verdade que a arte imita a vida, o riso aparece como um aspecto marcante da personalidade de Lobato, um traço constitutivo e constituinte do seu comportamento. É fato indiscutível que o riso participa de modo rotineiro tanto da vida pessoal quanto pública do escritor, chegando a ser tomado, por seus contemporâneos, muito mais que outros gestos, como ponto de referência para avaliar o seu estado de ânimo, o seu humor, o seu espírito, o seu julgamento das coisas e das pessoas. É sabido que nem só à palavra escrita ou falada é dado o privilégio de dizer algo. Os gestos, espécie de linguagem não-verbal, dizem muita coisa. E no caso de Lobato, o riso, tão indiscreto quanto as suas sobrancelhas na forma de duas imensas taturanas siamesas, chega a desvendar o seu ser.

Vamos encontrar inúmeros momentos da biografia do criador do Jeca, nos quais estabelece essa relação risível com o mundo circundante. Na rua, nas rodinhas de amigos, nos bares, na cadeia, nas salas e corredores da editora do Estado de São Paulo, nos vôos de avião, em casa; bem como nas conversas informais, nas entrevistas a rádios e jornais vamos, inevitavelmente, flagrar uma pilhéria, uma zombaria, um escárnio, uma picardia, uma gargalhada, um sorriso, ainda que pálido, esboçado no rosto do escritor como que a delatar o seu julgamento moral e intelectual diante dos fatos da vida.

Em carta para Rangel, datada de abril de 1919, Lobato nos fornece um desses episódios. Nela, vai desabafar ao colega de correspondências como encontra no popular o lenitivo para o “stress” do ambiente editorial e literário, com seus ritos e convenções:

"Minha situação é esta: sinto-me maduro e apetrechado para a expressão; tenho na cabeça belos germes de contos, romances, o diabo. E tenho, o que é mais raro, publico. Mas não disponho duma hora minha! Vou virando uma especie de mictorio literário...

E as mijadas são tantas que eu vou para casa tresandando a literatura amoniacal. Felizmente ha ‘o banho de desodorante’ de todas as noites no Café Guaranni - ou o que o René, com cara de nojo, deve chamar a ‘roda do Lobato’. Um dia te conto o que é minha roda. Compõe-se dum ‘pau d´agua’, dum ‘tungador’ engraçadissimo, dum empregado de banco e mais coisas assim. Conversa-se de tudo, menos de literatura e arte; e a obrigação é só dizer coisas interessantes e que façam rir - e todos nos rimos continuamente ainda que não haja graça. O tungador é um prodigio de giria malandra; conta conm tal graça as patifarias que faz, que até as vitimas se regalariam, se o ouvissem. Nenhum deles sabe que sou escritor, porque eu funciono com uma coisa só: o ‘pagante’. Ha dias o empregado de banco me perguntou, muito impressionado:

- É verdade, Lobato, que você tem um livro? Ouvi dizer.

Dei uma grande risada. ‘Se eu tivesse um livro, Gama, punha-o no sebo. Não tolero livros, nem gente que escreve livros.’ Ele sossegou.

Ninguem compreende que eu me reuna todas as noites a essa roda, diante de chopes lá no Guarani, em vez de estar nos salões elegantes da haute conversando sobre os sonetos do Bilac. Mas eu, que passo o dia no escritorio exposto a todas as mijadas literarias com que hajam por bem mijar-me, sei que alivio, que desodorante, que repousante, é a ‘roda do Lobato’.(LOBATO,1959,197).

Tratando do caráter histórico-cultural do riso, na tentativa de identificar as possíveis causas da propensão ou não das pessoas ao riso, Vladímir Propp constata:

“A presença de uma veia humorística é um sinal de talento natural. Pelas reminiscências de Górki sobre Tolstói sabemos como riam juntos Tolstói, Górki e Tchékhov. Quando chegou a Nice em visita a Tchékhov o professor Maksim Kovaliévski, eles, sentados à mesa de um restaurante, riam tanto que atraíam para si a atenção de todos os presentes.” (PROPP,1992,33)

E, em seguida, conclui:

“O que demonstram os exemplos citados? Eles ilustram a observação de que há pessoas nas quais a comicidade inerente à vida estimula infalivelmente uma reação de riso. A capacidade para essa reação é no conjunto um fenômeno de ordem positiva; é uma manifestação de amor à vida e de alegria de viver.” (PROPP,1992,33).

Talvez não concordemos completamente com as afirmações do filólogo russo, entendendo do nosso lado que a propensão ao riso não seja apenas um fenômeno natural ou inerente à vida das pessoas humoradas e que, por isso, outros fatores de ordem histórico-biográficos, tais como experiências educacionais, sócio-culturais, familiares, de grupo, contribuam bem mais no processo de elaboração de uma “veia humorística”. Mas tais afirmações, por enquanto, servem-nos suficientemente nas nossas primeiras considerações sobre o riso lobatiano na sua manifestação cotidiana.

Sem dúvida, somente um certo otimismo, um certo amor à vida e uma certa alegria de viver, de que o riso é expressão, impulsionariam uma pessoa a se lançar numa aventura existencial recheada de projetos vários, de confrontos luciféricos, de sucessos e insucessos freqüentes, como teve registro a de Monteiro Lobato. A crítica literária a seu respeito é pródiga em exemplos dessa sua saga na história nacional. A militância e a devoção na campanha do ferro e do petróleo para o Brasil, a partir da década de 1930; a iniciativa e o empenho dedicado na introdução e modernização da indústria e do mercado editorial brasileiro, já no final da década de 1910; a tarefa de renovação literária e lingüística que tomou para si, desde de moço; enfim, a energia galvanizada nas batalhas em todos as frentes da vida política, econômica, cultural do país, são verdadeiros sinais dessa vontade de potência, de afirmação à qual nos referimos acima.

Mesmo na cadeia, para onde foi em 1941, zombou da hipocrisia, da demagogia e do autoritarismo instituídos pelo governo populista de Getúlio Vargas, que fez uso sistemático da mentira, promoveu a montagem do aparelho estatal de controle e convencimento policial e racional social, juntamente com a burguesia industrial, articulada no interior da FIESP, CIESP e outros órgãos empresariais da época, a fim de dominar todo o conjunto da sociedade, dentro e fora da fábrica, em função da acumulação de capital brasileira, agora na sua fase agro-industrial. Projeto corporativista de Estado burguês que contou ainda com o acionamento de equipamentos coletivos de enunciação do tipo áudios-visuais, cujo objetivo primeiro era o de operar agenciamentos semióticos voltados para a produção incessante de subjetividade que legitimasse o novo regime e a nova organização social.

É nesse contexto de centralização e ingerência social e econômica do Estado, empenhado no esforço de sufocar as lutas de classe no interior da sociedade, tendo por aliada a forte presença dos interesses econômicos internacionais, principalmente a dos Estados Unidos, país no comando da segunda revolução industrial - a do aço, a do petróleo e a da eletrificação -, que Lobato travará, senão a mais importante, pelo menos a mais cruenta batalha de sua vida, que o levará, inclusive, à prisão.

Data da época em que desempenhava a função de adido comercial nos Estados Unidos, o interesse de Lobato pela questão da exploração dos recursos energéticos em solos brasileiros, visto por ele como fator determinante do livramento do Brasil da dependência estrangeira e dos seus graves problemas sociais. “Indispensável, diria mais de uma vez o escritor, nos compenetrarmos, de uma vez para sempre, da grande verdade: nosso problema não é político, nem racial, nem climatérico, mas pura e simplesmente econômico”.[1]

Ao longo de dezesseis conturbados anos Lobato combateu nos “fronts” do ferro e do petróleo, onde teve que enfrentar dois adversários de peso: a ação de estrangulamento das empresas nacionais do setor siderúrgico e petrolífero, promovida sub-repticiamente pelo governo federal, tendente a uma maior centralização política a partir da década de 1930, e os fortes interesses estrangeiros nesse domínio, consorciados com o governo brasileiro numa espécie de pacto de monopolização do ferro e do petróleo.

Nesse enfrentamento, Lobato muniu-se de uma variedade de armas dos mais grossos calibres: denúncias sérias, discursos inflamados, propagandas vibrantes, articulações políticas perigosas, entre outras constitutivas do seu arsenal bélico, que foram muito bem registradas no livro O Escândalo do Ferro e do Petróleo, de 1936.[2] Dentre essas, existe uma que manejou com precisão cirúrgica - riso de zombaria, cuja munição era quimicamente constituída de ironia, escárnio e sarcasmo.

Na introdução de O Escândalo do Petróleo e do Ferro, a ridicularização tem endereço certo. Ela é dirigida ao Departamento Nacional de Produção Mineral, herdeiro do antigo Conselho Geológico, representado pela figura do seu diretor Dr. Fleury da Rocha. A bronca do escritor é quanto a política mineral do DNPM que consiste em estabelecer leis, como o a Lei de Minas (1935) e o Código de Minas (1939), cuja a finalidade, segundo o autor, é “Não tirar petróleo, nem deixar que o tirem” (LOBATO,1959,15), favorecendo desse modo os trustes internacionais ou ‘os interesses ocultos’. Ri ele da astúcia destes e da estultice dos órgãos oficiais:

“Os trusts sabem tudo e sorriem lá entre si. Sabem que a partir de 1930 o brasileiro cada vez menos se utiliza do cerebro para pensar, como fazem todos os povos. Sabem que os nossos estadistas dos últimos tempos positivamente pensam com outros orgãos que não o cerebro - com o calcanhar, com o cotovelo, com certos penduricalhos - raramente com os miolos... (LOBATO,1959,11).

Mais adiante desanca o Departamento:

“Os Interesses Ocultos exultaram. O Brasil iria ser iluminado por ciencia da ‘legítima’. Em vez de dizer-se, à Eusebio, ‘Olá, negrinho, feche a janela por causa do vento’, dir-se-ia, à Fleury, ‘Su, etiope, claudica a finestra por causa do foribundo Boreas’. Esse homem, escapo a Molière, iria tambem revelar-se mestre inigualavel na fatura da Lei de Minas sonhada pelos trusts. Uma lei que embaraçasse, que trancasse da maneira mais perfeita, a pesquisa e a exploração do subsolo nacional. Uma lei-mundel”. (LOBATO,1959,13)

Em carta a Getúlio Vargas, datada de 1940, Lobato volta a atacar, com toda sem-cerimônia, o DNPM e o seu nacionalismo “patife”, mostrando como é irracional e injusta a sua política petrolífera:

“A idéia central dessas leis (Lei de Minas, Lei do Petróleo) é a nacionalização do capital. Mas houve uma insidiosa confusão. Evitar que o capital estrangeiro se aposse das nossas reservas minerais, é coisa plenamente justificável, mas ‘impedir que o estrangeiro que está no Brasil se torne acionista das empresas, é maldade pura’(...) Matarazzo póde dirigir uma gigantesca industria de alimentos, coisa que diz diretamente com a vida e saude - mas não póde tomar uma ação de 100 mil réis numa empresinha de petroleo! Um nacionalismo que raciocina desse modo, evidentemente não pensa com o cerebro - sim com qualquer membro menos nobre do corpo.” (LOBATO,1959,173)

Ora, diante de tanta obscenidade pantagruélica que lhe era dirigida por Lobato, sinal da idéia deste de persistir no projeto de alargar a participação brasileira no beneficiamento do petróleo, o governo lança mão de outras estratégias de controle, que não só a de dificultar, através de leis inibidoras, a instalação e proliferação de empresas nacionais de extração e refinamento. Primeiramente o governo acenou com a idéia de concursar o escritor para suas fileiras, na tentativa de integrá-lo à máquina corporativa do Estado. Ainda em 1940:

“recebe um emissário do Presidente, que traz um convite claro e explícito: o Ditador desejava transformar o Departamento de Imprensa e Propaganda num Ministério de Propaganda, sob a direção de Monteiro Lobato. Com aquêle jeito todo seu, franzindo as amplas sobrancelhas e erguendo os olhos para o portador da notícia, Lobato perguntou-lhe:

-  Qual a finalidade dêsse Ministério?

-  Ora: fazer propaganda do Brasil lá fora, a fim de atrairmos capitais estrangeiros...

-  Mas para isso não é preciso criar-se um Ministério!

Basta constitucionalizar o País. Você acha que o capitalista estrangeiro, homem sabido, conhecedor profundo do mundo de negócios e de tôdas as nossas mazelas, irá inverter o seu dinheiro aqui, em nossa terra, ùnicamente por ter lido uns artigos meus de propaganda? Vamos mudar de assunto porque êste não resiste nem sequer a uma pequena discussão...

O emissário retornou ao Rio e não se tocou mais no assunto. Em fins de novembro, num sábado, à tarde, estando Monteiro Lobato nos escritórios da U.J.B., com os Drs. Válter de Oliveira e Joaquim Pedro Kiehl, recebeu um chamado telefônico de pessoa amiga, que o convidava a entrevistar-se com o Dr. Getúlio Vargas, em Campinas, no dia seguinte. Haveria um banquete e êle teria, na mesa, lugar reservado ao lado do Ditador. A recusa foi pronta. Não era homem para banquetes”(CAVALHEIRO,1955,52-53)

Não conseguindo, portanto, dobrar o escritor com a cooptação, o Estado Novo então fez uso da força policial para fazer silenciar a voz ruidosa daquele que insistia em “desafinar o coro dos contentes”:

“Finalmente, a 20 de março de 1941, dez meses depois, a carta-denúncia é respondida: às duas e meia da tarde, nos escritórios da União Jornalística Brasileira, à rua Felipe de Oliveira, o escritor é procurado por dois investigadores da Polícia, que lhe entregam em mão um mandado de prisão preventiva. Dali saiu, escoltado como um criminoso vulgar, para o velho casarão da Avenida Tiradentes, casa de detenção e presídio político. Era a resposta do Ditador”. (CAVALHEIRO,1955,53).

Contudo, enganava-se o Estado Novo ao pensar que, apenas prendendo temporariamente Lobato, colocaria fim ao conflito político-ideológico em torno dos recursos energéticos; problema que, se não imediatamente resolvido, colocaria em risco o seu projeto corporativista burguês de instituir uma ordem social “harmoniosa”, normativa e racional, ou melhor, uma sociedade “livre” das lutas de classes.

Mesmo encarcerado e incomunicável com o mundo de fora, Lobato não deu sossego aos seus inimigos estado-novistas. Desferiu contra eles o seu riso cínico, à semelhança do risinho de canto de boca de Fausto no momento em que aparece ao jovem músico dodecafônico Adrian Leverkuhn, cobrando deste a sua alma por serviços prestados outrora.[3] É o tipo de riso egoísta, maldoso, pois se presta basicamente para a satisfação pessoal do seu emissário, para o deleite íntimo do espírito vingativo.

Ao tomar conhecimento de sua absolvição, em primeiro julgamento, pelo Juiz Singular, Lobato, de pronto, escreve uma carta, tanto irreverente quanto mal-criada, ao General Horta Barbosa[4] O conteúdo da missiva é desenvolvido na forma cômica do exagero e da ironia, e tem a intenção de fazer ver o General Horta Barbosa a estupidez sem igual dele e do Tribunal de Segurança em achar que ele, Lobato, seria condenado a um bom tempo de cadeia, suficiente o bastante para desmoralizá-lo e fazê-lo perder o topete. Assim, o missivista inverte as posições e, ao invés de maldizer o longo período que poderia ter passado na prisão, caso fosse condenado, bendiz do curto tempo que lá passou, agradecendo, inclusive, aos responsáveis por tal experiência:

“General Horta Barbosa, D.D. Comandante do Conselho Nacional do Petroleo, Rio de Janeiro.

É profundamente reconhecido que venho agradecer a V. Excia. o grande presente que me fez, por intermédio do augusto Tribunal de Segurança, de uns tantos deliciosos e inesqueciveis dias passados na Casa de Detenção desta cidade. Sempre havia sonhado com uma reclusão desta ordem, durante a qual eu ficassse forçadamente a sós comigo mesmo e pudesse meditar sobre o livro de Walter Pitkin...[5]

- Bendito seja esse benemerito general! murmurei comigo ao ter conhecimento de que fôra por sugestão dele que o Tribunal me prendia, isto é, me proporcionava a realização do velho sonho. (...)

Passei nesta prisão, general, dias inolvidaveis, dos quais sempre me lembrarei com a maior saudade. Tive ensejo de observar que a maioria dos detentos é gente de alma muito mais limpa e nobre do que muita gente de alto bordo que anda solta. (...)

Pesarosamente tenho talvez de deixar hoje esta prisão, mas seria o maior dos ingratos se antes de despedir-me do ‘chiqueiro’, chamado Sala Livre, não cumprisse o meu dever, batendo na maquina esta carta de agradecimento. Creia, general, que a minha gratidão vai ser eterna.

Cordialmente, (a) Monteiro Lobato.” (LOBATO,1959,198)

E não para por aí. Reforçando o sentimento de gratidão e regozijo, o escritor ainda escreve o seguinte post scriptum, fazendo contorcerem-se de raiva aqueles que queriam vê-lo abatido, descorçoado, arrependido:

“P.S. - Tomo a liberdade de lhe enviar pelo correio uma caixinha de bombons, sobrados dos muitos que os amigos me obsequiaram. Os sentimentos que me animam para com o meu generoso bem feitor agaloado são doces como esses bombons.” (LOBATO,1959,198)

Mas o endiabrado Lobato ainda teria mais um pouco de tempo para escrever outra carta, só que agora ao Presidente Getúlio Vargas, antes que a primeira fosse respondida. Ao cabo de quatro dias escreve, num tom não menos zombeteiro e cínico, ao Ditador Vargas:

“Dr. Getúlio:

Atirei no petróleo e acertei na Cadeia, o que prova bem má pontaria. Estou, porém, radiante, visto que a sentença do Juiz Maynard fêz com o General o que eu fiz ontem com uma pulga: enrolou-o bem enroladinho entre a ponta dos dedos. Muito breve entrará em julgamento o processo do Vítor Freire, culpado do crime igual ao meu - querer ‘o petróleo’, e é indispensável que os abençoados dedos enrolem-no ainda mais. Ficará restando apenas o estalo final com a unha - o que compete ao Presidente da República, na  decisão do recurso da ‘Cia. Matogrossense’. Nesse glorioso dia, o Petróleo Nacional terá ganho a sua batalha do Marne - e três meses depois jorrará em Mato Grosso.(...)

Mais uma vez os meus agradecimentos, Sr. Dr. Getúlio, e sinceros votos para menos retratos nas paredes e mais coragem no coração dos que lhe escrevem.' E assinando-se o ‘impertinente’ Monteiro Lobato, acrescenta ainda um pequeno post-scriptum: ‘Pelo amor de Deus, não mande esta carta ao Conselho do Petróleo.’[6]

E, finalmente, a propósito do dia do aniversário do Presidente, 19 de Abril, o escritor envia-lhe nova carta que, além da ousadia de tentar ludibriar o Chefe da Nação com a idéia de economizar a poupança popular com a produção nacional de combustível, substituindo as importações do mesmo, apresenta a seguinte sugestão:

“Se o Sr. Presidente examinar esta minha proposta, verá que é perfeita e atende maravilhosamente aos altos interesses da nação brasileira. Permite até o aproveitamento do Conselho Nacional do Petróleo. O general comandante desse Conselho e os mais membros que o compõem, caso empregados como combustivel nas fornalhas das sondas, darão para mover as maquinas por uns dois ou tres dias - vantagem que positivamente não é de desprezar....” (LOBATO,1959,199-200).

Foi a gota d’água. No dia 21 de maio de 1941, Lobato foi condenado pelo Tribunal Pleno, em segundo julgamento, a seis meses de cadeia. A tragédia, porém, não foi capaz de apagar o riso lobatiano. Mesmo atrás das grades, ele continuou a ecoar para além dos corredores da Casa de Detenção.

Post Scriptum

O carnaval enquanto festa ou mesmo espetáculo popular é tido, por teóricos do estofo de Mickhail Bakhtin, além de espaço por excelência do riso, como a única manifestação cultural e artística que não separa a vida da arte. Nesse espaço bufo circense, a cultura oficial e conservadora é subvertida, e o mundo colocado de cabeça para baixo. Mas depois de testemunhar a consagração da sensualidade ingênua da “rainha dos baixinhos” e a execração do discurso/ético/sexual emancipador de Joãozinho Trinta, em plena Marquês de Sapucaí, percebi que no “carnabusiness” brasileiro as coisas estão indubitavelmente de cabeça para cima.

 


[1] Citado por Edgar Cavalheiro, Monteiro Lobato. Vida e Obra. São Paulo, Brasiliense, 1959. P.322.

[2] A edição usada por nós é de 1959, e inclui textos datados de 1941.

[3] MANN, Thomas. Doutor Fausto. 2 ed. Trad: Herbert Caro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984. Págs. 298 a 338.

[4] Na época, diretor do Conselho nacional do Petróleo e o homem do governo que enviou ao Tribunal de Segurança Nacional a carta de Lobato ao Presidente Getúlio Vargas.

[5] Aqui o autor puxa a seguinte nota: 1. A Short Introductión to the History of Human Stupidity.

[6] Esta carta encontra-se parcialmente transcrita e comentada por Edgar Cavalheiro in: Monteiro Lobato. Vida e Obra. 3. ed. v.2. São Paulo: Brasiliense, 1959.

 

 

Bibliografia

LOBATO, José Monteiro - O Escândalo do Petróleo e Ferro. São Paulo, Brasiliense, 1959 (Literatura Geral. Obras Completas, 7).

CAVALHEIRO, Edgard. Monteiro Lobato. 3. ed. Vol. I, II. São Paulo, Brasiliense, 1962.

COELHO, Nelly Novaes. A Literatura Infantil. São Paulo, Quiron,1981.

PROPP, Vladímir. Comicidade e Riso. (1ª edição 1976). Tradução: Autora Fornoni e Homero Freitas. São Paulo, Ática, 1992.

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