Por HENRIQUE RATTNER
Professor da FEA (USP) e membro da Associação Brasileira para o Desenvolvimento de Lideranças (ABDL)

 

Somos todos responsáveis

 

“Kol Israel areivin séh baséh”

“Todo o povo de Israel é responsável, um pelo outro”

do Talmud, Tratado Shavuoth, 39 – 1.

 

O presente texto pretende discutir a necessidade do envolvimento e participação das comunidades judaicas na Diáspora nos esforços para fazer avançar o processo de construção da Paz entre israelenses e palestinos. Questiona-se o silêncio dessas comunidades, apesar de manifestações cada vez mais virulentas de grupos antijudaicos e da própria política irracional do governo de Ariel Sharon.

O aparente fracasso da iniciativa do “Acordo de Genebra” criou um novo impasse e reforçou os sentimentos de impotência na busca por uma solução para o conflito. Será o destino do Acordo de Genebra o mesmo das outras e inúmeras tentativas – Oslo, Taba, Wye Plantation – de estabelecer a paz na região?

Na ausência de uma proposta construtiva que reúna o consenso dos dois lados, prossegue o círculo vicioso de violência, com ataques suicidas seguidos por retaliações do exército israelense. O clamor pela vingança dos mortos suscita o grito de “olho por olho”, expressão retrograda em termos do lento e penoso avanço das normas jurídicas, nacionais e internacionais, ao longo dos últimos séculos.

Ficam fortalecidas as facções extremistas dos dois lados, enquanto cresce o desanimo das maiorias silenciosas.

Entre os palestinos, movimentos radicais como o Hamas e a Jihad Islâmica ganham adesões da juventude frustrada e revoltada, enquanto entre os israelenses crescem manifestações de protesto entre os soldados convocados para servir nos territórios ocupados.

Os países árabes – em que pesem os tímidos contatos de aproximação por parte do Egito, Jordânia e Marrocos – continuam a repetir o discurso radical de “apagar Israel do mapa”. O que apenas serve aos radicais israelenses que persistem na visão de um Estado integrando as áreas ocupadas durante a guerra dos seis dias.

A paralisação das negociações revela a incapacidade dos governantes, de ambos os lados, imporem moderação às respectivas forças radicais, enquanto a escalada nas operações militares afasta o objetivo de se construir uma sociedade mais justa e sustentável para os dois povos.

Há um número crescente de vítimas dos dois lados que assistem suas famílias e comunidades serem atingidas pelas operações militares que deixam em seu rastro edifícios e terras destruídas e, sobretudo, mentes e corações traumatizados.

É mister lançar uma ampla campanha de conscientização e mobilização das comunidades judaicas e sírio-libanesas espalhadas pelo mundo, na América Latina, na Europa e nos Estados Unidos, para que se manifestem a favor da pacificação e do desarmamento.

A multiplicação de ataques a sinagogas, escolas e a profanação de cemitérios nos últimos meses mostra que a situação de impasse criada tende a ser aproveitada pelos grupos de extrema direita (às vezes, também da esquerda) para se lançarem em ações que também colocam em risco a vida de judeus na Diáspora. Enfraquece-se assim o sonho de um Estado protetor dos judeus, no país e no mundo, que, por sua vez, não falharam em sua solidariedade ao povo de Israel, confirmando a definição de uma comunidade destino, com responsabilidades e direitos mútuos e recíprocos.

Por que, então, o silêncio das comunidades judaicas com relação à política irracional do governo Sharon, sua indecisão e, não raras vezes, truculência, apesar de sofrer diretamente as reações e ataques virulentos de grupos de extremistas que confundem sentimentos anti-israelenses com anti-judaismo e com anti-semitismo? Recentemente, o ex-prefeito de Jerusalém, Ehud Olmert, atualmente ministro de Finanças do governo Sharon, causou impacto na opinião pública ao exigir, através da mídia escrita e falada, que as tropas israelenses se retirassem unilateralmente, mesmo sem acordo prévio, dos territórios que irão constituir o futuro Estado palestino.

Olmert raciocina em termos da “bomba relógio da demografia”, ou seja, dada a fecundidade das mulheres palestinas, em poucos anos a população combinada da Cisjordânia, da Faixa de Gaza e dos árabes que atualmente vivem dentro do Estado de Israel irá superar o número de judeus no país. A construção do muro/cerca, além de controvertida, é ineficaz. Não protege contra os ataques suicidas, mas adia a tomada de medidas, certamente dolorosas, como a desocupação das terras do futuro Estado palestino.

É verdade, os israelenses terão que reconhecer o fim do sonho de Grande Israel nas fronteiras bíblicas, acalentado por todas as lideranças da nação tanto do partido trabalhista quanto do Likud, sobretudo após 1967. Para avançar no caminho da paz, é mister reconhecer as falhas das lideranças dos dois lados: Arafat, depois de inúmeras oscilações e pronunciamentos contraditórios, inclusive seu apoio a Saddam Hussein, não parece mais ter autoridade para impor moderação aos grupos radicais, enquanto Sharon, por seu lado, mantém a “linha dura” e irrealista de exigir o fim imediato de todos os ataques contra civis e militares israelenses.

Sharon também recusou e desqualificou o documento do “Acordo de Genebra”, alegando que seus autores não seriam representantes legais de seus governos. Parece ignorar ou minimizar o grau de saturação da sociedade israelense, afligida por sua maior crise econômica e social, que provoca literalmente a “fuga” dos jovens para o exterior, após terem cumprido o serviço militar de três anos. Ignora, também, as vozes da opinião pública internacional (ONU, União Européia, Rússia e EUA), o que gera mais críticas e sentimentos anti-israelenses, freqüentemente confundidos com anti-semitismo.

A atitude intransigente do governo de Israel, que chama de “subversivos” os autores do “Acordo de Genebra”, aumenta o isolamento diplomático de Israel, com repercussões negativas sobre os judeus no mundo. Por que as lideranças comunitárias não se manifestam, procurando pressionar o governo de Israel no sentido de mudar sua política? Será que caíram na armadilha da ilusão de superioridade militar?

A História nos ensina que esta não resolve os problemas de uma convivência pacífica entre as nações, ao contrário, na opinião pública internacional, Israel é concebido como maior perigo para a paz mundial, mesmo maior do que Afeganistão, Iraque, Coréia do Norte e Irã, segundo uma pesquisa recentemente realizada nos países europeus.

Para o avanço nas negociações, a participação ativa e persistente da chamada sociedade civil, dos dois lados, é absolutamente indispensável para conter os extremistas e pressionar os governantes para manter abertos os canais de negociação. Como todas as manifestações em favor da paz entre os dois povos, a assinatura simbólica do Acordo de Genebra é válida e emblemática.

Se for correta a definição dos judeus como “comunidade de destino”, então é inevitável inferir a responsabilidade mútua entre o Estado e a Diáspora, que deve participar das decisões que afetam a vida e sobrevivência das gerações atuais e futuras.

Não é certamente por acaso que o movimento “Paz Agora”, dentro e fora de Israel, envolve aqueles que militam em suas respectivas sociedades pelos Direitos Humanos, contra a discriminação e os preconceitos, contra o desemprego e a miséria, enfim, lutam pela criação de uma nova ordem social, econômica e cultural, eqüitativa e justa, em escala mundial.

Precisamos de apoio e solidariedade de todos os grupos e indivíduos para garantir a existência de Israel, juntamente com ações adequadas que levem à paz e a reconciliação com o povo palestino. Ao manifestarmos nossa solidariedade com os grupos e correntes democráticos e seculares que advogam e defendem o entendimento com os palestinos, resistimos àqueles que em nome de promessas bíblicas míticas e com o apoio do governo de Ariel Sharon se opõem a um acordo e recusam a retirada dos territórios ocupados.

 

 

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