Por EVA PAULINO BUENO

Depois de quatro anos trabalhando em universidades no Japão, Eva Paulino Bueno leciona Espanhol e Português na St. Mary’s University em San Antonio, Texas. Ela é autora de Mazzaropi, o artista do povo (EDUEM 2000), Resisting Boundaries (Garland, 1995), Imagination Beyond Nation (University of Pittsburgh Press, 1999), Naming the Father (Lexington Books, 2001), e I Wouldn’t Want Anybody to Know: Native English Teachi ng in Japan (JPGS, 2003)

 

Uma “Paixão” para nossos dias

 

Bem, esta talvez não seja a única ocasião em que alguém faz o comentário de um filme que não assistiu. Mas eu acho que as chances são muito boas de ser esta a primeira vez que alguém - neste caso eu mesma - não viu e nem vai ver o filme, mas que se sente bem capaz de fazer a resenha. Estamos falando do recém-lançado aqui nos Estados Unidos "A Paixão do Cristo".

Para que este filme espetacular se tornasse realidade o diretor Mel Gibson não só aplicou 25 milhões de dólares de seu próprio dinheiro, mas também participou na escrita do script e, com certeza, está por trás de toda a maquinaria de propaganda. Cena de "A Paixão de Cristo" De acordo com informações na página do filme, este projeto levou 12 anos para ser concretizado. Aliás, parece que o filme estava pronto já há algum tempo, mas tudo estava bem calado com relação a ele. Quem sabe, esperando a ocasião mais propícia para o lançamento, um momento em que o assunto tivesse mais impacto.

Então, devagarinho, devagarinho, começaram a aparecer menções ao filme, como num movimento de música em que os violinos começam no fundo e o som vai aos poucos aumentando, aumentando, outros instrumentos se juntam e mais outros, e o som aumenta, aumenta, até que se chega ao som de uma orquestra inteira. Estamos agora quase no ponto da orquestra inteira. Já na televisão tivemos entrevistas com Mel Gibson, que contou como foi emocionante participar na feitura do filme. No site do filme há uma citação do que Gibson disse, que ele  espera que este filme afete as pessoas "em um nível profundo e que os alcance com uma mensagem de fé, esperança, amor e perdão". Também no site se explica que o filme representa uma "incrível oportunidade para que Cristãos de todos os lugares ajudem seus amigos e vizinhos que não acreditam (em Jesus Cristo) a compreenderem o significado da vida, morte e ressurreição de Jesus, e que por fim aceitem Cristo como seu Senhor e Salvador" (ver www.thepassionoutreach.com ). A distribuidora do filme (Outreach) se prontifica a ajudar igrejas a coordenarem mostras do filme, para que os fiéis experimentem a Páscoa mais completamente. O zum-zum-zum está com certeza aumentando. Já teve gente comentando que o filme não é antijudeu. Outros disseram que sim, é antijudeu. No final da semana passada foi a vez do ator James Caviezel, que é o Jesus do filme. Ele contou para os entrevistadores que fazer o filme foi muito difícil para ele, porque não só teve que passar horas sendo maquiado para as cenas da tortura e da crucificação, mas também acabou sendo realmente ferido nas filmagens, atingido por um raio na cena no Gólgota. Além de tudo, ainda pegou pneumonia. Tudo isto faz parte do "crescendo" dos instrumentos se juntando pra fazer a orquestra.

O filme estreou para o público aqui no dia 25 de fevereiro, quarta-feira de cinzas. Mas já desde a semana anterior muitas pessoas viram o filme. O que os promotores decidiram fazer foi oferecer bilhetes a grupos de igrejas que queriam ter a oportunidade de ver "A Paixão" antes que fosse mostrado nos cinemas. E aqui começa a parte cantada  (ou chorada) desta composição.

Na televisão, agora, todos os dias, desde que o filme começou a ser mostrado, os noticiários têm que ter uma seção sobre como as pessoas estão reagindo. E as reações são muito uniformes: as pessoas saem dos cinemas chorando, enxugando os olhos. Quando entrevistadas, as reações também são bastante parecidas: todos estão muito comovidos com o sacrifício de Jesus, alguns se dizem renovados em sua fé, outros dizem que vão trazer a família inteira para ver o filme. Já no dia 25 de fevereiro, uma mulher em Kansas teve um ataque cardíaco quando estava assistindo ao filme e morreu.

Como podemos compreender tal reação? Afinal, até agora, mais ou menos cem filmes sobre Jesus já foram feitos. O que tem este de especial? Primeiro, tem o fato que quem está bancando o projeto é um ator famoso em Hollywood, e ele diz, na página do filme, que ele quis envolver-se neste projeto porque ele achava que a história da morte e da ressurreição de Jesus nunca tinha sido bem contada em filme. Ainda de acordo com ele, a brutalidade física a que Jesus foi sujeito nunca foi corretamente dramatizada.

Vamos concentrar-nos por agora na questão da brutalidade. A própria página do filme sublinha que esta versão das últimas 12 horas da vida de Jesus mostra "dramaticamente e graficamente" a violência contra ele. Por que ela é necessária neste momento? Eu creio que posso salientar pelo menos três razões. Duas são óbvias, e a terceira talvez não tão óbvia.

A primeira delas, começando pela mais desinteressante, é que talvez Mel Gibson realmente acredite que este filme vá trazer fé, esperança, amor e perdão. Como ele é ator e diretor em filmes, nada mais lógico que usar sua ferramenta de trabalho para criar algo em que ele acredita.

A segunda é que, nesta competição que existe em Hollywood em que um diretor está sempre querendo ultrapassar o outro em efeitos especiais, corridas de carro incríveis, vôos, lutas sangrentas, mortes por esquartejamento, etc, etc, por que não fazer um filme em que toda esta técnica fosse posta a serviço de uma história que, a) todos conhecem, e b) transforma todos os cristãos em potenciais parte da audiência? Já no dia 26 de fevereiro, quando escrevo este texto, as pessoas começaram a perguntar-se quando vão ver o tal filme. Mesmo aqueles que nem sequer são cristãos escapam.

A terceira razão, que me parece a mais interessante, tem a ver com o momento político que o país está atravessando. Não estou dizendo que Mel Gibson, ou qualquer pessoa diretamente ligada ao filme tenha se envolvido no projeto por ordem de algum chefão político. Por outro lado, se analisarmos o tipo de histeria religiosa que este filme parece capaz de criar, não podemos deixar de lembrar que, de uma forma ou de outra, o que este filme traz à tona é o fato de que religião e política estão sempre juntas. E que, ainda por cima, as guerras que os Estados Unidos estão lutando no momento podem ser vistas como guerras religiosas. Se dermos ouvidos a alguns programas de rádio comandados por fanáticos neste país, as duas guerras – Afeganistão e Iraque – são guerras contra os infiéis, contra aqueles que são não-cristãos; pior ainda: estes infiéis matam os cristãos. E, se por acaso deste lado alguém tiver se esquecido em que se baseia a religião cristã, aqui está o filme mostrando a incrível brutalidade cometida contra Jesus Cristo. De uma certa maneira, é possível imaginar tirar que alguns dos que assistam ao filme  saiam das salas de projeções achando que, de fato, podemos reagir brutalmente contra os que atacam os cristãos. Afinal, Jesus Cristo não foi barbaramente torturado e morto? Embora Mel Gibson afirma que sua intenção é que o filme traga paz e amor, muitos dos que estão assistindo já apregoam que este não é meramente um filme, mas uma experiência que muda a vida das pessoas. O New York Times de 26 de fevereiro traz quase uma página dedicada a “A Paixão do Cristo”, e cita uma pessoa cujo testemunho ilustra este problema. Uma mulher diz que o filme vai levar as pessoas a verem que a paixão de Cristo significa vida e perdão. Já na sentença seguinte ela afirma que este filme vai fazer as pessoas se converterem. (New York Times, A14, 26 de fevereiro de 2004). E se a pessoa não se converter? E se a pessoa, como eu, não tem interesse em filmes religiosos? Ou se a pessoa, também como eu, por princípio não assiste a filmes violentos? A paz e o amor vão alcançar a todos, ou só aos que “se converterem”?

Mas talvez todas estas razões sejam meras impressões de quem não assistiu nem pretende assistir a este filme. Eu não posso entender como assistir a um filme que se concentra na incrível brutalidade cometida há dois mil anos possa me transformar – ou a qualquer um que assista ao filme – em uma pessoa mais crente na doutrina da religião cristã. Assistir a repetidas imagens de tortura, eu creio, pode provocar horror ou provocar a crença  que qualquer um que não está comigo está contra mim, ou o que é pior, estes filmes violentos podem anestesiar a pessoa para a realidade da dor do outro, do que é diferente de uma maneira ou de outra. Este último fenômeno é o que o excessivo jogo de vídeo games violentos provoca em crianças e adolescentes, que perdem a noção de que uma bala entrando no corpo de uma pessoa é uma coisa horrível, e que a dor é insuportável, e que a conseqüência pode ser a morte.

Não estou nem por um momento dizendo que o filme "A Paixão de Cristo", por si só, vá causar tudo isto. O que estou dizendo é que este filme participa em toda uma "economia da violência" dos filmes americanos produzidos em Hollywood, com vistas a ganhar muito dinheiro. É como se a audiência, sedenta de sangue (ou de imagens de sangue), quisesse sempre mais violência, mais efeitos especiais, mais cenas chocantes. O resultado é que bem pouco choca, hoje em dia. Então Mel Gibson está correto neste ponto ao dizer que  esta técnica toda nunca tinha sido aplicada às 12 últimas horas da vida de Jesus. Sorte dele. Com toda esta maquinaria de propaganda, ele certamente vai recuperar os 25 milhões que investiu no projeto. O resto? O resto é silêncio. Ou uma cacofonia de vozes chorando na saída dos cinemas. Cada um mais pronto que o outro a ser mais cristão que o outro. Vai ser um Deus nos acuda, com certeza.

 

 

 

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