Por EVA PAULINO BUENO

Depois de quatro anos trabalhando em universidades no Japão, Eva Paulino Bueno leciona Espanhol e Português na St. Mary’s University em San Antonio, Texas. Ela é autora de Mazzaropi, o artista do povo (EDUEM 2000), Resisting Boundaries (Garland, 1995), Imagination Beyond Nation (University of Pittsburgh Press, 1999), Naming the Father (Lexington Books, 2001), e I Wouldn’t Want Anybody to Know: Native English Teachi ng in Japan (JPGS, 2003)

 


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Capital extraterrestre

 

A cidade de Roswell, mais ou menos no meio do Estado de Novo México, é considerada a capital extraterrestre do nosso planeta. Pelo menos isso é o que o pessoal da cidadezinha diz. Para quem não sabe da história (e deve ser de outro planeta, pra não saber de tal história), em julho de 1947 alguma coisa caiu do céu bem no município de  Roswell. Essa “coisa” era bem estranha, debris, pedaços de metal que pareciam ser feitos de uma substância desconhecida. Uma avalanche de  informações e contra-informações se sucedeu ao acontecimento, e o dono da terra onde os debris caíram recebeu ordens dos militares para calar a boca. Outros que se meteram na história também receberam um ultimatum para fecharem o bico, enquanto que as notícias oficiais eram que o que havia caído em Roswell era um balão de investigação atmosférica.[1]

Logicamente, as forças governamentais podiam mandar alguns indivíduos calarem a boca. Mas estas forças não conseguiram impedir que o rumor se espalhasse pelo Novo México, estados vizinhos, os Estados Unidos, e o mundo. De forma que, hoje em dia, se você está interessado em coisas extraterrestres, Roswell ainda é o melhor lugar para visitar.

Chegamos à cidadezinha às 3:30 da tarde, decididos a investigar todo o mistério de Roswell que pudesse caber na hora e meia que restavam antes que fechasse o “International UFO Museum and Research Center” — Museu e Centro de Pesquisas Internacionais sobre Objetos Voadores não Identificados — naquele dia.  Logo na entrada, vários objetos e bonecos lembrando os supostos seres extraterrestres que caíram em Roswell em 1947. Quase todas as pessoas que trabalham no museu são voluntárias da cidade, gente de todas as idades que quer contribuir para este museu que é obviamente objeto de orgulho cívico. Uma senhora atrás de um balcão, devidamente vestida com as roupas associadas aos extraterrestres, nos informou que a entrada era grátis, que poderíamos visitar todas as instalações do museu, e que também tínhamos direito a um marcador de livro.

Na parece havia um mapa do mundo enorme, cheio de pontinhos coloridos, e o convite para que cada visitante ao museu marcasse com os alfinetinhos coloridos a cidade de onde vinham. Ali também estava a informação que os alfinetinhos eram retirados todo mês, então o que tínhamos ali era uma idéia de quantas pessoas de cada país havia visitado o museu naquele mês. Logicamente, eu fui logo ver se algum brasileiro tinha estado em Roswell neste mês de dezembro de 2003. E não é que dois já tinham estado lá? Um de São Paulo, e um de Belém. Fiquei surpresa, e imaginando  o que estes compatriotas teriam ido fazer em Roswell, que fica, a bem da verdade, bem pra lá do fim do mundo mesmo.[2]

Mas obviamente eles estavam de passagem, assim como eu, indo ou para o norte, para as cidades mais turísticas e interessantes como Santa Fé ou Taos, ou indo ao Sul para o Big Bend National Park ou para as outras cidades grandes no Texas. Ou talvez estavam indo para o oeste, em direção a Los Angeles ou Las Vegas? Ou para o leste, em direção a cidades grandes como Memphis, ou mesmo Nova Iorque? Quem sabe? O que importou, naquele momento, foi que três brasileiros passaram por Roswell.

A não ser que os outros dois não eram brasileiros, mas eram extraterrestres passando por brasileiros. Esta não é uma noção exagerada de maneira nenhuma. Considerando-se a extrema ignorância dos americanos em relação à geografia (não só de outros países, mas até mesmo do seu próprio país), é bem provável que algum extraterrestre espertalhão resolveu colocar o alfinetinho ali em São Paulo, ou em Belém, somente de brincadeira... Vale a pena manter a perspectiva, de todas formas.

Então, o museu—o edifício modificado de um antigo cinema—oferece fotografias das pessoas envolvidas no incidente em 1947, assim como cópias dos artigos de jornais, memorandos mandados por diversas autoridades mandando as pessoas calarem a boca. Também se encontram ali  reproduções de supostos discos voadores, bonecos representando as possíveis aparências físicas dos ditos extraterrestres, e cópias de cartas-testemunhos de várias pessoas que presenciaram fenômenos inexplicáveis de objetos circulares que se moviam a grande velocidade. Então podemos ler tanto a carta de uma aeromoça que presenciou, juntamente com o piloto, co-piloto e outro atendente do avião, a presença de um objeto luminoso que se movem a incrível velocidade, bem junto ao avião. Podemos ver também uma interpretação, em forma de uma escultura, do corpo do extraterrestre sendo tratado por um médico, após a queda do disco em Roswell. Para os que gostam da sua história contada, e não lida, no museu estava um homem contando sua experiência com os que vieram “de longe.” E um grupo de jovens à sua volta ouviam atentamente. E, se tudo isto não bastasse, lá no funda havia um homem vestido de papai Noel, pronto pra tirar fotos com a tela de fundo de estrelas e galáxias.

Alguém disse surreal aí?

Saímos do museu e atravessamos a rua, em direção a uma lanchonete que dizia ter café e internet. Bom demais pra ser verdade: o café era requentado, e a internet custava oito dólares por hora. Tratamos de sair rapidinho, mas não tão rápido que não pudéssemos recolher alguns panfletos que os donos da lanchonete graciosamente nos ofereceram. Os tais panfletos explicavam, entre outras coisas, que os extraterrestres eram na verdade demônios, e que todos deveríamos resistir a eles. No texto, havia algumas fórmulas para se resistir aos ditos cujos, e de maneira geral envolviam coisas parecidas com religião cristã.

Convém lembrar que, na época em que este “incidente” aconteceu no Novo México, o estado já estava marcado como um lugar em que coisas altamente científicas e altamente escondidas tinham acontecido.  Não muito longe de Roswell, na cidade de Los Alamos, durante a segunda guerra mundial se havia congregado um grupo de cientistas para o que se chamou Manhattan Project. Este projeto foi, nada mais nada menos, o que deu origem à bomba atômica. Como o governo americano suspeitava, desde 1939, que os nazistas e os japoneses estavam interessados em desenvolver a bomba atômica, em 1942  um grupo de cientistas sob a responsabilidade do Army Corps of Engineers—O Corpo de Engenheiros do Exército—foi enviado a Los Alamos para trabalhar neste projeto altamente secreto e urgente. Um colégio para rapazes localizado nas montanhas de Novo México foi ocupado pelo governo para funcionar como laboratório científico; estradas foram construídas às pressas, e as famílias dos cientistas vieram também morar em Los Alamos, já que não se sabia ao certo quanto tempo levaria para a finalização. Devido à gravidade do projeto, nem mesmo os participantes sabiam ao certo onde se encontravam, e até suas cartas aos familiares eram censuradas, e tinham que ser reescritas.[3] Mais tarde, como se sabe, o governo americano testou bombas nucleares no deserto do Novo México (algo que, hoje em dia, seria inimaginável). Atualmente, o museu em Los Alamos que fala do nascimento da bomba atômica, também é um dos lugares nos Estados Unidos em que se congregam os pacifistas, os que professam a rejeição ao que o Projeto Manhattan produziu.

Enfim, voltando a Roswell, numa tentativa de entender o que pode ter causado tanta sensação em 1947, quando “algo” caiu numa fazenda nos arredores da cidade, é fácil entender porque, primeiro, os moradores achariam que estavam sendo visitados por extraterrestres, e, segundo, porque as forças armadas americanas tentaram  sufocar os rumores o mais rápido possível.[4]

Hoje, Roswell é uma cidadezinha pacata, tentando capitalizar em um incidente que aconteceu há meio século. Não há sinais visíveis de extraterrestres na cidade. Assim concluímos depois da visita ao museu, de conversas com as pessoas.

E o que você faz numa cidadezinha perdida no meio de lugar nenhum,  depois do jantar? Das duas uma: ou você vai ver um filme, ou você vai ao shopping. Resolvemos ir ao shopping, que fica no fim da rua principal da cidade (que também é a estrada que leva à cidade). O shopping estava praticamente vazio. Perguntamos a uma das vendedoras porque não tinha ninguém fazendo compras, porque afinal, estamos perto do Natal, e era um sábado à noite. Ela nos explicou:  “Desde que este Wal Mart abriu aqui em Roswell, quase ninguém vem mais ao shopping, e muitas lojas estão fechado por falta de fregueses.”

Wal Mart, para quem não sabe, é a maior loja do mundo. Começou no meio oeste americano, mas agora já se espalhou pelo mundo inteiro. A filosofia de Wal Mart é: preços baixos. Aqui nos Estados Unidos, quando a gente vai a uma cidadezinha e o centro comercial da cidade está morto, portas fechadas, um ar de cidade fantasma, pode saber: tem um Wal Mart na periferia da cidadezinha.  Este gigante chega, se apossa de um pedaço de terra, constrói uma mega-loja, e destrói todos os outros comerciantes da cidade. Seu segredo? Preços baixos, baixíssimos. Como Wal Mart consegue isso? Simples: comprando os produtos em grandes quantidades, pagando salários baixos aos funcionários (62% dos quais não recebem seguro saúde), impedindo a formação de sindicatos dos funcionários, etc, etc. Os moradores do estado de Vermont, no leste dos Estados Unidos, votaram contra a entrada de Wal Mart dentro das suas fronteiras, porque sabem que uma loja como esta representa a destruição de vários pequenos estabelecimentos comerciais, e eventualmente, à destruição das cidades de pequeno porte. A United Food and Commercial Workers—A União dos Trabalhadores na Indústria de Alimentos e no Comércio—vem tentando alertar os consumidores para os perigos que Wal Mart representa. Mas a companhia continua se expandindo, como. . . como aquela bolha dos filmes de terror!  Ou aqueles filmes em que os extraterrestres chegam, hipnotizam a população, e sugam todo o sangue de todas as pessoas.

Fomos visitar o Wal Mart de Roswell, a maior loja da cidade, maior até que o museu, e que o shopping center. E não deu outra: bem na frente da loja estava a pintura de um disco voador.

 


[1] Leia mais sobre o incidente em Roswell em http://www.iufomrc.org/incident.shtml

[2] Ver em http://www.iufomrc.org/tour/entrance.html uma foto da entrada. Ver o mapa ao fundo.

[3] Mais informações sobre o Manhattan Project e a cidade de Los Alamos podem ser encontradas em http://www.atomicmuseum.com/tour/manhattanproject.cfm

[4] Em 1994, a Força Aérea americana, a pedido do congresso, iniciou uma exaustiva pesquisa do “incidente em Roswell,” e as conclusões foram que o que caiu em Roswell em 1947 foi um balão de pesquisa chamado MOGUL, e que os “extraterrestres” recuperados no acidente eram simplesmente bonecos que eram usados nestes balões, para teste.  Leia mais sobre o assunto em  http://www.af.mil/lib/roswell/index.asp

 

 

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