Por WALTER PRAXEDES
Graduado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo, mestre e doutor em Educação pela mesma instituição. Co-autor dos livros O Mercosul e a sociedade global (São Paulo, Ática, 2002, 12ª Edição) e Dom Hélder Câmara: Entre o poder e a profecia (São Paulo, Ática, 1997 / Brescia (It.), Editrice Queriniana, 1999). Professor de sociologia da Universidade Estadual de Maringá e Faculdades Nobel em Maringá, Paraná


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Fatores que influenciam o desempenho no Ensino Superior e a proposta de cotas para alunos negros

São grandes as expectativas da sociedade brasileira contemporânea em relação à formação universitária necessária para as  carreiras burocráticas e científicas. O Ensino Superior deve proporcionar aos professores, pesquisadores e alunos o desenvolvimento de um conjunto de competências. Como exemplos de tais competências, acompanhando as análises de Paiva (1993), podemos citar:

·         Imaginação na busca de soluções para problemas novos e inesperados;

·         Capacidade de raciocinar logicamente sobre conteúdos simbólicos;

·         Capacidade de compreender e de desenvolver os conhecimentos científicos;

·         Entendimento do processo produtivo como um todo;

·         Capacidade de avaliar as tendências de mudanças na sociedade, na cultura, na política, no mercado etc.;

·         Precisão e adequação nas formas de comunicação escrita, oral e visual;

·         Capacidade de desempenhar múltiplos papéis profissionais e de adaptação rápida às novas gerações de equipamentos e ferramentas;

·         Responsabilidade, compromisso e persistência na busca dos objetivos projetados;

·         Pensamento crítico e envolvimento ético na busca de soluções para os problemas sociais, do meio ambiente e em defesa dos direitos humanos dentro e fora do local de trabalho.

A partir desta caracterização sumária do Ensino Superior, com base nas pesquisas educacionais já realizadas, podemos traçar um perfil econômico, social e cultural dos alunos não só que ingressam nas universidades brasileiras, mas que não evadem e conseguem alcançar os melhores resultados.

Como vimos, são enormes as expectativas da sociedade em relação ao Ensino Superior. Por outro lado, o número existente de vagas nesse nível de ensino na rede pública é muito menor do que a quantidade de cidadãos que deseja obter uma formação universitária. A solução que os gestores e educadores universitários encontraram para equacionar o problema foi a utilização de mecanismos de seleção que servem tanto para definir o ingresso, como para a  progressão no sistema. É o caso dos exames, vestibulares e provas realizadas em cada disciplina curricular.

Ao realizarmos uma avaliação de conjunto sobre as conseqüências sociais dos mecanismos de avaliação e de seleção como vestibulares e provas, podemos constatar um perfil geral daqueles alunos que ingressam nas escolas consideradas de melhor nível, públicas ou privadas, que não evadem e que alcançam um melhor desempenho. Tal perfil é decorrente, entre outros fatores, das seguintes variáveis:

·         Escolaridade dos pais;

·         Renda familiar;

·         Local, cidade e região de domicílio;

·         Freqüência à escola privada nos ensinos fundamental e médio;

·         Abundância de material de escrita no cotidiano;

·         Acesso e participação em atividades culturais;

·         Desenho, leitura e música incorporados ao lazer infantil;

·         Seleção de programas educativos na televisão;

·         Hábito de argumentação racional no cotidiano;

·         Utilização da linguagem “culta” (dominante) no cotidiano;

·         Disciplina de estudo e concentração;

·         Hábito de estudo autônomo;

·         Expectativa de bom desempenho na escola;

·         Valorização do sucesso escolar;

·         Exemplos de pessoas próximas bem sucedidas no sistema escolar.

Observamos, assim, como a formação educacional, o acesso aos bens culturais e as condições sócio-econômicas anteriores citadas acima estão entre os fatores que influenciam no desempenho no Ensino Superior, conforme apontam os estudos coordenados por Durham e Bori (2002).

Negros no Ensino Superior

Os movimentos negros conseguiram convencer a sociedade brasileira de que existe racismo contra os negros e pardos em nosso país. Não vou citá-los nesta oportunidade, mas é sabido que muitos estudos do IBGE e pesquisas científicas demonstram exaustivamente a desigualdade entre raças e etnias no Brasil, sendo a maioria da população considerada pelo IBGE como pobre e indigente composta por negros e pardos.

Também já é consenso que o racismo e as desigualdades sócio-culturais se refletem no nosso sistema universitário de inúmeras maneiras, uma vez que o simples acesso à escola não assegura igualdade de resultados, pois muitos alunos negros não competem com os demais alunos em igualdade de condições:

·         Os filhos de pais mais escolarizados são favorecidos pela forma de estruturação dos currículos;

·         O nível de renda dos afro-descendentes prejudica a competitividade dos seus filhos no sistema de escolar;

·         O preconceito e a discriminação sofridos pelos alunos negros no cotidiano escolar também influi para prejudicar o seu desempenho.

Como não existe igualdade de condições entre brancos e negros desde o início do processo de escolarização, não podemos supor que os últimos conquistarão os mesmos resultados que os primeiros e alcançarão as posições que desejam no sistema universitário e no mercado de trabalho.

Considero estranho que a proposta das cotas seja rebatida por alguns estudiosos e políticos com o argumento de que as cotas não atacam os fatores que dificultam o desempenho escolar e o acesso dos negros no ensino superior, que são, como vimos, as condições sócio-econômicas e culturais iniciais dos alunos e suas famílias e que, juntas, ajudam a explicar porque a quantidade de negros que ingressam, permanecem e concluem a universidade é muito menor do que a quantidade de brancos e amarelos e até mesmo de pardos; e também porque os cursos e universidades que os negros ingressam muitas vezes são os menos concorridos e menos prestigiosos do sistema universitário.

Devo, ainda, recordar um argumento muito utilizado pelos movimentos negros em favor das cotas: mesmo que os governos e a sociedade se dedicassem efetivamente ao compromisso de acabar com as desigualdades sociais, econômicas e de acesso aos bens culturais decorrentes, em grande parte, do racismo contra os negros, demoraríamos várias décadas para que os negros se tornassem portadores daquelas características que favorecem um melhor desempenho no ensino superior.

Penso que só os otimistas incorrigíveis e os oportunistas políticos acreditam que a médio prazo se alterarão as condições sócio-econômicas e culturais da maioria dos negros. Sem as cotas o Ensino Superior continuará confirmando a tendência de barragem étnica para os negros em nosso país. Por isso, ao invés de termos um sistema universitário público que seleciona e prepara elites através dos exames vestibulares e provas, e que, com tal mecanismo, favorece aqueles alunos que chegam com as melhores condições nos exames, o nosso sistema universitário deveria estar comprometido com a democracia e com o fim das desigualdades e hierarquias sociais fundadas nas práticas discriminatórias. Alguns argumentam que não é esse o papel reservado para o Ensino Superior. Cabe então perguntarmos: Por que não podemos redefinir a missão do Ensino Superior público em nosso país?

Defendo as cotas como um instrumento a ser utilizado pela sociedade brasileira para compensar as  deficiências de aprendizagem constatadas entre os alunos negros e para acelerar o fim da barragem racista que sofrem. Para tanto, o sistema universitário deve formular e desenvolver políticas institucionais de investimento de recursos materiais e intelectuais que ataquem os problemas de formação decorrentes das condições sócio-econômicas, educacionais e culturais dos alunos negros.

 


Referências

BOSI, Alfredo. Dialética da colonização. São Paulo, Companhia das Letras, 1992.

DURHAM, Eunice R. e BORI, Carolina M. (orgs.) Seminário O negro no Ensino Superior. NUPES, Núcleo de Pesquisas sobre Ensino Superior. São Paulo, Universidade de São Paulo, dezembro de 2002.

PAIVA, Vanilda. Novo paradigma de desenvolvimento: educação, cidadania e trabalho. Revista de Ciência da Educação, Educação e Sociedade, ano XIV, n. 45, ago. 1993, Campinas, CEDES/Papirus, 1993.

 
 


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