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ANTONIO MENDES DA SILVA FILHO
Professor do Departamento de Informática da UEM. Doutor em Ciência da Computação

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Produzir e exportar software: necessidades do Brasil

Informação é qualquer coisa que pode ser codificada como um fluxo de bits, i.e, qualquer conteúdo que pode ser digitalizado. Por exemplo, livros, revistas, filmes, páginas da Web ou cotações de ações compreendem o que é denominado de bens da informação. Dentro deste contexto, a informação pode ser vista sob dois aspectos: o informativo e o tecnológico. Se voltarmos nossa atenção para o lado tecnológico, devemos considerar a infra-estrutura que permite armazenar, buscar, recuperar, filtrar, bem como transmitir e receber informações.

Hoje em dia, a economia global tem sido ditada pelos avanços da tecnologia da informação. Assim, para que o Brasil possa ser considerado importante ator neste cenário, é imprescindível não apenas ser um produtor, mas também um exportador desse produto. Neste sentido, observa-se que o mercado de tecnologia da informação brasileiro tem crescido rapidamente. Segundo dados do Ministério da Ciência e Tecnologia (www.mct.gov.br), o setor de tecnologia da informação (TI) brasileiro é responsável por mais de US$ 14 bilhões do produto interno bruto brasileiro. Cabe salientar que esta cifra corresponde a 2.4% do PIB nacional.

Adicionalmente, segundo pesquisa conduzida pelo Massachussets Institute of Tecnology (web.mit.edu), o Brasil tem o 7º (sétimo) maior mercado do mundo em vendas de software, tendo atingido o total de US$ 7.7 bilhões no ano de 2001. Ainda segundo esse mesmo estudo do MIT, a qualidade e grau de sofisticação do produtos desenvolvidos no Brasil são similares aqueles produzidos na Índia    (US$ 8.2 bilhões) e China (US$ 7.9 bilhões). Entretanto, embora haja expressiva produção de software em nosso país, a cifra de software brasileiro exportado é ainda muito pequena, para não dizer insignificante. A exportação de software brasileiro é apenas responsável pela quantia de US$ 100 milhões (dados de 2000), o que corresponde aos meros 0.002% do total de exportações do Brasil. Só para comparar, no ano de 2000, a China e Índia exportaram US$ 400 milhões e US$ 4 bilhões em software, respectivamente.

Então surge a pergunta: por que o Brasil tem um insignificante percentual exportado de software?

Antes de responder a essa pergunta, talvez fosse interessante saber como os produtos brasileiros são conhecidos lá fora. Segundo pesquisa realizada nos Estados Unidos no ano de 2000 pelo Ministério das Relações Exteriores brasileiro:

  • 7% dos americanos sabem que o Brasil é grande exportador de soja;
  • 14% dos americanos sabem que o Brasil é produtor de café;
  • 89% dos americanos consideram o Brasil um país de grande beleza natural;
  • 68% dos americanos consideram o Brasil um país tropical;
  • 36% dos americanos sabem que o Brasil está entre as maiores economias.  

Perceba que nosso potencial é pouco conhecido no exterior. Assim, respondendo a questão formulada, é preciso tornar o produto brasileiro mais conhecido no mercado externo. Por exemplo, embora o café brasileiro seja de excelente qualidade, na América do Norte e, especificamente, nos EUA e Canadá, o café colombiano é bem mais conhecido, sem desmerecer a qualidade desse café.

Agora, se voltarmos nossa atenção para o setor de tecnologia da informação e, especificamente, para indústria de software, segundo o mesmo estudo do MIT mencionado anteriormente, os profissionais e empresas brasileiras são citados entre aqueles que fornecem soluções de software para o segmento de bancos, órgão públicos e comércio eletrônico. Esse estudo ainda aponta características diferenciais dos produtos brasileiros que compreende a criatividade dos profissionais, capacidade de inovação e flexibilidade das companhias.

Apesar de visualizarmos avanços, ainda há entraves a serem vencidos. Um exemplo é o pequeno grau de transformação de resultados de pesquisas em produtos de mercado. No mesmo estudo do MIT, verificou-se que maioria dos produtos dos fabricantes brasileiros de software são desenvolvidos e produzidos internamente pela próprias empresas, sendo feito muito pouco uso de tecnologias desenvolvidas nas universidades.

Pergunta-se: é possível aumentar nossa capacidade de produção e exportação de software?

Vejo como algo factível. Todavia, isto depende de haver um tripé formado por Estado, Empresas e Universidades. Para tanto, é preciso uma ação coordenada envolvendo o governo, a nível federal, estadual e municipal bem como participação efetiva da iniciativa privada juntamente com as universidades. Um exemplo é o Cesar - Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (www.cesar.org.br) - o qual tem sido responsável pela geração de 66 empresas. A ação do Cesar juntamente com o Porto Digital do Recife (www.portodigital.org) apresenta-se como um modelo que poderia ser replicado em todo o país. Eis aqui uma solução que governo brasileiro poderia adotar a fim de ter uma  ação mais agressiva quanto a exportação de software.

Complementando, torna-se importante manter os profissionais e pesquisadores no país e para tanto, é imprescindível uma remuneração adequada às qualificações destes, sob a pena de nos depararmos com a diáspora de talentos brasileiros (www.espacoacademico.com.br/008/08mendes.htm).

Para saber um pouco mais sobre a experiência do Porto Digital do Recife, você poderia ler a matéria intitulada “Ilha da Fantasia” publicada na edição 1778 da Revista Isto É de 29/10/2003 ou consultar o site www.terra.com.br/istoe/1778/ciencia/1778_ilha_da_fantasia.htm.

 

ANTONIO MENDES DA SILVA FILHO

 
 


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