Por JOSÉ APÓSTOLO NETTO
Historiador e doutorando em História (UNESP - Campus de Assis, SP)

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As Populações Periféricas e a Modernidade Brasileira

 

O capitalismo brasileiro, ao longo dos seus mais de cem anos de existência, tem avançado muito pouco, quando não retrocedido, no processo de inclusão do conjunto dos brasileiros na modernidade. A tomar pela sua história, apenas uma pequena parcela da população tem usufruído dos benefícios trazidos pela modernização do país. Essa elite, por sua vez, por meio de dispositivos cientificistas, ideológicos, simbólicos, éticos, estéticos, institucionais e até acadêmicos [1] tem procurado garantir e reproduzir esse privilégio, empurrando para as zonas de exclusão os demais setores da sociedade.

Os setores mais castigados nesse processo histórico de exclusão são os populares e, entre estes, as populações afrodescendentes. Por conta disso, esses agentes sociais, no contexto, ou melhor, à margem dessa modernidade, têm inventado e reinventado formas diversas de lutas. Elas têm atendido a pelo menos três objetivos: fazer frente ao poder de domesticação, apresentar projetos políticos e sociais alternativos, preservar a autonomia das comunidades tradicionais.

O banditismo social, o messianismo, as revoltas populares, os movimentos separatistas, as facções criminosas, a favelização social, entre outros fenômenos históricos e sociais, são alguns exemplares mais radicais desses revides do nosso povo [2] .

Claro está também que os setores progressistas e modernos das classes dirigentes  e da classe média têm, em alguns momentos da história, reivindicado um certo alargamento do campo de participação dos segmentos populares na modernidade brasileira, de modo a suavizar os conflitos e as lutas sociais no interior da sociedade, criando uma atmosfera estável de desenvolvimento econômico.

As manifestações mais recentes desse projeto de inclusão referem-se as ong’s que se proliferaram no país a partir do processo de redemocratização (1985). As primeiras organizações atuavam no campo dos direitos humanos e são herdeiras dos movimentos pela anistia e contra a tortura, atuantes durante o regime militar (1964-1985). Hoje, como é sabido, elas passam dos milhares e atuam em várias frentes: na da educação, na da ética, na dos gêneros, no da informação, entre outras.

Mas alguns acontecimentos internos e externos mais recentes, acelerados principalmente pelas inovações tecnológicas nos campos da comunicação e da informação, estão a exigir uma maior abertura da sociedade para a participação efetiva  atores sociais marginalizados.

A busca do Brasil em se consolidar no mercado internacional como global-player, com forte alinhamento com as economias periféricas, a exemplo da África, da Ásia e o Cone-Sul; a segmentação étnica, sexual e geracional do mercado de consumo; a convergência das mídias ao lado da popularização dos aparelhos trimidiáticos de ampliação da produção e oferta de conteúdos diversificados e diferenciados, regionais e globais; bem como as importantes conquistas das minorias sexuais e étnicas no campo dos direitos civis, a crescente conversão das políticas afirmativas em políticas públicas, entre outros acontecimentos, estão solicitando uma disposição ética-estética referencializada não apenas nas matrizes estadunidense e europeu; mas pautada cada vez mais na cultura afro, asiática e latino-americana.

Os efeitos dessa globalização do capitalismo brasileiro são registradas em vários setores da vida social e cultural do país. Uma análise mais atenta da produção cinematográfica, fonográfica, editorial, televisiva e radiofônica mais recente, por exemplo, mostrará uma maior presença de temáticas e personagens periféricos e afro-brasileiros [3] .

Quando não, temos a montagem de toda uma mídia marginal autônoma, que vai das rádios e TVs comunitárias, selos e produtoras musicais independentes até ateliês de moda e artes plásticas. Sem falar da produção literária capitaneada por autores da periferia.

Essas experiências demonstram, entre outras coisas, que a relação entre a periferia e os processos comunicacionais tem sido produtiva e criativa. Precisamos, por ora, ampliar e acelerar esse processo. [4]



[1] Ao longo da história do capitalismo brasileiro, que se inicia com a substituição do trabalho escravo pelo trabalho livre assalariado e com a instauração do regime republicano, no final do século 19, registramos várias práticas discursivas e não discursivas acionados pela elite para legitimar e reproduzir-se no poder.  As teorias racistas de base cientificista, a história oficial e acadêmica sobre as obras e os feitos das personalidades das classes dirigentes; as ideologias intolerantes e do ódio, a meritocracia, os nacionalismos; a ética do trabalho de domesticação do trabalhador, os símbolos do poder, que se inscrevem nas esculturas, na arquitetura, nas artes plásticas, nos projetos urbanísticos, nas comemorações cívicas e nacionalistas; a estrutura curricular pedagógica escolar de referência eurocêntrica, são alguns exemplos eloqüentes que confirmam o processo de dominação/exclusão no Brasil .

[2] No período aqui compreendido, podemos citar, como formas de reação dos populares ante o processo brasileiro de modernização excludente, Guerra de Canudos, Bahia (1896); A Revolta da Vacina, Rio de Janeiro (1905); A Revolta das Chibatas, Rio de Janeiro (1910); o cangaço de Lampião, Corisco e Antonio Silvino (Nordeste, 1920-1940); os quebra-quebras, os arrastões, o Comando Vermelho e o PCC (São Paulo e Rio de Janeiro, época atual) etc.

[3] É significativa a enxurrada de produções televisivas, cinematográficas e literárias de autoria ou com temáticas afro-brasileiras, desde de 2000. Para ficar nos mais conhecidos, podemos citar: no cinema, Cidade de Deus (2002), Uma onda no ar (2003), Madame Satã (2002); na literatura, Capão pecado (Ferrez), Diário de um detento (Jocenir), Cidade de Deus (Paulo Lins), Rei Zumbi (Big Richard); Na televisão, Turma do gueto (Seriado, Record) e Domingo da gente (Programa de auditório, Record) Cidade dos homens (Seriado, Globo). Acreditamos que uma das conseqüências da força dos acontecimentos econômicos, tecnológicos e sociais em transformação seja o boom dessa produção cultural.

[4] Convém lembrar que a sociedade brasileira precisa ampliar a participação do afrodescendente e periféricos nas universidades. Os números ainda são insignificantes. Temos que ter claro que muita coisa ainda está por fazer nessa frente.

 

JOSÉ APÓSTOLO NETTO

 

Bibliografia

CARNEIRO, Maria Luiza Tucci. O discurso da intolerância. Fontes para o estudo do racismo. In: DI CREDDO, Maria do Carmo Sampaio (Org.). Fontes históricas: abordagens e métodos. Programa de Pós-Graduação em História – UNESP, Assis, 1996.

CASTELLS, Manuel. O poder da identidade. v II 2 ed. trad: Klauss Brandini Gerhardt. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 2000.

FAUSTO, Boris. História concisa do Brasil. São Paulo, Edusp, s/d.

FERREIRA, Antonio Celso. A epopéia bandeirante: letrados, instituições, invenção histórica (1870-1940). São Paulo, Editora da UNESP, 2002.

PRAXEDES, Rosângela Rosa. “Classe média negra no Brasil: negros em ascensão social”. Revista Espaço Acadêmico, n. 20, jan, 2002.

PRAXEDES, Walter. “Estudos culturais e ação educativa”. Revista Espaço Acadêmico, n. 27, ago, 2003.

SILVA, Antonio Ozaí da. “Internet e militância virtual: a revolução está no ar”. Revista Espaço Acadêmico, n. 24, maio, 2003.



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