Por CELUY ROBERTA HUNDZINSKI DAMÁSIO
Doutoranda em Filosofia (Universidade Paris X - Nanterre)


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Rediscutindo a eutanásia

 

O Conselho Europeu tem discutido a eutanásia sem chegar a um consenso. A divisão é tão clara que, tendo uma dimensão geográfica, chega a causar questionamentos. Os países nórdicos querem sua legalização enquanto o sul continua com a inabalável opinião contrária. Seria isso uma influência climática, política, cultural de cada região?

Os argumentos de ambos os lados não são suficientes para converter a oposição. Os favoráveis alegam que os doentes devem ter plena autonomia para decidirem se querem continuar sofrendo ou não (em casos de inconsciência do doente, caberia à família tal decisão); além disso cada vez mais médicos assumem que aceitariam praticar o ato em segredo.

De outro lado os não favoráveis lutam para que a vida seja mantida em não importa qual situação, apoiam-se no que diz a declaração do Conselho Permanente de 1991, onde: "todo homem tem o direito e o dever, em caso de doença grave, de receber os cuidados necessários para conservar a vida e a saúde."

Aceitar a eutanásia seria, para esses últimos, um regresso científico. Se chegamos ao ponto de encontrarmos a cura para várias doenças, seria retroceder ao admitir a interrupção de um tratamento ou, mesmo, a indução à morte.

Tem-se detectado casos de pessoas que, após anos em coma, apresentaram melhoras consideráveis e até cura total. Entretanto, ainda são maiores os resultados opostos a esses.

Nos últimos tempos tenho observado (tanto na França como no Brasil) pessoas reivindicando tal prática, inclusive mães que pedem a morte de seus filhos por não terem condições de dedicarem-se devidamente às suas deficiências. Essa atitude é deveras chocante, porém, é preciso ouvir o grito mais forte que vem por traz desses pedidos: na verdade, há um clamor por melhores condições de vida, maior assistência e menos discriminação para com os doentes e deficientes. Quando se roga pela morte procura-se, verdadeiramente, a vida. Uma vida digna onde caiba o convívio com as diferenças, com as limitações de cada um. Uma vida que respire esperança ainda que ela seja transportada por tubos.

Ao menos, a Assembléia Nacional Francesa decidiu criar uma missão de informação parlamentar sobre o assunto e uma grande conferência acontecerá nos dias 14 e 15 de janeiro de 2004. Talvez até lá as idéias estejam mais maduras e o país, que diz ser a favor da legalização com algumas ressalvas, possa ter uma resolução final.

A questão é complexa, tomar uma posição é um caso de vida ou morte. Qual seria a melhor opção? Se temos a liberdade de escolha, tenhamos claras as consequências provocadas por ela. Agora, no inicio do seculo XXI, devemos ultrapassar fronteiras, culturais ou políticas, pois, de norte a sul, cabe ao homem essa decisão.

 

CELUY ROBERTA HUNDZINSKI DAMÁSIO

   
* Discussões e informações no site: www.la-Croix.com


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