Por

ANTONIO OZAÍ DA SILVA
Professor no Departamento de Ciências Sociais (Universidade Estadual de Maringá), doutorando em educação (FEUSP) e membro do Núcleo de Estudos de Ideologia e Lutas Sociais (NEILS/PUC-SP)

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Aqui jaz fulano de tal... 

e a sua superioridade!

 

Para Maurício Tragtenberg (1929-1998),

que cultivou e ensinou a humildade dos sábios.

 

 

 

“Matamos o tempo; o tempo nos enterra”.

Machado de Assis

 

“Por que vos ensoberbece o orgulho, se não sois mais do que insetos imperfeitos,

incompletos no seu desenvolvimento?”.

Dante Alighieri

 

Ekatierina Ivânovna, personagem de Dostoiévski, em Crime e Castigo, é uma mulher de família relativamente próspera, mas que caiu na pobreza. Seu marido, alcoólatra, morre atropelado e, conforme o costume da época, ela oferece um repasto em memória do defunto. Mesmo na miséria, doente, com três filhos para criar, sem renda alguma e dependente de caridade, Ivânovna gasta boa dos vinte rublos, que recebeu como ajuda para os preparativos do funeral, para preparar o banquete cerimonial e mostrar aos seus convidados que o falecido, e também ela, não eram de classe inferior a eles, mas até mesmo superior.

Dostoiévski chama a atenção para este orgulho especial, que leva as pessoas, ainda que pobres, a “esgotarem as suas últimas forças e até o último copeque apenas com o fim de não fazerem pior que os outros e de que os outros não façam má opinião acerca deles”. (2003: 351) Por que esta necessidade de manter as aparências? Seria o receio da desaprovação ou o auto-engano de parecer superior aos outros?

Esta necessidade é tão antiga quanto as sociedades humanas: nos impérios antigos, nas cortes e entre os burgueses, na classe média moderna ou qualquer grupo humano privilegiado, estabelecem-se costumes, comportamentos e rituais específicos que indicam distinção. No século XVI, Montaigne observava que:

“Seja o que for, artifício ou natureza, isso que nos imprime a condição de viver da comparação com outrem, faz-nos muito mais mal que bem. Privamo-nos daquilo que nos é útil para atender às aparências e à opinião dos outros. Não nos importa tanto saber o que é nosso ser em si e em efeito quanto saber o que é ele para o conhecimento publico. As próprias riquezas do espírito e a sabedoria nos parecerão infrutíferas se só forem desfrutadas por nós, se não forem produzidas para a vista e a aprovação alheia”. (1998: 19)

Isto produz situações interessantes. Mesmo com a decadência, certos indivíduos ainda agem como se continuassem nobres, ricos, privilegiados; ainda que imersos na miséria, sentem-se superiores aos seus companheiros de infortúnio. Tomasi de Lampedusa, em O Leopardo, relata como a decadente nobreza italiana estabelece laços com a burguesia ascendente, em especial, através do subterfúgio do casamento. Como podemos observar no diálogo de don Calogero com o Príncipe Fabrizio acerca do casamento de Angelica, filha do burguês, com Tancredi, da casa Falconeri. O Príncipe, homem inteligente e perspicaz, sabe que deve se render aos novos tempos e que o futuro do sobrinho, depende menos da tradição dos títulos da nobreza e muito mais do dinheiro do burguês. Num arrombo de humildade, que significa humilhação social, o Príncipe afirma:

– Mas, don Calogero – prosseguia o príncipe, mastigando o que restava da pílula –, se é inútil falar-lhe da antiguidade da casa Falconeri, é, infelizmente também inútil dizer-lhe, porque já o sabe, que as atuais condições financeiras do meu sobrinho não correspondem à grandeza do seu nome. (LAMPEDUSA, 1974: 138)

O burguês, por seu turno, tem consciência do seu poder econômico, mas, mesmo assim, se apega à moral da superioridade fundada na tradição nobiliárquica. É ridículo, e ao mesmo tempo engraçado, sua tentativa de convencer o Príncipe de que também tinha origens nobres:

– Príncipe, sei que o que vou dizer pouca impressão vos fará, pois descendeis dos amores do Imperador Tito e da Rainha Berenice; mas também os Sedàra são nobres; até aqui foi uma família infeliz, enterrada na província, sem lustro; mas tenho os papéis em ordem nas minhas gavetas, e um dia, saber-se-á que o vosso sobrinho casou com a Baronesa Sedára del Biscotto, título concedido por sua Majestade Ferdinando IV aos secrezie do porto de Mazzara. (Id.: 140-141)

Também os nossos burgueses procuravam se distinguir a partir da compra de títulos que lhes dessem o status de barões, condes, etc., ou pela aquisição dos favores da casa real. Neste contexto, o bacharelismo também se configurou em simbologia distintiva: não bastava ostentar a riqueza, era preciso ter o diploma da universidade. Assim, os senhores das famílias ricas enviavam os filhos para estudar na Europa – condição não só de prestígio, mas de possibilidade de um bom emprego na burocracia do Estado ou ascensão no mundo da política.

A literatura nos fornece exemplos da importância dada ao bacharelismo enquanto ideologia de distinção. É o caso exemplar de Brás Cubas, personagem de Machado de Assis. Este, com fina ironia, narra que fora estudar na Universidade de Coimbra, onde o aguardava “as suas matérias árduas”, estudadas “mediocremente”. Nem por isso, Brás Cubas deixou de ser diplomado:

“No dia em que a Universidade me atestou, em pergaminho, uma ciência que eu estava longe de trazer arraigada no cérebro, confesso que me achei de algum modo logrado, ainda que orgulhoso. Explico-me: o diploma era uma carta de alforria; se me dava a liberdade, dava a responsabilidade. Guardei-o, deixei as margens do Mondego, e vim por ali fora assaz desconsolado, mas sentindo já uns ímpetos, uma curiosidade, um desejo de acotovelar os outros, de influir, de gozar, de viver, – de prolongar a Universidade pela vida adiante...” (1988: 30-31)

A outro dos nossos romancistas maiores, Lima Barreto, também não passou despercebido que o acesso aos títulos universitários patenteava distinção econômica e simbólica, argumento de autoridade e superioridade. Em Recordações do Escrivão Isaías Caminha, o rapaz, mulato e pobre, emigra para a cidade e, sofrendo as agruras da adaptação e os preconceitos racistas, sonha em ser doutor, isto é, em fazer o curso superior. Adquirir o diploma, o título de Doutor, representa o sonho de redenção da sua condição social:

“Ah! Seria doutor! Resgataria o pecado original do meu nascimento humilde, amaciaria o suplício premente, cruciante e onímodo de minha cor...”. (...) Ah! Doutor! Doutor!... Era mágico o título, tinha poderes e alcances múltiplos, vários, polifórmicos... Era um pallium, era alguma coisa como clâmide sagrada, tecida com um fio tênue e quase imponderável, mas a cujo encontro os elementos, os maus olhares, os exorcismos se quebravam. De posse dela [a carta, diploma], as gotas de chuva afastar-se-iam transidas do meu corpo, não se animariam a tocar-me nas roupas, no calçado sequer. O indivíduo distribuidor de raios solares escolheria os mais meigos para me aquecer, e gastaria os fortes, os inexoráveis, com o comum dos homens que não é doutor”. (1995: 26)

A que ponto chega a vaidade humana: o título de doutor não apenas lhe aparece como redentor como, em sua imaginação, o eleva acima dos demais humanos até mesmos aos olhos da divindade que distribui os dons da natureza. E, de fato, há quem imagine ser a própria divindade!

Lima Barreto expõe com maestria o fetiche do diploma, do título de doutor. Ouso afirmar que nem toda a teoria sociológica seria capaz de apreender o significado exato do sentimento de superioridade expresso em sua posse, tão bem descrito por este escritor:

“Oh! Ser formado, de anel no dedo, sobrecasaca e cartola, inflado e grosso, como um sapo-intanha antes de ferir a martelada à beira do brejo, andar assim pelas ruas, pelas praças, pelas estradas, pelas salas, recebendo comprimentos: Doutor, como passou? Como está, doutor? Era sobre-humano!... (...)

Quantas prerrogativas, quantos direitos especiais, quantos privilégios, esse título dava! Podia ter dois e mais empregos apesar da Constituição; teria direito à prisão especial e não precisava saber nada. Bastava o diploma. Pus-me a considerar que isso devia ser antigo... Newton, César, Platão e Miguel Ângelo deviam ter sido doutores!

Foram os primeiros legisladores que deram à carta esse prestígio extraterrestre... Naturalmente, teriam escrito nos seus códigos: tudo o que há no mundo é propriedade do doutor, e se alguma coisa outros homens gozam, devem-no à generosidade do doutor. Era uma outra casta, para a qual entraria, e desde que penetrasse nela, seria de osso, sangue e carne diferente dos outros – tudo isso de uma qualidade transcendente, fora das leis gerais do Universo e acima das fatalidades da vida comum”. (Id. 26-27)

De “osso, sangue e carne”, tão mortal e humano, demasiadamente humano. E, no entanto, essa necessidade premente de sentir-se superior, sobre-humano, acima dos mortais. São os paroxismos da vaidade que acometem até mesmo os pobres e desvalidos.

Quem conhece o campo acadêmico e tem o mínimo de sensibilidade, o suficiente para não se deixar cegar pela vaidade, saberá reconhecer o quanto as palavras de Lima Barreto expressam comportamentos atuais. É claro, o mundo mudou, mas permanece a necessidade de distinção e muitos ainda se consideram superiores, quase que imortais!

Como nota BOURDIEU (1974: 107), os intelectuais constituem sociedades de admiração mútua. Há no campo intelectual uma propensão ao narcisismo, à pretensão da superioridade fundamenta em titulações e diplomas. Se a vaidade é natural do humano, entre os intelectuais ela é favorecida pelo caráter da sua própria atividade – o que Bourdieu denomina de circulação circulante, no sentido de que estes produzem bens simbólicos a serem consumidos por seus próprios pares e, também, por serem, simultaneamente, produtores e consumidores dos próprios bens e dos bens de outros. Assim, o status dos intelectuais depende do reconhecimento dos pares:

“Afora os artistas e os intelectuais, poucos agentes sociais dependem tanto, no que são e no que fazem, da imagem que têm de si próprios e da imagem que os outros e, em particular, os escritores e artistas, têm deles e do que eles fazem. “Há qualidades, escreve, Jean-Paul Sartre,que nos chegam unicamente através dos juízos do outro”. (Id.: 108)

O artista, o escritor, o intelectual, estão submetidos à lei da dialética da distinção. Ou seja, pela maneira como funciona o campo intelectual, este tem que, necessariamente, perseguir a distinção. Para BOURDIEU, isto não constitui um defeito pessoal, um “vício da natureza” humana egoísta. Ele observa que a mesma lei que impele o intelectual a perseguir a distinção “impõe também os limites no interior dos quais tal busca pode exercer legitimamente sua ação”.(Id: 109)

Ou seja, não é o reino do vale tudo! BOURDIEU rompe com a hipocrisia de uma falsa humildade que nega a real necessidade de distinguir-se. Ele adverte que não jogar o jogo é o mesmo que decretar a própria morte social. (2000: 85)

Por que um título acadêmico – ou a simples perspectiva de adquiri-lo – alimenta comportamentos arrogantes? E, observemos, nem estamos tratando da odiosa superioridade própria dos espíritos preconceituosos e imbuídos de valores racistas, mas dos procedimentos comumente observáveis no cotidiano, em especial nos espaços onde as almas vaidosas transitam em maior número. Aliás, a arrogância que induz ao preconceito social caminha irmanada com o racismo.

Mais do que uma opinião, um comportamento, a afirmação da superioridade constitui em arma social e política necessária à manutenção da distinção – se não econômica, ao menos simbólica – de determinados extratos da sociedade em relação a outros. Não constitui um problema meramente individual: o indivíduo não está solto no ar; seu chão social, a família, o campo que atua, suas relações sociais, influenciam determinantemente o habitus incorporado. Isto explica porque determinados indivíduos negam, na prática social, suas origens humildes. Estes assimilam os valores do novo estrato social ao qual se inserem e passam a pensar á maneira superior, procurando distinguirem-se dos de baixo e também em relação ao grupo social que se incluem.

Um comportamento peculiar nestes casos é se pautar por referências sociais e culturais dos grupos sociais hierarquicamente bem-sucedidos. Assim, a classe média economicamente remediada, perdulária e dependente do crédito bancário, age à maneira de Ekatierina Ivânovna, gastando o que não tem para manter as aparências. “Em todas as nossas vicissitudes, comparamo-nos a quem está acima de nós e olhamos para os que estão melhor; comparemo-nos ao que está abaixo: não há ninguém tão desazado que não encontre mil exemplos em que se consolar”, ensina Montagne. (1998: 26)

De todos os livros que li até o presente, um dos que mais me fizeram refletir sobre este tema foi Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. Com a morte, tudo se resolve: afinal que superioridade resiste aos vermes que dilaceram o corpo? Todos os epitáfios imagináveis são incapazes de nos livrar dessa vil condição.

Enfim, a morte nos iguala. Mas este raciocínio, se aprofundado, revela-se ilusório e ingênuo. A morte não é apenas um fenômeno natural: ela é também cultural e social. A morte é a mesma, mas a maneira de morrer e de proceder com o morto são diferentes. Por exemplo, alguns mortos são enterrados em rituais de pompa, nos melhores cemitérios, nas melhores condições – se isto para o morto é indiferente, não o é para a sua família; e, no final das contas, todo o ritual procura atestar a sua superioridade; outros são enterrados como indigentes; e, ainda outros, endividam-se para garantir as condições mínimas para o funeral.

Não obstante, ainda que as diferenças persistam até mesmo no ato de tratar a morte e o morto, nada nos livrará de morrer, Todos os títulos acadêmicos, riquezas imaginárias ou reais e sentimentos de superioridade não nos livrarão do inexorável: somos mortais. Quem sabe, aqueles que se sentem superiores e agem como tais, assim o fazem apenas para desafiar esta verdade? Não seria a vaidade um artifício dos incapazes de enfrentar a consciência da finitude? Não seria o agir de maneira superior o último suspiro contra a morte?

Muitos se recusam a admitir a própria morte. Não adianta: nada a evitará. Talvez, então, seja aconselhável encarar a vida com mais simplicidade e humildade: viveremos melhor, morreremos melhor... “A morte nos liberta de tudo: de toda hipocrisia”, escreve Machado de Assis. (1988: 34) De qualquer forma, a vaidade e sentimento de superioridade serão enterrados – ou incinerados – com o nosso corpo. “Porque, em suma, já não há vizinhos, nem amigos, nem inimigos, nem conhecidos, nem estranhos; não há platéia”. (Id.)

     

Bibliografia

ALIGHIERI, Dante. (2003) A Divina Comédia. São Paulo: Nova Cultural.

BARRETO, Lima. (1995) Recordações do Escrivão Isaías Caminha. São Paulo: Ática.

BOURDIEU, P. (1974) A economia das trocas simbólicas. São Paulo: Editora Perspectiva.

__________. (2000) O Poder Simbólico. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil.

DOSTOIÉVSKI, F. (2003) Crime e Castigo. São Paulo: Nova Cultural.

LAMPEDUSA, Giuseppe Tomasi di. (1974) O Leopardo. São Paulo: Abril Cultural (Clássicos Modernos, 5)

MACHADO DE ASSIS, Joaquim Maria. (1988) Memórias póstumas de Brás Cubas. Santiago (Chile), Editora América do Sul LDA. (Biblioteca de Ouro da Literatura Universal)

MONTAIGNE. (1998) Sobre a Vaidade. São Paulo: Martins Fontes.



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