Por RUDÁ RICCI
Sociólogo, Doutor em Ciências Sociais, Professor da PUC (MG). Autor de Terra de Ninguém (Ed. Unicamp) e Diretor da Consultoria em Políticas Públicas (CPP)


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Os intelectuais e a política lulista

 

Faltando apenas três meses para o governo Lula completar seu primeiro ano, já é possível delinear com mais segurança sobre o perfil de sua gestão. Trata-se de uma gestão marcada pelo pragmatismo sindical. Lula, enfim, revela a cada dia a origem de sua cultura política. O pragmatismo sindical brasileiro possui uma dupla característica histórica. A primeira, forjada no pós-guerra e que entra em declínio com o golpe militar de 64, tinha como principal artífice o Partido Comunista Brasileiro. Muito já se interpretou do ideário do “Partidão”. Vale, para o tema em pauta, destacar algumas de suas características:

a)     Superação dos resquícios feudais da política e economia brasileira. Esta proposição, que muitos estudos demonstraram ser equivocada, sustentou o arco de alianças políticas que envolvia o campesinato pobre, o operariado urbano e o empresariado progressista. A intenção era fortalecer um projeto nacional-desenvolvimentista, consolidando o mercado interno, as elites nacionais e disseminando as relações capitalistas em nossa sociedade. Nas palavras dos seus autores, tratava-se de desatar os nós das forças produtivas capitalistas;

b)     Ação política etapista. O etapismo significava a mudança gradativa da correlação de forças políticas do país. Seria uma tradução livre da revolução burguesa nacional. O discurso era rarefeito, diluído em diversas pautas populares, chegando próximo do populismo;

c)     Interlocução privilegiada com o Estado. A convicção política era que o Estado seria o promotor das transformações estruturais da sociedade. A ação e a pauta sindicais eram, portanto, sempre nacionais e voltadas para influenciar a agenda estatal. Vários depoimentos de lideranças sindicais da época revelam as manobras políticas marcadas por acordos e inserção nas agências estatais.
A segunda herança histórica é a que se constituiu nos anos 80, no processo de liberalização política do país. O discurso das lideranças sindicais autodenominadas “autênticas”  diferenciava-se dos líderes do “Partidão” por sustentarem a necessária independência (ou autonomia) frente ao Estado e partidos políticos. Privilegiavam, ainda, a partir desta concepção de autonomia política, pautas diretamente relacionadas com o dia-a-dia da fábrica ou local de trabalho. A organização de base contrapunha-se à direção de cúpula que arquitetava, quase desgarrada das suas bases sindicais, uma ampla articulação de forças para influenciar a agenda estatal.

Contudo, o discurso das principais lideranças sindicais “autênticas”, tendo Lula à frente, não se diferenciava da geração passada em relação aos métodos de negociação e definição de alianças políticas. Ao longo da década de 80, Lula lapidou seu discurso, mas manteve sempre a veia pragmática. Da famosa frase em que afirmava que não era político de esquerda, mas metalúrgico, na virada da década de 70, chegou à dura crítica aos marxistas do PT, afirmando, num encontro paulista do partido em 1986, que estes liam Marx do alto de postes de luz enquanto os trabalhadores caminhavam nas calçadas, logo abaixo. Lula construiu-se politicamente aliando seu pragmatismo sindical com uma agenda de mudança social que se aproximava de uma proposição cristã progressista (combate à pobreza, liberdade de expressão, apelo comunitarista, atenção à base social e, novamente, forte pragmatismo e imediatismo no atendimento às demandas mais imediatas dos segmentos desfiliados socialmente).

Este, obviamente, não foi o ideário forjado no interior do PT. O PT sofreu, ao menos em sua primeira década, várias influências que, num sincretismo original, concebeu um vigoroso ideário político. Contribuíram para este ideário as correntes trotskistas que estiveram desde a primeira hora na sua fundação [1] , lideranças e teólogos da Teologia da Libertação, intelectuais que haviam rompido com a ortodoxia leninista-marxista e lideranças de movimentos sociais vinculados às comunidades eclesiais de base.

Em relação aos intelectuais, vale destacar o papel desempenhado pelos núcleos paulista e carioca na origem do partido. O núcleo carioca sofria uma influência maior da tradição de pensamento do “Partidão” e caminhava para uma ruptura a partir das elaborações de Gramsci. O núcleo paulista, por seu turno, estava mais próximo das elaborações que ocorriam na França e Inglaterra, envolvendo sociólogos e historiadores que também haviam rompido com as tradições comunistas. Neste último caso, autores como Cornelius Castoriadis, Edward Thompson e Claude Lefort eram fartamente citados. Obviamente que estas influências teóricas eram apenas referências e não havia uma caricatura tão definida regionalmente. Mas ocorriam ênfases. Em São Paulo, os conceitos de autonomia e discurso hegemônico eram mais predominantes nas elaborações dos intelectuais petistas. No Rio de Janeiro, a construção de um desenho de estrutura democrática como princípio da ação política era mais presente.

Os intelectuais, contudo, não chegaram a constituir uma corrente ou núcleo de elaboração próprio. Apenas uma tentativa mais duradoura, ocorrida em São Paulo e que acabou gerando a revista Desvios (contando com a presença ativa de Marilena Chauí e Eder Sader, entre outros) permaneceu articulando pesquisadores sociais por algum tempo. Tenderam, contudo, a se articularem e oferecerem seus serviços profissionais no interior das instâncias partidárias. Ao longo da década de 80, não foi raro o posicionamento explícito de alguns em relação ao seu papel de intelectual orgânico, expressão cara aos gramscianos. O mais comentado expoente desta vertente foi Francisco Weffort, por muito tempo indicado como ghost writer de Lula.

Os anos 90, contudo, redefiniram os rumos do PT e a clara opção eleitoral limitou  o papel dos intelectuais petistas. As discussões conceituais e estratégicas foram nitidamente superadas pelas elaborações táticas e pela profissionalização e especialização da administração partidária. O pragmatismo retornou com crescente influência em todas instâncias partidárias. O olhar na campanha do dia, nos acordos locais e montagem da complexa engenharia eleitoral foram alterando os contornos, inclusive ideológicos, dos programas de campanha. Esta constatação é de fácil comprovação a partir de uma rápida comparação dos programas de campanha de Lula de 1989 (ainda fortemente influenciado pelas discussões envolvendo movimentos sociais e intelectuais do partido), 1994, 1998 e 2002 (este último, elaborado por técnicos e quadros da administração partidária, seminários realizados na ong criada por Lula e reorganizada a partir da estrutura de marketing eleitoral).

Em outras palavras, ao longo da última década do Século XX, o partido criou uma importante estrutura administrativa, profissionalizou-se e redefiniu suas metas e objetivos estratégicos, aumentando o grau de participação e influência de Lula e diminuindo consideravelmente o papel dos intelectuais na formulação geral do PT.

Não por outro motivo, os intelectuais petistas encontram-se numa situação de relativo incômodo. A cada dia, o pragmatismo do governo federal, refletido nas ações da Casa Civil – estabelecendo acordos com a base aliada no Congresso Nacional e governadores – e Ministério da Fazenda - orquestrando o duro controle monetário por que passa o país –, gera uma declaração raivosa de algum intelectual de destaque na história do partido. Este foi o caso de Marilena Chauí que, ainda que timidamente, reagiu à indicação pragmática de Gilberto Gil como Ministro da Cultura. Em seguida, e por diversos momentos, veio à público a revolta de Francisco de Oliveira, que chegou a afirmar que o medo havia vencido a esperança no governo Lula. Maria Conceição Tavares foi outro expoente deste segmento social do partido que criticou duramente o pragmatismo na condução da política econômica do país e a fragilidade das ações na área social. Muitos outros desacordos se seguiram. Mas estes três exemplos indicam o desconforto reinante. Não são intelectuais vinculados à correntes, sempre estiveram próximos a Lula e ao núcleo dirigente do partido. O que parece que tentam explicitar é que o pensamento estratégico foi vencido pelo pragmatismo político.  Algo como uma cantilena weberiana, que divorciou a vocação política da vocação intelectual.

Neste vácuo de elaboração estratégica dos partidos políticos brasileiros, incluído, agora, o PT, o papel dos intelectuais parece ainda mais urgente. Necessitamos rever nosso diagnóstico para o país, nossos desafios, nossa pauta de urgências sociais e políticas.

A agenda nacional e, principalmente, o diagnóstico do país foi pautado por estudos sociológicos dos anos 30 aos anos 60 (como é o caso de Oliveira Vianna, Caio Prado Jr., Florestan Fernandes, Gilberto Freyre, Raimundo Faoro, Fernando Henrique Cardoso, entre tantos outros). Em seguida, passamos a tentar decifrar o país e a definir nossa agenda nacional a partir das análises econômicas. Reduzimos significativamente o escopo de análise, porque as teorias econômicas nacionais deslizaram gradativamente da análise sobre as estruturas de organização e dinâmica do Brasil e o projeto nacional de desenvolvimento (como no caso dos estudos de João Manoel Cardoso de Melo e Maria Conceição Tavares), para a mera tecnalidade da operacionalização dos mercados e indicadores econômico-financeiros. Amartya Sen já havia denunciado tal deslocamento nas teorias econômicas que fugiram da sua origem – os estudos sobre a ética econômica – para caminharem para as precisões técnicas da operacionalização dos mercados. Na contramão, muitos intelectuais das ciências sociais e políticas rebelaram-se contra o discurso economicista e procuraram construir uma outra percepção sobre o país, na esteira da radicalização da experiência democrática, ampliando os espaços e os mecanismos de deliberação pública. Grande parte desses intelectuais aproximou-se das campanhas e programas petistas.

Entretanto, o forte pragmatismo político que nos acomete desarticulou a produção teórica sobre o país. A agenda nacional parece perdida. O país voltou a especializar a ação política, diminuindo o grau de influência de movimentos sociais e intelectuais na construção de uma pauta de desenvolvimento.

Por tantos motivos, a pauta sobre o papel dos intelectuais na permanente (re)construção nacional se faz mais urgente.


[1] Algumas testemunhas sustentam que o partido foi fundado, em 1979, em Belo Horizonte, por algumas organizações trotskistas, destacando-se os “morenistas” (Convergência Socialista), os “lambertistas” (Liberdade e Luta) e o “secretariado da 4a Internacional” (Democracia Socialista). A ausência de lideranças operárias de destaque acabou por gerar um recuo dessas organizações que, após negociação com os sindicalistas autênticos, mediado por expoentes da Teologia da Libertação, refundaram o PT, agora dirigido majoritariamente pelos sindicalistas liderados por Lula.

RUDÁ RICCI

     

 



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