Por PAULO ROBERTO DE ALMEIDA
Doutor em Ciências Sociais, diplomata, autor de vários trabalhos sobre relações internacionais e política externa do Brasil


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Três vivas ao processo de globalização: crescimento, pobreza e desigualdade em escala mundial (I)

 

No começo era a luz, depois fez-se o caos. Tal poderia ser a descrição da criação, em etapas, de um trabalho meu, redigido ao início de 2002, para tratar dos impactos da globalização no mundo contemporâneo. Ao concebê-lo originalmente, eu tinha como princípio organizador, até como dedução das tendências econômicas em curso, que o processo de globalização era eminentemente positivo para os indivíduos e os países, nos mais diversos quadrantes do globo. Depois, ao ler a literatura disponível sobre o assunto, fui “convencido”, por alguns estudos aparentemente sérios, de que esse processo poderia efetivamente acarretar alguns desequilíbrios sociais e econômicos, principalmente sob a forma de concentração da renda e de aumento das desigualdades, dentro e entre os países. Com base nesse quadro, compus o ensaio, que integrou uma compilação de trabalhos recentemente publicados. Continuando a aprofundar os estudos em torno do tema, como sempre faço, descobri que pelo menos duas afirmações minhas incluídas no ensaio eram temerárias e talvez desprovidas de fundamentação empírica. Do ponto de vista das boas práticas sociológicas, isso representa o caos. Essa época de trevas foi finalmente superada por uma nova “iluminação”, como passo agora a explicar.

1. Mea culpa: miserere nobis illusionis est

Em curto ensaio analítico, intitulado “A globalização e as desigualdades: quais as evidências?”, publicado em meu livro A Grande Mudança: conseqüências econômicas da transição política no Brasil (São Paulo: Editora Códex, 2003; sumário disponível no link: http://www.pralmeida.org/htmlLivros/2FramesBooks/58GrdeMudanca.html), tratei, de modo dissertativo — isto é, não econométrico — das acusações mais freqüentes feitas (de maneira algo impressionista, reconheça-se desde logo) ao processo de globalização. Segundo seus detratores, a globalização seria responsável por tendências à divergência econômica e à concentração de ativos na economia mundial, pelo suposto aumento da pobreza global (como resultado dos fenômenos citados), por uma indução perversa às crises financeiras (produto da abertura comercial e aos “capitais voláteis”) e pela mais do que “inevitável” (aos olhos dos críticos mais acerbos) exacerbação das desigualdades na distribuição de renda entre países e dentro dos países, isto é, entre os vários estratos de cidadãos.

Mesmo considerando, no ensaio acima referido (ver, na Terceira Parte, “Sinais trocados no cenário internacional”, o texto do capítulo 8, pp. 117-122; disponível no link: http://www.pralmeida.org/docs/859Globalizacao.html), que a globalização estava sendo na verdade utilizada como uma espécie de bode expiatório para as disfunções estruturais ou conjunturais decorrentes de políticas nacionais mal desenhadas ou mal aplicadas (ou ambas, ao mesmo tempo), eu concebia, e até admitia explicitamente, que a globalização poderia efetivamente ser responsável por um certo aumento nos índices de concentração e de desigualdade de renda existentes entre e dentro dos países. Com base na leitura de trabalhos publicados por economistas, alguns atuando como consultores do Banco Mundial, eu escrevia de modo quase imperturbável:

“Os dados mais consistentes compilados por economistas independentes e pelos organismos multilaterais encarregados da temática social indicam que as duas últimas décadas foram marcadas por uma tendência aparentemente irresistível ao crescimento das desigualdades no plano global, movimento observável tanto na divergência cada vez maior entre países ricos e pobres como no aumento da concentração de renda nos estratos já ricos das populações nacionais. São fatos que não podem ser negados por estudiosos responsáveis, ainda que muitas dúvidas persistam quanto à interpretação dessas tendências de curto (?) prazo” (cf. op. cit., pp. 117-118).

Reconhecendo, por outro lado, uma tendência ao encurtamento das distâncias sociais nos três primeiros quartos do século XX (pelo menos nas economias capitalistas avançadas), eu ressalvava, entretanto, ainda com base nesses estudos, que tinha ocorrido uma “inversão da tendência desde então, ou seja, a renda tornou-se mais desigualmente distribuída nas duas últimas décadas, que correspondem, grosso modo, à aceleração da terceira onda da globalização capitalista…” (p. 118). Eu procedia, então, ao exame dos fatores, tanto estruturais quanto conjunturais, que seriam eventualmente responsáveis por esse aumento da desigualdade mundial na repartição da renda, admitida como verdadeira e efetiva, e alinhava, no curso da discussão, dados retirados da demografia, da evolução dos índices de produtividade e no campo do desenvolvimento tecnológico, do comércio internacional e da globalização financeira, com o objetivo de corrigir o que poderia haver de distorcido ou exagerado nessa visão pessimista da globalização, tida por muitos como responsável por todos os males e misérias do mundo contemporâneo.

Pois bem: volto humildemente ao tema, nesta oportunidade, para admitir, por um lado, que eu estava errado ao pressupor (ou admitir ingenuamente) aqueles efeitos de tipo negativo alegadamente provocados pela globalização e, por outro, para manifestar minha solidariedade ante o previsível sentimento de frustração por parte de todos aqueles que são ideologicamente opostos ao processo de “globalização capitalista”, uma vez que lhes foi, assim, insidiosamente subtraído um dos mais poderosos argumentos contrários à globalização, justamente o da suposta associação, e mesmo a relação causal — como alguns mais apressados não deixaram de estabelecer — entre aquele processo e os efeitos concentradores apontados.

Desde logo reconheço o meu erro e ofereço de imediato uma correção. Não, contrariamente ao que eu ali escrevi, com base em documentos como o Relatório do Desenvolvimento Humano, do PNUD, não se trata de “fatos”; se trata, antes, de processos complexos que dependem de mensuração adequada e de uma avaliação precisa. Mas mesmo que eles fossem “fatos”, eles não estariam imunes ao que vulgarmente se chama de “teste da realidade”, pois eles poderiam ser negados — como de fato o foram — por estudos ainda mais responsáveis e precisos do que aqueles que consultei anteriormente para compor meu ensaio, como passo agora a relatar.

Tive recentemente a oportunidade de conhecer os trabalhos e o próprio autor de alguns brilhantes estudos econômicos sobre a distribuição de renda em escala global, o professor da Columbia University e catalão de origem Xavier Sala-i-Martin, que mantém uma das páginas pessoais mais engraçadas — pelo menos para os que apreciam humor de economista — que já conheci na Internet (http://www.columbia.edu/~xs23/home.html). Contrariamente às supostas tendências ao crescimento das desigualdades, Sala-i-Martin, com base em novas metodologias e um diferente foco analítico (o indivíduo, não o país; o consumo, antes que a renda), traz evidências contundentes de que as taxas de pobreza e as desigualdades globais na repartição de renda têm na verdade declinado nas duas últimas décadas, em contraposição ao que é relatado no Relatório do Desenvolvimento Humano, por exemplo.

Essas tendências positivas detectadas por Sala-i-Martin não estariam tanto associadas à globalização quanto à manutenção de altas taxas de crescimento em alguns grandes países — como China e a Índia, por exemplo —, mas não se pode tampouco descartar uma associação indireta e derivada desses dois impulsos com o processo de globalização conhecido no mundo desde os anos 1980. Uma apresentação jornalística das críticas mais importantes — e competentes — de Sala-i-Martin à metodologia e à abordagem dos Relatórios sobre o Desenvolvimento Humano, foi publicada em matéria do New York Times e transcrita em 19 de agosto de 2002 no jornal O Estado de São Paulo, sob o título “Globalização reduziu a pobreza, segundo estudo” (disponível no link: http://www.estado.estadao.com.br/editorias/2002/08/19/eco038.html).

Continua na próxima edição...

 

PAULO ROBERTO DE ALMEIDA

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