Por EVA PAULINO BUENO
Depois de quatro anos trabalhando em universidades no Japão, Eva Paulino Bueno leciona Espanhol e Português na St. Mary’s University em San Antonio, Texas. Ela é autora de Mazzaropi, o artista do povo (EDUEM 2000), Resisting Boundaries (Garland, 1995), Imagination Beyond Nation (University of Pittsburgh Press, 1999), Naming the Father (Lexington Books, 2001), e I Wouldn’t Want Anybody to Know: Native English Teachi ng in Japan (JPGS, 2003).


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Por quem os sinos tocam?

 

Então, o onze de setembro aqui nos Estados Unidos, assim como no mundo inteiro, veio e foi. Enquanto eu escrevo estas linhas, nas imagens da televisão, nas entrevistas nos rádios, e nas fotos dos jornais  ainda se vêem e ouvem ecos das comemorações desta data. E não poderia ser de outra maneira. Assim como para a geração anterior a pergunta de "Onde você estava quando John Kennedy foi assassinado?" é comum, para esta geração de jovens americanos de hoje a pergunta tem que, necessariamente, ser sobre onde a pessoa estava quando houve o ataque às torres do World Trade Center. Mais que o ataque ao Pentágono, a destruição das torres, que matou tantos civis, brancos, negros, latino americanos, judeus, muçulmanos, asiáticos, bombeiros, lavadores de janelas, cozinheiros, vendedores de ações, engenheiros, e tantos outros, é o que galvaniza a atenção. Paralelamente, um outro lugar em que civis morreram como conseqüência do ataque, nas redondezas de Pittsburgh na Pennsylvania, também provoca grandes emoções.

Nas imagens das homenagens em Nova Iorque, Washington, e Pittsburgh, muita lágrimas dos familiares, muito palavrório dos políticos. Muitas flores, bandeiras, canções. Um menino, cujo pai trabalhava em um escritório nas torres, leu um poema em que fala da sua dor, que não se abate.  Eu, como expectadora destas imagens, fico imaginando a dor,o escândalo da perda, e mais o sofrimento daqueles que sobreviveram com queimaduras, membros despedaçados, e ainda hoje continuam em tratamentos dolorosos, sem saber ao certo se algum dia vão voltar a andar, a viver uma vida normal. E tem ainda  a muita discussão sobre o que fazer no local das torres, com os familiares das vítimas insistindo que o lugar deve ficar vazio, e outros, inclusive os donos do terreno, insistindo que a melhor maneira de homenagear aos que morreram ali, trabalhando, é recuperar o lugar, dar um espaço para lembrar o que aconteceu, mas abrir também um espaço para que outros possam voltar a trabalhar ali. Este assunto, ao que tudo indica, vai povoar as ondas sonoras, as linhas escritas, os recantos virtuais por mais algum tempo. 

Mas eu quero voltar agora por um momento minha atenção a um outro onze de setembro que passou muito mais discretamente: o aniversário dos 30 anos do golpe militar que derrubou o presidente Salvador Allende, no Chile. Este golpe deu lugar a uma das ditaduras mais sangrentas da história da América Latina: calcula-se que quatro mil pessoas foram mortas ou "desaparecidas" pelo aparato militar que infestou o país. 

A infestação deste tipo, como nós que já éramos adultos no Brasil da ditadura militar sabemos bem, não se restringe somente às pessoas que morreram. A violência que estes militares do Chile causaram ao seu povo – assim como os demais do Brasil, da Argentina, da Bolívia, do Peru, do Uruguai, e de outros países causaram aos seus compatriotas – deixou marcas profundas, como cicatrizes feias que não vão desaparecer tão facilmente.

Mas no Chile, neste aniversário macabro, pelo menos se estão retomando as questões de como retificar os abusos aos direitos humanos cometidos pelos militares, embora o então presidente de 25 anos atrás – e principal responsável pela carnificina – Augusto Pinochet, tenha há 25 anos imposto uma lei de anistia aos envolvidos. Hoje, tanto as pessoas interessadas na discussão dos abusos aos direitos humanos no Chile, assim como os parentes dos mortos e desaparecidos, estão pressionando para que o assunto seja revisto.

Logicamente, muitas feridas ainda estão abertas no Chile. Uma pessoa que conheço em Valparaiso me contou que quando houve o golpe, homens da polícia militar vieram até sua casa em busca de seu pai. Ela tinha 12 anos, e tinha dois irmãos pequenos. Os policiais estapearam todos, inclusive a mãe dela, e exigiam que ela dissesse onde estava o marido. O marido estava morto, há seis meses, vítima de um ataque cardíaco. "Você pode imaginar o que significa para uma criança ficar feliz porque o pai estava morto?" Isto foi o que ela me conta que sentiu naquela ocasião, porque embora criança, já sabia o que teria acontecido ao pai, se ele tivesse sido preso. Mas os policiais não acreditaram nem no atestado de óbito, e vigiaram a casa por muito tempo, esperando agarrar o pai, um "criminoso" cujo crime tinha sido fazer parte de um grupo de discussão no bairro.

A Argentina, por sua vez, está tomando posições fortes com relação aos maiores criminosos da sua “guerra suja”. Desde que o congresso argentino revogou algumas leis de anistia, uns quarenta dos envolvidos nos crimes políticos foram detidos. Um dia, espera-se, a justiça virá para eles. Mas, mesmo que eles sejam condenados e tenham que passar o resto de suas vidas na prisão, ninguém vai trazer de volta os mortos. A história da ditadura militar argentina, escrita com o sangue de homens, mulheres, meninos, meninas e bebês, vai ser um dos muitos episódios sórdidos da história do nosso continente. Haveria alguma maneira de fazer a dor menos intensa?

Feridas abertas, há tantas no mundo inteiro, e nenhuma receita que sirva para aliviar a dor de todos os casos. Por exemplo, na África do Sul, o povo decidiu que a única maneira de fazer as pazes, chegar a um entendimento do que passou com eles durante os anos do appartheid é abrir um espaço para que todos, tanto as vítimas como os vitimizadores, possam falar e confessar  o mal que causaram aos outros ou que sofreram nas mãos dos outros. Não tem sido um processo fácil, porque muitas vezes os membros de uma família ouvem da boca do torturador como ele matou o pai, o irmão, a mãe, a irmã deles. Mas a idéia, para o povo da África do Sul, é que estas confissões da verdade vão trazer a reconciliação, no final das contas. É uma escolha que requer muita coragem, muita força. Neste momento em que a África do Sul está combalida com tantas pessoas sofrendo de AIDS, o país precisa mesmo de toda reconciliação, de todo esforço para ajudar aos que estão doentes, ou em perigo de ficarem doentes.

Voltando ao onze de setembro aqui nos Estados Unidos, eu me lembro de uma discussão que ouvi no rádio durante a primeira semana de setembro. Este ano de 2003, o número de imigrantes ilegais do México que tentam chegar aos Estados Unidos atravessando o deserto da região do Arizona aumentou muitíssimo em relação aos anos passados.  E também aumentou o número dos que morreram na tentativa, tanto no Arizona, como nos outros estados fronteiriços. Entre as várias pessoas que telefonaram para a rádio para tomar parte na discussão estavam, por exemplo, um arizonense que dizia que estes ilegais deveriam ser rechaçados a bala, um outro que dizia que o Arizona pertencia aos mexicanos e deveria ser deles, e outro que dizia que o ideal seria aumentar o policiamento dos dois lados. Muitas pessoas telefonaram e deram suas opiniões. Logicamente, nenhum dos que telefonaram era do México, e portanto não ficamos sabendo o que um mexicano diria desta terrível situação que leva a estes desesperados camponeses mexicanos a pagarem até dois mil dólares ao "coyote" - o que os ajuda a atravessar a fronteira – e se arriscarem a morrer de calor, desidratação e sede, ou a serem recolhidos pela polícia da fronteira (que os leva ao hospital, se estão feridos ou fracos) e serem retornados ao México. E os que conseguem chegar aqui vão viver uma vida dificílima, sendo explorados, maltratados, sujeitos a deportação se forem pegos.

Alguns desses ilegais que vieram há anos atrás haviam feito a viagem até Nova Iorque, e estavam trabalhando nas torres. Para as famílias destes, além da dor pela perda do ente querido, está também o receio de se apresentarem às autoridades, por medo de serem mandados de volta (embora o governo americano tenha prometido que  tal não vá acontecer  com familiares das vítimas do ataque terrorista). A dor destas famílias é singular: participou da dor geral do país a cada vez que os sinos das igrejas dobraram no dia 11 de setembro, mas não pôde se manifestar como dor particular. A dor delas não pôde ser representada.

Assim como não esteve representada, neste 11 de setembro, a dor dos que já morreram em conseqüência das guerras que vieram depois dos ataques. Quem vai chorar, por exemplo, pelo rapaz afegão que foi morto por ser alto, magro, e parecer com o Bin Laden? Ou pelos tantos civis cujas casas foram destruídas por bombas, tanto no Afeganistão como no Iraque? Pelos mortos, feridos, amedrontados? A guerra continua, com os horrores de sempre, a cada dia com mais notícias de mortes de soldados americanos, de civis e militares dos outros países. Aos poucos, já se começa a imaginar um novo Vietnam, e paredes cheias de nomes dos mortos. Mais uma vez, convém lembrar: a maioria dos soldados americanos é da classe pobre, e quase todos se alistam para poderem ter um emprego e uma bolsa de estudos. Os subalternos de um país vão a um país subalterno, sob as ordens de um poder político que, ao que tudo indica, ninguém pode realmente influir diretamente, já que a vitória eleitoral parece ser resultado direto de quanto dinheiro o candidato consegue angariar para pagar suas propagandas durante as eleições. Enfim, parece que uma pessoa sem poder político não pode fazer nada para parar esta situação, intervir nesta matança.

E que temos nós do Brasil com tudo isto? Já não temos suficiente com que nos preocuparmos dentro do nosso próprio país?

Às vezes, nestes nossos tempos tão difíceis, a gente tem que buscar inspiração, entendimento, mesmo consolo, em palavras que vêm de outros tempos, de outros lugares. Neste momento, as palavras de John Donne, poeta e pastor anglicano da Catedral de São Paulo em Londres no século XVII me parecem perfeitas:

"No man is an Iland, intire of itselfe; every man is a peece of the Continent, a part of the maine; if a Clod bee washed away by the Sea, Europe is the lesse, as well as if a Promontorie were, as well as if a Manor of thy friends or of thine owne were; any mans death diminishes me, because I am involved in Mankinde; And therefore never send to know for whom the bell tolls; It tolls for thee."

(MEDITATION XVII., Devotions upon Emergent Occasions )

"Nenhum homem é uma ilha, completo em si mesmo; cada homem é um parto do Continente, uma parte do todo; se um pedacinho de Terra é levado pelo mar, a Europa fica mais pequena, da mesma maneira que ficaria se uma montanha, ou a casa de amigos seus, ou se a sua própria casa fossem (levadas pelo mar); a morte de qualquer homem me diminui, porque eu sou parte da Humanidade; E portanto, nunca mande perguntar por quem o sino toca, ele toca por você."
(Meditação XVII, Devoções em Ocasiões Emergentes)

EVA PAULINO BUENO

     

 

 

 

 

 

 

 

 

 



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