Por ANTONIO INÁCIO ANDRIOLI
Doutorando em Ciências Sociais na Universidade de Osnabrück - Alemanha


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Agricultores alemães são contra transgênicos

 

DNA - Foto: Laboratório Lawrence BerkeleyUma pesquisa do Instituto Wickert, de Hildesheim, na Alemanha, especializado em pesquisas de opinião e de mercado, confirma uma tendência que já se apresentava entre os consumidores alemães: 70% dos agricultores da Alemanha são contrários ao cultivo de transgênicos. A pesquisa, encomendada e divulgada pelo Greenpeace de Hamburgo, foi realizada, representativamente, com 1.031 agricultores de todo o território alemão, procurando identificar sua opinião com relação ao uso da transgenia na agricultura. Além da negativa com relação ao cultivo de transgênicos, a pesquisa  também revela que a maioria dos agricultores alemães descarta o uso de ingredientes derivados de plantas transgênicas na ração animal. Além disso, a maioria dos entrevistados exige ser informada  em caso de plantio de transgênicos em áreas vizinhas às suas propriedades e, havendo contaminação de suas lavouras, reivindicam a reparação econômica dos possíveis prejuízos.

O Eurobarômetro, instrumento oficial da FAO para pesquisas de opinião na União Européia, já havia constatado e divulgado, em final de 2002, a tendência de 70,9% de rejeição dos consumidores europeus com relação aos alimentos geneticamente modificados. O estudo demonstra que na Alemanha, França, Holanda e Itália a rejeição inclusive aumentou em comparação ao levantamento realizado em 1999, sendo que na União Européia como um todo houve uma leve diminuição da rejeição. Na opinião pública alemã dominava a idéia de que os agricultores seriam majoritariamente favoráveis aos transgênicos, já que a associação dos produtores alemães “Deutscher Bauernverband”  várias vezes se pronunciou publicamente a favor da questão. A pesquisa encomendada pelo Greenpeace é o segundo levantamento com agricultores sobre o tema e os seus resultados vêm a confirmar novamente, em números, o que outras pesquisas de opinião pública vinham constatando como média da posição dos alemães com relação ao tema.

Quando perguntados sobre a intenção de futuramente virem a plantar transgênicos, 44% responderam que não (absolutamente); 26% tendem a não plantar; 17% tendem a plantar e 13% manifestam indecisão nesta questão. Em 1997, o Greenpeace encomendou a mesma pesquisa ao Instituto Emnid, de Bielefeld, onde os agricultores foram submetidos à mesma pergunta. Naquela ocasião, 70% se manifestavam contrários ao cultivo de transgênicos, 16% estavam indecisos e 14% favoráveis. Isto significa que, após cinco anos, a rejeição se manteve constante, os indecisos diminuíram e os favoráveis aumentaram minimamente. No que se refere ao uso de ração rotulada indicando a presença de ingredientes de plantas transgênicas, a atual pesquisa revela que 72% dos agricultores com criação de animais não a comprariam; 17% estão indecisos e apenas 11% não vêem problema no consumo desta ração (2% comprariam e 9% tenderiam a comprar). Mas, até o momento, as regras de rotulagem não incluem a comercialização de ração para animais, o que impossibilita os agricultores de diferenciá-la no mercado. 

Um outro problema relativo aos transgênicos é a impossibilidade de sua coexistência com os cultivos tradicionais. Esta é uma das principais críticas de organizações de agricultores alemães à recomendação da União Européia sobre o tema, de julho deste ano, a qual, conforme também declara a ministra da agricultura da Alemanha Renate Künast, apenas transfere a responsabilidade da liberação ou proibição para as instâncias locais. Sobre esta questão, a atual pesquisa mostra que 72% dos agricultores consideram importante que, se futuramente houver a liberação do cultivo, estes sejam informados no momento em que nas proximidades de suas propriedades venha a ter plantio de transgênicos. Se houver problema de contaminação das lavouras e não for mais possível comercializar a safra de produtos como convencional, 41% dos agricultores entende que o Estado deve assumir a responsabilidade de ressarcimento dos prejuízos; 27% processaria as empresas que venderam as sementes e 16% cobrariam os eventuais prejuízos do próprio vizinho. Apenas 8% declaram que não estariam agindo juridicamente em caso de prejuízo por contaminação e 8% se manifestam indecisos.

Sobre a posição da Deutscher Bauernverband, 53% consideram ruim o fato da entidade ter assumido uma postura favorável à liberação do cultivo de transgênicos; e a política desta organização teria somente 26% de aprovação por parte dos agricultores entrevistados. Sobre vantagens e desvantagens dos transgênicos, 39% dos agricultores entrevistados prevêem desvantagens econômicas com o uso desta tecnologia, 34% vêem nela uma vantagem econômica e 27% estão indecisos. A pesquisa também procurou identificar, nos agricultores, se há alguma perspectiva de valorização da terra, em caso de venda ou arrendamento, após um suposto cultivo de transgênicos. Os resultados: 37% não souberam responder; 31% não esperam nenhuma mudança neste aspecto; 27,5% prevêem uma desvalorização no valor de venda e de arrendamento e apenas 4,5% acreditam que o cultivo de transgênicos venha a valorizar a terra.  

Os resultados da pesquisa nos remetem a algumas reflexões sobre o tema na comparação com o debate no Brasil. Em primeiro lugar, há no Brasil o argumento de que os contrários ao cultivo de transgênicos sejam, por ideologia, apenas partidários do PT e ecologistas. Na Alemanha não há um partido que possa ser comparado ao PT; uma esquerda organizada praticamente não existe e a maioria dos agricultores têm sido, historicamente, identificada com a direita (em especial, com a CDU/CSU – União Democrática Cristã/União Social Cristã). Quanto à ecologia, a agricultura ecológica na Alemanha, apesar do incentivo do atual governo, representa oficialmente apenas 3,5% das propriedades agrícolas e não se pode afirmar que a preservação ambiental está no centro das preocupações dos agricultores alemães. A idéia de que não estejam suficientemente informados ou que não façam uso de tecnologia moderna também não confere com a realidade, já que é exatamente o alto nível de tecnificação que permite as elevadas produtividades responsáveis pela crescente redução dos estabelecimentos agrícolas na Alemanha. Com uma população de 82 milhões de habitantes há, em todo o país, cerca de 300.000 agricultores.

O argumento de que a existência de subsídios agrícolas na Alemanha poderia levar a uma acomodação dos agricultores em relação a inovações e à recusa dos transgênicos também não procede. Países como Estados Unidos e Canadá, que mantêm altos subsídios agrícolas, são líderes mundiais na introdução de transgênicos na agricultura.  Além disso, são exatamente os subsídios agrícolas que permitem a manutenção de propriedades com os altos custos de produção ocasionados pelo cultivo de transgênicos nestes países, em função do monopólio das sementes e insumos agrícolas e o conseqüente pagamento de royalties às empresas donas das patentes da tecnologia.

Como se explicaria, então, que os agricultores alemães são contrários aos transgênicos? Em primeiro lugar, há uma lógica econômica cercando esta questão: se a maioria dos consumidores europeus rejeita os alimentos geneticamente modificados, por que os agricultores se interessariam em produzí-los?  A maioria dos agricultores entrevistados também manifesta que não vê vantagem econômica nos transgênicos. Pelo contrário, consideram essa tecnologia desvantajosa. Em segundo lugar, há uma questão cultural que cumpre um papel importante. A sociedade alemã desenvolveu muito fortemente a idéia de precaução, de evitar riscos, o que tem raízes históricas e, inclusive climáticas (os longos períodos de escassez no inverno, as guerras, as doenças, etc.). Todo o debate envolvendo os riscos da energia nuclear, os recentes problemas de contaminação dos alimentos, o caso da vaca louca e a forte organização de movimentos ambientalistas e de defesa dos direitos do consumidor também influenciam no comportamento do povo alemão. Os agricultores, por sua vez, não estão isolados de toda essa problemática e não devemos estranhar que seu comportamento seja semelhante ao dos demais consumidores. Por isso, mesmo que hajam tentativas constantes de caracterizar como ideológica essa opção, há uma racionalidade que serve de explicação ao fenômeno da rejeição européia aos alimentos transgênicos.

Nesta perspectiva, a polêmica dos transgênicos apresenta uma questão crucial: é melhor errar ao abdicar de possíveis benefícios evitando danos potenciais, ou, vale a pena arriscar-se para ter acesso aos possíveis benefícios? Para a sociedade alemã está claro a primeira alternativa: havendo evidência de riscos, a precaução antecede a curiosidade e os possíveis ganhos. E, mesmo que não haja evidência do risco, a ausência de evidência não pode ser tomada como evidência da ausência.

 

ANTONIO INÁCIO ANDRIOLI
     


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