Por WALTER PRAXEDES
Graduado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo, mestre e doutor em Educação pela mesma instituição. Co-autor dos livros O Mercosul e a sociedade global (São Paulo, Ática, 2002, 12ª Edição) e Dom Hélder Câmara: Entre o poder e a profecia (São Paulo, Ática, 1997 / Brescia (It.), Editrice Queriniana, 1999). Professor de sociologia da Universidade Estadual de Maringá e Faculdades Nobel em Maringá, Paraná

 

 

Um país sem passado

... O passado é cheio de vida e seu rosto irrita, revolta, fere, a ponto de querermos destruí-lo ou pintá-lo de novo. Só queremos ser mestres do futuro para podermos mudar o passado. Lutamos para ter acesso aos laboratórios onde se pode retocar as fotos e reescrever as biografias e a História.
Milan Kundera. O livro do riso e do esquecimento.

No dia do velório do ex-todo-poderoso empresário das telecomunicações vários ex-combatentes da luta pela democratização do país declararam publicamente seu pesar pelo falecimento daquele senhor que havia sido um verdadeiro nacionalista, alguém que amara o seu país mais do que todos, e que foi um dos principais artífices da democratização e da integração nacional, um grande defensor da cultura e da liberdade de expressão.

Vi e ouvi depoimentos com o conteúdo acima pronunciados por alguns companheiros que ocupam postos importantes no governo com o mesmo constrangimento que de vez em quando, por força do ofício de professor, revejo algumas gravações de depoimentos de militantes torturados em épocas passadas (não estou mais seguro de que tenha ocorrido nesse passado não tão distante algo que possa ser nomeado como "ditadura militar", ou mesmo de que o empresário falecido tenha se beneficiado do apoio que dava ao regime ditatorial), que eram levados a público em rede de televisão para se declararem arrependidos pelo envolvimento em atividades subversivas contra a pátria e denunciarem ex-companheiros que continuavam realizando ações terroristas.

Penso que chega a ser uma obrigação ética de quem não foi torturado absolver de qualquer culpa os arrependidos que renegavam a própria trajetória em um depoimento à televisão para escapar da dor provocada pelas sessões de tortura e salvar a vida. Apesar disso, depois desses episódios, como forma de autopunição, vários arrependidos fugiram para o esquecimento e se transformaram em sombras de si mesmos.
Talvez tenhamos também o dever de relevar as palavras e gestos afoitos dos companheiros ocupantes de postos importantes no governo. Mesmo que esses atuais arrependidos não estejam sofrendo ameaças à sua integridade física. É possível que num futuro não muito distante os seus nomes sequer sejam lembrados, pois acho que eles estão se transformando em sombras de si mesmos. Mas é provável que nesse mesmo futuro seja muito bem lembrado e estudado nas escolas o nome e a obra do grande empresário das telecomunicações que entrou para a História como o artífice da democratização e da integração nacional do país, um grande defensor da cultura e da liberdade de expressão.

P.S.: Para escrever sobre um país que reinventa diariamente o seu passado não é necessário citar nomes de pessoas, lugares ou datas que acabarão no esquecimento.

WALTER PRAXEDES
     

 



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