Por CELUY ROBERTA HUNDZINSKI DAMÁSIO
Doutoranda em Filosofia (Universidade Paris X - Nanterre)


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França: a grande vítima do calor

 

A alta temperatura que assolou o continente europeu no último mês provocou um número de mortos estimado entre 3.000 a 5.000 franceses nas duas primeiras semanas de agosto, inteirando um total de aproximadamente 13.000 até o final do mês. A "canicule" (calor excessivo), muito mais forte na França do que em países como a Itália, Portugal, Espanha, Alemanha, etc., acarretou alto índice de desidratação e comprometimento de doenças crônicas, atingindo principalmente crianças e idosos.

Percebo que o fenômeno, que não era tão intenso desde 1947, pegou a população literalmente de calças curtas: em plenas férias de verão, 80% da população deu descanso aos ternos, sapatos e meias de seda, substituindo-os pelos confortáveis shorts e chinelos - inclusive as "chiquérrimas" havaianas que, se forem legítimas e com a famosa bandeirinha do Brasil, custam 30 euros nas lojas e butiques mais importantes da capital da moda, como por exemplo as "Galeries Lafayette".

Não há nada de anormal, mas, há uma diferença cultural sobre a qual gostaria de discorrer um pouco: nós, brasileiros, nem sempre abandonamos as roupas socias porque não as utilizamos com a mesma freqüência, no entanto, como eles, partimos em férias (é verdade que bem menos de 80% da população); porém, se considerarmos que, ainda que partamos sem nossos idosos, os que ficam e, por eventualidade vêem a falecer sozinhos em casa, são, logo, descobertos por algum parente, amigo ou vizinho que, conhecendo seus hábitos, percebe sua falta e "intromete-se" querendo saber onde está o fulano. Fazendo esse tipo de análise, pecamos por indiscrição e sofremos sendo sempre molestados por alguém. Aqui na França, quando os entes "queridos" telefonam (de maneira geral uma vez por semana) e não os acham, dificilmente incomodam algum vizinho ou amigo para ver o que está havendo. Entretanto, a prefeitura de Paris criou, por causa disso, um serviço telefônico encarrecado de procurar as pessoas não encontradas por seus parentes.

O índice assustador de mortos nas câmaras frias inquieta as autoridades fazendo-as providenciar aberturas de câmaras desativadas que acabaram, também, superlotadas. Em vez de 5 dias, que como de hábito permanece cada corpo, os lugares têm sido ocupados por 15 dias ou mais, à espera dos familiares que não tiveram conhecimento da morte, ou chegam à conclusão de que não vale a pena interromper as férias para fazerem o enterro. Não devemos deixar que os mortos enterrem os seus mortos??? Talvez, nem tanto, mas, eles bem que podem esperar já que morreram mesmo. Além do mais, pra que preocupação se eles nem podem sair do lugar?

Os cemitérios e funerárias fizeram enterros, excepcionalmente, aos domingos e o aumento de funcionários foi inevitável. Mesmo a Igreja Católica andou tendo mais movimento que de costume, em Chatou, paróquia onde moro, tivemos uma média de uma exéquia por dia - número relevante considerando o forte anti-catolicismo francês, a maioria dos enterros parte diretamente da câmara para o cemitério. Os hospitais têm improvisado leitos e contado com a ajuda de voluntários. O governo preocupado com o bom atendimento dos pacientes, deu uma remuneração para os profissionais da saúde.

Uma responsabilidade coletiva é admitida: a Saúde Pública e Privada por perceber tardiamente a calamidade; a população por não ter dado o devido valor; o Governo por não ter ajudado mais.

Numa tentativa de remediar a situação, a verba da saúde foi aumentada e porque é inadmissível um país de primeiro mundo ter passado por esse absurdo, está sendo estudado um projeto de reestruturação onde o objetivo é ter 1 enfermeiro para cada 5 pessoas. Ainda não ouvi comentários sobre a implantação de aparelhos climatizadores nos hospitais e, apesar de tudo, a opinião dos comerciários é que não vale a pena investir neles - a quota mínima de ventiladores esgotou-se em poucos dias sem ter sido reposta.

Observando as queimadas que arrasaram grande parte das florestas européias, a falta de chuva, o medo das tempestades previstas para depois dessa anomalia climática, tenho pensado nas milhares de pessoas que morrem, injustamente, pelo mundo afora, por esses e outros motivos, muitas vezes sozinhas (mais vezes do que imaginamos). Tenho tentado buscar uma nova ética mais humanitária, mais justa, mais solidária. Por que não acreditar na utopia de uma mudança radical onde houvesse uma verdadeira fusão do que há de bom entre as culturas, entre as diversas idéias e pensamentos, algo que ultrapassasse tudo o que já foi tentado até hoje, mas que também aproveitasse tudo o que pudesse interessar para que realmente funcionasse? Real ou ficticio? Não importa, se acreditamos, podemos partir de dentro pra fora, das idéias, e mesmo dos sonhos até chegarmos à realidade.

 

Fontes:   www.lemonde.fr
               www.lacroix.fr
               www.lefigaro.fr

CELUY ROBERTA HUNDZINSKI DAMÁSIO

     

 



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