Por RUDÁ RICCI
Sociólogo, Doutor em Ciências Sociais, Professor da PUC (MG). Autor de Terra de Ninguém (Ed. Unicamp) e Diretor da Consultoria em Políticas Públicas (CPP)


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A política externa de Lula

 

Alguns recentes movimentos diplomáticos da gestão Lula causaram grande estranhamento. Em diversos congressos sindicais e encontros de movimentos sociais, base política tradicional do PT, ocorreram comentários perplexos e indignados sobre uma possível aproximação do governo brasileiro e norte-americano e, ainda, da aceitação da agenda de criação da ALCA. Ouvi, em um encontro de lideranças populares, que Lula estaria deixando a esquerda indignada e a direita perplexa. Contudo, se adotarmos um certo distanciamento emocional em relação às atitudes do governo federal, perceberemos que existe uma clara coerência com o realismo político com que vem sido tratada a agenda nacional. Talvez, encontraremos grande semelhança com o pragmatismo das práticas sindicais do então líder do sindicalismo metalúrgico. Após o estabelecimento dos fundamentos do Mercosul, durante os governos Sarney e Alfonsin, a diplomacia brasileira procurou, por diversas vezes, ampliar a base territorial desta zona de livre comércio e, ainda, ampliá-la para uma união política aos moldes europeus. Dois obstáculos impediram tal empreitada: a dessintonia entre as políticas macroeconômicas do Brasil e Argentina e um jogo de aproximação da Argentina, Chile e México com os EUA. O Brasil, principal potência política e econômica do Mercosul, sofreu vários revezes com este jogo diplomático. O México esteve na ponta desta estratégia ao se inserir no Nafta, zona de livre comércio do norte do continente americano. Pouco menos de 70% dos produtos mexicanos exportados para os EUA coincidiam com a pauta de exportação brasileira, incluindo produtos com baixo valor agregado, como telhas e vassouras. O Chile procurou seguir os passos do México e valorizou-se nas tentativas de FHC para que os chilenos integrassem o Mercosul. Menem, por vezes, procurou assumir a mesma tática.

Enfim, nos últimos anos, a política diplomática brasileira, determinada para consolidar e ampliar o Mercosul, chocou-se com a diplomacia pendular de outros importantes países latino-americanos.

Lula, enquanto sindicalista, sempre adotou uma postura extremamente pragmática. Seu pragmatismo caminhou, inclusive, para a adoção de práticas que eram identidades de seus adversários, muitas vezes “roubando” as marcas alheias, o que acabava por diminuir a margem de manobra de muitos opositores. Garantia sua sustentação política e, logo depois, caminhava na direção da base política das forças adversárias, deslegitimando as forças oposicionistas. A política interna do Presidente Lula parece adotar o mesmo estratagema. E, possivelmente, a política externa, ao menos no que diz respeito à América, segue o mesmo percurso. É verdade que o pragmatismo diplomático é muito cauteloso e nem sempre o que é visível revela toda sua intenção política. Daí porque o governo Lula adotar duas frentes de ação: uma oficial, do Itamaraty, e outra, oficiosa, liderada pelo dirigente petista Marco Aurélio Garcia. Marco Aurélio começou com pouca discrição, viajando à Venezuela e se expondo excessivamente. Logo em seguida, corrigiu sua postura e raramente voltou às manchetes dos jornais. 

O mesmo pode se dizer em relação à política comercial externa. Em seis meses, o governo Lula consolidou uma parceria com a China que elevou este país ao segundo posto nas importações de produtos nacionais.  O anúncio da formação do G3 parece caminhar no mesmo sentido.

A diplomacia brasileira foi sempre muito respeitada internacionalmente, conhecida por seu pragmatismo e pela busca de ampliação de parceiros comerciais. Mesmo no regime fechado varguista, ganhamos recursos extras, que cristalizaram nossas indústrias de bens de capital, ao exercitarmos o pragmatismo diplomático nas dúbias relações que estabelecemos por algum tempo com as forças aliadas, lideradas pela Inglaterra e EUA, e as forças do eixo, lideradas pela Alemanha. Lula parece aprofundar estas características ao trazer, consigo, um pragmatismo sindical, que se movimenta a partir de um eixo ideológico mais à esquerda, mas não muito definido. Ao se aproximar dos EUA, estaria diminuindo os espaços de manobra de outras forças latino-americanas, aumentando seu poder de barganha. Nada, enfim, que o mundo sindical desconheça.

 

RUDÁ RICCI

     

 



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