Por RAYMUNDO DE LIMA
Psicanalista, Professor do Departamento de Fundamentos da Educação (UEM) e doutorando na Faculdade de Educação (USP)


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Fobia escolar gera aposentadoria precoce

 

“O progresso de uma civilização se mede pelo aumento da sensibilidade para o outro”
(Teilhard de Chardin)

 

Angústia - Siqueiros (1950)Um garoto de 12 anos sente um bloqueio ao ir à escola. Não por preguiça de estudar, mas por algum medo inconsciente. Quando os pais pressionam, entra em crise de pânico, treme, chora, grita e se fecha. Passada a crise, diz sentir medo terrível de alguma coisa da escola.

Uma professora, após 20 anos de trabalho em sala de aula, começa a sentir um medo difuso, pavor, ansiedade e bloqueio de dar aula. A ansiedade cresce toda vez que lhe vem a idéia de entrar numa escola. “Faço qualquer coisa, menos voltar à sala de aula”, diz ela.

Tanto o aluno quanto a professora sofrem de fobia escolar. Ambos resistem – inconscientemente - em voltar à escola. Mas, que fazer com a professora que se recusa a trabalhar justamente naquilo em que se formou, e que exerce a mais de duas décadas?

As secretarias de educação que se pautam pelo bom senso e respeito ao funcionário, nesses casos, sugerem sua mudança para outra função distante da escola. Porém, existem alguns chefes do serviço público e donos de escolas que preferem tomar atitudes mais agressivas, constrangindo e pressionando o funcionário de cumprir normalmente as tarefas, apesar da doença inibir. São casos em que Hirigoyen (2000) denomina de “assédio moral” no trabalho. O assédio moral – ato que lembra o “assédio sexual – é quando um superior pressiona, sem tréguas, o subalterno, criando neste um clima de constrangimento ou sofrimento psíquico, cujos sintomas são: o estresse, a depressão, a fobia, a síndrome do pânico, distúrbios psicossomáticos etc. Um funcionário obrigado a conviver com tal clima de terror, até pode pensar em suicídio, entrar com o pedido de demissão ou aposentadoria precoce, para radicalmente se livrar da situação insuportável.

Fobia escolar normalmente é confundia com depressão. Em verdade, são patologias psíquicas distintas. Psiquiatras hoje tendem a chamar a fobia – especialmente aquela marcada por ataques de angústia - de “síndrome do pânico”. Vejamos, então, essa sutil distinção: o medo é uma reação normal diante do perigo real, por exemplo, “sentir medo” de: alguém armado com revolver, de cachorro bravo, de passar por certos lugares. Medo sinaliza defesa psíquica normal, prevenção diante de um perigo concreto. Mas a fobia é mais que isso. Fobia é um medo difuso, é angústia, é pavor diante de uma situação que não se sabe por que provoca tal reação. A fobia escolar, portanto, não é exatamente ter medo da escola, mas sentir angústia de algo nela existente ou como se algo estivesse na iminência de acontecer, mas a pessoa não sabe identificar onde está o perigo. As fobias – porque são vários tipos – é de fundo inconsciente (Em alemão, inconsciente é Unbewusste, quem dizer “não sabido”). Ser de fundo inconsciente sugere que o sujeito sabe que algo não vai bem, mas não sabe como evitar a idéia causadora de angústia, nem pode controlar sua ansiedade e atos repetitivos advindos do conflito endopsíquico.

Ignorância e doença psíquica

O primeiro problema que enfrenta a pessoa acometida de fobia escolar – e de muitas doenças psíquicas – é a ignorância dos leigos, principalmente de chefes de postos de trabalho, e também a falta de informação e preparo dos profissionais da área da educação e da saúde. Familiares e colegas chamaram a professora acima de preguiçosa, negligente, cheia de chiliques [1] etc.

Forçada a trabalhar numa creche, teve nova crise de pânico e resistiu voltar à escola. É preciso entender que, para o inconsciente, creche é lugar de crianças, logo também é escola, ou seja, lugares que a faz sentir angústia e resistência psíquica. Pressionada outras vezes para voltar à escola, a professora terminou entrando com o pedido de aposentadoria antes de concluir o prazo normal previsto pela lei atual, porque “não suportava mais a situação dupla de pressão”, agravada pelas notícias sobre a reforma da previdência ora em curso no Congresso. (Um detalhe curioso: tal pressão contra a funcionária foi muito pior no governo petista municipal do que nos outros anteriores, observou-me ela). 

Além do clima grupal desfavorável para se trabalhar, da insensibilidade da direção, muitos professores atualmente também estão se afastando da escola porque não mais suportam a indisciplina dos alunos, das gangues que ameaçam professores e alunos, e pais sem tempo ou sem vocação para essa função que pressionam os professores para serem seus substitutos etc. Para piorar o quadro, somos obrigados a conviver com o momento histórico em que o discurso do governo petista, injustamente, aponta os professores – e demais servidores públicos – pelo rombo da previdência.  Ou seja, esse conjunto de fatores contribui para aumentar os casos de fobia escolar e afastamento precoce do trabalho e estudo. Contudo, repito, o pior inimigo do doente de fobia escolar – e de qualquer patologia psíquica, e também a condição de aposentado – é a ignorância, a incompreensão e a falta de respeito.

O garoto acima logo teve a compreensão da mãe, mas o primeiro médico consultado recomendou mudança de escola.  Continuando o problema, o segundo, um psiquiatra, receitou ansiolíticos. Duas incompreensões médicas, e dois fracassos. Por fim, encaminhado a um psicoterapeuta, com poucas sessões ficou bom. Mas, a professora acima não teve a mesma sorte, pois houve mais que falta de compreensão dos colegas e das chefias ligadas a “educação”, pois causou-lhe sua saída definitiva do emprego. 

Sintomas que podem piorar

Criança pequena costuma ter medos normais como o de escuridão, que é superado com o tempo. “Escuridão é um espaço vazio onde se projetam funcionalmente os conteúdos reprimidos ameaçadores” (Quilles, 1986). Escuridão também representa solidão, morte, vulnerabilidade. Quando o medo de escuridão torna-se desmedido, virando medo difuso, pavor ou pânico, poderá atrapalhar sua existência cotidiana da pessoa. Se a pessoa não consegue superar essa dificuldade, é preciso encaminhá-la a um profissional para tratamento psicológico.

O tratamento psicológico, (psicoterapeutico ou psicanalítico) do menino poderá levá-lo a decifrar a causa determinante do medo ou pânico de escola; talvez inconscientemente ele teme ser novamente agredido por uma gangue que atua na escola. Gangue é um grupo que vive marcando seu território e ameaçando os mais fracos e desgarrados. Já a professora, no seu tratamento, poderia descobrir que se sente ameaçada pelo “fantasma” de alunos adolescentes indisciplinados, que hoje em dia assediam as professoras solteiras – bem solteiras. Essas coisas também poderiam causar o esvaziamento de sua paixão pela educação. E, que fazer quando a paixão acaba? Ainda não descobriram um remédio ou truque para reacendê-la. Obrigaram ela a voltar para a sala de aula. Ora, obrigar alguém que sofre uma inibição psíquica é cronificar sua doença justamente nesse ponto. Além da imposição da “obrigação” (que é de fundo é moral – “obrigação moral de trabalhar a qualquer preço”) não funcionar como suporte clínico, pode causar efeito contrário, isto é, pode piorar o estado de saúde da pessoa que passa a odiar tudo que se encontra nesse foco: o espaço físico, pessoas e gestos próprios da função.

Fobia, aposentadoria e ética no trabalho...

Calcula-se que 10% da população sofrem de algum tipo de fobia. Fatores externos contribuem para aumentar o medo das pessoas. Especialistas pensam que o aumento da violência, a insegurança e as incertezas de nossa época estão levando muitos a sofrerem de fobias, depressão e distúrbios psicossomáticos. Quanto mais violenta se torna à vida urbana, mais cresce a taxa de doentes psíquicos de fobia, de síndrome do pânico, ou mesmo de psicose paranóica. Todavia, cada estrutura psíquica tende a se expressar num ou noutro sintoma, não necessariamente patológico. Algumas pessoas são mais frágeis, sentindo-se vulneráveis, ameaçadas ou fracassadas. As estruturas psíquicas “mais fortes” se aproveitam dessas situações de fragilidade dos outros para exercerem seu sadismo pessoal escudado numa função institucional qualquer. Assim, há chefe que age de modo sádico com o subalterno, tal como um torturador para com o prisioneiro; tanto o torturador como o chefe sádico, gozam em causar “mais sofrimento” no outro, visto nessa situação como “coisa”.

O cotidiano de trabalho de nossas empresas e instituições é inevitável à convivência com pessoas de todos os tipos de estruturas psíquicas, inclusive aquelas que parecem ser zeradas de bom senso, contrariando desse modo à crença de Descartes. Especialistas ocupando temporariamente postos tecnoburocráticos é um perigo para os demais que estão fora do poder. Porque em sua visão estreita, eles se sentem autorizados a desqualificar, desconsiderar, enfim, se recusam a compreender as pessoas, porque, no fundo ele deixou de ser pessoa para se tornar uma espécie de ente transcendental.

A reforma do medo ou da angústia?

A reforma da Previdência Social, por exemplo, chamada pela economista Maria da Conceição Tavares de “reforma do medo”, vem causando confusão em vários setores da vida brasileira. Um dos efeitos negativos, produto do “medo” ou “pânico”, foi uma grande corrida de professores à aposentadoria para salvar alguns direitos quase adquiridos. Muitos, talvez, estão se aposentando precocemente mais por fobia (angústia quanto ao futuro incerto) do que por simples medo.

Enquanto no Japão o respeito aos idosos e aposentados chega a merecer atos de veneração, retratado no filme “Madadayo’”, de Akira Kurozawa, no Brasil, sequer os colegas de longos anos de trabalho realizam uma festinha de agradecimento ao tempo de convivência e dos bons serviços prestados à empresa particular ou à instituição pública. São raros os casos em que um colega de departamento de universidade toma a iniciativa de fazer um gesto mínimo e necessário de reconhecimento. Nossa cultura parece cega e surda quanto aos idosos em geral. Uma vez aposentado ainda são obrigados a conviver com brincadeiras de mau gosto, que os excluem ainda mais do convívio social. Os que assim procedem irresponsavelmente, com ou sem intenção consciente, acentuam o estigma de “inativos”, jogando-os de vez para a margem da sociedade. “Os excluídos da aceleração vazia não ganham ócio, antes são definidos como não-humanos em potencial”, diz o sociólogo alemão Robert Kurz (2003).

Por outro lado, é lamentável se verificar que as instituições de nível superior, no Brasil, não têm um programa mínimo sócio-psicoprofilático para com os funcionários que se aposentam ou que passam a sofrem de algum distúrbio psicológico quando ainda trabalhando. Os intelectuais, mesmo que não admitam, ainda carregam em suas atitudes o resíduo neo-positivista da neutralidade científica. Só que, no cotidiano acadêmico, casos como esses acima mencionados, a neutralidade científica se parece mais com a omissão, a insensibilidade ou covardia.

A burocracia do setor público e os interesses de lucro das empresas particulares fazem os seus agentes cegos em compreender a subjetividade dos trabalhadores. Salvo algumas grandes empresas e instituições públicas, em nossas cidades, ainda não existe uma diretriz ou plano visando prevenir e sanar os transtornos psicológicos que afetam o trabalho das pessoas. O mesmo se pode dizer em relação ao estresse e crise daqueles que vivem a passagem da “vida ativa” de trabalhador para a condição de “aposentados”, em nosso país. Era de se esperar que o governo conduzido pelo Partido dos Trabalhadores revertesse esse tradicional descaso para com os próprios trabalhadores.



[1] Na “cultura do trabalho” tudo conspira para exaltar o trabalho e aviltar o ócio. Diz Domenico de Mais (2001 : 38 ) que “não é por acaso que a maior parte dos sinônimos [sobre alguém que se recusa a ser viciado no trabalho] têm uma conotação depreciativa: fraqueza, vício, negligência, descompromisso, irresponsabilidade, desperdício, indolência, preguiça, desleixo, apatia, vagabundagem e covardia. A preguiça é até considerada um dos pecados capitais”.

Bibliografia 

BLEICHMAR, H. Depressão: um estudo psicanalítico. Porto Alegre: Artes Médicas, 1983.

DE MASI, Domenico (org.) RUSSELL, B., LAFARGUE, P. A economia do ócio. Rio de Janeiro: Sextante, 2001.

FOBIAS. Documentário francês transmitido pelo GNT, 2000.

HIRIGOYEN, M-F. Assédio moral: a violência do cotidiano. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil: 2000.

KURZ, R. A expropriação do tempo. http://planeta.clix.pt/obeco/  http://www.odialetico.hpg.com.br [julho/ 2003]

LAPLANCHE & PONTALIS. Vocabulário da psicanálise. São Paulo: M .Fontes, 1970.

QUILES, M. I. Neuroses. São Paulo. Ática, 1986.

RAYMUNDO DE LIMA

   



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